Geografia Física II – Clima

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Os grandes tipos climáticos

A dinâmica das massas de ar é responsável pela sucessão habitual dos tipos
de tempo que caracterizam o clima; é, portanto, responsável pela maior parte dos
fenômenos climáticos.


Na América do Sul, apenas duas regiões funcionam como fontes de
massa de ar: a Amazônia ocidental, sobre a qual se forma a massa Equatorial
continental (mEc), quente e úmida, e a Planície do Chaco, centro de origem da
massa Tropical continental (mTc), quente e seca.

As outras massas de ar que atuam no continente são marítimas. Três
delas são importantes para os climas brasileiros: a massa Equatorial atlântica
(rnEa) , quente e úmida, que atua principalmente no Meio-Norte e no litoral
amazônico; a massa Tropical atlântica (mTa), também quente e úmida, que
influencia diretamente o clima da costa oriental brasileira e a massa Polar atlântica
(mPa), fria e úmida, que atua principalmente no Brasil meridional, mas penetra
até a Amazônia no inverno, ocasionando o fenômeno conhecido localmente
como “friagem”.

Com base na dinâmica das massas de ar, pode-se individualizar cinco
tipos climáticos no Brasil.

O Clima Equatorial Úmido, quente e chuvoso, domina a Região Norte
do país e é resultado da atuação da massa Equatorial continental durante todo
o ano. As chuvas são resultado da convecção (ascensão vertical e conseqüente
condensação) da umidade, e as médias anuais de precipitação giram em torno
de 2.000 milímetros.

O Clima Litorâneo Úmido, que caracteriza o litoral das regiões Sudeste
e Nordeste do país, dominado principalmente pela atuação da massa Tropical
atlântica, também apresenta elevadas médias térmicas e pluviométricas. A
pluviosidade média anual varia entre 1.500 milímetros e 2.000 milímetros.

O Clima Tropical, que domina boa parte do Centro-Oeste e do Meio-
Norte brasileiros, caracteriza-se por apresentar invernos secos e verões
chuvosos. A pluviosidade média anual situa-se em torno dos 1.500 milímetros.

O Clima Tropical Semi-Árido abrange a área do Sertão nordestino.
Essa área funciona como um centro dispersor de massas de ar, apresentando
menores médias pluviométricas que as vigentes no resto do país. As chuvas não
ultrapassam a barreira dos 750 milímetros ao ano e apresentam-se irregularmente
distribuídas. De acordo com o geógrafo Aziz Ab’Saber, o semi-árido brasileiro,
onde se localiza o famoso Polígono das Secas1, se caracteriza por “Invernos
secos e quase sem chuvas, com duração de cinco a oito meses, e verão chuvoso,
com quatro a sete meses de precipitações pluviais, irregulares no tempo e no espaço,
de forma que os índices que buscam medir médias de precipitações guardam uma
alta dose de irrealidade, servindo como mera referência genérica para efeito de
comparação com as regiões úmidas e subúmidas do país”2.

O Clima Subtropical Úmido é dominado pela massa Tropical atlântica,
mas está sujeito à penetração da massa Polar atlântica, principalmente no inverno.
Apresenta as maiores amplitudes térmicas entre os climas brasileiros: os verões são
quentes e os invernos são frios. A média pluviométrica anual é elevada (cerca de
1.500 milímetros), não existindo uma estação seca.


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Os domínios paisagísticos

Seis grandes domínios macroecológicos foram identificados no Brasil: três
deles (o Domínio Amazônico, o Domínio dos Mares de Morros Florestados e o
Domínio das Araucárias) abrangem áreas originariamente florestadas e os restantes
(Domínios dos Cerrados, da Caatinga e das Pradarias) correspondem a áreas com
predomínio de espécies vegetais herbáceas e arbustivas. Entretanto, existem vastas
extensões territoriais não incluídas em nenhum dos domínios. São as faixas de
transição, que constituem unidades paisagísticas nas quais se mesclam características
dos domínios vizinhos, ou, ainda, áreas onde a instabilidade das condições ecológicas
deu origem a uma interação entre os elementos naturais que nada têm a ver com as
características dos domínios circundantes.

Mata dos Cocais separa Dominio Amazônico do Domínio da Caatinga.

 

No Meio-Norte do território brasileiro, por exemplo, uma grande faixa de
transição conhecida como Mata dos Cocais separa o Domínio Amazônico do
Domínio da Caatinga.

Pantanal é a transição entre o Cerrado e a Mata Atlântica.

O Pantanal Mato-grossense é um outro bom exemplo de região de transição.
Ele funciona como enorme delta interno: devido à pouca declividade do terreno, os
rios que drenam a região demoram a vazar, inundando grande parte da planície e
trazendo um grande fluxo de nutrientes, responsável pela grande densidade e
diversidade da fauna da região.

Os solos, alagadiços, são de baixa fertilidade natural. A vegetação pantaneira
é extremamente heterogênea, mesclando características de todos os domínios
macroecológicos brasileiros.

Grandes propriedades de pecuária extensiva ocupam as terras baixas
alagadiças do Pantanal, adaptando-se às condições ambientais da região. A caça
predatória e ilegal, porém, representa uma grande ameaça à fauna pantaneira.
Além da caça, o desmatamento das margens dos principais rios que
atravessam o Pantanal e o extrativismo mineral figuram como grandes geradores de
impactos ambientais na região. No Rio Taquari, por exemplo, a retirada da cobertura
vegetal se associa a um processo crescente de assoreamento do leito fluvial,
ampliando a área de inundação do rio e ameaçando a fauna silvestre.

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O Domínio Amazônico

A floresta amazônica, que prevalece na paisagem desse domínio, é uma floresta
latifoliada marcadamente heterogênea. A vegetação de terrenos inundáveis (matas de
várzea e igapós) ocupa aproximadamente 10% do ecossistema florestal; a vegetação
de terra firme (a chamada hiléia) se espalha em cerca de 80% da área. Além disso, o
Domínio Amazônico apresenta múltiplos enclaves de campos e cerrados.

Estima-se que o ecossistema florestal abrigue aproximadamente 80 mil
espécies vegetais e 30 milhões de animais, compondo uma das maiores reservas
biológicas do planeta. A riqueza e a exuberância do ecossistema florestal, porém,
contrastam com a pobreza de grande parte dos solos da região. Mais de 70% do
Domínio Amazônico são constituídos por solos ácidos e intemperizados, de baixa
fertilidade. Apenas algumas planícies aluviais, inundadas pelo Rio Amazonas,
apresentam solos ricos em nutrientes.
Esse contraste revela a fragilidade do ecossistema amazônico. A reciclagem
dos nutrientes orgânicos e minerais necessários à manutenção dos ecossistemas
regionais não é feita pelos solos, mas pela própria floresta.

As toneladas de folhas, frutos e flores que caem anualmente sobre o solo se
transformam em material orgânico e mineral consumido pela vegetação. Isto é: a
vegetação nutre-se dela mesma. Além disso, a floresta protege os solos, impedindo
que os poucos nutrientes sejam carreados pelas águas da chuva.

A agricultura tradicional dos povos da floresta – índios, caboclos, seringueiros
-representava uma adaptação especial a esse ecossistema frágil. A baixa densidade
demográfica possibilitou o desenvolvimento de cultivos de subsistência – como a
mandioca, o milho, a batata-doce e o inhame – em sistema de roça itinerante, que
utiliza a coivara (Coivara é um regime agrícola rudimentar tradicional de comunidades quilombolas no Brasil. Inicia-se a plantação através da derrubada da mata nativa,).

Depois de abandonadas, as clareiras conhecem uma recolonização
biológica pela mata. Mas a ocupação empresarial da Amazônia provoca
interferências profundas e permanentes no meio natural. As madeireiras abrem brechas
enormes na vegetação, espaços de pastagens homogêneas substituem a mata,
culturas agrícolas de mercado se espalham extensivamente sobre as velhas áreas
florestadas. A vegetação original não se regenera e a erosão pluvial age
destruidoramente, empobrecendo ainda mais os solos descobertos. O desmatamento
está trazendo danos irreparáveis ao ecossistema florestal.

Não existem dados precisos sobre o tamanho e a velocidade do
desmatamento na Amazônia. Segundo cálculos aproximados, o desmatamento atinge
algo entre 8% e 20% da Amazônia. Os estados mais afetados foram os do Pará
(34%), Mato Grosso (23%) e Maranhão (19%).

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O Domínio dos “Mares de Morros” Florestados

Este domínio macroecológico caracteriza-se pela morfologia e pela cobertura
vegetal. A ação dos agentes do modelado sobre a estrutura geológica,
predominantemente cristalina, produziu um relevo típico de morros arredondados,
em forma de “meias-laranjas”. Além dos “Mares de Morros”, compõem a morfologia
da região as escarpas planálticas que separam o planalto cristalino da planície costeira.

Originalmente, a floresta tropical úmida conhecida como Mata Atlântica
recobria cerca de 95% do Domínio dos “Mares de Morros”. Trata- se de uma
formação florestal densa e heterogênea.

A introdução do cultivo da cana-de-açúcar no Nordeste e, mais tarde, do
café nas serras do Sudeste foram os grandes responsáveis pelo início da devastação
da mata original. Hoje, restam menos de 4% da cobertura vegetal primária,
verdadeiras ilhas florestais em alguns trechos montanhosos das escarpas planálticas.

A devastação da Mata Atlântica tem agravado os processos erosivos que
atingem a região. Sujeita a chuvas intensas, concentradas nos meses do verão, a
área encontra-se exposta a desmoronamentos e transporte de material, especialmente
nas escarpas mais íngremes.

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– O Domínio dos Planaltos de Araucárias

O Domínio das Araucárias ocupa os planaltos sedimentares- basálticos da porção
oriental da Bacia do Rio Paraná, nos quais a altitude média varia entre 850 metros e
1.300 metros. Originalmente, esse domínio era revestido por uma floresta subtropical
conhecida como Mata das Araucárias e por manchas de vegetação herbácea e arbustiva.

A devastação da Mata das Araucárias se iniciou com a colonização alemã e
italiana. Nas primeiras décadas do século, os colonos utilizavam a madeira para a
construção de casas, móveis e artefatos domésticos. Também desmatavam pequenos
trechos para a prática da poli cultura de alimentos. No início do século XX, mais de
80% do território dos estados de Santa Catarina e Paraná ainda estavam recobertos
pela vegetação nativa.

Mais tarde, com a expansão da agricultura, extensas áreas florestais foram
queimadas e se transformaram em áreas de cultivo de milho, trigo, videiras e árvores
frutíferas. Em 1950, mais de metade da vegetação original já estava devastada.
Atualmente, restam apenas algumas manchas dos bosques de araucária originais.

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– O Domínio dos Cerrados

O Domínio dos Cerrados abrange as chapadas e chapadões do Brasil
Central. Trata-se de uma região tropical, de verões chuvosos e invernos secos.
As características climáticas são, em parte, responsáveis pela baixa fertilidade
dos solos desse domínio. No verão, as chuvas abundantes “lavam” o solo, retirando
seus nutrientes; no inverno, a seca prolongada tem como conseqüência altas taxas
de evaporação, o que provoca acúmulo do ferro e do alumínio responsáveis pela
toxidez e acidez dos solos.

O Cerrado, vegetação dominante, é composto principalmente por dois
estratos, o arbóreo-arbustivo, de caráter lenhoso, e o herbáceo- subarbustivo,
formado pelas gramíneas e outras ervas. A combinação desses estratos produz uma
cobertura vegetal em forma de um grande mosaico, constituído por trechos de
campos limpos (predominância de gramíneas), de campos sujos (gramíneas e
arbustos), de campos cerrados (predominância de arbustos, com espécies de 3 a 5
metros) e cerradões (florestas cujas copas se tocam e criam sombra, nas quais o
estrato herbáceo-arbustivo é muito pobre e rarefeito).

O Cerrado compõe um ecossistema bastante peculiar, radicalmente distinto
das florestas tropicais úmidas. O ecossistema florestal, quando desmatado através
de queimadas, não se regenera. O Cerrado, ao contrário, abriga espécies que
sobrevivem após as queimadas. Durante o incêndio, a camada superficial dos solos
do Cerrado funciona como um isolante térmico, protegendo o sistema subterrâneo
das plantas. Assim, muitas espécies conseguem rebrotar poucos dias após a passagem
do fogo.

As cinzas resultantes, cerca de 400 quilos por hectare em um campo cerrado,
funcionam como uma preciosa fonte de nutrientes minerais, absorvidos principalmente
pelas plantas do estrato herbáceo-subarbustivo. Nas áreas recobertas por campos
limpos, campos sujos e campos cerrados, o fogo ajuda na reciclagem de nutrientes.

Já os cerradões são menos adaptados às queimadas, e, quando essas são
reincidentes, podem se transformar em campos limpos.

Entretanto, o impacto positivo das queimadas sobre o ecossistema dos
cerrados parece depender da freqüência com que são realizadas. As pesquisas
indicam que incêndios anuais podem tomar os solos ainda mais pobres.

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– O Domínio da Caatinga

O Domínio da Caatinga apresenta relevo em forma de colinas com vertentes
suaves, as colinas sertanejas. A semi-aridez é responsável pela pouca
decomposição química das rochas, o que resulta em solos pouco profundos
intercalados por terrenos pedregosos e afloramentos rochosos.

A Caatinga, vegetação dominante, é uma formação vegetal adaptada ao
calor e à aridez. Suas principais espécies possuem folhas pequenas e hastes
espinhentas. Nas áreas de maior altitude, que recebem chuvas de relevo, encontram-
se alguns trechos de matas úmidas, conhecidas regionalmente como brejos.

O excesso de calor e a predominância de solos pouco profundos, incapazes
de reter a água, tomam o balanço da evapotranspiração negativo durante a maior
parte do ano, quando a perda de umidade é maior do que a precipitação.

A rede hidrográfica da Caatinga caracteriza-se pela predominância de rios
intermitentes e sazonais: os rios autóctones permanecem secos por cinco a sete
meses durante o ano.

A irregularidade das precipitações e a natureza dos solos e da cobertura
vegetal fazem do domínio macroecológico da Caatinga uma área naturalmente
susceptível aos processos de desertificação e, portanto, bastante vulnerável a
ocupação humana. A irrigação, o sobrepastoreio, o cultivo excessivo e a
mineração figuram entre as principais causas dos processos de desertificação
já iniciados.

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-O Domínio das Pradarias

Esse domínio paisagístico abrange a região conhecida como Campanha
Gaúcha. Nele, destaca-se a presença de um relevo suavemente ondulado, na forma
de colinas conhecidas como “coxilhas”. As colinas são recobertas por vegetação
campestre. Nos topos mais planos, forma-se um tapete herbáceo ralo e pobre em
espécies; nas encostas, a vegetação se toma mais densa e diversificada.

A pecuária extensiva é a principal atividade econômica da região. Devido
ao pisoteio excessivo do gado, registra-se uma sensível diminuição das espécies
forrageiras nativas dos campos gaúchos. O uso recorrente da queimada como técnica
de limpeza das pastagens contribui para o empobrecimento dos solos.

A pecuária e a monocultura de trigo e soja, em expansão nas áreas
originalmente recobertas pelos campos, têm provocado a diminuição da
fertilidade dos solos, o aumento dos processos erosivos e até, em algumas
áreas, o início de um processo de desertificação. Há cinqüenta anos, o “deserto
de São João”, no município de Alegrete (RS), atingia 12 hectares; hoje ultrapassa
os 185 hectares.

Regina Célia Araújo – Manual de Geografia FUNAG

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