Tradição Negra na Literatura Brasileira + Cruz e Souza

A literatura afro-brasileira é um “conceito em construção”, diz o professor Eduardo de Assis Duarte, da Faculdade de Letras da UFMG, onde coordena o grupo de pesquisa Afrodescendência na Literatura Brasileira. Contribuição significativa para o edifício desse conceito, a coleção Literatura e Afrodescendência no Brasil: Antologia Crítica, organizada por ele e recém-lançada, reúne, em quatro volumes, uma série de ensaios e referencias bibliográficas sobre cem escritores, dos tempos coloniais até hoje.

Fruto da colaboração de 61 pesquisadores de 21 universidades brasileiras e seis estrangeiras, a coletânea procura organizar a ainda dispersa reflexão acadêmica atual sobre o tema, num percurso histórico que vai de clássicos (Machado de Assis, Lima Barreto, Cruz e Souza) e contemporâneos (Nei Lopes, Paulo Lins, Ana Maria Gonçalves), passando por nomes importantes esquecidos (Maria Firmina dos Reis, José do Nascimento Moraes).

Em entrevista ao O Globo, Duarte diz que o objetivo da antologia não é estabelecer um cânone da literatura afrobrasileira, e sim compensar omissões da crítica nacional a autores negros – e à presença da questão racial na obra de escritores consagrados (tema de outro livro do pesquisador, “Machado de Assis afrodescendente” de 2007.

Não se trata de evangelizar, criar novos altares (ou novas alturas), mas de fornecer elementos para uma formação mais aberta à diversidade, sobretudo para os jovens estudantes e pesquisadores de nossa literatura – afirma Duarte.

Trechos interessantes da entrevista com Eduardo de Assis Duarte

“Os traços de negrícia ou negrura do texto [do escritor negro brasileiro] seriam oriundos do que a escritora Conceição Evaristo chama de “escrevivência”, ou seja, a experiência como mote e motor da produção literária. (…) É uma escrita que, de formas distintas, busca se dizer negra, até para afirmar o antes negado. E que, também nesse aspecto, revela a utopia de formar um público leitor negro”

“O próprio Machado [de Assis] se considera um “caramujo” a dissimular sua negrícia perante o leitor branco de seu tempo. É um capoeirista da linguagem, como já afirmou Luiz Costa Lima. Por trás da aparente superficialidade de muitos de seus contos e romances, como “Helena”, está a crítica ao discurso senhorial e à branquitude que busca naturalizar esse discurso como verdadeiro. De fato, só mais recentemente tais aspectos passaram a ser enfatizados, em função do predomínio anterior de paradigmas críticos formalistas e/ou marxistas, entre outras razões. O eurocentrismo, a assunção de valores estéticos ocidentais como norteamento crítico relegou muitos autores negros ao esquecimento”

“Machado é precursos da literatura afro-brasileira por diversas razões. Ressalto apenas duas, a segunda decorrente da primeira: o ponto de vista afroidentificado, não-branco e não-racista, apesar de toda discrição e compostura do “caramujo”; e o fato de matar o senhor de escravos em seus romances, criando um universo ficcional que é alegoria do fim da escravidão e da decadência da classe que dela se beneficiou ao longo de mais de 300 anos de história”

“(…) Maria Firmina dos Reis, autora de “Úrsula”, primeiro romance abolicionista, publicado em 1859, e, sem dúvida, texto precursor. Firmina coloca o negro como referência moral da narrativa: nela, os brancos, quando bons, assim o são porque conseguem ser tão bons quanto o jovem escravo Túlio… E este ponto de vista, absolutamente revolucionário para o Brasil de meados do século XIX, juntamente com outros méritos do romance, não foi suficiente para retirar Firmina do mesmo esquecimento que recai sobre muitos autores negros”

“(…) Cruz e Sousa, apesar da militância abolicionista, dos inúmeros poemas, crônicas, cartas, e do contundente testamento literário que é o “Emparedado”, continua caracterizado por muitos como “negro de alma branca””

“Se verificarmos atentamente, é possível que o romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” – onde Lima Barreto desnuda o racismo que perpetua a escravidão dissimulada – não faça parte de nenhum programa dos nossos cursos de Letras. Polêmico e provocador, Lima Barreto respondia sempre que o indagavam pela identidade étnica: “negro ou mulato, como queiram”… Resultado: morreu vendo serem-lhe fechadas todas as portas da cidade letrada”

“[O desenvolvimento da literatura afro-brasileira, em comparação com processos similares no resto do mundo]. Talvez o fato de os autores sobretudo de 1930 em diante, terem a todo instante de declarar a palavra “negro” como instância de afirmação de uma identidade denegada pelo imaginário social hegemônico. Isso ocorreu também nos EUA com o “New Negro Movement” e nos países francófonos com a “Négritude”, que assumiu a palavra “negro” como enfrentamento ao sentido pejorativo nela alocado. (…) A transformação do negro em tabu linguístico talvez seja o mais cruel legado da escravidão. No dicionário vemos dezenas de “sinônimos atenuantes”: preto, pardo (usado pelo IBGE), marrom, moreno, bombom, chocolate… Diante disso, são inúmeros os autores a destacar a assunção pelos próprios afrodescendentes do estigma que os desqualifica a partir da cor da pele. E, diferentemente dos escritos africanos de língua portuguesa, na literatura afro-brasileira é uma constante repetição de versos como “eu sou negro, meus avós foram queimados pelo sol da África”, como podemos ler em Solano Trindade”

A tese da Democracia Racial, no Brasil, cristaliza a pátria como instância mítica de apagamento das diferenças. Já em 1915, em pleno São Luiz do Maranhão dominado pelas oligarquias herdeiras do escravismo, o escritor negro José do Nascimento Moraes publicava seu romance “Vencidos e degenerados”. O livro se inicia às 8 da manhã do dia 13 de maio de 1888, algo raro, para não dizer inédito no romance brasileiro. Além de toda a agitação ali ocorrida, traz, quase como crônica, as reações provocadas pela nova situação na subjetividade e no comportamento de antigos senhores e dos novos homens e mulheres livres. Há cenas de crueldade e violência que nada ficam a dever a narrativas como “Cidade de Deus” de Paulo Lins ou “Um defeito de Cor” de Ana Maria Gonçalves: os ex-escravos que devolvem no rosto dos antigos senhores as bofetadas que sofriam diariamente; outros que apedrejam mansões (…) E há brancos que organizam revides, ou que, em desespero, investem contra os próprios filhos. Nascimento de Moraes traça um panorama realista do regime servil e de sua continuidade sob novas formas de exploração, respaldadas pelo racismo, tal como previsto por Machado de Assis. E, muito antes de Gilberto Freyre, descontrói o 13 de maio como happy end apaziguador e consagrador do mito da escravidão benigna. Hoje, escritores como Oswaldo de Camargo, Cuti, Miriam Alves, Conceição Evaristo têm na denúncia do preconceito um dos pontos centrais do seu projeto literário”

A militância política de Cruz e Sousa

Nascido há 150 anos no porão de um velho sobrado pertencente a um militar que lutou na Guerra do Paraguai, na atual Florianópolis em Santa Catarina, João da Cruz e Sousa é hoje, sem dúvida, a maior referencia da chamada escola simbolista brasileira; mas, não é só. O seu legado literário – seja como poeta, seja como jornalista – soma-se à militância política durante o processo abolicionista, sobretudo após a eclosão desse movimento, que, em maio de 1888, teve nele um dos mais ardorosos próceres. Some-se a isso também a sua jornada existencial, em que a falsa ideia da liberdade, igualdade e fraternidade – lema revolucionário, de origem francesa, difundido por ele – caiu totalmente por terra, sobretudo após o advento da República, de coloração positivista.

Cruz e Sousa, negro e filho de escravos, criado sob o forte regime escravista, foi educado nos moldes do padrão europeu, no Ateneu Provincial Catarinense, sob a tutela dos padres e dos catedráticos, mas jamais deixou de pensar e sentir como africano – ou agir na esteira dos demais, como um dos seus descendentes. Na terra natal, mesmo na fase estudantil, tornou-se um caso raro entre os colegas do educandário, pela dedicação e pelo aproveitamento, apesar de ser aluno externo e filho de “um pobre jornaleiro, que tudo sacrifica pela educação dos filhos”.

Era aluno aplicado, um dos melhores da turma, derrubando, com seu exemplo, estereótipos racistas em grande voga na época, sobretudo por meio de Cesare Lombroso, defensor a tese do “criminoso nato”, mas que no fundo atribuía erroneamente aos negros, especialmente aos negros, a pecha da incapacidade do aprendizado científico e da falta do desenvolvimento intelectual.

A militância literária e política de Cruz e Sousa teve início durante a juventude. Começou a escrever para a imprensa local, publicando poesia e prosa, esta no formato de contos e crônicas. A prática jornalística o fez sonhar com o poder e a glória. Num arroubo de entusiasmo, diante do sucesso de suas conquistas, teria dito, num tom meio profético e desafiador, à noiva: “Hei de morrer, mas hei de deixar nome!” ou “Ainda hei de governar Santa Catarina!”.

Desenvolto e compenetrado, não percebia a sorrateira calda dos inimigos que lhe rondavam, prontos para aplicar o bote fatal: era visto como um negro moleque, pernóstico, folgado. Surgem daí as consequências: o irmão Norberto, embora tenha tido como ele sólida formação, precisou trabalhar como tanoeiro para sobreviver; a mãe, Carolina Eva da Conceição, passou a ser dispensada das casas das patroas, que não admitiam ver nos jornais textos abolicionistas do filho da empregada, passadeira e quituteira. O próprio jornal que editava, “O Moleque”, deixou de constar na lista de convidados da comunidade francesa no aniversário da Bastilha, pela razão de seu editor ser um homem negro.

Em um dos seus famosos sonetos, escritos já no final da vida, dizia:

Vê como a Dor te transcendentaliza!

Mas do fundo da Dor crê nobremente.

Transfigura o teu ser na força crente

Que tudo torna belo e diviniza.

Desde cedo, provou das agruras e da reação preconceituosa que a sua luta provocava. Mas não estava só. Relacionava-se com a comunidade familiar negra da ilha, que lhe ouvia ao piano, ou interagia com os jovens artistas da sua geração, que queriam espanar da terra a poeira da embecilidade e da pieguice. Sabia que pagaria um preço alto por suas ousadias, traduzidos no fechamento de portas de cargos públicos, censuras e deboches pelos jornais.

Sobreviver a isso era uma tarefa nem sempre prazerosa e fácil: a sociedade não admitia ver um negro elegante, falante e letrado, sem sotaques regionais, envolvido com a política e com as letras clássicas. Por que ele não enxergava, de fato, o seu lugar? Por que ele, afinal, não agia à luz dos seus irmãos de cor? Mas Cruz e Sousa, o negro provocador, sempre tocava na mesma tecla em seus eloquentes discursos:

Não se liberta o escravo por posse, por chiquismo, para que pareça a gente brasileira elegante e graciosa ante as nações disciplinadas e cultas. Não se compreende, sem se adaptando ao meio humanista, a palavra escravo, não se compreende da mesma forma a palavra senhor.

O fazer literário tornou-se para Cruz e Sousa um meio de vida e uma obsessão. Não que, ao transferir-se para o Rio de Janeiro, então capital da República, onde logo se casou com a preta Gavita, dispensasse o magro emprego de Arquivista da 5a Divisão da Estrada de Ferro da Central do Brasil. Mas gostava de fazer o que lhe dava mais prazer. Na repartição pública, a toda hora, precisava se livrar de um chefe mulato e racista:

É que eu lhe recordo a origem, tenho talvez a mesma cor da mãe.

A chatura do emprego, as dificuldades financeiras, a família numerosa, a ronda da miséria cada vez mais próxima faziam com que a roda literária e boêmia do centro da cidade lhe oferecesse melhor regalo e conforto de espírito. Mas não convivia, como se podia supor, como os grandes: Machado de Assis, Olavo Bilac, Araripe Jr, Graça Aranha, José Veríssimo, Artur Azevedo, Raimundo Correa ou José do Patrocínio. Ao contrário, sua roda de escritores era praticamente anônima e, muitos, por incrível que pareça, nem obra publicada tinham: Oscar Rosas, Alvares de Azevedo Sobrinho, Pardal Mallet, Emiliano Pernetta, Virgílio Várzea, Araújo Figueredo, B. Lopes, Emílio de Meneses, entre outros.

A esta “plêiade” é que Cruz de Sousa se liga no Rio de Janeiro par alçar o almejado voo literário e artístico. Dotado de grande talento imaginativo, consegue criar uma literatura de sugestão, de nuance, de plena sonoridade, de teor do vago, do indefinido e da espiritualidade, e que, literatura portuguesa de Antero de Quental e Cesário Verde, ou francesa de Mallarmé e Baudelaire, absorveu o cromatismo dos nossos trópicos e se transformou, pela linguagem, carregada dos vestígios bantos, da ancestralidade do seu sangue africano, numa poesia nova, sensualizada e sonora:

Vozes veladas, veludosas vozes,

Volúpias dos violões, vozes veladas,

Vagam nos velhos vórtices velozes

Dos ventos vivas, vãs, vulcanizadas.

Lutando contra o meio adverso, estabeleceu uma guerrilha literária, à moda que empreendeu na província em que nasceu. Com isso, sofreu os revezes do aguerrido combate, ficando de fora do grupo de fundadores da Academia Brasileira de Letras, liderado por Machado e Lúcio de Mendonça, e que convidou para a Casa um Graça Aranha, à época sem qualquer livro publicado, enquanto Cruz e Souza havia lançado, num único ano, “Missal”, de prosa, e os “Broquéis”, de versos, ambos considerados inauguradores do simbolismo no Brasil.

A glória de Cruz e Sousa veio mesmo depois da sua morte. Magoado e só, restava ao poeta negro apenas cuidar de sua família e escrever, sem dar trégua para a tuberculose que lhe minava o organismo, agravada após os seis meses de loucura da mulher. O vate não se cansava de protestar, de pedir justiça, de cobrar responsabilidade dos poderosos. Sentindo que todos os olhos estavam voltados contra si, a imprensa amordaçada nas mãos do grupo rival, pouco lhe restava como alternativa à sua criação e à veiculação de sua profícua produção.

Já no final dos seus dias, alimenta ainda mais sua dor e seu ódio:

Ó meu ódio, meu ódio majestoso!

A doença fez dele um homem amargo e soturno, visionário, tornando a sua poesia noturna e levemente trágica. É nesse momento que se fecha, se enclausura, trancando-se na Torre de Marfim da sua criação e do seu isolamento:

Alma ferida pelas negras lanças

Da desgraça, ferida do Destino,

Alma a que as amarguras tecem o hino

Sombrio das cruéis desesperanças.

 

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