Globalização, visão da Geografia

Globalização e divisão internacional do trabalho

Quando pensamos em globalização, rapidamente imaginamos fluxos crescentes de bens, serviços e capitais permeando através das fronteiras nacionais. A globalização, porém, é um fenômeno bem mais complexo e multifacetado, que envolve aspectos sociais, econômicos, políticos, culturais, institucionais e tecnológicos, todos eles inter-relacionados. As abordagens a respeito do tema são muitas vezes divergentes. MATIAS (2005) identifica duas correntes principais que se contrapõem:

  • Hiperglobalizantes: defendem a ideia de que os Estados já teriam deixado o posto de principais agentes econômicos e políticos da sociedade mundial, enfraquecidos pela formação das redes transnacionais de produção, comércio e finanças, tornando as fronteiras nacionais permeáveis. A autonomia dos Estados, por esta interpretação, estaria sendo minada pelo poder das corporações e pelas instituições mundiais e regionais de cooperação, pois os Estados teriam perdido as suas características de independência e eficiência na geração de riquezas.
  • Céticos: acreditam que a globalização não passa de um mito. Os fluxos que a caracterizam não seriam, para este grupo, uma novidade na história da humanidade, já presentes, por exemplo, no século XIX. Além disso, as corporações transnacionais teriam fortes ligações com seus países de origem, cujos governos conservam o poder.

Parece, entretanto, mais adequado uma posição intermediária entre os “hiperglobalizantes” e os “céticos”. De fato, existem algumas características que diferem a atual economia global da do sistema de acumulacão de capital que alcançava boa parte do mundo pelo menos desde do século XVI. Uma economia globalizada é aquela com capacidade de funcionar como uma unidade, em tempo real e em escala planetária. Foi apenas no final do século XX que esta combinação aconteceu, baseado nas tecnologias de informação e comunicação (CASTELS, 2000), bem como no avanço da logística, que contribui para “a redução das barreiras operacionais que separam os pontos de produção, tornando “fluidos” os processos produtivos realizados em espaços diferentes e os aproximando do consumo final”(CORO, 2003. p. 99).

Em termos institucionais, destacam-se importantes marcos da globalização (SASSEN, 2005):

  • O mercado financeiro global é uma instituição crucial para a organização e governo da economia mundial. São os mercados financeiros, fortalecidos pela intensa desregulamentação ocorrida a partir da década de 1980, que possibilitam o incrível volume de transações financeiras, com alta lucratividde e especulação, o que leva, inevitavelmente, a instabilidade. Em um intervalo de pouco mais de dez anos, importantes crises ganharam dimensão internacional: México (1994), Ásia (1997), Rússia (1998), Brasil (1999) Argentina(2001),“bolhadopontocom”– EstadosUnidos (2000), crise do subprime – Estados Unidos (2007). Esta última atingiu em cheio o coração do sistema, originando a maior crise econômica mundial desde de 1929.
  • As afiliadas de transnacionais e outros arranjos contratuais entre firmas se tornaram mecanismos ainda mais importantes da organização e da administração da produção industrial e de serviços. O número de afliadas das transnacionais cresceu de 174.900 em 1990 para 927.000 em 2003.
  • A criação da Organizacão Mundial do Comércio, em 1993, permite a resolução de disputas comerciais entre os países num fórum multilateral, representando potencialmente um elemento chave na governança global da economia. Outra componente que atua na facilitação e governança do comércio internacional são os blocos econômicos, assunto que será tratado mais adiante.

É notório que os fluxos internacionais , sejam eles de mercadorias, de serviços, investimentos produtivos ou financeiros, aumentam a taxas significativamente mais altas do que o crescimento do PIB mundial, indicando uma intensificação do processo de globalização. Entre 1978 e 1998, enquanto o PIB mundial cresceu a taxas médias anuais de 2,5%, o comércio internacional cresceu a taxa de 5% ao ano. Entre 1980 e 1996 os investimentos diretos no exterior cresceram a taxas médias anuais de 8% e os fluxo financeiros 25% (CORO, 2003).

A economia global continua consistida de comércio, agronegócios, indústria e extração de recursos naturais. Entrentanto, a partir dos anos e 1980, as finanças e os serviços em geral passaram a ser os principais componentes das transações internacionais. O volume de capital circulando no mundo é muito maior do que a produção da economia real. Em 2004, enquanto a circulação de mercadorias no comércio internacional alcançava US$ 11 trilhões, os fluxos financeiros globais atingiam a incrível quantia de US$ 262 trilhões! (SASSEN, 2006). Este valor supera de longe também todo o PIB mundial daquele ano, que foi de US$ 52 trilhões.

Os fatos de haver poucas barreiras para a circulação do capital e de haver redes técnicas-informacionais que permitem o seu deslocamento quase que instantâneo, tornam o mercados interconectados e globais. Nas bolsas de valores, por exemplo, o preço das ações está mais diretamente relacionado aos fluxos de capital do que as características produtivas das empresas em si. A velocidade e a liberdade na circulação do capital, por outro lado, pode acarretar volatilidades não desejadas, como por exemplo nas taxas de câmbio, nos preços das commodities e no desempenho das bolsas de valores e mercadoria. A atual crise econômica, nascida no sistema financeiro americano e se espalhando por todo o mundo é um indicativo da globalização financeira e dos riscos inerentes a liberdade quase irrestrita de circulação do capital.

Os mercados de bens e serviços também são cada vez mais globalizados. A produção se fragmenta espacialmente para aproveitar as vantagens de cada lugar, pelo menos nos setores mais dinâmicos da economia. Tal fragmentação só é possível graças ao desenvolvimento das tecnologias de informação e transporte, bem como de sofisticadas técnicas gerenciais.

A linha de jatos da Embraer EMB170/195, por exemplo, depende de conexões por todo o mundo. Estes aviões tiveram parceiros globais ainda na fase do desenvolvimento. A japonesa Kawasaki e a belga Sonaca são responsáveis pela fabricação das asas. A francesa Latécoère, responsável por duas seções da fuselagem. A espanhola Gamesa é fornecedora da cauda. Dos Estados Unidos, a General Electric fornece as turbinas, a Honeywell, os sistemas aviônicos (equipamentos eletrônicos), a Hamilton Sundstrand, a unidade de controle de força (APU) e os sistemas elétricos e de controle ambiental. A alemã Liebherr fornece o trem de pouso, as rodas e os freios. Coube à Embraer, além da liderança do projeto, toda parte de concepção e de anteprojeto, o desenvolvimento e a fabricação da fuselagem dianteira, parte da fuselagem central e carenagens da junção asa-fuselagem, montagem da asa e, no final, a integração total da aeronave (VASCONCELOS, 2003). Esta cadeia produtiva mostra o quão complexo pode ser a divisão internacional do trabalho, não se restringindo a simples modelos de fornecedores de produtos primários e fornecedores de produtos industrializados.

Entretanto, há limites para esta produção globalizada, especialmente no campo político. Os mecanismo protecionistas continuam estruturais em muitos países. Tal proteção do mercado interno está ligada a questões geopolíticas, estratégias de desenvolvimento, ou questões sociais e de política interna. Pode- se citar o caso dos protegidos mercados agrícolas europeu e norte americano; das prioridades de aquisição no mercado interno brasileiro de algumas encomendas de estatais, como na compra de navios pela Petrobras; da restrição ao fornecimento de equipamentos militares norte americanos ou com componentes norte americanos a Venezuela. Pensando unicamente na lógica econômica, os Estados Unidos, por exemplo, importariam o etanol brasileiro em grandes quantidades, pois a produção baseada na cana é muito mais eficiente e barata do que a do etanol americano, baseada no milho. Entretanto, o mercado americano permanece restrito ao álcool brasileiro e a produção interna naquele país é fortemente subsidiada, atendendo aos lobbies internos e a política de segurança energética do país.

Os limites no comércio internacional (de mercadorias e serviços) ficaram evidentes com o fracasso da chamada rodada de Doha, fórum de liberalização comercial da Organização Mundial de Comércio. Tal fracasso está relacionado justamente a impasses quanto a abertura de mercados internos e uma mostra de que não se pode ignorar a persistência do Estado-nação e ao papel dos governos na definição da estrutura e da dinâmica econômica. Um mercado internacional totalmente aberto é improvável, pois os governos dos Estados- nações, dentro da concorrência global, tendem a promover o interesse de seus cidadãos e das empresas ali sediadas (CASTELS, 2000).

A globalização se vê limitada também pela natureza de certos setores econômicos. Os serviços públicos e os órgãos governamentais, por exemplo, não fazem parte de um mercado global. Porém, os segmentos e empresas mais dinâmicos estão profundamente conectados e dependentes dos mercados mundiais. (CASTELS, 2000)

Se é possível falar na produção e circulação global de bens e serviços, o mesmo não se pode afirmar sobre o mercado de trabalho. A circulação de trabalhadores é bastante regulada e restrita, restrições estas que buscam manter blindadas as sociedades ricas do fluxo de pessoas de áreas empobrecidas. Mesmo assim, as disparidades de renda entre os países funcionam como um motor para que as pessoas deixem seus locais de origem em busca de melhores oportunidades econômicas nos países mais ricos. Este grande contingente de trabalhadores desempenha relevante papel nas economias destes países, exercendo funções onde há carência de trabalhadores, como limpeza e construção civil, além de aumentar a flexibilidade destas economias pela elasticidade da oferta de mão de obra. Do ponto de vista dos países de origem dos migrantes, o processo reduz a pressão sobre os serviços públicos essenciais e, em alguns casos, as remessas de dinheiro destes migrantes podem ser bastante significativa para as economias locais. Estimativas do Banco Interamericano de Desenvolvimento para o ano de 2008 (IBD, 2009) indicam que os latinos-americanos residentes no exterior enviaram para seus países cerca de US$ 67,5 bilhões. Em termos relativos, este fluxo é extremamente relevante em países como El Salvador e Guatemala, onde tais remessas representam, respectivamente, 18% e 12% do PIB.

Boa parte do contingente de trabalhadores migrantes, entretanto, vive na ilegalidade ou sob forte preconceito. Isto significa uma precarização na qualidade de vida destas populações. Os Estados, por sua vez, impõem barreiras cada vez mais severas para impedir a migração, que vão da construção de muros, como o existente entre os Estados Unidos e o México, a criação de legislações mais rigorosas contra o imigrante ilegal. Nesta direção a Itália aprovou lei em agosto de 2009 tornando crime a imigração ilegal no país, passível de punição por multa e extradição imediata, além de punir com prisão os italianos que alugarem casas para imigrantes ilegais.

Apesar disto, a mão de obra é um recurso global e as empresas se instalam em diferentes lugares do mundo para usar a fonte de mão de obra que precisam, seja em termos de especialização, custos ou controle social (CASTELS, 2000), se aproveitando inclusive dos fluxos ilegais de migrantes.

Uma outra forma do caracter global da mão de obra é a sua recrutação seletiva, envolvendo trabalhadores altamente qualificados. As empresas, quando precisam de pessoal qualificado, podem solicitá-los de qualquer lugar do mundo, desde que ofereçam remuneração e condições de trabalho adequadas. Cidades globais, como Londres, Nova Iorque ou Hong Kong concentram um grande número destes trabalhadores. O setor ligado a tecnologia da microeletrônica e informacional na Califórnia, nos Estados Unidos também. Empresas como a Google tem em seus quadros, na Califórnia, trabalhadores de toda a parte do mundo e reconhece a diversidade como um valor e uma vantagem competitiva:

“Os nosso produtos e ferramentas servem a um público globalmente e culturalmente diverso. Então, é uma vantagem estratégica ter em nossa equipe não somente os melhores talentos do mundo, mas também um reflexo da diversidade de nossos consumidores, usuários e patrocinadores. É imperativo que nós empreguemos pessoas com perspectivas e ideias divergentes, com uma variada origem cultural e contextual. A filosofia da empresa não pode ser apenas assegurar nosso acesso aos mais recompensados empregados. Isto tem que levar aos melhores produtos e criar equipes mais engajadas e interessadas.” (Eric Schmidt, Chairman e CEO da Google. GOOGLE, 2009)

A empresa tem escritórios em 30 países, escritórios estes que cuidam não somente da venda, mas também do desenvolvimento de produtos, de modo a se aproveitar dos melhores talentos de cada lugar e ao mesmo tempo incorporar as especificidades locais de cada cultura. É uma forma de produção em rede, relacionada a uma nova divisão internacional do trabalho.

Este modo produtivo, com grande dispersão espacial do trabalho, mostrado também pelo exemplo da Embraer, leva a profundos desafios no que diz respeito ao gerenciamento da produção e sua distribuição, pois o complexo processo produtivo, inerente ao pós-fordismo, incorpora itens produzidos em vários locais, por várias empresas e com o objetivo de atingir clientes e mercados específicos. Tem que ter, ao mesmo tempo, escala e flexibilidade de produção. Não é somente uma empresa global com unidades fornecedoras espalhadas pelo mundo, mas um “novo sistema produtivo que depende de uma combinação de alianças estratégicas e projetos de cooperação ad hoc entre empresas, unidades descentralizadas de cada empresa de grande porte e redes de pequenas e médias empresas que se conectam entre si e/ou com grandes empresas ou redes empresariais” (CASTELS, 2000 p 114).

Fica patente a sofisticação da Divisão Internacional do Trabalho (DIT). Como apontado, ela não é mais entre regiões fornecedoras de matérias- primas ou pouco elaboradas e regiões industriais. Nem tampouco é possível fazer unicamente uma separação simplista entre países centrais e países periféricos. Para se trabalhar com a DIT um conceito fundamental é o da escala. Entende-se por escala não somente o grau de aproximação ou afastamento físico, mas escala dos processos, a escala analítica. Podemos assim analisar a DIT sob algumas óticas distintas. É necessário, primeiro, identificar quais são as estruturas chaves da economia global. As fábricas, minas e plantações cederam suas posições para os mercados financeiros, para as firmas de serviços corporativos avançados, para os bancos e para as sedes das corporações transnacionais. A produção industrial não é mais o coração da economia global, apesar de conservar certa importância. Assim, a própria ideia de países industrializados e países não industrializados perde força.

Mas é possível identificar um conjunto de países centrais que concentram a maior parte das funções nobres do sistema econômico e, consequentemente, da riqueza mundial. Um segundo conjunto de países semi-periféricos, que apresenta algumas destas funções, mas com concentração bem menor e um terceiro grupo que praticamente não possui representatividade nos setores mais avançados da economia. Quando mudamos a escala de análise e olhamos para a distribuição das atividades produtivas nestes países, percebemos que nos países centrais existe uma densa rede com um grande número de nós com papéis importantes na economia global. Em um país como os Estados Unidos, por exemplo, existem grande número de empresas de consultoria jurídica, de produção de softwares avançados, e centros de pesquisas espalhados por seu território. Ainda assim é possível identificar porções de seu território periféricos à economia mundial.

O Brasil, que por esta abordagem é um país semiperiférico, possui alguns pontos que desempenham funções centrais na economia mundial, mas com uma densidade menor. São Paulo, por exemplo, concentra algumas destas funções centrais: são consultorias jurídicas, contábeis, empresas de marketing, bancos, mercado financeiro, centros de pesquisa, etc. É uma rede de cidades globais que concentra a elite da produção mundial.

Já um município como Barcarena, no Pará, desempenha um papel de fornecedor de recursos naturais processados (alumina, alumínio, caulim) para o mercado mundial, função bem menos nobre . Enquanto isto, algumas regiões do interior do Nordeste encontram-se numa quase total desconexão do sistema econômico mundial. A mesma análise pode ser feita no interior de um espaço urbano. Em São Paulo, regiões como da Av. Paulista, entorno da Av. Nações Unidas, parte do Centro concentram importantes nós da economia mundial. Em contraposição, existe um enorme anel periférico que envolve a cidade.

A DIT deve ser entendida sempre numa visão multiescalar. O cenário resultante é um mundo profundamente, segmentado, interdependente e desigual em suas múltiplas escalas.

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