“O Brasil é prioridade para o Reino Unido” + Comércio Bilateral

Chanceler sinaliza nova política externa e propõe foco nas potências do Leste e do Sul

Viviane Vaz, 2/07/2010

“O mundo mudou. Se não mudarmos com ele, o mundo britânico estará fadado ao declínio”, destacou ontem o chanceler do Reino Unido, William Hague, em entrevista à emissora BBC. O responsável pela política externa britânica propõe uma das maiores mudanças de estratégia do país nas últimas décadas: em vez de manter o Reino Unido “congelado” na relação com o “tripé” Estados Unidos-União Europeia (UE)-Oriente Médio, Hague quer investir nas novas potências do Leste e do Sul — o Brasil, entre elas. “A verdadeira ação econômica no mundo está acontecendo no Brasil, na Índia, na China e nos Estados do Golfo. E estes são os lugares dos quais precisamos nos aproximar muito mais intensamente do que já tentamos antes”, destacou Hague.

No domingo, Hague sinalizou o novo rumo da política externa em uma entrevista ao jornal Sunday Telegraph. O ministro das Relações Exteriores avisou que o Reino Unido precisa criar uma “nova identidade global” que enfoque as nações emergentes — como Índia, Brasil, Chile e os países do Golfo Pérsico. Mesmo assim, Hague afirmou que a guerra no Afeganistão, onde há 9,5 mil militares britânicos, continua sendo a maior prioridade da política externa do Reino Unido.

Em entrevista ao Correio, por telefone, Timothy Power — diretor do Centro de Estudos Latino-Americanos da Universidade de Oxford — afirmou que o novo governo do premiê David Cameron tem dois objetivos principais, ao anunciar a virada na política externa. “O primeiro é reconhecer o surgimento dos Bric, uma realidade que nos últimos dois ou três anos está ficando muito evidente: a emergência da China, a recuperação econômica da Rússia, o crescimento da Índia e a inserção do Brasil no cenário global”, aponta Timothy. O segundo ponto, de acordo com o especialista, seria se diferenciar do governo anterior — do trabalhista Gordon Brown. “Se pegarmos todo o ciclo do ‘New Labour’ (Novo Trabalhismo, pela tradução literal), de 1997 até agora, a característica mais marcante do período dominado por Tony Blair foi a estreita aliança com os EUA, uma parceria um pouco subserviente”, afirma Timothy.

Hague acusou o governo trabalhista de não ter conseguido se aproximar das economias emergentes e tampouco ter aumentado a influência britânica na Europa, lembrando que desde 2007 o número de autoridades britânicas nos órgãos da UE caiu um terço. “A ideia de que o último governo levou a sério o desenvolvimento da influência britânica na Europa se mostra uma ficção insustentável”, afirmou o chanceler dos conservadores. “Estamos determinados a corrigir isso”, completou Hague.

Para Timothy, a decisão de Hague foi uma escolha natural do partido. “Eles não podem se jogar nos braços da Europa, porque é contra a própria história do Partido Conservador, o mais eurocético dos partidos britânicos. Então, a opção que fica é se identificar com as potências emergentes”, ressalta Timothy. O ex-chanceler David Milliband, atualmente o porta-voz do Partido Trabalhista para relações internacionais, respondeu às críticas de Hague dizendo que os conservadores deixaram o principal grupo de centro-direita no Parlamento Europeu no ano passado. Segundo Milliband, a coalizão atual (conservadores e liberais) não deve levar o Reino Unido a ter maior influência no bloco europeu. “Se não fosse um governo de coalizão, poderia haver um corte completo, porque o desejo dos conservadores é deixar a UE. Eles não têm espaço para fazer isso, porque dependem dos liberais para a sobrevivência do governo. É o ponto de maior tensão da coalizão”, analisa Timothy.

Semelhança

O pesquisador identifica que há semelhanças da nova política externa britânica com a direção traçada pelo governo de Luiz Inácio Lula da Silva. “A ordem internacional está se descongelando muito. Não foi só o governo Lula — os governos anteriores brasileiros também tiveram interesse em diversificar essas relações. Mas o próprio sucesso do Brasil, da Índia e da China está fazendo com que as grandes potências façam a mesma coisa”, afirma Timothy.

(…)

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Importação e exportações
O Reino Unido é o maior exportador europeu de produtos manufaturados, petróleo, químicos, veículos automotores, aeronaves, metais, têxteis acabados e maquinário.

Reino Unido: lista de grupos de produtos exportados em 2006
Produtos US$ Milhões %
Máquinas, aparelhos e materiais elétricos 81.958.393 18,4%
Caldeiras, máquinas, aparelhos e instrumentos mecânicos 71.719.415 16,1%
Combustíveis, óleos e ceras minerais 43.195.266 9,7%
Veículos automóveis, tratores, ciclos e outros veículos terrestres 37.483.919 8,4%
Produtos farmacêuticos 24.417.060 3,5%
Instrumentos e aparelhos de óptica, fotografia 15.731.853 3,5%
Pérolas naturais ou cultivadas, pedras e metais preciosos 15.556.880 3,5%
Demais produtos 154.376.406 34,7%
TOTAL 444.439.192 100%

Fonte: NCTAD/ITC/Comtrade em Braziltradenet

A evolução das importações feitas pelo Brasil do Reino Unido, é apresentada na tabela que segue:

Importação Brasil – Reino Unido / 2008
Produtos US$ Milhões %
Outs. fungicidas apresentados de outro modo 193.592.466 7,6%
Urânio enriquecido em u235,plutonio,seus compostos, etc. 116.469.988 4,6%
Querosenes de aviação 78.930.362 3,1%
Óleos brutos de minerais betuminosos 74.458.476 2,9%
Automóveis c/motor explosao,cm3>3000,ate 6 passageiros 62.095.563 2,4%
Outs. comp. heteroc. cicl. pirimidina, func. alcool e/ou éter 52.916.751 2,1%
Uísques, embalagens de capacidade<=2 litros 45.597.557 1,8%
Outros pneus novos para ônibus ou caminhões 28.308.994 1,1%
Automóveis c/motor diesel,cm3>2500,sup.6 passageiros 27.671.990 1,1%
Automóveis c/motor diesel,cm3>2500,ate 6 passageiros 27.126.614 1,1%
Demais produtos 1.844.760.903 72,3%
Total 2.551.929.664 100,0%
Fonte: MDIC/SECEX

A corrente de comércio do Reino Unido, em 2007, atingiu o valor superior a US$ 1,05 bilhão. As exportações britânicas totalizaram mais de US$ 440 milhões, o que  representou queda de 0,72% em relação ao valor das exportações anuais de 2006, que alcançaram US$ 447,163. Enquanto isso, as importações totais britânicas, em 2007, foram superiores a US$ 630 milhões, o que representou uma  elevação  de  12,36%  sobre  o  total  alcançado em 2006. Entre os países da UE, a Alemanha foi o país que mais importou produtos  britânicos,  seguida  de  França,  Irlanda,  Países  Baixos e Bélgica. Os Estados Unidos  foram o país que, individualmente,  mais importou produtos britânicos em 2007, responsável por quase 15% das exportações totais britânicas, enquanto o Brasil importou US$  2,115  milhões,  correspondente  a  apenas 0,5%.

O Reino Unido, em 2008, foi o 9º exportador mundial, segundo a CIA.

Exportações Reino Unido – mundo / 2007
País US$ milhões FOB %
EUA 62.646 14,2%
Alemanha 49.057 11,1%
França 35.921 8,1%
Irlanda 35.321 8,0%
Países Baixos 29.988 6,8%
Bélgica 23.501 5,3%
Brasil 2.115 0,5%
Demais países 204.751 46,4%
Total 441.185 100%

Fonte: NCTAD/ITC/Comtrade em Braziltradenet

O Reino Unido é um grande importador de produtos agrícolas, matérias primas, semi-manufaturados, vestuário e manufaturados acabados.

A evolução das exportações do Brasil para o Reino Unido é apresentada a seguir:

Exportação Brasil – Reino Unido / 2008
Produtos US$ Milhões %
Minérios de ferro não aglomerados e seus concentrados 324.422.014 8,6%
Ouro em barras, fios, perfis de sec. Maciça, bulhão dourado 316.452.882 8,3%
Outros grãos de soja, mesmo triturados 229.453.645 6,1%
Preparações alimentícias e conservas, de bovinos 188.792.868 5,0%
Bagaços e outs. Resíduos sólidos, da extr. Do óleo de soja 188.198.320 5,0%
Outros aviões/veículos aéreos, peso>15000kg,vazios 182.376.356 4,8%
Outs. Calçados. Sol. Ext. Borr./plást. Couro/nat. 172.170.395 4,5%
Óleos brutos de petróleo 126.125.885 3,3%
Outs. aviões a turbojato,etc.7000kg<peso<=15000kg,vazios 101.968.538 2,7%
Outros sucos de laranjas, não fermentados 83.352.779 2,2%
Demais produtos 1.878.488.673 49,5%
Total 3.791.802.355 100%

Fonte: MDIC/SECEX

Em relação às importações britânicas, os países da União Europeia forneceram mais de 55% dos produtos importados pelo Reino Unido em 2007, totalizando US$ 330,320 milhões. Assim como nas exportações, a Alemanha foi o maior fornecedor de produtos ao Reino Unido entre os países da União Europeia, responsável por prover quase 14% das importações totais britânicas, seguida de Países Baixos e França. Já os Estados Unidos exportaram 8,6% do  total importado  pelo Reino Unido em 2007, enquanto o Brasil exportou 0,7% das compras britânicas em 2007.

As origens das importações, por sua vez, são mostradas na tabela abaixo. Cinco países – Alemanha, EUA, França, Países Baixos e China fazem parte do grupo de países que o Reino Unido mais importou em 2007. O Reino Unido, em 2008, foi o 6º importador mundial, segundo a CIA.

Importações Reino Unido – mundo / 2007
País US$ milhões CIF % no total
Alemanha 88.462 14,2%
EUA 53.916 8,6%
China 45.665 7,3%
Países Baixos 45.559 7,3%
França 43.348 6,9%
Bélgica 29.577 4,7%
Brasil 4.300 0,7%
Demais países 317.605 50,9%
Total 624.132 100%

Fonte: NCTAD/ITC/Comtrade em Braziltradenet

Na importações estaduais referentes ao período de 2008, São Paulo participou de aproximadamente 49% das importações totais, assim como nas exportações, sendo o estado de que mais exportou para o Reino Unido com um valor superior a US$ 1 bilhão.

Intercâmbio comercial entre Brasil e o Reino Unido
O intercâmbio entre o Brasil e o Reino Unido, de 2005 a 2007, é apresentado nos quadros abaixo onde se observa um progressivo aumento das importações brasileiras naquele país, acompanhada de aumento nas exportações.

Balança Comercial Brasil – Reino Unido / 2008
Valores em US$ FOB
Mês Exportação Importação Saldo Corrente de Comércio
JAN 323.871.881 237.973.697 85.898.184 561.845.578
FEV 230.581.700 146.653.223 83.928.477 377.234.923
MAR 308.825.466 121.741.153 187.084.313 430.566.619
ABR 217.294.975 137.354.267 79.940.708 354.649.242
MAI 326.013.773 194.423.502 131.590.271 520.437.275
JUN 358.216.356 271.643.199 86.573.157 629.859.555
JUL 314.316.013 254.304.361 60.011.652 568.620.374
AGO 327.443.224 235.809.980 91.633.244 563.253.204
SET 365.070.337 277.907.214 87.163.123 642.977.551
OUT 425.133.932 216.895.960 208.237.972 642.029.892
NOV 361.893.603 268.000.164 93.893.439 629.893.767
DEZ 233.092.134 188.631.957 44.460.177 421.724.091
Acumulado 3.791.753.394 2.551.338.677 1.240.414.717 6.343.092.071

Fonte: MDIC/SECEX

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