O Brasil e o “renascimento africano”

CELSO AMORIM

Como declarou o presidente Lula, o estreitamento das relações com a África constitui para o Brasil uma obrigação política, moral e histórica. Com 76 milhões de afrodescendentes, somos a segunda maior nação negra do mundo, atrás da Nigéria, e o governo está empenhado em refletir essa circunstância em sua atuação externa.

Em princípios de maio, realizei um périplo ao sul da África, para iniciar os preparativos da visita que o presidente tenciona fazer à região em agosto próximo. De regresso, posso afirmar que a África acompanha com grande interesse e expectativa o que se passa no Brasil. Mais do que isso, parece haver uma verdadeira sede de Brasil no outro lado do Atlântico! Findo o regime do apartheid, superados os conflitos internos em Angola e Moçambique, as sociedades africanas se mobilizam para cicatrizar as feridas do passado e lidar com as carências do presente. Trata-se de um verdadeiro processo de renascimento, que não pode deixar de nos sensibilizar.

Nos países onde estive -Moçambique, Zimbábue, São Tomé e Príncipe, Angola, África do Sul, Namíbia e Gana-, deixei claro o compromisso do Brasil com uma renovada agenda política, econômica, social, comercial e cultural com nossos amigos africanos. O deputado Luiz Alberto (PT-BA) nos acompanhou na maior parte do trajeto, e um grupo empresarial esteve na África do Sul enquanto estive em Pretória. A par das conversas com meus homólogos e outros interlocutores de nível ministerial, fui recebido, em seis das sete capitais visitadas, pelos respectivos chefes de Estado ou governo -gesto que denota a importância atribuída ao diálogo diplomático com o Brasil. No caso de Moçambique, tive também a oportunidade de me encontrar com um dos ícones da luta pela independência daquele país, Marcelino dos Santos. Pude, assim, reunir informações que nos permitirão ampliar a cooperação existente e projetar novas iniciativas.

As sociedades africanas se mobilizam para cicatrizar as feridas do passado e lidar com as carências do presente

As perspectivas para o redimensionamento de nossas relações políticas e econômico-comerciais são extremamente promissoras. A título exemplificativo, salientaria algumas das percepções e propostas que trouxe na bagagem. Identifiquei em Maputo um grande interesse moçambicano em contar com a participação do Brasil no projeto de exploração de carvão de Moatize, cujo potencial multiplicador de oportunidades não deve ser subestimado. Moçambique deseja desenvolver conosco um programa piloto para o combate à Aids, tema que figurou também nos intercâmbios com vários outros líderes.

Os países de língua portuguesa olham para o Brasil como uma fonte de cooperação técnica e prestação de serviços no campo da educação e formação profissionalizante. Existe também grande interesse pelos avanços da agricultura brasileira e um desejo de intensificar os contatos voltados ao desenvolvimento rural. São Tomé e Príncipe procura estabelecer parcerias com sócios estrangeiros na exploração de suas riquezas petrolíferas. Além disso, deseja o nosso apoio para a regulamentação do setor. Com a instalação de embaixada do Brasil em São Tomé, estaremos presentes em todos os integrantes da Comunidade de Países de Língua Portuguesa.

Após décadas de uma sangrenta guerra civil que devastou o país, Angola vive um novo capítulo de paz e reconciliação nacional. Nas conversas que lá mantive, foi recordado o significativo fato de ter sido o Brasil o primeiro país a reconhecer o governo angolano, bem como o papel desempenhado pelo embaixador Ovídio de Andrade Melo nos primeiros momentos do relacionamento bilateral. Angola passa hoje por um processo de reconstrução de infra-estrutura, em que a participação de sócios estrangeiros é vista como essencial. Há um número importante de empresários brasileiros em Angola. Suas reivindicações por representação bancária do Brasil em Luanda e por conexão aérea assegurada por companhia brasileira encontram eco junto a nossos colegas africanos e merecem nossa atenção.

O nível de desenvolvimento alcançado pela África do Sul permite que exploremos oportunidades de cooperação em setores como o automotivo, aeronáutico e metalúrgico, com possibilidade de estabelecimento de joint ventures. Isso sem prejuízo de um esforço redobrado em áreas como a do agronegócio, em que existem comprovadas complementaridades. O ministro do Comércio, Alec Erwin, quer acelerar os entendimentos para a conclusão de acordo entre o Mercosul e a União Aduaneira da África Austral. Existe uma compatibilidade de visões em relação ao quadro internacional que nos torna aliados naturais na defesa de interesses políticos, comerciais, ambientais etc., como pude constatar em meus contatos com o presidente Mbeki e a chanceler Zuma.

O primeiro-ministro Ben Gurirab antecipou-me, em Windhoek, que será inaugurada em breve uma embaixada da Namíbia em Brasília. A cooperação naval prestada pelo Brasil deverá ingressar em nova fase, com o levantamento de recursos da plataforma continental namíbia. No Zimbábue, pude fazer uma avaliação própria da crise institucional do país. Em Gana, onde estive poucas horas, fui recebido pelo ministro do Turismo, de quem recebi manifestações de interesse por cooperação em agricultura e esportes. Emocionou-me seu relato sobre a existência de uma Casa do Brasil em Acra, capital onde sobrevivem remanescentes de uma comunidade de origem brasileira conhecida como os “Tá-Bom”.

O Itamaraty, em coordenação com diferentes áreas do governo, conta com o setor privado e a sociedade civil para transformar os laços de amizade que nos unem aos povos da África em progresso econômico e social, em benefício mútuo. Os caminhos para a África se reabrem e apontam um reencontro solidário de brasileiros e africanos, em sintonia com a motivação e as aspirações de amplos setores de nossa sociedade.

Celso Luiz Nunes Amorim, 60, é ministro das Relações Exteriores. Ocupou o mesmo cargo no governo Itamar Franco.

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