Energia Hidrelétrica

resumo de “Diálogos Capitais: Impasses do Crescimento” in Carta Capital

O crescimento com maior distribuição de renda traz um desafio duplo ao setor elétrico brasileiro. Por conta dos programas federal e estaduais de expansão da oferta, a demanda por energia no País cresce mesmo em anos de baixo desempenho do PIB. Segundo cálculos, o Brasil terá de acrescentar 71,3 mil megawatts até 2019 para dar conta de um aumento médio de 5% do PIB. As opções são conhecidas e nenhuma parece tão vantajosa quanto a hidreletricidade. E a maior fonte de água, nesta altura, está na Amazônia.

Como garantir a oferta e, ao mesmo tempo, preservar ao máximo a floresta?

O estudo Transformações Recentes da Matriz Brasileira de Geração de Energia Elétrica – Causas e Impactos principais, de Omar Abbud e Márcio Tancredi, revela que a sociedade paga mais em troca de um meio ambiente pior. O aumento de emissões de gás carbônico das termoelétricas foi de 122% entre 1994 d 2007 e, sem atraso ou frustração, como do projeto de Belo Monte, deverá ser de 172% até 2017 sobre 2008. Como a energia de térmicas custa mais, a conta de luz deverá ter aumento real médio de 22% nesse período.

A opção das hidrelétricas

Todas existentes e as projetadas ocupariam menos de 0,16% da Região Amazônica, 10 mil km2, área 20% menor que as queimadas ocorridas no período de agosto de 2007 e julho de 2008.

É verdade também que as hidrelétricas causam um forte impacto no momento da sua construção. Entre os aspectos negativos destacados pelo estudo estão o deslocamento de comunidades, a destruição de ecossistemas naturais, a mudança na composição da fauna aquática e a inundação de sítios de importância histórica, arqueológica e turística.

Mas as obras têm seu impacto inicial atenuado ao longo do tempo, com a estabilização progressiva das novas condições ambientais. Hoje ninguém mais fala das dificuldades decorrentes da construção da usina de Itaipú, apesar do pouco cuidado tomado à época para mitigar problemas. “Cabe acrescentar que ninguém tem mais interesse nos cuidados para com a vegetação das margens dos rios, notadamente no trecho a montante da usina, que os seus concessionários. A vida do rio e a preservação de seu fluxo d’água para geração dependem fundamentalmente da manutenção das matas ciliares da bacia afluente”, destacam os autores.

Embora, desde o século XIX, a sociedade tenha evoluído baseada em hidreletricidade, as usinas hidrelétricas foram transformadas em vilãs no começo dessa década. “Havia um momentido para que o Banco Mundial acabasse com a engenharia de financiamento exigida para obras desse porte”, contra José Goldemberg, físico da USP. Pressionado, o BM criou um comitê de 12 integrantes, formado por ambientalistas e representantes da indústria, além de dois acadêmicos. O debate resultou em um relatório de recomendações para a liberação do crédito.

Desse trabalho, Goldemberg conclui que é preciso avaliar caso a caso e o que vai determinar a viabilidade de uma usina hidrelétrica é o custo-benefício. Ele estima que para cada quilowatt de potência uma família seja atendida. “O problema é que temos muitos exemplos ruins, em que a comunidade não foi devidamente compensada”.

Segundo Sérgio Salles-Filho, da Unicamp, “é preciso recompensar as empresas que buscam soluções mais sustentáveis para reduzir os impactos (…), a tendência é de microgeração, como ocorre em saneamento: todo grande condomínio hoje é responsável pela gestão da água. O mesmo princípio deveria ser adotado para a questão da demanda energética”. De acordo com ele, entretanto, a camisa de força imposta pelo pânico da corrupção impede o desenvolvimento de projetos inteligentes, mesmo quando existe a chance de o País começar a se transformar como agora. “O menor preço sempre vence e na maioria das vezes o barato custa muito caro no longo prazo com a operação do sistema construído”.

Um exemplo é o caso de Balbina no Amazonas. A usina foi inaugurada em 1980, teve alto custo (USD 1 bi)  e causou o maior desastre ambiental da história do Brasil (inundou 2,6 mil km2 de floresta nativa). As águas do imenso lago hoje produzem apenas de 120 a 130 megawatts de energia – a unidade de geração mais ineficiente entre as 113 hidrelétricas do país. Para culminar a série de desastres, a vegetação inundada tornou-se uma fonte gigantesca de emissão de gases de efeito estufa, cerca de 3,3 milhões de toneladas de carbono equivalente por ano.

A liberaçnao de dióxido de carbono e metano é superior à de uma usina térmica de mesmo potencial energético. No Brasil, outras duas hidrelétricas têm emissões maiores que termoelétricas de mesmo potencial.

“No caso de Belo Monte, a situação é diferente, pois será construída ao longo de uma região que é alagada todos os anos”, diz Luiz Pignelli Rosa, da Coppe-UFRJ, “as famílias que moram ali têm uma oportunidade de sair da mais completa miséria”. Pelos seus cálculos, Belo Monte ocupa uma área de 500 km2 para potência elétrica inslada de 11 mil megawatts ou redondos 20 watts por m2, o dobro de Itaipú e 200 vezes que Balbina.

No Brasil, somente 30% do potencial hidrelétrico é aproveitado. Na França, esse percentual chega a 100% e na Alemanha, 80%. A justificativa é simples, a energia hidrelétrica é a opção mais barata de geração. Enquanto a venda do megawatt da hidrelétrica é estimada em 68 reais, o produzido por termoelétrica chega a 140 reais.

Embora as hidrelétricas possibilitem a geração de uma das energias mais baratas, o custo para o consumidor final é extermamente alto no Brasil. Alguns fatores que contribuem para isso é a valorização ante o dolar. Segundo o direto da Alcoa América Latina e Caribe Ricardo Sayão, “perdemos muita competitividade quando se produz commodity global”.

Além disso, há uma escalada alta de tributos e encargos, que correspondem a quase 40% do total da conta de luz ao consumidor final.

Matriz Energética Limpa

O País é um dos poucos privilegiados, ao lado da Noruega, a manter uma matriz energética com cerca de 48% de fontes renováveis. No resto do mundo, esse percentual é de apenas 14%. “Na melhor das previsões, em 2050, a metade da energia usada no mundo poderá ser limpa, sendo o Brasil uma importante potência energética”, diz Ricardo Abramovay da USP.

 

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