RECEITAS PARA A LUTA ARMADA

RECEITAS PARA A LUTA ARMADA, Jacob Gorender, in Combate nas Trevas. São Paulo, Ática, p. 79 – 83.
À exceção da maioria do Comitê Central do PCB, a esquerda considerou a falência do caminho pacífico um fato provado. Seguia-se que a luta armada, não travada contra o golpe de direita, tornava-se imperativa quando os golpistas já tinham o poder nas mãos. Se tal raciocínio se cristalizou em axioma, nem por isso unificou a esquerda. À questão da luta armada se acrescentavam outras, concernentes aos antecedentes partidários e doutrinários, a influências teóricas de origem nacional e internacional, pressões de países socialistas, limitações regionais, etc.
O cruzamento destas e outras variáveis explica a proliferação de tantas siglas na esquerda daqueles anos. O número de siglas não tem relevância quando o apoio de massas funciona como seletor. Nas fases de ascenso político, prevalece a tendência aglutinante, importando menos para a ação prática que pequenos grupos sobrevivam à margem das grandes organizações ou gravitem em torno delas. Já nas fases descendentes, após o impacto de derrotas e no ambiente de refluxo do movimento de massas, em condições de clandestinidade cada vez mais densa, quando o intercâmbio flui por meio de precários canais, prevalece a tendência à fragmentação, às cisões repetidas. São as fases de rachas, de divisões e subdivisões, às vezes motivadas por questões secundárias ou pelas rivalidades personalistas.
Examinemos agora as matrizes intelectuais da luta armada.

Naquela época, o foquismo era a teoria oficial da Revolução Cubana. Em julho de 1962, assisti em Montevidéu ao Congresso do Partido Comunista do Uruguai, na qualidade de delegado do PCB (a única vez que me confiaram uma delegação no estrangeiro), ouvi Blas Roca, chefe da delegação cubana e antigo secretário-geral do Partido Comunista, expor a descoberta atribuída à Fidel Castro sobre a revolução que, começa com um pequeno foco de guerrilheiros numa região camponesa, de preferência montanhosa. Embora conhecesse mal as circunstâncias da Revolução Cubana, constatei a simplificação, a omissão de determinações históricas e a pretensão injustificada à generalidade, que se projetavam na exposição do veterano Blas Roca.
A esquerda brasileira tomou conhecimento da teoria do foco por meio dos escritos de Ernesto Che Guevara, desde A Guerra de Guerrilhas de 1960, e de Régis Debray. Deste último, Revolução na revolução?, folheto de 1967, suscitou entusiasmo instantâneo. Muito depois, no livro publicado em 1974, o intelectual francês ensaiou algumas ressalvas ao folheto, porém não chegou a fazer autocrítica. Deixo de lado La critique des armes, não só pelas deformações fatuais e pela pobreza de idéias, como, sobretudo, porque já nenhuma influência marcou na esquerda brasileira.
O ponto de partida da teoria do foco consistia na afirmação da existência de condições objetivas amadurecidas para o triunfo revolucionário em todos os países latino-americanos. Guevara dizia que a revolução latino- americana seria continental, impondo-se por cima de diferenças nacionais secundárias, e diretamente socialista. A simpatia inicial de forças burguesas, como se deu em Cuba, constituía excepcionalidade irrepetível. Tampouco se repetiria outra excepcionalidade: certa leniência do imperialismo norte- americano, que se deixou enganar acerca das intenções e da integridade dos revolucionários da Sierra Maestra.
Se já existiam as condições objetivas, também eram necessárias as condições subjetivas, conforme ensina o marxismo. Ou seja, a vontade, de fazer a revolução por parte das forças sociais por ela beneficiadas. Aqui entrava a grande descoberta: as condições subjetivas podiam ser criadas ou rapidamente completadas pela ação de um foco guerrilheiro. Este funcionava como o pequeno motor acionador do grande motor – as massas.
Em A guerra de guerrilhas, Guevara ainda faz a ressalva sobre a inviabilidade do foquismo em países sob regimes constitucionais, nos quais se realizem eleições, mesmo fraudulentas. Escritos posteriores do próprio Che anularam a ressalva, salientaram o beco sem saída das formas legais de lutas de massas e converteram a guerrilha rural na forma absoluta da ação revolucionária.
O foco se iniciava com um punhado de homens e se punha a atuar entre os camponeses de uma região cujas condições naturais favorecessem a defesa contra ataques do exército (a predileção pelas montanhas denunciava um fácil geografismo). Numa segunda etapa, colunas guerrilheiras se deslocavam da região inicial, levavam a luta armada a outras regiões e confluíam afinal para o exército rebelde capaz de infligir ao inimigo a derrota definitiva.
Inserido na onda de exaltação da guerrilha rural, Debray não só afirmou que as cidades são o túmulo da revolução, como se permitiu ridicularizar os revolucionários urbanos – acomodados “burgueses” da esquerda.
O foquismo trouxe outra novidade, que o singularizou: a idéia da primazia do fator militar sobre o fator político, da prioridade do foco guerrilheiro sobre o partido. Os cubanos dirigiam uma crítica ácida, mas verdadeira, ao burocratismo e à corrupção que assolavam certos partidos comunistas. Ao invés de esperar por eles, o foco guerrilheiro assumia a responsabilidade de iniciar a luta. Todo o processo revolucionário se subordinaria à dinâmica germinativa da guerrilha rural, desde a luta de massas nas cidades à formação do novo partido revolucionário.
Em parte ou totalmente inspiradas no foquismo, guerrilhas fervilharam na América Latina dos anos 60. Na Colômbia, Venezuela, Guatemala, Nicarágua, Argentina e Peru. Algumas dessas guerrilhas se confinaram em lugares isolados e remotos, enquanto outras viveram um momento efêmero. No Peru, os focos guerrilheiros simultâneos de Luis de la Puente Uceda (dissidente da APRA) e de Hector Bejar (dissidente do PC) foram aniquilados em 1965, no curto prazo de quatro meses. Em 1963, o Exército peruano já havia destroçado com facilidade a guerrilha do Hugo Blanco, líder trotskista prestigiado entre as massas camponesas da região de Cuzco, quando as liderou na ocupação de terras ociosas.
Em 1967, foi a vez do próprio Guevara aplicar sua teoria na Bolívia. Nem mesmo o malogro desta tentativa heróica conduziu ao exame despreconceituoso da teoria, ao menos em grandes setores da esquerda radical brasileira. Continuou válido o apelo guevarista para que surgissem novos Vietnãs como se isto dependesse de um ato de vontade.
O foquismo se origina num dos mais interessantes mitos do movimento revolucionário mundial. O mito de que a Revolução Cubana chegou à vitória pelo poder mágico de doze ou dezessete sobreviventes da expedição do Granma, iniciadores da luta na Sierra Maestra a partir do nada, a partir do zero. Ainda não faz muito, na entrevista a Roberto D’Avila, transmitida a 22 de dezembro de 1985 pela TV Manchete, Fidel Castro dizia: “Começamos do zero, do nada, de um punhado de homens”. Não há começo a partir do nada, exceto o que os crentes atribuem a Deus na teologia judaico-cristã. O pequeno grupo comandado por Fidel Castro em nenhum aspecto corresponde à idéia do foco. Desde o primeiro momento, foi reconhecido pelos camponeses e neles encontrou simpatia e ajuda. Tanto que pôde travar as primeiras escaramuças apenas um mês depois da chegada à Sierra Maestra. Quatro meses mais, enfrentava vitoriosamente um combate de grande envergadura. É que, desde antes, o grande motor – as massas – já estava em funcionamento.
A luta guerrilheira cubana ficaria indefinidamente confinada ou seria esmagada, se já não encontrasse a campanha nacional à qual a guerrilha se associou e da qual terminou ganhando a direção. Esta campanha nacional contra a ditadura de Batista, de que participavam o Movimento 26 de julho chefiado pelo próprio Fidel Castro e por Frank País, o Diretório Revolucionário, o Partido Comunista, sindicatos operários e mesmo correntes políticas burguesas, é que reduziu consideravelmente a eficiência do Exército de Batista e forneceu aos guerrilheiros elementos materiais e morais para as suas façanhas. O mérito excepcional de Fidel Castro consistiu em nunca ter desistido da luta armada, movida pela convicção certeira de que só podia dar o golpe decisivo no aparelho de Estado burguês e, levá-lo ao desmantelamento. Esta tenacidade para recomeçar após sucessivas derrotas aparentemente terminais, vinculada à arte política criativa e audaz, fez de Fidel Castro o maior líder revolucionário da América Latina, no século XX.
Por conseguinte, nem mesmo o caso de Cuba se ajusta à teoria do foco. Esclarecedor a respeito é o valioso livro de Vânia Bambirra.
Conforme demonstrou magistralmente Eric Wolf, as lutas camponesas tendem por si mesmas ao isolamento regional e só saem dele quando se associam a uma causa nacional. Na China, foi a guerra antijaponesa que transformou o exército de Yenam numa força capaz de derrubar Chiang-Kái Chek. No Vietnã, a luta camponesa se identificou à guerra de libertação contra o colonizador francês. O mesmo na Argélia. Em Cuba, a guerrilha encontrou o terreno preparado pelo movimento nacional contra a ditadura de Batista. Na Nicarágua, a vitória foi o fruto da luta nacional contra a ditadura de Somoza, travada pelas três correntes guerrilheiras unificadas no campo e em Manágua.
Os casos contrários, de guerrilhas rurais mantidas em prolongado confinamento local ou regional, são ilustrativos: Colômbia, Guatemala, Peru, Filipinas. O caso de El Salvador fica à parte; ali, a guerrilha só não venceu ainda por causa da intervenção maciça dos Estados Unidos.
Por que, então, a reiteração até hoje, de que em Cuba tudo começou do zero, do nada?
No momento da fuga do ditador Fulgencio Batista, o exército rebelde se tornou a única força militar organizada e senhora do poder de coerção. Só isto e mais o prestígio nascido do combate guerrilheiro faziam de Fidel Castro o líder inconteste, da revolução. Mas era preciso sancionar o monopólio material da coerção pela legitimação ideológica perante as demais correntes participantes da revolução e perante as massas. Para isto é que serviu e continua a servir o mito criacionista do punhado de heróis iniciadores de tudo a partir do nada.
Em 1966, começaram a circular de mão em mão os exemplares mimeografados do folheto Salve a vitória da guerra popular!, cujo autor, Lin-Biao, desapareceu misteriosamente em 1971. A concepção chinesa da guerra popular tinha em comum com o castro-foquismo o privilegiamento do campesinato e da guerrilha rural, a ênfase no caráter revolucionário dos povos do Terceiro Mundo e o belicismo. As sentenças de Mao – os imperialistas e os reacionários são tigres de papel, o poder nasce da boca do fuzil – se tornaram senhas mágicas e contribuíram para forjar a atmosfera militarista da esquerda brasileira no final dos anos 60.
Não obstante, o folheto de Lin-Biao apresentou duas divergências fundamentais em face do foquismo. Em primeiro lugar, subordinou o fator militar ao fator político. O exército guerrilheiro devia estar sob direção absoluta do partido comunista. O partido precede a guerrilha e esta não surge e se desenvolve senão mediante o trabalho político entre os camponeses. A perspectiva devia ser, por isso, a da guerra popular prolongada. Em segundo lugar, a liderança chinesa não endossou o objetivo socialista imediato, salientado nos escritos de Guevara, porém continuou a defender a concepção da revolução em duas etapas, bem como a tese da aliança com a burguesia nacional na etapa da revolução antiimperialista e antifeudal.
Os agrupamentos trotskistas ortodoxos rejeitaram o foquismo e a estratégia chinesa da guerra popular. Sob o enfoque da revolução permanente, continuaram a se inspirar no modelo insurrecional soviético, seja no aspecto tático, seja no objetivo estratégico da ditadura do proletariado. Em conseqüência, atribuíram prioridades às lutas da classe operária nas cidades sob a direção do partido de vanguarda. Os trotskistas defendiam o caminho armado para a conquista do poder, porém recusaram o terrorismo e a luta armada isolada das massas.
Afora o PCB, por seu apego ao caminho pacífico e por ter se convertido em apêndice da oposição burguesa, foram os trotskistas ortodoxos o único segmento da esquerda brasileira que se imunizou inteiramente contra a febre militarista dos anos 60.
Cabe aqui um esclarecimento de ordem semântica. O termo militarismo, dicionarizado como indicativo da preponderância dos militares na vida política, recebeu entre as esquerdas o significado de predomínio da tendência para a luta armada imediata. Organizações esquerdistas militaristas eram aquelas que adotavam formas de luta e de propaganda armada e desprezavam as formas de luta de massas.
Referências Bibliográficas: Fidel Castro. Coletânea de textos. Organização e introdução de Emir Sader. São Paulo, Ática, 1986; Che Guevara. Coletânea de textos. Organização e introdução de Eder Sader. São Paulo, Ática, 1981; Che Guevara. A guerra de guerrilhas. São Paulo, Edições Populares, 1980, 1. ed. Diário. Introdução de Fidel Castro. São Paulo, Centro Editorial Latino-Americano, 1980; ld. Textos políticos, Centro Editorial Latino-Americano, 1980.

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