A crise asiática, dez anos depois

PAULO NOGUEIRA BATISTA JR.
Diretor-executivo no FMI, representa um grupo de nove países (Brasil, Colômbia, Equador, Guiana, Haiti, Panamá, República Dominicana, Suriname e Trinidad e Tobago

EM JULHO de 1997, teve início no leste da Ásia uma crise econômica que marcaria época.
Ela começou na Tailândia, mas logo se espalhou para outros países da região, atingindo de
forma grave a Indonésia, a Malásia, as Filipinas e a Coréia do Sul. Todos eles eram países bem-
sucedidos, que vinham se desenvolvendo rapidamente, em especial a Coréia. A violência da
crise causou grande perplexidade no mundo inteiro. Os países mais atingidos, com exceção da
Malásia, foram bater às portas do FMI. As economias mergulharam em recessões profundas.

Depois de alguns anos de intenso sofrimento, essas economias se recuperaram e voltaram a
crescer de forma sustentada. Mas a crise influenciou de maneira duradoura a forma como os
asiáticos conduzem as suas políticas financeiras e as suas relações internacionais.

Transcorridos dez anos, quais as lições tiradas por eles? Primeira: os sistemas financeiros e
as contas externas devem ser administrados com grande cuidado. Isso levou, de um lado, ao
aperfeiçoamento da regulamentação e da supervisão das instituições financeiras. De outro, os
países passaram a seguir políticas econômicas externas mais prudentes, registrando superávits
nos balanços de pagamentos em conta corrente e acumulando reservas internacionais. Alguns
países adotaram regimes cambiais flexíveis. Outros introduziram ou mantiveram controles sobre
os fluxos de capital.

A acumulação de reservas funciona como um mecanismo de auto-seguro e está ligada, em
parte, à insatisfação com a maneira como o FMI lidou com a crise de 1997. Entre os asiáticos,
prevalece a avaliação de que o Fundo impôs condições duras e atuou de maneira lenta. Essa
foi a segunda lição: o FMI não merece confiança total. Por extensão, os asiáticos tiraram uma
terceira lição: a cooperação financeira regional é vital.

Foi esse ambiente que levou à Iniciativa de Chiang Mai, lançada em 2000, com participação da
China, do Japão, da Coréia do Sul e dos dez membros da Asean, a Associação das Nações do
Sudeste Asiático (Brunei, Camboja, Cingapura, Filipinas, Indonésia, Laos, Malásia, Mianmar,
Tailândia e Vietnã). Criou-se uma rede de acordos bilaterais de “swap”, que tem dois objetivos
centrais: a) proporcionar apoio a países que experimentem problemas de liquidez de curto
prazo; e b) complementar os esquemas financeiros internacionais já existentes. Atualmente,
a rede de acordos bilaterais de “swap” soma mais de US$ 80 bilhões, consistindo de 16 acordos
entre oito países.

Em maio deste ano, os 13 países resolveram dar um passo adicional e “multilateralizar” a
Iniciativa de Chiang Mai. Será criado um arranjo auto-administrado de compartilhamento de
reservas, governado por um único acordo contratual. A implementação desse novo passo ainda
pode levar algum tempo, pois envolve entre outros aspectos o desenvolvimento de mecanismo
de monitoramento (“surveillance”) e a definição das quotas e dos mecanismos de ativação dos
empréstimos de emergência.

Parece claro, entretanto, que os asiáticos caminham, passo a passo, sem grande alarde, para
criar uma espécie de Fundo Monetário Asiático.

O FMI que se cuide. O Fundo não é uma verdadeira instituição multilateral. Continua sendo um
clube controlado em larga medida pelos Estados Unidos e pela União Européia. Se continuar
assim, outras regiões do mundo tenderão cada vez mais a buscar mecanismos próprios de
proteção financeira, em nível nacional e regional.

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