Dona Mora comenta os anos mais importantes para Ulysses Guimarães

Se eu pudesse determinar os anos mais importantes politicamente para o meu marido, certamente os de 1973 e 1977 estariam entre eles. Paradoxalmente, não coloco em primeiro lugar os chamados “anos dourados” de Ulysses, o período de 1985 a 1988, quando ele era mais conhecido como “tetrapresidente” e “o condestável” da República. Não que eu os renegue. Pelo contrário. Mas Ulysses sempre se sentiu melhor como oposição, arriscando a vida em defesa da democracia.

Os anos escolhidos por mim se cruzam em embates perigosamente magistrais. Deixarei para depois o ano de 1973, quando Ulysses saiu pelo país pregando sua anticandidatura à Presidência da República, numa campanha mambembe, proibido de falar no rádio e na televisão e censurado nos jornais. Percorreu todo o Rio Amazonas, pregou nas tabas indígenas. Discursava em cima de caixotes de feiras. Cortavam-lhe a luz e ele andava com lamparinas. Jogavam-lhe cavalos e cachorros e homens armados de metralhadoras.

1973 foi um ano difícil, mas foi o ano da vida de Ulysses. Vinicius de Moraes, em show a que assisti, amaldiçoou 1973 e o mandou para “aquele lugar”. Gritou o poeta:

— Maldito seja, 1973. Você levou nossos três Pablos: Neruda, Picasso e Casals.

Ah, não fosse cristã, eu também amaldiçoaria você, 1977. Se, para as mulheres, foste o ano em que a primeira delas, Rachel de Queiroz, chegou à Academia Brasileira de Letras, eu te amaldiçoo por Clarice Lispector, Maysa Matarazzo e Maria Callas. E o mundo te condena por Chaplin, Groucho Marx e Elvis, embora, para muitos, este não morreu.

Foi o ano do retrocesso político, de tentativas de golpes militares, de cassações e do fechamento do Congresso. A ditadura quis cassar meu marido. Com medo da repercussão internacional, tentaram lhe tirar o mandato no pouco que ainda restava do estreito caminho da legalidade: o Supremo Tribunal Federal.

— Mora, Tancredo ouviu de um general que a ditadura tem medo de mexer com duas pessoas neste país: Dom Hélder Câmara e Ulysses Guimarães — repetia meu marido.

O presidente de então, general Geisel, tinha ódio a Ulysses. E vice-versa. A relação Ulysses/Geisel merece vários capítulos. Prometo!

Geisel dizia governar sob uma “democracia relativa”, mas acabou mostrando sua garra de ditador.

— O governo vive rotulando nossa “democracia”. Se não existe o substantivo, pouco importa o adjetivo! — gritava meu marido pelo país afora.

Em vez da prometida “abertura gradual, lenta e segura”, Geisel fechou o Congresso com um pretexto banal da derrota da votação da reforma do Judiciário.

Agora, como é que a oposição chefiada por meu marido caiu nessa armadilha é um mistério que não entendo até hoje.

Vejam bem: estava em discussão a chamada “reforma do Judiciário”, um tema importante para os magistrados, mas tecnicamente árido para a sociedade, que estava ao largo do assunto, indiferente mesmo. Ulysses chegava em casa falando em “predicamentos da magistratura” e eu não entendia nada.

A sociedade, o povo brasileiro, completamente alheio a isso tudo. O Congresso todo só falava nisso. E as conspirações corriam soltas nos quartéis — eram as famosas “cassandras e vivandeiras” das quais eles próprios falavam.

Estávamos, pelo calendário, às vésperas da realização da primeira eleição direta de governadores. Como o MDB, colhendo frutos da anticandidatura de meu marido, obtivera a maior vitória contra a ditadura na eleição do Congresso, em 1974, derrotando a Arena em 16 estados, 1978 era uma espécie de luz no fim do túnel.

Mas Geisel já tinha demonstrado suas intenções “democráticas”: nas eleições municipais de 76, amordaçara a oposição com a famigerada “Lei Falcão” — só podiam aparecer fotos de candidatos mudos na TV. Ulysses até brincava:

— Mora, se um estrangeiro aparece aqui e vê isso, vai achar que só tem terroristas no Brasil. Claro, a TV só mostra retrato.

Além da Lei Falcão, Geisel já tinha cassado alguns vereadores do MDB gaúcho. O deputado federal Marcos Tito, coitado, foi cassado porque leu da tribuna, como discurso seu, um manifesto do PCB. Ninguém reparou, mas apareceu um dedo-duro chamado Sinval Boaventura, que o delatou. Foi horrível! Mesmo sendo da ditadura, os parlamentares arenistas tinham uma certa compostura: envergonhavam-se quando viam colegas da oposição arrancados da vida pública.

Pois bem, no meio disso tudo, estava a bendita “reforma do Judiciário”. O MDB reuniu o Diretório Nacional e fechou questão contra a aprovação da reforma.

Na véspera dessa reunião, Tancredo chamou Ulysses e os líderes Franco Montoro e Alencar Furtado. Contou tudo o que sabia da conspiração militar contra Geisel. Combinou-se que, na reunião do Diretório, só o Tancredo falaria, alertando que não era hora do confronto.

No dia seguinte, a confusão foi tanta que Ulysses não teve como cumprir o combinado. O senador Paulo Brossard entrou arrasando. Fez um discurso sobre o refrão “este projeto não é bom” e levou o partido ao delírio. O deputado Fernando Lyra, então do grupo dos “autênticos”, chamou Tancredo de covarde. Coitado do Tancredo! A deputada Cristina Tavares, da ala mais radical da oposição, acabou cedendo seu espaço para ele discursar. De nada adiantou.

Resultado foi que 19 dias depois as previsões de Tancredo se confirmaram: Geisel fechou o Congresso e editou o “pacote de abril”, que, entre outras anomalias, acabou com o sonho da eleição de governador, criou a figura do senador biônico, reduziu de 2/3 para maioria simples o quorum para aprovação de emendas constitucionais, ampliou a “Lei Falcão” para as eleições federais e determinou o mandato de seis anos para o seu sucessor.

Reaberto o Congresso, Alencar Furtado fez um discurso violento contra a ditadura, mas acabou sendo cassado por um outro, exatamente por causa deste trecho:

— O programa do MDB defende a inviolabilidade dos direitos da pessoa humana para que não haja lares em prantos; filhos órfãos de pais vivos — quem sabe — mortos, talvez. Órfãos do talvez ou do quem sabe. Para que não haja esposas que enviúvem com maridos vivos, talvez; ou mortos, quem sabe? Viúvas do quem sabe ou do talvez.

Dizem que Geisel não queria cassar o Alencar, mas estaria refém da linha dura, comandada pelo seu ministro do Exército, Sylvio Frota. Mas quem agitava mesmo os quartéis era aquele tal de Hugo Abreu. Parece que Frota tinha uma lista de quase cem comunistas servindo à administração pública e ameaçava prendê-los. Hugo Abreu queria que cassassem também Ulysses. Cassaram o Alencar e, aí, as coisas pioraram para a oposição que estava aqui e lá fora. O governo uruguaio expulsara Brizola do seu território. Antes que Geisel aventasse a ideia de deixá-lo entrar no Rio Grande do Sul, desde que confinado lá, a linha dura ocupou a fronteira, e Brizola teve de ir para os Estados Unidos e, de lá, para Portugal. E aí se foi a “democracia relativa”.

E, no dia 12 de outubro, Frota caiu. Com a aparente queda dos conspiradores, no dia 30 de novembro, o Supremo absolveu meu marido por unanimidade.

Se 1977 foi um ano difícil para Ulysses, o mesmo não se pode dizer do seu “concubino” Nelson Carneiro, com quem dividiu por anos um apartamento funcional. Aprovada pelo Congresso, em junho, no meio dessa confusão toda, a lei do divórcio foi promulgada por Geisel no apagar das luzes nem tão claras daquele maldito ano de 1977.

Desde 1951 que Nelson tentava aprovar a emenda constitucional. Nem ele tinha mais esperança de um dia aprová-la. Mas acabou pegando carona num dos casuísmos do governo Geisel.

Portanto, pensem duas vezes antes de terminarem um casamento. O divórcio não é coisa do diabo. É coisa da ditadura.

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