Morre Saraiva Guerreiro

“O senhor acredita em Deus, sr. Enders? Então, vamos rezar pelo povo nicaraguense”

em resposta à Thomas Enders, representante norte-americano para a AmLat,

que pedia ao Brasil apoio à intervenção na América Central

Ministro das Relações Exteriores do governo do presidente Ernesto Geisel (1974-1978), durante o regime militar, o embaixador Ramiro Saraiva Guerreiro morreu nesta quarta-feira (20), informou o Itamaraty.

Nem o Itamaraty nem a assessoria do Palácio do Planalto souberam informar a causa da morte.

Na tarde desta quarta, a presidente Dilma Rousseff, divulgou uma nota oficial lamentando a morte do ex-chanceler. Na nota, Dilma diz que Guerreiro foi um “exemplar defensor da diplomacia multilateral”.

“Nas funções de Secretário-Geral do Itamaraty, de Ministro das Relações Exteriores e de negociador da dívida externa brasileira, o embaixador Guerreiro foi exemplar defensor da diplomacia multilateral, das relações com os países do sul e dos fundamentos da política externa independente do Brasil”, disse a presidente, na nota.

O ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, também lamentou, por meio de nota, a morte do embaixador.

“Foi com profundo pesar que o Itamaraty – e eu pessoalmente – recebemos a notícia do falecimento do Embaixador Ramiro Saraiva Guerreiro, que chefiou o Ministério das Relações Exteriores em momento de intensa transformação do Brasil e de importantes desafios para nossa política externa. O exemplo de profissionalismo e as realizações de Saraiva Guerreiro permanecem como fonte de inspiração diária para o trabalho de todos os funcionários do Itamaraty”, disse o ministro.

Bio

Formado em Direito pela Universidade do Brasil (hoje UFRJ), no Rio de Janeiro, em 1939, fez em seguida o curso de prática consular e história da cartografia política do Brasil do Instituto Rio Branco.

Em 1946, serviu na missão brasileira junto à Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque. Entre 1950 e 1952 serviu na Bolívia.

Em 1953, transferiu-se para a Madri, aí permanecendo até 1956, quando foi transferido para a embaixada do Brasil em Washington, onde permaneceu até 1960.

Em 1968, chefiou a delegação do Brasil à III Sessão do Comitê das Nações Unidas sobre o Fundo do Mar.

Em abril de 1974, pouco depois do general Ernesto Geisel ser empossado na presidência da República, assumiu a Secretaria-Geral das Relações Exteriores, em substituição ao embaixador Jorge Carvalho e Silva, subordinado ao chanceler Azeredo da Silveira. Permaneceu no cargo até março de 1978, quando foi designado para ocupar a embaixada do Brasil na França, no lugar do ex-ministro da Fazenda Antônio Delfim Neto.

Foi empossado como chanceler em março de 1979, juntamente com o presidente João Batista Figueiredo e o restante do ministério. Sua gestão é conhecida como “Universalismo”. O mundo vive a chamada 2a Guerra Fria, inaugurada pelo governo Reagan com o lançamento do projeto “Guerra nas Estrelas”. Na América Latina, sopram os ventos da crises.

Guerreiro atua decisivamente na chamada Crise Itaipú-Corpus assinando com a Argentina e o Paraguai o Acordo Tripartite ainda em 1979 que reconhece a compatibilidade das duas hidrelétricas. É considerado um “divisor de águas” nas relações Brasil-Argentina.

Já em 1980, assina um acordo nuclear com a Argentina que prevê troca de tecnologias. O Brasil se declara neutro na Guerra das Malvinas (1982), mas se posiciona à favor da Argentina no pleito da soberania (Brasil se coloca à disposição da Argentina para defender seus interesses junto ao governo britânico). Navios ingleses em direção às ilhas não têm permissão de parar nos portos brasileiros.

Em 1983, apoia a criação do Grupo de Contadora, numa demonstração de latinoamericanismo.

Na gestão de Guerreiro, Figueredo realiza visitas presidenciais inéditas como à China, Colômbia e Venezuela.

Durante a crise do Suriname que, governado por Desiré Bouterse. Diante dos problemas do país, Cuba oferece ajuda. Num contexto de 2a Guerra Fria, o Brasil deseja evitar a cubanização do vizinho e se antecipa, dando suporte econômico e político.

No Oriente Médio, amplia a presença brasileira.

Em 1980 visita a África, seguindo um roteiro provocativo: vai ao sul do continente, mas evita a África do Sul (vai à Zâmbia, Zimbabue, Tanzania, Moçambique e Angola). Relações comerciais com o país do Apartheid são quase interrompidas, sobretudo com a aprovação do embargo na ONU, mas também pela intervenção da África do Sul no conflito de Angola ao lado da UNITA.

Na relação com os Estados Unidos, já abaladas pela moratória de 1982, critica veementemente a intervenção daquele país em Granada (1983).

Guerreiro deixou o Ministério das Relações Exteriores em 15 de março de 1985, ao fim do governo Figueiredo, tendo sido substituído por Olavo Setúbal. No início de abril, assumiu a embaixada brasileira em Roma. Permaneceu na Itália até janeiro de 1987.

Foi nomeado pelo presidente José Sarney (1985-1990) Embaixador Extraordinário para assuntos da dívida externa, quando defendia o retorno do Brasil ao Fundo Monetário Internacional (FMI), pois o país encontrava-se em moratória desde fevereiro de 1987.

Retirou-se da vida pública em 1992, ano em que lançou o livro Lembranças de um empregado do Itamaraty.

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