Investimento

Investimento é o acréscimo de estoque de capital que possibilita a ampliação da produção futura, corresponde à aquisição de bens de capital, máquinas, equipamento, edifícios e estoques. Dessa forma, constitui-se um elo entre o curto e o longo prazo, uma vez que, por um lado, é elemento de demanda corrente, mas por outro, amplia a capacidade produtiva futura da economia.

Note que investimento não se confunde com o de aplicação financeira, que corresponde a uma forma de guardar a poupança.

Os gastos com investimento costumam ser muito mais voláteis que os gastos com consumo. Assim, grande parte das flutuações econômicas decorre do comportamento dessa variável. Essa volatilidade decorre, entre outros fatores, de a decisão de investimento basear-se na expectativa dos agentes sobre o comportamento futuro da economia.

Decisão de investir: expectativas e taxas de juros

O principal fator a influir na decisão de investir é o retorno esperado do investimento. O retorno esperado depende do fluxo de receita futura que o indivíduo espera do investimento, comparado com os gastos incorridos em sua execução. O fluxo de receitas futuras depende das condições do mercado no momento em que se iniciará a venda do produto cuja produção se pretende ampliar, ou seja, depende do preço futuro da mercadoria e da quantidade que se espera vender.

Para tomar a decisão de investir, deve-se comparar o fluxo de receita com o gasto, chamado de preço de oferta do investimento (PoI), como o custo de produção de uma nova máquina, por exemplo. Como a comparação é feita em termos monetários, e só se pode comparar valores que estejam em moedas de uma mesma data, deve-se trazer o fluxo de receitas esperadas para o valor presente.

Para poder comparar valores e satisfação decorrente dos bens, as quantidades devem estar expressas em um mesmo instante de tempo. A técnica utilizada para tal, é expressar os diferentes valores em termos de valor presente (com o uso de uma taxa de desconto – a taxa de juros – verifica-se qual seria o valor dessa variável futura hoje. Assim, num fluxo de receitas, trazer para o valor presente significa descontar do fluxo de receitas esperadas à taxa de juros de mercado.

Em termos gerais, temos

P = F/(1+r)nem que

P = valor principal hoje

r = taxa de juros

F = valor futuro

n = número de períodos

Assim, a uma taxa de 20% a.a. (0,2), quanto tenho de aplicar hoje para resgatar R$ 120,00 daqui a um ano?

P = 120/(1+0,2) –> R = 100

O valor presente do fluxo de receita esperada é chamado de preço de demanda do investimento (PdI). Se PdI > PoI, então a taxa de retorno do investimento é maior que a taxa de juros; logo, compensa fazer o investimento. Caso contrário, não.

Keynes definiu uma variável denominada eficiência marginal do capital (EMgK) como a taxa de desconto que iguala o PdI ao PoI, de tal modo que o investimento se realiza sempre que a EMgK for maior que a taxa de juros, ou seja, tem-se investimento até o ponto em que as duas taxas se igualam. A partir desse ponto, o ganho com a utilização dos recursos que adquire capital produtivo é inferior ao ganho obtido com aplicações no mercado financeiro; portanto, não compensa investir. Com o aumento do investimento, o EMgK tende a diminuir por duas razões:

  1. diminui a receita esperada, uma vez que o investimento tende a elevar a oferta futura de mercadorias, podendo pressionar o preço destas para baixo e, portanto, o retorno esperado do investimento;
  2. o aumento do investimento pressiona a demanda por máquinas, por exemplo, pressionando seu preço para cima, ou seja, eleva-se o PoI

Nessa primeira aproximação, podem-se identificar duas variáveis principais a afetar o investimento:

  1. taxa de juros: quanto maior a taxa de juros, menor será o investimento, pois haverá menor número de projetos cuja EMgK supere a taxa de juros, vice e versa;
  2. expectativas sobre as condições futuras da economia (durante o período em que o investimento está sendo maturado e no período em que ele já esteja produzindo): se houver otimismo em relação ao futuro (crescimento econômico), o fluxo de receita será alto, logo, o investimento será alto, vice e versa

Investimento e poupança

A produção de bens de capital, o investimento, utiliza-se de parcela do estoque de fatores de produção disponíveis na economia. Algumas questões se impõem: a realização do investimento implica a queda de outros elementos de dispêndio, por exemplo, o consumo? Para que haja investimento, é necessária a existência de poupança?

Isso depende de como a economia está operando em relação à utilização de fatores, ou seja, se todos os fatores de produção estão empregados ou se existe desemprego de fatores.

Em geral se dividem os modelos econômicos em modelos de longo prazo (quando se considera o pleno emprego dos fatores) e modelos de curto prazo (que consideram a possibilidade de desemprego).

Modelos de longo prazo

O investimento é financiado pela poupança da sociedade, logo, a existência de poupança é precondição para a realização do investimento e a magnitude da poupança limita o quanto se pode investir. Assume-se a priori que tudo que é poupado é investido. Assim, ao determinar a taxa de poupança da economia, automaticamente se determina o montante de investimento.

Essa ideia pressupõe que a economia está sobre a fronteira de possibilidade de produção (FPP), em pleno emprego dada a sua dotação de fatores. Nesse caso, só é possível ampliar a produção de um bem reduzindo a de outro, ou seja, em pleno emprego, investimento é limitado pela poupança. Se o objetivo for aumentar o investimento, isso só será possível com a ampliação da poupança (redução do consumo).

O investimento possibilita o crescimento do produto potencial, tanto pela acumulação de capital como pelos ganhos de produtividade decorrentes das transformações econômicas que ele propicia: melhores técnicas de produção, mais capital por trabalhador, etc. Assim, a riqueza de um país no futuro depende de seu nível de investimento hoje. Logo, em hipótese de pleno emprego, existe um trade-off entre investimento e consumo (bem estar futuro e bem estar presente, respectivamente).

Modelos de curto prazo

O investimento também afeta o nível de produto a curto prazo por também ser um elemento de demanda.

Além desse efeito, traz também um efeito indireto sobre o consumo e a poupança. O aumento do investimento leva à geração de mais empregos e, com isso, mais renda para os indivíduos (o que faz aumentar o consumo, estimulando a produção de bens, o que aumenta ainda mais a renda, o consumo, assim por diante).

A poupança também aumenta, pois, como visto, apenas parcela do aumento da renda tende a ser canalizada para o consumo; a outra parte é poupada.

Chama-se multiplicador keynesiano esse impacto da variação do investimento sobre o nível do produto (renda) que é maior do que a própria variação do investimento.

Numa economia de investimento (I) R$ 100 e consumo (C) R$ 50 + 0,8Y, a renda de equilíbrio (Ye) será

Ye = (50+100)/(1-0,8) = R$ 750

Suponha-se agora que I passe para R$ 200,

Ye = (50+200)/(1-0,8) = R$ 1250

O Investimento aumentou R$ 100, mas a renda aumentou R$ 500. A explicação vem no chamado multiplicador keynesiano ou multiplicador de gastos. Em termos gerais…

multiplicador = 1/(1 – propensão marginal a consumir)

Em nosso exemplo, nosso multiplicador teve valor 5, pois quintuplicou o valor do investimento inicial.

Note-se que essa possibilidade está associada à possibilidade de desemprego (capacidade ociosa) da economia, uma situação em que a ampliação do investimento não implica redução de outro elemento de gasto (não há necessidade de poupança prévia), logo, a necessidade de poupança não é necessária.

O que acontece nesse caso é justamente o oposto: com o próprio investimento, por meio do multiplicador, gera-se a poupança necessária para financiá-lo. Dessa forma, percebe-se que, com o desemprego, o empresário não necessitará de poupança para poder realizar o investimento. Necessitará de poder de compra para colocar em uso os fatores de produção que se encontram desempregados.

Financiamento e Investimento

O lugar em que se dá a intermediação de recursos é o chamado mercado financeiro, que pode ser dividido segundo várias classificações:

  • em relação ao prazo:
    • mercado monetário: se realizam operações de curto prazo, inferior a um ano (letras de câmbio, commercial papers, etc)
    • mercado de capitais: se realizam operações de longo prazo (os títulos – bonds -, as debêntures, ações, etc)
  • em relação a forma de repasse:
    • financiamento direto: o aplicador (poupador) repassa os recursos diretamente para o investidor
    • financiamento indireto (muitas vezes chamado de Sistema de Crédito): se utiliza um intermediário que adquire os recursos do poupador emitindo um título próprio e os repassa ao investidor. Em geral é um banco que aglutina a poupança de vários indivíduos para ser repassada ao tomador de empréstimos
  • em relação às caracterísiticas dos instrumentos financeiros
    • instrumentos da dívida: tomador de recursos possui uma obrigação fixa de pagamento com o emprestador (retorno do aplicador independe do desempenho da empresa ou projeto financiado – renda fixa)
    • instrumentos de participação: o “doador” de recursos passa a participar dos resultados do negócio financiado (retorno dependerá do resultado alcançado – renda variável)

No Brasil o mercado de capitais pouco se desenvolveu e as operações de crédito se concentraram no curto prazo (devido às incertezas, inflação, etc). Em qualquer lugar do mundo, como os ativos de longo prazo tendem a apresentar maior risco e menor preferência por parte dos aplicadores, devem oferecer maior rentabilidade para estimular a demanda. Essa relação entre prazo dos títulos e rentabilidade é expressa na chamada yield curve, sendo que, em geral, quanto maior o prazo, maior deve ser a rentabilidade.

Há dois modelos principais de financiamento de longo prazo:

  1. predomínio do mercado de capitais (instrumentos de participação – ações) que seria o modelo americano, com presença de dois atores importantes:
    • investidores institucionais: fundos de pensão e seguradoras que possuem passivos de longo prazo e aplicam grande parte dos recursos em ações
    • bancos de investimento: cuja função principal é realizar o lançamento de papéis
  2. predomínio de crédito com domínio dos bancos (modelo alemão), em que o financiamento se dá por meio de empréstimos bancários, mas não se colocam restrições para os bancos participarem na administração das empresas, constituindo os chamados “bancos universais”

No Brasil não se verifica nem um caso nem outro. Aqui há o predomínio dos bancos comerciais, mas estes têm restrições a ser tornarem “bancos universais”, ou seja, a institucionalidade existente no país desestimula o investimento a longo prazo.

A inexistência de condições financeiras adequadas pode inviabilizar o investimento e sacrificar o crescimento. Situações como esta levaram países a criar sistemas públicos de financiamento do desenvolvimento para viabilizar os investimentos. Este foi o caso brasileiro com a criação do BNDES e uma série de outras instituições financeiras públicas, como a Caixa Econômica Federal, que operavam com base em recursos de poupança compulsória, como, por exemplo, o FGTS, PIS-Pasep, etc. Além dos recursos de origem pública, abriu-se a possibilidade de captação de recursos externos em que os prazos eram mais longos e os custos menores do que no sistema financeiro privado nacional.

Crescimento Econômico e Investimento

O investimento também é afetado pelo comportamento da renda e da demanda. As empresas tendem a investir mais quando a demanda está aquecida e essa relação entre desempenho econômico e investimento pode ser explicada por vários fatores:

  1. investimento em estoque pró-cíclico: empresas ampliam o estoque para atender a maiores vendas futuras
  2. com lucro elevado pelas vendas, amplia-se a possibilidade de se investir
  3. lucros ampliam patrimônio líquido das empresas, o que serve como garantia para a obtenção de empréstimos

Percebe-se, portanto, que investimento tende a ser positivamente relacionado com o nível de renda, sendo essa relação conhecida como Princípio do Acelerador

 

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