A Europa e o FMI

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago

NO BRASIL, há um certo equívoco sobre os europeus ocidentais. O brasileiro pensa que europeu é mais
flexível, socialista, esclarecido etc. Os Estados Unidos levam o grosso da má fama de imperialistas,
prepotentes etc., principalmente durante o governo George W. Bush.

A Europa é boa de marketing. É a conclusão a que estou chegando depois de seis meses aqui em
Washington. Pelo menos no FMI, os europeus ocidentais constituem atualmente a principal fonte de
resistência a mudanças. São os defensores mais fervorosos do status quo.

A Europa Ocidental, liderada pela França, pela Alemanha, pela Itália e pela Inglaterra, detém uma
posição superprivilegiada no FMI, que remonta à criação da instituição logo depois da Segunda Guerra
Mundial.

Desde o início, em 1946, o cargo máximo da instituição, o de diretor-gerente, foi sempre ocupado por
um europeu ocidental, em razão de um acordo tácito com os EUA, que ficaram com o direito de indicar
o presidente do Banco Mundial. O Fundo teve nove diretores-gerentes europeus até agora. Dominique
Strauss-Kahn, que acaba de ser eleito, será o décimo europeu ocidental e o quarto francês a ocupar o
posto.

Além disso, a Europa Ocidental quase sempre ocupou a presidência do Comitê Monetário e Financeiro
Internacional -o comitê de ministros e presidentes de bancos centrais que discute e define, entre outros
aspectos, a agenda e as prioridades do FMI. Desde a sua criação em 1974, esse comitê foi presidido por
12 europeus ocidentais, às vezes por períodos longos. A única exceção à regra foi o Canadá, que presidiu
o comitê em três ocasiões, por períodos curtos. A eleição do novo presidente desse comitê foi concluída
ontem e o resultado será divulgado provavelmente amanhã.

Basta? Não, de modo algum. A União Européia (UE) comanda 7 das 24 cadeiras da diretoria-executiva
do FMI. A Europa tem um total de oito, se contarmos a cadeira da Suíça, que não faz parte da UE.
A Espanha reveza com a Venezuela e o México no comando de uma outra cadeira. Em determinadas
épocas, portanto, a Europa Ocidental tem 9 das 24 cadeiras da diretoria!

Por último, mas não menos significativo: os 27 países da UE concentram nada menos que 32% dos
votos totais do FMI -quase o dobro do percentual dos EUA, que é de 17%! Atualmente, as oito cadeiras

comandadas por europeus ocidentais (UE + Suíça) controlam 36% dos votos totais.

O Brasil, em aliança com outros países, está lutando por vários caminhos para alterar esse quadro e
aumentar os votos e a voz das nações menos desenvolvidas. Como o meu espaço está acabando, tenho
que deixar para outra ocasião a explicação do que o Brasil está fazendo de concreto para tentar mudar o
FMI.

Hoje, só acrescento o seguinte: as forças são muito desiguais. E os europeus, montados nos seus
privilégios e na sua grande superioridade numérica, não parecem dispostos a fazer grandes concessões.
Como o rei da Pérsia Xerxes 1º, os europeus ocidentais poderiam exigir a nossa rendição pura e simples,
ameaçando: “Somos tantos que as nossas setas cobrirão a luz do sol”. E nós, como os 300 de Esparta,
responderíamos: “Melhor, combateremos à sombra”.

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