Bretton Woods aos 60 anos

Fernando J. Cardim de Carvalho é Professor titular do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

Em julho de 1944, representantes da Aliança das Nações Unidas, que reunia os países em guerra
contra o eixo fascista (inclusive o Brasil), reuniram-se na pequena localidade de Bretton Woods, no
nordeste dos Estados Unidos, para empreender uma dos mais audaciosas iniciativas em engenharia
social tentadas até então ou mesmo, na verdade, desde então. Tratava-se de criar regras e
instituições formais de ordenação de um sistema monetário internacional capaz de superar as
enormes limitações que os sistemas então conhecidos, o padrão-ouro e o sistema de desvalorizações
cambiais competitivas, haviam imposto não apenas ao comércio internacional mas também à
própria operação das economias domésticas. Buscava-se, assim, definir regras comuns de
comportamento para os países participantes que, se poderiam por um lado contribuir para que eles
atingissem níveis sustentados de prosperidade econômica como nunca havia sido possível antes,
exigiriam, por outro lado, que abrissem mão de pelo menos parte da sua soberania na tomada de
decisões sobre políticas domésticas, subordinando-as ao objetivo comum de conquista da
estabilidade macroeconômica.

A conferência teve lugar à sombra de um gigante do pensamento econômico do século XX, John
Maynard Keynes. A enorme capacidade de argumentação e persuasão, quase lendária, de Keynes,
contudo, não poderia superar os condicionantes reais da conferência, notadamente a consolidação da
hegemonia norte-americana sobre o mundo capitalista, alcançada durante a segunda grande guerra.

O processo de debates que levou à conferência gerou algumas das idéias mais avançadas já
propostas para uma reordenação das relações econômicas internacionais voltada para a promoção do
pleno emprego. Infelizmente, a conferência propriamente dita alcançou resultados muito mais
modestos do que os inicialmente almejados. Os debates preparatórios da conferência giraram em
torno de duas propostas, a britânica, preparada por Keynes, e a dos Estados Unidos, que levou o
nome do seu autor, Harry Dexter White. Ambas as propostas eram animadas por um mesmo temor e
uma mesma esperança: o temor de que o fim da guerra trouxesse consigo de volta a grande
depressão dos anos 30, e a esperança de que a reconstrução das relações econômicas pudesse ser
realizada de modo a coordenar esforços da comunidade internacional na busca do pleno emprego e
da prosperidade continuada. Keynes e White alimentavam, no entanto, visões radicalmente
diferentes de como funcionaria esta comunidade de nações. Essas diferenças eram em parte
explicadas por diferentes formas de entendimento de como opera uma economia de mercado, mas
também refletiam, naturalmente, os interesses divergentes dos países que cada um representava.

Como não poderia deixar de ser, a proposta vencedora na conferência foi a americana, praticamente
nada restando do Plano Keynes nas instituições criadas em Bretton Woods.
Sessenta anos depois, o mundo é muito diferente daquele vivido pelos participantes da conferência.
As instituições e as regras de relacionamento internacional criadas na reunião mudaram
profundamente em todos estes anos, ao ponto de se tornarem certamente irreconhecíveis aos olhos
dos participantes originais. As instituições criadas em Bretton Woods, o Fundo Monetário
Internacional e o Banco Mundial, estão longe de receberem a aprovação mundial que se esperaria se
as intenções da conferência tivessem sido concretizadas. A contínua instabilidade monetária
internacional ainda hoje é causa de preocupação constante, como ocorre neste momento com as
expectativas de desvalorização drástica do dólar. O FMI deixou de ter utilidade para países
desenvolvidos e sua atuação em países em desenvolvimento é objeto de crítica cerrada, tanto à
esquerda como à direita do espectro político. O mesmo acontece, em muito menor grau, contudo,
com o Banco Mundial.

O que saiu errado? Foi a passagem do tempo que tornou obsoletos princípios que eram adequados
para o imediato pós-guerra, mas não para o mundo que se construiu depois? Ou será que as
esperanças iniciais eram simplesmente exageradas? E o que teria acontecido se, ao invés da
proposta americana, tivesse sido adotado o plano Keynes? Teria a economia internacional se
comportado de forma mais satisfatória?
Há muitas respostas simples para essas questões. A maioria delas pode mesmo conter elementos de
verdade. Por exemplo, muitos vêem Bretton Woods como apenas mais um capítulo da consolidação
do império norte-americano, uma iniciativa voltada a dotar os Estados Unidos de instrumentos de
dominação econômica mais adequados aos tempos de declínio dos velhos impérios europeus. No
outro extremo do espectro político, há os que acreditam que a conferência foi uma iniciativa movida
apenas por propósitos superiores dos países aliados, que buscavam, coletivamente, organizar as
relações econômicas internacionais de modo a permitir a busca mais eficaz da prosperidade
mundial.

Seria, provavelmente, tolice negar que a conferência e seus desdobramentos responderam a ambos
os estímulos. Não há porque (nem como, face à documentação disponível) não reconhecer que as
propostas apresentadas em Bretton Woods incorporavam idéias e propósitos generosos,
especialmente no oferecimento de condições, a cada país, de facilitação da busca do pleno emprego.

A dramática experiência da Grande Depressão no imediato pré-guerra fez do pleno emprego em um
objetivo central da política econômica de qualquer economia de mercado. Este ideal certamente
animava as propostas feitas pela delegação inglesa, redigidas em sua maioria por Keynes. Por outro
lado, não reconhecer que a administração Roosevelt era em grande parte movida por impulsos
igualmente generosos seria uma injustiça histórica. Contudo, ignorar as realidades da política e da
economia internacionais, especialmente no que diz respeito às necessidades de expansão econômica
dos Estados Unidos, e que essas realidades engendraram inevitavelmente demandas diferenciadas e,
algumas vezes, mesmo contraditórias, seria mais do que ingênuo, seria apenas uma tolice.

Se não podemos esquecer que as propostas levadas a Bretton Woods refletiam não apenas intenções
elevadas, mas também interesses nacionais específicos, o frustrante balanço dos ganhos e perdas de
sessenta anos se deve também a algumas outras razões. Talvez a mais importante a se considerar é a
possibilidade de obsolescência pura e simples de idéias, premissas e diagnósticos que orientaram a
conferência. Em parte, o mundo esperado pelos seus participantes mostrou-se diferente daquele
efetivamente vivido nos anos que se seguiram ao fim da guerra. Por esta razão, as regras e
instituições criadas para um mundo que se tornou, às vezes rapidamente, obsoleto foram alteradas
muitas vezes ao sabor dos acontecimentos, de forma quase inconsciente, rompendo a consistência
do plano original, sem opor-lhe realmente uma concepção alternativa.

É importante conhecer, finalmente, o plano alternativo, a estrada não-trilhada, definida pelo plano
formulado por Keynes. É comum a tentação de comparar-se as virtudes de uma idéia aos defeitos de
instituições realmente existentes, e é importante manter-se esta distinção em mente ao avaliar o
plano inglês. Mas mesmo tomando tais cuidados, o Plano Keynes, permanece em grande parte atual
e serve de inspiração para várias das propostas que, através dos anos, vêm sendo feitas de
reorganização do sistema monetário internacional por economistas como James Tobin, Paul
Davidson e, mais recentemente, Joe Stiglitz. Vale a pena revisitá-lo e especular a respeito da
capacidade que teria de responder aos desafios atuais.

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Porque Houve a Conferência de Bretton Woods

A conferência de Bretton Woods teve seus antecedentes mais remotos na discussão travada,
independentemente, nos Estados Unidos e na Grã-Bretanha, sobre caminhos a serem trilhados no
pós-guerra, que evitassem a repetição de conflitos de dimensões semelhantes ao iniciado em 1939.

A segunda guerra foi precedida de uma década marcada ou pelo desemprego e a agitação social nos
países democráticos ou pela paz dos cemitérios nos regimes fascistas. No início da década dos 40,
predominava nos países desenvolvidos a visão de que quando a guerra terminasse, os problemas da
década anterior retornariam com a mesma virulência de antes. Acreditava-se que a guerra tinha
interrompido a depressão, por causa da mobilização de recursos que impunha, mas os problemas
que se supunha terem gerado a depressão não teriam sido resolvidos. O fim da guerra poderia ter,
nessas condições, um efeito perverso: a paz nos campos de batalha traria o desemprego e os
conflitos sociais de volta. Era essencial a descoberta de novas formas de organização social que
permitissem fugir da cruel escolha que parecia se impor: a depressão ou a guerra.

A urgência da tomada de medidas que reduzissem o risco de retorno da depressão explica muitas
mudanças econômicas, sociais e políticas importantes do período, como, notadamente, a passagem
da Lei de Emprego nos Estados Unidos, em 1944. Medidas domésticas, no entanto, poderiam não
ser suficientes para eliminar o risco da volta da depressão. A economia internacional, no passado
recente, tinha sido uma restrição formidável à adoção de políticas que estimulassem a atividade
econômica. Era preciso criar, também na esfera internacional, instituições e regras de
comportamento que reforçassem o poder dos governos de perseguir a prosperidade doméstica. A
idéia de organizar formalmente o sistema de pagamentos internacionais nasceu justamente da
insatisfação com as duas formas espontâneas predominantes até a segunda guerra mundial, o padrão
ouro internacional e o sistema de câmbio livre, sob o ponto de vista de sustentação da atividade
econômica.

A oposição mais acirrada à restauração do padrão ouro no pós-guerra vinha da Inglaterra. De fato,
Keynes foi praticamente toda sua vida um dos críticos mais radicais do padrão-ouro, precisamente
pelos custos que este impunha, em termos de produto e emprego, às economias que a ele aderissem.

O padrão-ouro exibia dois defeitos fundamentais, segundo Keynes. Por um lado, o crescimento das
economias exige uma oferta de moeda crescente para que as transações adicionais, correspondentes
ao volume maior de produto, tenham lugar sem pressionar juros para cima ou preços de bens e
serviços para baixo (o Plano Collor, no Brasil de 1990, ilustra bem a dificuldade que é tentar
realizar transações quando a oferta de moeda é insuficiente). No caso do padrão-ouro, a
disponibilidade de moeda depende de um fator exógeno, independente da operação dessas
economias, que é a disponibilidade de ouro. Se o ouro for escasso, poderá não haver moeda
suficiente para que a economia realize suas transações normais. Uma forma de combater a falta de
liquidez é a elevação da taxa de juros, de modo a atrair ouro de outros países. Esta saída, no entanto,
não apenas é prejudicial à comunidade internacional (o país que perdeu ouro será obrigado a reagir
de forma semelhante), como ao próprio país interessado, já que a elevação dos juros domésticos
prejudica investidores e consumidores.

O segundo defeito é conhecido por ajuste assimétrico. Quando uma economia cresce mais do que
seus parceiros, tende a aparecer um déficit em suas transações comerciais. Isto se dá porque quando
a renda de um país cresce, costumam crescer também suas necessidade de bens importados (seja,
por exemplo, de matérias primas que não possam ser produzidas no país, ou bens de capital, ou
mesmo bens de consumo que os residentes da economia em crescimento desejem importar de outros
países). Já suas exportações dependem, em grande medida, da renda dos países que demandam os
seus produtos. Se um país cresce mais que os outros, suas demandas por importações crescem mais
depressa que a possibilidade de exportar para seus parceiros e surge o problema de como pagar pela
diferença. Há duas alternativas: ou o país se endivida para cobrir seus déficits (o que, naturalmente,
não pode ser feito indefinidamente), ou o país reduz suas demandas por importações. Esta redução,
por sua vez, pode ser alcançada pela restrição a importações, como tarifas, proibições
administrativas, etc, ou pela queda da renda doméstica.

Keynes apontava, porém, uma terceira saída, que era fazer com que os países parceiros crescessem
também eles, de modo a absorver mais exportações. Para Keynes, o problema do padrão-ouro era
exatamente o de forçar países com déficits comerciais a reduzir sua renda para diminuir
importações, mas não os países com superávit a aumentar sua renda de modo a absorver mais
exportações. Esse era o ajuste assimétrico: o peso do desequilíbrio, no padrão-ouro recai todo sobre
o país deficitário, sem reconhecer que todo déficit tem uma um superávit em contrapartida.

A proposta inglesa era justamente criar regras monetárias internacionais que resolvessem os dois
problemas citados, a rigidez da oferta de liquidez e a incidência exclusiva da responsabilidade por
ajustes de balanço de pagamentos sobre os países deficitários, ao invés de envolver também os
superavitários. Ajustes feitos por países deficitários seriam sempre contracionários, e portanto
deletérios para a atividade econômica: ou o país reduzia sua renda para importar menos, ou
prejudicava o comércio internacional, adotando restrições a importações.

O temor dos Estados Unidos era focalizado principalmente sobre a adoção de restrições ao comercio
exterior. Quando o padrão-ouro foi abandonado por praticamente todos os países no início da
década de 30, o “sistema” que o substituiu consistiu na liberdade de cada país determinar a taxa de
câmbio que lhe fosse julgada adequada a cada instante. Em um cenário de depressão, a maioria
adotou a política que ficou conhecida como transferir a miséria para seu vizinho (beggar thy
neighbor): um país sofrendo de depressão e desemprego desvaloriza sua moeda de modo a
impulsionar suas exportações líquidas (exportações menos importações), transferindo, assim, seus
problemas para seus parceiros. Estes, naturalmente, tenderiam a fazer o mesmo, devolvendo ao
primeiro país o problema, que se veria forçado a nova rodada de desvalorizações, e assim por
diante. Esse sistema, também conhecido como de desvalorizações competitivas, era obviamente
instável. Com o tempo, sua eficácia acabava diminuindo (já que os parceiros reagiam cada vez mais
rapidamente às tentativas de lhes tomar mercados) e as fricções do comércio cresciam. Era
inevitável que, em tal cenário, os países com problemas acabassem buscando medidas mais eficazes
de defesa, restringindo o comércio, adotando medidas abertamente protecionistas, e mesmo
tentando garantir, pela mão militar, o suprimento de bens e serviços que tivessem de obter no
exterior. A guerra comercial poderia, assim, se transformar em guerra pura e simples.

No pós-guerra, era evidente que a nação que mais teria a lucrar com a liberdade de comércio seriam
os Estados Unidos. Barreiras ao comércio, por sua vez, certamente teriam como alvo as exportações
americanas. A eventual restauração do sistema de desvalorizações competitivas causaria muito mais
danos aos Estados Unidos que a qualquer outro país. A construção de um sistema de pagamentos
internacionais teria como meta, do ponto de vista daquele país, eliminar a possibilidade de adoção
desse regime cambial.

Deste modo, tanto Estados Unidos quanto Inglaterra preocupavam-se com o retorno às condições de
operação da economia internacional prévias à segunda guerra, ainda que por razões diferentes. À
Inglaterra preocupava o eventual retorno ao padrão-ouro, aos Estados Unidos a volta ao câmbio
livre (que não deve ser confundido com o câmbio flutuante que se conhece hoje em dia). Ingleses
buscavam um arranjo que lhes desse liberdade para adotar políticas que permitissem alcançar e
sustentar o pleno emprego. Americanos queriam regimes cambiais organizados, que permitissem a
expansão do comércio internacional e tornassem ilegal o recurso a controles administrativos contra
suas exportações.

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A Conferência de Bretton Woods

A conferência de Bretton Woods, teve lugar em julho de 1944, quando os destinos das duas
alianças, a das Nações Unidas e a do Eixo fascista, já estavam em larga medida definidos. A reunião
durou apenas três semanas, porque os principais debates foram, na verdade, travados nos meses
anteriores, opondo os planos das delegações americana (com o Plano White) e britânica (com o
Plano Keynes).

O Plano Keynes era certamente o mais ambicioso. Na verdade, durante a guerra, Keynes tinha se
dedicado a delinear um conjunto de instituições que deveriam servir, na esfera internacional, aos
mesmos propósitos que as políticas e reformas institucionais domésticas, mais conhecidas, voltadas
para a defesa do nível de produto e emprego da economia. Uma peça essencial daquele conjunto era
a proposta de criação de uma Câmara de Compensações Internacionais (International Clearing
Union, ICU), que centralizaria todos os pagamentos concernentes a exportações e importações de
bens, serviços e ativos. Os bancos centrais nacionais seriam os membros dessa Câmara e realizariam
os pagamentos internacionais do mesmo modo que bancos domésticos fazem pagamentos entre si.

Domesticamente, bancos pagam uns aos outros (por exemplo, o saldo de cheques a favor de um
banco e os contra ele) movimentando saldos nas suas contas de reservas junto ao banco central. Na
ICU proposta por Keynes, os bancos centrais teriam contas de reservas, do mesmo modo que bancos
domésticos fazem com relação ao banco central. Pagamentos por exportações brasileiras feitas aos
Estados Unidos, por exemplo, seriam pagas pela transferência de depósitos do Federal Reserve na
ICU para a conta do Brasil. Todas as entradas de recursos estrangeiros numa economia seriam
registrados como créditos e saídas como débitos.

De acordo com o Plano Keynes, não haveria uma moeda física internacional, como o ouro ou o
dólar, por exemplo, mas apenas uma moeda escritural, nos livros da ICU, registrando as operações
entre os bancos centrais. É claro que isto implicaria centralização do mercado de câmbio, isto é,
todas as operações teriam que passar pelos bancos centrais, únicos a terem acesso à ICU. Para
reforçar este mecanismo, a proposta incluía também a criação de uma nova moeda, a ser
transacionada apenas entre bancos centrais, que Keynes propôs chamarem bancor. Esta seria a
moeda escritural transacionada na ICU. Não tendo existência física, não poderia ser negociada fora
da ICU, sendo de uso exclusivo dos bancos centrais para suas transações com a ICU. Uma operação
de exportações, por exemplo, envolveria o recebimento por um banco no país importador da receita
de venda dos bens, sua transferência para o banco central daquele país, que faria a transferência do
valor correspondente em bancor para a conta do país exportador, cujo banco central entregaria o
contra-valor em moeda local ao exportador.

Neste esquema, as duas preocupações de Keynes seriam explicitamente tratadas. Por um lado,
moeda escritural pode ser criada pela autoridade monetária, no caso a ICU, sempre que necessário.

A liquidez internacional cresceria automaticamente com as necessidades do comércio internacional,
ao invés de depender de algo como a disponibilidade de ouro, que não tem qualquer relação com a
atividade econômica. Em segundo lugar, quando um país apresentasse déficit em seu balanço de
pagamentos (isto é, sua conta na ICU estivesse “no vermelho”), o esforço de ajuste recairia sobre o
país deficitário apenas se este estivesse forçando sua economia além dos limites do pleno emprego.

Se, em contraste, o déficit do país A estivesse ocorrendo porque o país B, superavitário, estivesse
mantendo sua demanda em níveis inferiores ao pleno emprego, o peso do ajuste seria repartido entre
o país deficitário, que teria de apertar seu cinto em certo grau, mas também recairia sobre o país
superavitário. Este último teria de expandir sua demanda para facilitar as exportações do país
deficitário. Caso o superavitário se recusasse a fazê-lo, uma multa seria imposta aos seus saldos em
bancor na ICU.

O Plano Keynes provia, assim, criação de liquidez automática, de acordo com as necessidades de
comércio, e a possibilidade de ajuste expansivo de desequilíbrios de balanços de pagamentos, pela
expansão da demanda dos países superavitários, em contraste com a contração da demanda dos
países deficitários.

O Plano White era muito mais simples, já que as dificuldades esperadas no pós-guerra pelos norte-
americanos praticamente se resumiam à adoção de práticas restritivas de comércio que
prejudicariam especialmente a economia dos Estados Unidos. O plano americano envolvia a criação
de uma instituição cujo papel seria duplo. Por um lado, serviria de fórum para o exame das
condições econômicas dos países associados, de modo a fugir ao dilema câmbio fixo do padrão-
ouro e desvalorizações competitivas dos períodos de crise. Este fórum representaria a comunidade
de nações e seria encarregado de avaliar quando as taxas de câmbio, que de outro modo deveriam
permanecer fixas, seriam ajustadas. Quando um país pudesse mostrar que uma correção de suas
taxas de câmbio era necessária porque sua economia tivesse passado por mudanças fundamentais,
essa correção seria autorizada. Este mecanismo eliminaria as desvalorizações oportunistas cuja
justificativa fosse apenas a de transferir problemas para vizinhos preservando a possibilidade de
mudanças do câmbio quando fossem realmente justificadas.

A segunda função dessa instituição seria a de financiar o ajuste de curto prazo de problemas de
balanço de pagamentos dos países membros, de modo a evitar que pressões passageiras sobre as
taxas de câmbio inviabilizassem o mecanismo descrito acima. Esta instituição constituiria um
tesouro, um baú de moedas, contendo, em princípio, quantidades de moedas de todos os países
associados, proporcionais à importância dessas moedas no comércio internacional. Assim, sempre
que um país enfrentasse problemas temporários nos seus pagamentos com um determinado parceiro,
ele poderia recorrer à instituição para comprar temporariamente a moeda de que precisasse,
enquanto promovia os ajustes necessários na operação de sua economia.

Vale notar que, tanto no Plano Keynes, quanto no Plano White, ainda que com mais intensidade no
primeiro, estava prevista a adoção de controles de capital para tratar de crises de balanço de
pagamentos causadas por fugas de capitais. Keynes insistiu na necessidade desses controles, a partir
de uma visão de que algumas classes de capitais instabilizam a economia internacional e as
economias domésticas sem oferecer nenhum benefício em troca. O plano americano, por sua vez,
estava voltado para manter o comércio externo funcionando, não fluxos de capitais. A linguagem do
Plano Keynes era mais forte do que a contida no Plano White, mas ambos convergiam para a
recomendação de controles de capitais.

A instituição prevista no Plano White, portanto, não era uma Câmara de Compensações, com
capacidade de criação de uma moeda própria, mas um Fundo de Estabilização, dotado de um
estoque de moedas nacionais definido. Na proposta americana, portanto, as moedas nacionais que
tinham aceitação internacional, notadamente o dólar, continuariam sendo o meio de pagamento nas
operações estrangeiras. A criação de liquidez internacional continuaria dependendo, assim, das
políticas monetárias dos países que emitissem essas moedas internacionalmente aceitas. O limite de
apoio que o Fundo de Estabilização poderia dar era fixado pelo valor de seu baú. Aumentos dessa
capacidade de apoio dependeriam de negociações periódicas para aumento das contribuições dos
países membros.

Este Fundo de Estabilização não apenas não criaria liquidez, como também não teria autoridade
para exercer a segunda função proposta no Plano Keynes, o de promover o ajuste expansionista. O
Fundo não teria qualquer controle sobre as reservas dos países membros, não tendo assim nem a
autoridade, nem os meios para coagir países superavitários a expandir sua demanda. Repetidas
vezes nos quarenta anos de sua existência, o Fundo Monetário Internacional, que será criado para
exercer as funções desse fundo de estabilização, exortará seus membros superavitários a gastar mais
para facilitar o ajuste de economias deficitárias (mais recentemente, o Japão, com suas imensas
reservas, têm sido alvo dessas exortações), mas este será o limite de sua eficácia. Por isso, o FMI
será sempre identificado com a adoção de políticas contracionistas. O FMI só pode mesmo agir
sobre os países deficitários, porque serão estes que lhe pedirão ajuda. Países com superávit podem
se dar ao luxo de desprezar as recomendações do FMI, como sempre fizeram nesses quarenta anos.

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A Economia Mundial e o FMI depois de Bretton Woods

Os acordos de Bretton Woods seguiram de perto a proposta americana, por óbvias razões. Foi criado
um fundo de estabilização, na linha proposta pelos Estados Unidos, com o nome de Fundo
Monetário Internacional (outra instituição criada em BW foi o Banco Mundial, com um mandato
mais estreito, o de financiar a reconstrução das economias européias no pós-guerra). Complexas
negociações determinaram as quotas com que cada país contribuiria para o tesouro do Fundo e que
definiriam o número de votos de cada país membro na administração da instituição. Os estatutos do
FMI (Articles of Agreement) foram elaborados, incluindo-se neles a proibição ao Fundo de financiar
desequilíbrios de balanços de pagamento gerados por problemas na conta de capitais e
recomendando que países que sofressem tais crises utilizassem controles de capitais (artigo VI).

Detalhes organizacionais foram deixados para uma nova conferência, a ser realizada depois que um
número mínimo de países membros ratificasse o acordo. Esta segunda conferência teve lugar em
1946, em Savannah, no estado da Geórgia, Estados Unidos. Nela definiu-se a composição da
diretoria do Fundo, sua estrutura organizacional, sua localização em Washington, DC, e outros
detalhes. Depois de alguns meses dedicados a montar sua estrutura operacional, o Fundo começou a
considerar solicitações de apoio em 1947.

Como vimos, a principal preocupação de países como os Estados Unidos e a Inglaterra em Bretton
Woods, dois antes, era a volta da depressão, quando a guerra terminasse. Em 1947, já quase dois
anos depois da rendição dos países do eixo, o diagnóstico predominante era outro. A ameaça da
depressão deu lugar à ameaça da inflação. Vários países membros do FMI, notadamente os Estados
Unidos, passaram a acreditar que a estabilidade internacional poderia ser colocada em cheque mais
provavelmente pelo excesso de demanda causado pela tentativa dos países europeus de se recuperar
rapidamente (e dos países subdesenvolvidos em crescer), do que pela deficiência de demanda
agregada. Vários países, inclusive os próprios Estados Unidos, haviam adotado legislação voltada
para a consagração do pleno emprego como objetivo de política. Em outros, a manutenção de
elevado nível de atividades era um objetivo tácito, senão explícito. O anúncio do Plano Marshall em
1948 viria reforçar estas tendências. Para o Fundo, desequilíbrios de balanço de pagamentos seriam
muito mais provavelmente resultantes de políticas econômicas que tentassem levar a demanda
agregada doméstica para alem dos níveis de produção possíveis em cada economia, do que pela
falta de demanda por parte dos países importadores.

Este diagnóstico, provavelmente correto nos anos imediatamente anteriores ao fim da guerra,
acentuou a inclinação do Fundo à adoção de políticas restritivas, já que a ele foram dados poderes
para atuar apenas junto apenas aos países sofrendo de déficits em seus balanços de pagamento. O
FMI foi criado sem poderes para forçar soluções expansionistas, já que nada podia fazer contra os
países que se abstivessem de gastar suas reservas. Assim, sua ação tinha que se concentrar em forçar
países deficitários a gastar menos. À medida em que a visão predominante tornou-se a de que os
riscos à estabilidade financeira mundial venham mesmo dos países que tentam gastar mais do que
ganham, o Fundo se verá confortado pela percepção de que é capaz de identificar os males
corretamente e atuar na direção apropriada. Deste modo, o Fundo passará à percepção popular como
o criador de recessões, como a instituição que intervém sempre no sentido de combater inflações,
ainda que às custas do nível de atividade.

Este diagnóstico realmente se tornará a segunda natureza do FMI, mesmo quando a conjuntura
econômica internacional mudar. O receituário de políticas contracionistas se manterá como
elemento central de sua ação até nossos dias.

A preocupação com a inflação e com políticas domésticas expansionistas orientará o desenho dos
programas de ajuste que o Fundo imporá aos países que buscam sua ajuda, cuja aceitação se tornará
condição para a realização do empréstimo (são conhecidas como condicionalidades). No entanto, a
eficácia do FMI em preservar a estabilidade monetária internacional, mesmo nesses anos, encontrará
seu mais importante limite na incapacidade que terá de enquadrar a economia americana.
Especialmente nos anos 60, a principal fonte de perturbações no sistema monetário internacional
será exatamente a política econômica fortemente inflacionária implementada nos Estados Unidos.

No entanto, o papel do dólar como moeda internacional, consagrado em Bretton Woods, tinha
implantado no coração do sistema uma contradição fundamental (conhecida como paradoxo de
Triffin): o mundo todo precisava de dólares para poder acomodar a expansão do comércio
internacional, mas dólares se tornavam disponíveis para outros países quando os Estados Unidos
tinham déficits em suas operações externas e pagavam pela diferença enviando dólares ao exterior,
aumentando a liquidez internacional; esse aumento de liquidez, contudo, ao ser gerado por déficits
nos pagamentos dos Estados Unidos, contribuía para enfraquecer a confiança no próprio dólar.

Quanto mais liquidez fosse criada, maior seria a desconfiança no valor da moeda americana. O
bancor de Keynes teria evitado este paradoxo, criado pelo uso de uma moeda nacional como meio
de pagamento internacional.

O Fundo nada podia fazer com relação ao balanço de pagamentos dos Estados Unidos, e ainda que
pudesse, provavelmente não saberia o que propor sem violar seus próprios estatutos. Por isso
mesmo, o FMI foi impotente para impedir o desmoronamento do regime cambial criado em 1944,
cuja garantia de funcionamento era sua missão central. Entre 1971 e 1973, todos os países
desenvolvidos abandonaram o regime cambial de Bretton Woods, e passaram a cuidar de seus
problemas de balanço de pagamentos do modo que julgassem adequado. Depois de dois
empréstimos feitos à Inglaterra e Itália, em 1977, apenas países em desenvolvimento mantiveram-se
como clientes de seus empréstimos.

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O FMI como “Agência de Desenvolvimento”

Desde o início de suas atividades, o Fundo sempre tratou com países em desenvolvimento, como
por exemplo, México, Índia, Brasil, Chile e Peru. No entanto, desde a própria conferência de
Bretton Woods, sempre foi muito claro que os clientes preferenciais do FMI eram países
desenvolvidos e que países em desenvolvimento não deveriam ser tratados de forma diversa daquela
reservada aos primeiros. Em particular, repetidamente as autoridades do Fundo reafirmaram sua
visão de que não cabia à instituição considerar aspectos ligados ao desenvolvimento econômico em
suas decisões de concessão de apoio financeiro.

As coisas mudaram depois dos anos 70. O Fundo passou a ser uma instituição onde países
desenvolvidos são, como no passado, as principais fontes de recursos financeiros, mas agora apenas
países em desenvolvimento são tomadores de empréstimos. Não levará muito tempo para que se
perceba que as estratégias tradicionais do FMI, desenhadas para tratar de problemas de balanço de
pagamentos de curto prazo, não funcionam adequadamente no caso dos seus novos clientes. Nestes,
encontram-se alguns déficits crônicos, como no caso das contas de rendas, em que remessas de
lucros e pagamento de juros sobre dívida externa são fatores de pesada e permanente pressão. Alem
disso, também se verá acentuada volatilidade nas relações comerciais, causada pela dependência da
exportação de matérias primas e produtos agrícolas, cujos preços flutuam mais amplamente que os
de produtos industrializados. Nos países subdesenvolvidos, políticas de demanda agregada podem
agravar as dificuldades, mas dificilmente problemas de balanço de pagamentos poderão ser
resolvidos pela simples calibragem de políticas fiscal e monetária, como parecia ser suficiente no
caso dos países industrializados.

Face a essa nova situação, o Fundo aprofunda suas condicionalidades para empréstimo, passado a
definir as chamadas condicionalidades estruturais. Com elas, a obtenção de empréstimos passou a
depender da disposição do país cliente em comprometer-se não apenas com certos parâmetros de
política macroeconômica, mas também com mudanças mais ou menos profundas na sua estrutura
institucional. O Fundo, apesar de não ter mandato para tanto, muda sua missão de monitor da
estabilidade financeira internacional, que nunca pode exercer adequadamente, para orientador de
estratégias de desenvolvimento, para o qual nunca teve qualquer qualificação especial. É com esse
caráter que o FMI se torna sexagenário em 2004.

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60 Anos é o Bastante?

O FMI e o Banco Mundial são os únicos sobreviventes da conferência de Bretton Woods. O sistema
de câmbio fixo, mas ajustável, acordado em 1944, ruiu no início dos anos 70. A reconstrução
européia é história remota, para a qual, na verdade, o Banco Mundial acabou contribuindo pouco,
suplantado por uma iniciativa muito mais eficaz, o Plano Marshall. A coordenação de políticas
macroeconômicas, que se daria no âmbito do FMI, nunca foi efetivamente tentada, já que os países
desenvolvidos nunca aceitaram realmente transferir o poder sobre políticas econômicas domésticas
para um organismo internacional. A garantia de prosperidade internacional, de conquista do pleno
emprego em todas as nações, mostrou-se um objetivo muito além do alcance das reduzidas
capacidades das instituições criadas em Bretton Woods.

O Fundo Monetário Internacional foi criado para gerir os processos de ajustes de balanços de
pagamentos dos países desenvolvidos no âmbito de um sistema de câmbio fixo. Hoje, a missão da
instituição parece ser dedicar-se a promover sua visão de economia ideal entre os países em
desenvolvimento que a ela apelam por ajuda quando pressionados por problemas de balanço de
pagamentos. O envolvimento com reformas estruturais levou a FMI a adotar crescentemente
posições com forte componente ideológico, em contraste com o pragmatismo de seus primeiros
anos. O Fundo passou a promover nos países em desenvolvimento uma concepção de capitalismo
extraída de forma quase caricatural do modelo anglo-saxônico. As cartas de intenções assinadas por
países como a Coréia, durante a crise de 1997/8, onde são listadas as condicionalidades então
exigidas pelo Fundo para a concessão de auxílio financeiro àquele país, mostram, sem qualquer
disfarce, o grau de intervenção em assuntos que não lhe cabiam, que a instituição julgou ser
legítimo exercer. O Fundo fracassou em sua tentativa de transformar a economia coreana porque
esse país foi capaz de acelerar sua recuperação, pagar de volta o empréstimo recebido e livrar-se,
assim, do compromisso com suas condicionalidades. Na verdade, o próprio Fundo, quando a
direção foi passada de Michel Camdessus para Horst Koehler, parece ter reconhecido que sua
intromissão tinha passado dos limites e iniciou um processo de revisão de suas condicionalidades,
cujo resultado é, de qualquer forma, ainda incerto.

São essas condicionalidades a parte mais visível do modo de atuar do Fundo (O Banco Mundial
também impõe condicionalidades, mas estas são menos visíveis dada a concentração da atenção do
Banco nos países de renda mais reduzida). São elas que atraem o fogo raramente amigo de críticos
que vão de Stiglitz e Jeffrey Sachs a ONGs como o Bretton Woods Project ou o 50 Years is Enough
(que, provavelmente, deve estar atualizando seu nome).

O Plano Keynes não considerava a necessidade de condicionalidades. Na verdade, Keynes concebia
o acesso a financiamento de balanço de pagamentos pela ICU como algo automático, como um
cheque especial. Buscava-se exatamente preservar o maior grau possível de autonomia de política
doméstica, de modo a evitar que a busca do pleno emprego pudesse ser impedida por pressões
deflacionárias provindas do exterior.

Por outro lado, a utilidade da ICU para os países desenvolvidos não teria se esgotado com o colapso
do câmbio fixo entre 1971 e 1973 (é possível que o próprio colapso pudesse ter sido evitado). Mais
importante, talvez, avaliando a evolução do sistema do privilegiado ponto de vista de sessenta anos
depois, o bancor teria evitado a principal inconsistência do Plano White, o de tomar uma moeda
nacional como moeda internacional.

Não há nenhuma nova conferência de Bretton Woods à vista. A economia internacional vive hoje
em dia uma pletora de razões para crises, a começar pela de sempre, a contradição entre a força do
dólar como moeda de reserva e a fraqueza do balanço de pagamentos norte-americano. No entanto,
não há nem o sentimento de urgência, nem a liderança necessária, nem uma visão de futuro
suficientemente poderosa para galvanizar expectativas e tornar viável o desenho de um novo arranjo
monetário internacional. Estivessem dadas estas condições, o Plano Keynes seria, em suas linhas
essenciais, provavelmente um ponto de partida tão proveitoso agora como em 1944.

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