Consumo

O consumo corresponde à parcela da renda destinada à aquisição de bens e serviços para a satisfação das necessidades dos indivíduos. Os bens podem ser classificados em três categorias:

  1. bens de consumo leves: aqueles que são consumidos rapidamente, como alimentos e vestuário
  2. bens de consumo duráveis: aqueles que são consumidos por um longo período de tempo, como carros ou industrializados da linha branca
  3. serviços: como cortes de cabelo, seguros, educação, etc

O dispêndio total de recursos na aquisição dessas mercadorias corresponde ao consumo agregado, que pode ser dividido em:

  • consumo pessoal: aquisições voluntárias de bens e serviços pelos indivíduos
  • consumo do governo: refere-se aos bens e serviços consumidos coletivamente, os chamados bens públicos que são provisionados pelo governo, os quais os indivíduos não adquirem voluntariamente, mas por meio do pagamento de impostos

Esse resumo se refere ao consumo pessoal.

Poupança agregada é definida como a renda não consumida e aparece como resíduo. Assim, dado o nível de renda, analisando-se o consumo, está-se também analisando a poupança. Na verdade, a poupança pode ser considerada como uma opção para os indivíduos para consumo futuro.

Consumo e Nível de Renda

Via de regra, quanto maior for a renda, maior tende a ser o consumo. Keynes chamou esse aspecto de Lei Psicológica Fundamental em sua Teoria Geral, destacando, todavia, que o consumo não aumenta na mesma magnitude da renda, pois ocorre também um aumento da poupança.

A parcela do aumento da renda destinada ao consumo é denominada propensão marginal a consumir e a parcela destinada à poupança, propensão marginal a poupar. O valor de ambas depende de fatores objetivos (custo da subsistência, distribuição de renda, grau de desenvolvimento do sistema financeiro, inflação, etc) e de fatores subjetivos (avareza, egoísmo, incerteza, etc).

De qualquer modo, há uma relação positiva entre o nível de renda e o nível de consumo. Assim, quando o governo acha que o nível de consumo está alto e, portanto, causando pressões inflacionárias, pode reduzir essa pressão pelo aumento do imposto de renda ou outras políticas contracionistas com vista a reduzir a renda das famílias. Vice e versa.

A relação entre o consumo total e a renda é chamada propensão média a consumir. Aqui podemos perceber que os mais pobres consomem quase tudo o que ganham, uma vez que sua renda é pequena enquanto os ricos conseguem poupar parte do que ganham.

Consumo e Riqueza

Dado nível igual de renda, tende a consumir mais quem possuir maior riqueza.

Por riqueza se entende ativos reais (imóveis, terras, máquinas, etc), financeiros (ações, títulos, etc) e um componente que se pode denominar capital humano (expectativa de renda futura decorrente do trabalho). Quem não possui essa riqueza, deve poupar para consumir no futuro.

Considerando essa decomposição, pode-se entender, por exemplo, porque uma grande queda nas cotações das ações na Bolsa de Valores impacta negativamente a demanda agregada. Esse é o chamado efeito riqueza.

De acordo com o modelo do ciclo de vida de Ando-Modigliani os indivíduos poupam quando são jovens para despoupar na velhice (há um motivo “previdenciário” para a poupança). Esse modelo traz uma série de implicações para a análise do consumo e da poupança, uma vez que a forma de organização dos sistemas previdenciários dos países deve afetar a taxa de poupança dos países e que a fatores demográficos passam a ser relevantes (estrutura etária). Assim, um país que tenha uma grande participação de idosos na população tende a ter uma poupança menor do que um país com pequena participação de idosos.

No modelo da renda permanente de Milton Friedman, a renda dos indivíduos pode ser decomposta em dois elementos: a renda permanente (aquela que ele espera seja a média ao longo de sua vida) e a renda transitória (que são desvios aleatórios da renda corrente em relação à renda permanente, como bônus, uma perda na colheita, etc). Em momentos em que a renda transitória eleva a renda corrente, o indivíduo poupa esse aumentop para gastá-lo em momentos de renda transitória negativa.

Consumo e Taxa de Juros

Se se considerar a decisão de consumo como uma escolha intertemporal, isto é, que o indivíduo, ao decidir quanto consumir hoje, não leva em consideração apenas a renda e o consumo corrente, mas traça um plano de consumo para toda a vida, considerando a renda ao longo da vida, deve-se introduzir uma outra variável relevante: a taxa de juros, que, ao fim e ao cabo, será a remuneração que o indivíduo receberá caso opte por poupar, permitindo-lhe consumir mais no futuro.

A espera tem um preço, já que ele terá de consumir menos hoje. Assim, para que o indivíduo aceite abrir mão do consumo hoje, a remuneração que deve obter de sua poupança (a taxa de juros) deve ser igual ou maior que sua taxa de desconto (quanto o indivíduo exige de consumo adicional no futuro para abrir mão do consumo presente). Logo, a taxa de juros corresponde ao custo de oportunidade do consumo presente: quanto maior for a taxa de juros, mais os indivíduos vão querer poupar hoje, o que reduzirá o consumo presente. Vice e versa. Esse é o chamado efeito-substituição.

Esse mesmo resultado por ser obtido olhando-se pelo lado dos empréstimos aos consumidores. Quando o indivíduo tem uma renda inferior ao que deseja consumir, precisa tomar emprestado. Como no futuro deverá pagar o que tomou emprestado, mais os juros do empréstimo, isso significa que deverá sacrificar uma parcela da renda futura para pagar o empréstimo. Quando maior a taxa de juros, maior será o sacrifício de tomar emprestado. Vice e versa.

É interessante observar que a utilização de elevação na taxa de juros para conter o consumo possui um resultado extremamente incerto e sua eficácia parece ser bastante limitada, devendo, em geral, ser complementada com outros instrumentos. Por exemplo, o aumento da taxa de juros pode aumentar o consumo daqueles que possuem ativos financeiros (efeito-riqueza).

Outro efeito que será discutido adiante é o impacto de variações na taxa de juros sobre a poupança pública. Se o governo de um país for muito endividado, um aumento na taxa de juros tende a elevar o déficit público por meio dos maiores gastos com a rolagem da dívida e com o pagamento do serviço dessa dívida, com consequente diminuição do nível de poupança pública, que pode inclusive mais que compensar um possível aumento da poupança privada, tendo um resultado negartivo em termos de poupança nacional.

Consumo e Sistema Financeiro

O grau de desenvolvimento do sistema financeiro, sua organização e suas regras também tendem a afetar o nível de consumo e poupança. A hipótese básica dos modelos que consideram a decisão de consumo como uma escolha intertemporal é a de que indivíduos possam transferir/alocar a renda auferida ao longo da vida no tempo, isto é, eles podem aplicar parte da renda auferida no presente e resgatar no futuro (não existe a chamada repressão financeira) ou antecipar renda futura, tomando emprestado, para consumir hoje (não existe a chamada restrição ao crédito).

Numa economia em que o sistema financeiro é pouco desenvolvido, a diversificação de ativos é limitada e a moeda constitui a principal forma de guardar riqueza, diz-se que o sistema financeiro é reprimido. Essa situação se agrava caso essa economia conviva com altas taxas de inflação. Assim, a existência de aplicações financeiras que assegurem o valor real dos recursos é uma precondição para se ter poupança.

Outro fator importante é o crédito, sobretudo quando falamos de bens duráveis que, por serem de alto valor, têm sua aquisição limitada com base na renda corrente. Assim, a existência de crédito ao consumidor tende a potencializar a demanda por esses bens. Duas variáveis afetam a demanda por crédito ao consumidor: os juros (o custo do empréstimo) e o prazo do financiamento (o tempo para o pagamento).

Interessante pensar no caso brasileiro até a década de 50, quando a inexistência de crédito ao consumidor não era um grande entrave, pois a indústria nacional produzia predominantemente bens de consumo leves. Com o desenvolvimento da uma indústria de bens duráveis ao longo do Plano de Metas, a circulação de mercadorias com base da renda corrente começou a ficar cada vez mais difícil, tornando-se imperativa a criação de mecanismos de financiamento ao consumidor como forma de impulsionar a demanda por produtos do setor. Esses mecanismos foram instituidos na reforma financeira do período 1964/66, que vinculou toda a captação de recursos por meio de letras de câmbio ao financiamento ao consumidor, com prazos que poderiam inclusive superar dois anos. Durante o Milagre Econômico Brasileiro, o principal setor a puxar o crescimento foi o de bens duráveis.

Outro exemplo, no período recente, é o Plano Real. A queda da inflação e a reconstituição da linhas de crédito ao consumidor permitiram o aparecimento de “bolhas de consumo” logo após o plano, o que inclusive trouxe uma série de dificuldades para o equilíbrio externo e para a estabilidade do plano. Com isso, no período de 1995/6, o governo foi obrigado a lançar mão de uma série de medidas para conter o consumo, sendo que as que se mostraram mais eficazes foram as restrições ao crédito, a diminuição dos prazos máximos de financiamento, a restrição aos consórcios, etc.

Medidas recentíssimas do governo Lula apontam para essa mesma direção.

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Comments
One Response to “Consumo”
  1. Rei Maria disse:

    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk essa imagem venceu.

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