1 -Teorias Sobre a Industrialização Brasileira e Latino-Americana

A industrialização brasileira é tema de debate da nossa intelectualidade desde
as décadas de 1920 e 1930. O. Brandão publicou Agrarismo e Industrialismo
em 19261 e R. Simonsen divulgou em 1939 a primeira história da industrialização
brasileira2. Nos dois casos trataram-se de intelectuais engajados, o primeiro, dirigente
comunista e o segundo, líder industrial, ambos defensores da industrialização, numa
época em que se considerava o Brasil como “país essencialmente agrícola” e cuja
industrialização sofria grandes resistências dos setores ligados à divisão internacional
do trabalho, interna e externamente. Assim, precocemente as esquerdas brasileiras
tomaram-se, junto com a burguesia industrial, defensoras do processo de
industrialização.

A industrialização brasileira recebeu um capítulo na História Econômica do
Brasil, de C. Prado Ir., publicado em 1945 e mais tarde mereceu interpretações
mais aprofundadas nos escritos de dois economistas ligados aos órgãos de
planejamento governamentais, I. Rangel e C. Furtado4 , publicados na década de 50.
Paradoxalmente, o tema da industrialização só despertou o interesse dos professores
universitários após a publicação de Formação Econômica do Brasil, de C. Furtado,
quando o Departamento de Sociologia da USP entrou no debate, sobretudo F. H.
Cardoso e O. Ianni5. No fundo, até então, a universidade não julgava a temática
relevante, pois não percebia as dimensões econômico-sociais e políticas que o processo
de industrialização já alcançava. O debate que se seguiu, com a participação de
numerosos pesquisadores universitários brasileiros e estrangeiros, iria demonstrar o
caráter controvertido das interpretações, tais corno: 1) as conjunturas de crise das
exportações (guerras mundiais, crise de 1929 etc.) tinham sido favoráveis ou
desfavoráveis ao avanço industrial?; 2) a condição de periferia do sistema mundial
capitalista bloqueava ou não a industrialização?; 3) a que classes sociais couberam as
primeiras iniciativas industriais: aos fazendeiros, aos comerciantes de export-import,
à pequena burguesia e outros setores populares? etc. Paralelamente, a questão da
industrialização havia chegado na época ao próprio âmbito popular, onde também se
veiculavam opiniões divergentes: a industrialização havia começado com Volta Redonda
ou com a implantação das usinas hidrelétricas da Light? A indústria brasileira era
multinacional? etc. Desde então o avanço industrial brasileiro foi considerável, assim
corno se fez um longo percurso intelectual, que provocou alguns esclarecimentos,
mas ainda hoje as interpretações continuam contrastantes, pois refletem as vinculações
entre elas e as classes sociais interessadas no processo.

Nas esquerdas brasileiras três teorias referentes à economia brasileira em
geral e à industrialização em particular, tiveram papel hegemônico na luta intelectual,
sucessivamente: 1) a teoria da CEPAL, que popularizou a expressão “industrialização
por substituição de importação”, dominou o ambiente cultural de 1955 a 1964; 2) a
teoria da dependência, que teve grande aceitação no período seguinte ao golpe militar,
enfatizou a subordinação da industrialização aos interesses do centro do sistema
capitalista; 3) a teoria dos ciclos econômicos, com grande aceitação recente, reconhece
o enorme dinamismo do processo de acumulação capitalista brasileiro (…).

[MARMIGONIAN, Armen. Teorias sobre a industrialização Brasileira e Latino
Americana. In: BECKER, Berta K. et alli (org.). Geografia e meio ambiente no
Brasil. São Paulo: Hucitec, 1995, p. 65-66.]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: