O objeto da Geografia

ANTONIO CARLOS ROBERT MORAES

Geografia
Pequena História Crítica

O objeto da Geografia

A questão que introduz este volume – o que é Geografia? – aparentemente é bastante
simples, porém refere-se a um campo do conhecimento científico, onde reina enorme polêmica.

Apesar da antiguidade do uso do rótulo Geografia, que foi mesmo incorporado ao vocabulário
cotidiano (qualquer pessoa poderia dar uma explicação do seu significado), em termos científicos há
uma intensa controvérsia sobre a matéria tratada por esta disciplina. Isto se manifesta na indefinição
do objeto desta ciência, ou melhor, nas múltiplas definições que lhe são atribuídas.

Alguns autores definem a Geografia como o estudo da superfície terrestre. Esta concepção é
a mais usual, e ao mesmo tempo a de maior vaguidade. Pois a superfície da Terra é a teatro
privilegiado (por muito tempo o único) de toda reflexão científica, o que desautoriza a colocação de
seu estudo como especificidade de uma só disciplina. Esta definição do objeto apóia-se no próprio
significado etimológico do termo Geografia – descrição da Terra. Assim, caberia ao estudo
geográfico descrever todos os fenômenos manifestados na superfície do planeta, sendo uma espécie
de síntese de todas as ciências. Esta concepção origina-se das formulações de Kant. Para este autor,
haveria duas classes de ciências, as especulativas, apoiadas na razão, e as empíricas, apoiadas na
observação e nas sensações. Ao nível das segundas, haveria duas disciplinas de síntese, a
Antropologia, síntese dos conhecimentos relativos ao homem, e a Geografia, síntese dos
conhecimentos sobre a natureza. Desta forma, a tradição kantiana coloca a Geografia como uma
ciência sintética (que trabalha com dados de todas as demais ciências), descritiva (que enumera os
fenômenos abarcados) e que visa abranger uma visão de conjunto do planeta. As maiores polêmicas
ensejadas por esta perspectiva, denominada corológica (visão espacial, em oposição à cronológica
ou enfoque temporal), dizem respeito ao significado preciso do termo superfície terrestre. Alguns
autores vão falar em biosfera (esfera do planeta, que apresenta formas viventes); em outros, em
crosta terrestre (camada inferior da atmosfera, mais a capada superior da litosfera), encobrindo, com
a discussão terminológica, a vaguidade desta definição do objeto. Enfim, a idéia de descrição da
superfície da Terra alimenta a corrente majoritária do pensamento geográfico.

Outros autores vão definir a Geografia como o estudo da paisagem. Para estes, a analise
geográfica estaria restrita aos aspectos visíveis do real. A paisagem, posta como objeto especifico
da Geografia, é vista como uma associação de múltiplos fenômenos, o que mantém a concepção de
ciência de síntese, que trabalha com dados de todas as demais ciências. Esta perspectiva apresenta
duas variantes, para a apreensão da paisagem: uma, mantendo a tônica descritiva, se determinaria na
enumeração dos elementos presentes e na discussão das formas – daí ser denominada de
morfológica. A outra, se preocuparia mais com a relação entre os elementos e com a dinâmica
destes, apontando para um estudo de fisiologia, isto é, do funcionamento da paisagem.

 

A perspectiva da morfologia apresenta, em sua gênese, fundamentos oriundos da Estética: o capítulo
inicial da obra de Humboldt Cosmos se intitula “Dos graus de prazer que a contemplação da
natureza pode oferecer”, e um dos autores aí mais citados não é o filósofo ou cientista, mas o
literato Goethe. Caberia observar o horizonte abarcado pela visão do investigador, e desta
contemplação adviria a explicação. Daí a grande valorização da intuição, nos procedimentos de
análise propostos por esta perspectiva, dela decorrendo uma considerável carga irracional no
pensamento geográfico.

A perspectiva da fisiologia da paisagem seria um organismo, com funções
vitais e com elementos que interagem. À geografia caberia buscar estas inter-relações entre
fenômenos de qualidades distintas que coabitam numa determinada porção do espaço terrestre. Esta
perspectiva introduz a Ecologia no domínio geográfico.

 

Uma outra proposta encontrada, na verdade uma variação sutil da anterior, é a daqueles
autores que propõem a Geografia como estudo da individualidade dos lugares. Para estes, o estudo
geográfico deveria abarcar todos os fenômenos que estão presentes numa dada área, tendo por meta
compreender o caráter singular de cada porção do planeta. Alguns geógrafos vão buscar esta meta
através da descrição exaustiva dos elementos, outros pela visão ecológica, encontrando, no próprio
inter-relacionamento, um elemento de singularização. Em ambas as propostas, é a individualidade
local o que importa. Esta perspectiva teria suas raízes em autores da Antiguidade Clássica, como
Heródoto ou Estrabão, que realizaram estudos mostrando os traços naturais e sociais das terras, por
onde andaram. Modernamente, tal perspectiva tem sua expressão mais desenvolvida na chamada
Geografia Regional. Esta propõe, como objeto de estudo, uma unidade espacial, a região – uma
determinada porção do espaço terrestre (de dimensão variável), passível de ser individualizada, em
função de um caráter próprio.

A definição da Geografia, como estudo da diferenciação de áreas, é uma outra proposta
existente. Tal perspectiva traz uma visão comparativa para o universo da analise geográfica. Busca
individualizar áreas, tendo em vista compará-las com outras; daí a tônica nos dados que diferenciam
cada uma. Desta forma, a explicação é buscada acima (se bem que por intermédio) dos casos
singulares. Das definições vistas, esta é a primeira a propor uma perspectiva mais generalizadora e
explicativa. São buscadas as regularidades da distribuição e das inter-relações dos fenômenos. Tal
concepção é mais restritiva, em termos de abrangência, do pensamento geográfico.

Existem ainda autores que buscam definir a Geografia como o estudo do espaço. Para estes,
o espaço seria passível de uma abordagem específica, a qual qualificaria a análise geográfica. Tal
concepção, na verdade minoritária e pouco desenvolvida pelos geógrafos, é bastante vaga e encerra
aspectos problemáticos. O principal deles incide na necessidade de explicitar o que se entende por
espaço – questão polêmica, ao nível da própria Filosofia. Sem querer penetrar na polêmica, podem-
se apontar três possibilidades mais usuais no trato da questão: o espaço pode ser concebido como
uma categoria do entendimento, isto é,toda forma de conhecimento efetivar-se-ia através de
categorias, como tempo, grau, gênero, espaço etc. Nesta concepção, o espaço, além de ser destituído
de sua existência empírica, seria um dado de toda forma de conhecimento, não podendo qualificar a
especificidade da Geografia. O espaço também pode ser concebido como um atributo dos seres, no
sentido de que nada existiria sem ocupar um determinado espaço. Nesta concepção, o estudo do
atributo espacial de qualquer fenômeno dar-se-ia na própria análise sistemática deste. Assim, não
seria possível propô-lo como um estudo particular, logo, como objeto da Geografia. Finalmente, o
espaço pode ser concebido como um ser específico do real, com características e com uma dinâmica
própria. Aqui haveria a possibilidade de pensá-lo como objeto da Geografia, porém, só depois de
demonstrar a afirmação efetuada. Esta perspectiva da Geografia, como estudo do espaço, enfatiza a
busca da lógica da distribuição e da localização dos fenômenos, a qual seria a essência da dimensão
espacial. Entretanto, esta Geografia, que propõe a dedução, só conseguiu se efetivar à custa de
artifícios estatísticos e da quantificação. É um campo atual da discussão geográfica.

Finalmente, alguns autores definem a Geografia como o estudo das relações entre o homem
e o meio, ou, posto de outra forma, entre a sociedade e a natureza. Assim, a especificidade estaria
no fato de buscar essa disciplina explicar o relacionamento entre os dois domínios da realidade.
Seria, por excelência, uma disciplina de contato entre as ciências naturais e as humanas, ou sociais.

Dentro desta concepção aparecem, pelo menos, três visões distintas do objeto: alguns autores vão
apreendê-lo como as influências da natureza sobre o desenvolvimento da humanidade. Estes tomam
a ação do meio sobre os homens e as sociedades, como uma verdade inquestionável, e caberia à
Geografia explicar as formas e os mecanismos pelos quais esta ação se manifesta. Desta forma, o
homem é posto como um elemento passivo, cuja história é determinada pelas condições naturais,
que o envolvem. O peso da explicação residiria totalmente no domínio da natureza. Tal perspectiva
pode aparecer em formulações de um radicalismo gradual, porém o limite da ação humana sempre
estaria no máximo na adaptação ao meio. Os fenômenos humanos seriam sempre efeitos de causas
naturais; isto seria uma imposição da própria definição do objeto, identificado com aquelas
influências. Outros autores, mantendo a idéia da Geografia, como o estudo da relação entre o
homem e a natureza, vão definir-lhe o objeto como a ação do homem na transformação deste meio.
Assim, invertem totalmente a concepção anterior, dando o peso da explicação aos fenômenos
humanos. Caberia estudar como o homem se apropria dos recursos oferecidos pela natureza e os
transforma, como resultado de sua ação. Há ainda aqueles autores que concebem o objeto como a
relação entre si, com os dados humanos e os naturais possuindo o mesmo peso. Para estes, o estudo
buscaria compreender o estabelecimento, a manutenção e a ruptura do equilíbrio entre o homem e a
natureza. A concepção ecológica informaria diretamente esta visão. A discussão, entre estas três
visões do objeto, expressa o mais intenso debate do pensamento geográfico. Entretanto, em
qualquer delas encontra-se a idéia de que a Geografia trabalha unitariamente, com os fenômenos
naturais e humanos.

Também se deve levar em conta que o painel abarcou somente as perspectivas da Geografia
Tradicional, isto é, não foram abordadas as propostas atuais, oriundas do movimento de renovação,
que domina o conjunto do pensamento geográfico contemporâneo. Isto mostra quão mais complexo
é o problema da definição da Geografia. Levou-se em conta apenas a Geografia tradicional, pois é
nessa que a questão do objeto aflora de modo mais contundente. A Geografia Renovada não se
prende a uma visão tão estanque da divisão das ciências, não coloca barreiras tão rígidas entre as
disciplinas, logo, não possui uma necessidade tão premente de formular uma definição formal do
objeto. A Geografia Renovada busca sua legitimidade na operacionalidade (para o planejamento) ou
na relevância social de seus estudos. Estas questões serão retomadas. Aqui, cabe apenas enfatizar
que o painel apresentado se limita às perspectivas do pensamento geográfico tradicional.

 

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Comments
One Response to “O objeto da Geografia”
  1. Bianca disse:

    Cite três concepções visões da terra , alguem sabe me responder ? lala’

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