O dólar em apuros

O risco maior é que a depreciação gradual do dólar se transforme subitamente em colapso

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago

O DÓLAR, antiga potência mundial, é hoje uma moeda frágil, problemática. Vem apanhando
feio nos mercados cambiais, até de moedas notoriamente subdesenvolvidas, como o nosso real. A fragilidade do dólar não é recente, mas foi exacerbada pela crise financeira dos últimos
meses. Na raiz do problema, está a elevada dependência da economia americana em relação a capitais externos. O déficit em conta corrente dos EUA alcançou mais de 6% do PIB em 2005 e 2006. Só agora, em 2007, nota-se certa diminuição, atribuída aos efeitos da depreciação do
dólar sobre as exportações e as importações americanas.

Como observou Alan Greenspan, ex-presidente do Fed, o risco é que, em algum momento, os
investidores estrangeiros se recusem a aumentar a participação de ativos denominados em
dólares nos seus portfólios.

Há indicações de que esse momento talvez esteja se aproximando. Em agosto, no auge do
terremoto financeiro, a saída de capital dos EUA chegou a US$ 163 bilhões.

A crise financeira recente fragiliza o dólar por dois motivos, pelo menos. Primeiro porque
gera desconfiança quanto à solidez dos mercados e dos bancos dos EUA. Segundo porque cria
a expectativa de que os juros dos EUA cairão relativamente aos de outros países, tornando as
aplicações em dólares menos competitivas. Expectativas de juros menores e de depreciação
cambial, somadas a dúvidas quanto à confiabilidade das instituições financeiras do país, formam
a receita segura para desencadear a saída de capitais.

O Fed enfrenta, portanto, dilemas difíceis. O mais comentado -o “trade-off” entre inflação e
crescimento- é apenas um deles. Mais grave parece ser o dilema entre estabilizar o sistema
financeiro e preservar a confiança no dólar. Uma diminuição mais agressiva das taxas de
juro favoreceria a estabilização financeira, mas colocaria em risco o financiamento dos
desequilíbrios externos e o valor externo do dólar.

A preferência do governo americano é pela continuação de uma desvalorização gradual do
dólar. Isso contribui para o ajustamento do balanço de pagamentos e ajuda a diminuir o risco de
uma recessão, possibilidade que se tornou muito real depois do terremoto financeiro.

No entanto, esse processo de ajustamento tem sido assimétrico e instável. A China se recusa
a permitir uma apreciação mais rápida da sua moeda. O superávit chinês em conta corrente
ainda está aumentando. O do Japão continua elevado e não dá mostras de que irá se reduzir
significativamente no curto prazo.

Assim, a contrapartida da depreciação do dólar tem recaído sobre o euro, o dólar canadense
e o dólar australiano, moedas que flutuam de forma mais ou menos livre. Algumas moedas
subdesenvolvidas, como o real, também estão contribuindo com a sua dose de apreciação.
O problema é que a apreciação cambial solapa a competitividade internacional e ameaça
o crescimento econômico desses países. Os europeus já estão bastante preocupados com a
valorização do euro. Não querem que a sua moeda seja a principal válvula de escape para o
dólar.

O risco maior é que a desvalorização gradual do dólar se transforme subitamente em colapso.
Uma queda abrupta do dólar poderia ser provocada por uma perda de confiança nos ativos em
dólares ou provocar, ela mesma, a perda de confiança na moeda americana. Acuado pelo medo
da recessão e pela gravidade da crise no sistema financeiro, o Fed dificilmente reagiria a isso
com aumentos acentuados dos juros. O que deteria, então, a queda livre da moeda americana?

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