Gilberto Freyre: O Povo Mestiço

in WEFFORT, Francisco “Formação do Pensamento Político Brasileiro”

Todo o brasileiro, mesmo alvo, de cabelo louro, traz na alma, quando não na alma e no corpo (…) a sombra, ou pelo menos a pinta, do indígena e do negro.

Gilberto Freyre foi o mais importante ensaísta dos anos 1930 e 1940. Nas palavras de Monteiro Lobato, foi o “grande desasnador”. Casa Grande & Senzala mereceu de Antonio Candido o seguinte comentário: “O jovem leitor de hoje não poderá talvez compreender, sobretudo em face dos rumos tomados posteriormente pelo autor, a força revolucionária, o impacto libertador que teve esse grande livro (…) que coordenava os dados conforme pontos de vista totalmente novos no Brasil de então”.

As décadas de 1920/30 ocupam lugar especial na história das mentalidades brasileiras. No campo da música, as iniciativas de Mário de Andrade propiciaram estudos sobre o folclore e iniciativas de colaboração com a música popular. Foi também nessas décadas que o samba se consolidou como estilo nacional, evidenciando afinidades de gosto e sensibilidade entre pessoas de classes e etnias diferentes. Nesse sentido, é emblemático o encontro de 1926, no Rio de Janeiro, entre o músico erudito Heitor Villa-Lobos e os ensaístas Gilberto Freyre e Sérgio Buarque com os músicos populares negros Pixinguinha, Donga e Patrício Teixeira.

Também da época, se destaca o ensaísmo que, com diapasão próprio, repetiu uma façanha que só teve precedente o romantismo e o indianismo de meados do Império: introduziram no pensamento brasileiro a singularidade procurar caminhos de interpretação global da história e da sociedade brasileira. Em vez da orientação diante de grandes eventos, buscavam a compreensão histórica de toda a sociedade.

Sempre apegados à pesquisa histórica, esses pensadores nos legaram interpretações da nossa tradição, em imagens que cobrem a formação do país desde suas origens.

É difícil que esses pensadores tenham podido ficar a distância de remanescentes da ideologia do “branqueamento” predominante nas elites brasileiras desde meados do século XIX. É o caso de Gilberto Freyre que foi, contudo, paradoxalmente, o crítico mais veemente do racismo da época. Como ideologia, o “branqueamento”, vitorioso na estratégia que aconselhou as migrações de fins do século XIX, sobreviveu aos anos 1930 e chega até os dias de hoje. A convicção de que ser branco é melhor, que acha em seus pressupostos, tornou-se parte da cultura brasileira. Sobreviveu, atenuando-se no fundo do racismo sutil, envergonhado, tão frequente nos brasileiros.

Freyre trouxe, em Casa Grande & Senzala, a novidade de um reconhecimento intelectual do povo negro e, sobretudo, do mestiço. Enfatizou, como já o havia percebido Euclides da Cunha, que a mestiçagem não era uma criação americana, mas ibérica, resultado da antiga convivência dos portugueses com os mouros na Reconquista e das frequentes incursões lusas no território africano desde o século XV. Deu-se conta que a experiência da mestiçagem na península tornava os portugueses particularmente permeáveis e flexíveis nos contatos com outras raças.

Por outro lado, Freyre assinalou que a condição de ingresso na colônia era a religião, não a raça, o que permitiu à mestiçagem tornar-se uma tendência geral, além de objetivo das políticas da Coroa, com a complacência do clero e até mesmo dos jesuítas. Reconhecei uma imetria entre a escala social e racial na colônia, na qual os brancos tinham mais probabilidade de estar em posições de mando, de maior poder e dinheiro, ao passo que os negros, em geral escravizados, estavam no ponto mais baixo da hierarquia. Não obstante, introduziu no pensamento brasileiro uma minuciosa descrição das relações entre negros e brancos e de suas muitas misturas, abrindo caminho para formas democráticas de consideração do povo brasileiro. Inaugurou assim o reconhecimento do povo mestiço, referência obrigatória para o conjunto da intelectualidade, mesmo com as muitas polêmicas que a obra suscitou.

Combatendo o racismo, Freyre criticou uma atitude que, discriminando negros e mestiços, por via indireta negava reconhecimento à existência do povo brasileiro. Em Casa Grande & Senzala, torna-se evidente que, para compreender o sentido do povo brasileiro, era necessário compreender as relações entre as etnias e, sobretudo, a mestiçagem.

Freyre oferece uma boa hipótese para que se entenda tamanho desprezo pelo povo, conforme verificado nas obras de Oliveira Viana, no dizer de Tobias Barreto (“no Brasil, Povo significa uma multidão de homens, como Porcada significa uma multidão de porcos”) ou em Nina Rodrigues (“a raça negra no Brasil há de constituir sempre um dos fatores de nossa inferioridade como povo”). Tanta arrogância revelaria, na verdade, um profundo “complexo de inferioridade”. Tobias Barreto, que era mestiço, expressava o arrivismo do “novo culto” – um tipo comum entre mestiços que, submetidos à pressão do preconceito, desenvolveram um “evidente complexto de inferioridade”.

Gilberto Freyre empenhou-se em mostrar uma nova sociedade em formação por meio da mestiçagem e da convivência (e dos conflitos) entre as raças na Casa Grande e na Senzala, bem como nas vizinhaças urbanas e semi-urbanas. Distinguia na sociedade brasileira ricos atributos culturais de negros e brancos para a formação da nação, na religiosidade, nas procissões, nas festas, na música, na culinária.

Anote-se, além disso, que na balança gilbertiana da formação cultural brasileira teria mais peso a influência do negro do que a do branco. Ele destaca o “papel civilizador pelo negro representado”.

Todo brasileiro é racial ou culturalmente negro.

Indicou ainda que na normatividade da vida social, os brasileiros não gostam do racismo, mesmo quando o praticam. Não sugere que a cultura brasileira esteja isenta de racismo; sugere que, por ser formada através de séculos de mestiçagem, a cultura brasileira é, nesse aspecto, basicamente contraditória. Pode manifestar racismo em determinadas circunstâncias, mas não aceita legitimá-lo; mesmo quando o prativa, manifesta, ao contrário, a propensão a combatê-lo.

Pode-se dizer que Freyre, herdeiro das ideias da Joaquim Nabuco, estava um passo adiante de suas ideias por várias razões. Uma delas é viveu numa época em que a escravidão deixara de existir (logo, conseguia, ao contrário de Nabuco, distinguir uma sociologia do negro à sociologia do escravo); a segundo é que viveu numa época na qual lhe foi possível uma ampla formação sociológica e antropológica.

Freyre sentia-se mal nos EUA como espectador da imagem dura de uma sociedade birracial, sem lugar para o mestiço. Jamais existiu no Brasil a observância estrita da endogamia com base na cor, tal como santificada por lei nos EUA da década de 1890. Lá, a mestiçagem jamais foi aceita como legítima. Talvez por isso Gilberto Freyre nos lembre que em sua permanência nos EUA agradava-lhe rememorar cenas brasileiras, em que uma maior flexibilidade cultural permitia reconhecer o mestiço.

É a sociologia da mestiçagem que conduz Freyre a uma visão original do negro, do branco e das relações entre ambos.

Parece a Weffort que, assim como Freyre partiu do mestiço para compreender o negro, na mesma lógica partiu da observação do escravo na família patriarcal, para compreender o escravo no eito. Realizou o mesmo movimento para chegar à esfera do econômico: partiu da observação da família patriarcal, na casa grande, ou à sua volta, na senzala, com suas relações pessoais, afetivas, religiosas e seus hábitos sexuais, para chegar ao latifúndio, ao engenho como unidade de produção. Não partiu da produção econômica em que o negro escravizado era coisa, besta de carga, animal, mas da família e do mestiço. Em outras palavras, partiu da cultura, transformando em força a debilidade de que lhe acusaram seus críticos. E, assim, ajudou seus muitos leitores a compreender que o negro, visto como coisa, na verdade, é gente. Já o era, mesmo no eito.

Na zona agrária desenvolveu-se, com a monocultura absorvente, uma sociedade semi-feudal – uma minoria de brancos e brancarrões dominando patriarcais, polígamos, do alto das casas-grandes de pedra e cal, não só os escravos criados aos magotes nas senzalas como os lavradores de partido, os agregados, moradores de casas de taipa e de palha vassalos de casas grandes em todo o rigor da expressão. Vencedores no sentido militar e técnico sobre as populações indígenas, os europeus e seus descendentes tiveram entretanto de transigir com índios e africanos quanto às relações genéticas e sociais. A escassez de mulheres brancas criou zonas de contraternização entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ter relações – as dos brancos com as mulheres de cor – de ‘superiores’ e, no maior número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família dentro das circunstâncias e sobre essa base.

O precioso legado de Freyre muitas vezes confundiu-se com referências a uma suposta “democracia racial”. Essa “democracia”, porém, é uma herança mais antiga, desde o século XIX, propiciando, ao modo das mágicas próprias da ideologia, transformar em “coisa” uma possibilidade presente na realidade viva da cultura, obscurecendo a natureza real do racismo. Parte dessa ideologia é atribuida a Freyre, e é possível que ele tenha contruibuído para tal, em entrevistas e artigos de jornal. Não o fez, porém, em obras de maior significação intelectual, menos ainda nos prefácios, em que gostava de anotar reflexões de caráter teórico.

Embora tenha havido exagero nas atribuições do mito da democracia racial a Freyre, não há nenhum exagerno no reconhecimento da existência desse mito na cultura brasileira. Segundo Élide Rugai Bastos, “o mito da democracia racial foi germinado longamente na história do Brasil através de afirmações que apontavam o tratamento dado ao escravo como ‘suave’, ‘cristão’ e ‘humano’ e só vai ganhar sentido e objetivar-se com a Abolição e a implantação da República”. Se o mito vem de longe, a questão que se coloca é a seguinte: como descrever uma cultura e ignorar os mitos e tendências que ela mesma declara? Eis um desafio que se colocou certamente para Freyre ao escrever seu livro. Mas que se coloca também para o seu leitor.

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