A ARROGÂNCIA DOS SERTANISTAS

 

Os jesuítas, então poderosíssimos, moveram céus e terras para meter um paradeiro à descida dos índios. Mandavam emissários aos ministros. Mandavam ao rei. Chegaram a mandá-los ao próprio papa! O provincial de S. Paulo escrevia, com lágrimas, ao Superior de Madri:

— “Meu padre! Tenha dó de nós. . . Vá falar a Sua Majestade, vá falar ao Senhor Conde de Olivares, vá falar aos senhores do conselho de Portugal! Não há força capaz de conter os paulistas de S. Paulo. Não temem excomunhões, não obedecem a cédulas reais, não fazem caso de Justiça de Deus, nem da dos homens”. Tinha razão o Provincial! De nada valiam ordens da Corte. Já o desembargador Jácome Bravo saíra daqui, muito às escondidas, noite morta, tremendo de medo dos paulistas. O Dr. Antão de Mesquita, que trouxera alçadas abundantes, sofreu tais desfeitas, tão ameaçadores, que um dia, afinal, meteu o rabo entre as pernas e escapuliu num burrinho magro. Um capitão de infantaria, homem de muitas dragonas e galões, veio a S. Paulo com poderes excepcionais. Devia o militar, custasse o que custasse, obrigar os paulistas a guardar as ordenanças. Que é que sucedeu? O capitão alo-jou-se, mostrou a sua carta régia, fez propalar ao que vinha. Na manhã seguinte, logo ao acordar-se, topou o soldado com duas flechas cravadas na sua janela. Numa havia um pedaço de papel, com isto:

— “Vá-se embora. Não bula nessa história de bugres. Senão, haveis de ter estas duas flechas, não na
vossa janela, mas afincadas na vossa barriga…”

O capitão viu o melindre do caso. Ali, naqueles cimos, entre aquelas gentes bravias, era temeridade afrontar a sanha do povo hirsuto. Aceitou o aviso: enrolou a trouxa e tocou-se, à noite, caminho da serra do mar.. .

A mesma afronta, assim revolucionária, prepararam os paulistas ao Dr. Costa Barros. No dia em que chegou o homem, disposto a exemplar os de Piratinin-ga, todos os sertanistas amotinaram-se. Durante a noite, em frente à casa do enviado real, andavam bandos coléricos, aos berros:

— Morra o Dr. Barros! Morra o Dr. Barros! E lá
conta o padre Maceta: “Le tiraram arcabussassos a la ventana, y dieran muchos porraços en la puerta, incitando-lhe a que saliesse con sus soldados para matar-los”.

E o bom do provincial, à vista de tais audácias, mandava lamúrias de enternecer:

— Mi padre procurador! En que tierra estamos?
Ni entre herejes y moros se hiziera esto!

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