1. Transnacionalização da Economia e Globalização das Relações de Produção: o Período Técnico-Científico e as Novas Tendências Geopolíticas em Escala Global

A economia mundial de mercado conheceu um ciclo longo de forte
crescimento nas décadas que se seguiram à Segunda Guerra Mundial. As décadas
de prosperidade se apoiaram na reconstrução e ampliação de estruturas produtivas
baseadas em tecnologias tradicionais, principalmente eletromecânicas. A utilização
intensiva de energia e matérias-primas assim como a absorção crescente de força
de trabalho semi-qualificada em linhas de produção sustentaram uma oferta ampliada
de mercadorias destinadas a mercados consumidores em expansão. Em grande
parte, esse ciclo de crescimento pode ser tributado à reconstrução das estruturas
produtivas da Europa Ocidental e do Japão e à abertura de filiais de empresas
transnacionais em países até então de baixa industrialização, tais como o Brasil, o
México e a Argentina.

Os Estados Unidos exerceram uma hegemonia econômica quase
absoluta durante o ciclo longo de crescimento. Os empréstimos de capital norte-
americanos, canalizados através do Plano Marshall (1948-52), desencadearam
a reconstrução européia. O mercado consumidor norte-americano absorveu
grande parte das exportações que sustentaram o reerguimento japonês. As
corporações transnacionais norte-americanas lideraram os investimentos
industriais no resto do mundo e impulsionaram a formação de grandes parques
industriais na periferia capitalista, em especial na América Latina. O dólar
funcionava como moeda mundial e, até o início da década de 1970, mantinha
paridade fixa com o ouro.

Esse ciclo de prosperidade só seria interrompido na década de 1970. A
elevação brutal dos preços do barril de petróleo resultante dos dois “choques”
protagonizados pela Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP)
gerou recessão e desemprego, mas sinalizou mudanças estruturais no paradigma
tecnológico dos países desenvolvidos.

Os fundamentos técnicos da era industrial emergente repousam sobre a
automatização e a robotização e sobre a utilização menos intensiva de matérias-
primas e energia. A informática, as telecomunicações, a biotecnologia, a robótica
e a química fina desenvolvem mercadorias revolucionárias, utilizando mão-de-
obra altamente especializada, novas matérias-primas e novos materiais
sintetizados em laboratórios. A contínua incorporação de tecnologias de ponta
no processo produtivo implica investimentos de alto custo em produtos que
rapidamente se tornam obsoletos, o que exige uma ampliação da escala dos
mercados.

Nesse contexto, a integração do mercado mundial ameaça diluir os limites
representados pelas barreiras nacionais, configurando, simultaneamente, um processo
de globalização e de regionalização. Após longos decênios de preparação, a União
Européia se transformou em uma união econômica e monetária, com a adoção de
uma moeda única.

Em junho de 1990, o presidente norte-americano George Bush
lançou a Iniciativa para as Américas, uma proposta de unificação dos mercados do
continente. Em agosto de 1992, foi assinado o Acordo de Livre Comércio da América
do Norte (Nafta), unindo Canadá, México e Estados Unidos em um poderoso
mercado comum. Os investimentos industriais japoneses, que disseminam as cadeias
produtivas pelas economias do Sudeste Asiático, a seu turno, ajudam a soldar a
integração econômica dessa região do mundo.

Ao mesmo tempo, as inovações tecnológicas se difundem com rapidez
inusitada, através de computadores pessoais e redes de informação conectadas
por satélites e cabos de fibra óptica. O período técnico-científico é também a era
da informação e da simultaneidade dos eventos. De acordo com o geógrafo Milton
Santos:

Durante milênios, a história do homem faz-se a partir de
momentos divergentes, como uma soma de aconteceres dispersos,
disparatados, desconexos. Já a história do homem de nossa geração
é aquela em que os momentos convergiram, o acontecer de cada lugar
podendo ser imediatamente comunicado a qualquer outro, graças a
esse domínio do tempo e do espaço em escala planetária. A
instantaneidade da informação globalizada aproxima os lugares, torna
possível uma tomada de conhecimento imediata de acontecimentos
simultâneos e cria entre lugares e acontecimentos uma relação unitária
à escala do mundo. Hoje, cada momento compreende, em todos os
lugares, eventos que são independentes, incluídos em um mesmo
sistema global de relações. [In: SANTOS, Milton. A Natureza do
Espaço. São Paulo: Hucitec, 1996, p. 162.] ”

O espaço global da “era da informação” é polarizado pelas cidades onde se
concentram as sedes das instituições que controlam as redes mundiais: bolsas de
valores, corporações bancárias e industriais, companhias de comércio exterior,
empresas de serviços legais e financeiros, agências públicas internacionais. As
“cidades globais”, tais como Nova Iorque, Londres ou Frankfurt, funcionam como
centros de tomada de decisões capazes de afetar a organização de territórios em
escala continental ou mundial.

______________________________
Revolução técnico-científica e mercado de trabalho

A revolução técnico-científica gerou impactos profundos na oferta de
empregos nos países desenvolvidos. O quadro mais dramático é, sem dúvida, o da
União Européia, onde as taxas de desemprego duplicaram entre 1976 e 1985,
saltando de 5% para 10% da população ativa, e permanecem estagnadas nesse
patamar. As elevadas taxas de desemprego entre os jovens (15 a 24 anos) – em
tomo de 25 % na França, 30% na Itália e 40% na Espanha – revelam a existência
de um quadro estrutural de descompasso entre o crescimento das economias e a
geração de novos postos de trabalho.

Para muitos analistas, a explosão do desemprego na Europa é, em parte,
resultante da redução da oferta de empregos nos setores industriais tradicionais –
tais como a construção naval, a siderurgia e o têxtil e da rígida regulamentação
do mercado de trabalho que caracteriza a maior parte de suas economias. O
caso do setor têxtil é bastante significativo. Trata-se de um setor industrial de
trabalho intensivo, pois emprega grandes quantidades de mão-de-obra, e o peso
dos salários no custo final das mercadorias é expressivo. Essa circunstância explica
a tendência mais ou menos recente de deslocamento das indústrias têxteis e de
confecções para locais onde os salários são mais baixos. Entre 1970 e 1990, por
exemplo, enquanto na Alemanha o número de trabalhadores do setor caiu de 400
mil para 150 mil, a China, a Índia, o Paquistão e Taiwan conheceram um grande
incremento no número de pessoas ocupadas, na produção e na capacidade
exportadora do setor.

Nos Estados Unidos, onde o mercado de trabalho é muito mais flexível e
comporta diversas formas de trabalho temporário, as taxas de desemprego recuaram
de 7,6% em 1976 para 4,7% em 1998, apesar da introdução de tecnologias
poupadoras de mão-de-obra tanto no setor secundário quanto no setor terciário.
No Japão, apesar da tradição de empregos vitalícios, as taxas de desemprego
apresentaram tendência de crescimento durante toda a década de 1990, tendo
saltado de 2,1 % para 3,6% da PEA entre 1990 e 1998.

Manual do Candidado FUNAG Geografia – Regina Célia Araújo

 

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