Joaquim Nabuco e os crimes contra a humanidade – José Murilo de Carvalho

Nabuco e os crimes contra a Humanidade

Em entrevista concedida ao jornal “Washington Post”, a presidente eleita Dilma Rousseff criticou a abstenção do Brasil na votação da resolução das Nações Unidas que condenava o Irã por violação dos direitos humanos. Há 125 anos, durante a campanha abolicionista, Joaquim Nabuco, cujo centenário de morte celebramos este ano, enfrentou problema semelhante e lhe deu resposta clara e pioneira.

Diante das dificuldades enfrentadas no país pelos defensores da abolição, Nabuco decidiu ampliar a arena de luta e buscar apoio na opinião pública europeia, sobretudo britânica. Viajou a Londres onde solicitou e obteve decidido apoio da Sociedade Britânica e Estrangeira para a Abolição da Escravidão. A decisão lhe custou caro. Segundo denunciou em discurso proferido na capital britânica em 1881, os escravistas brasileiros passaram a acusá-lo de encorajar uma intervenção moral da Europa em questões domésticas nossas, de revelar ao mundo uma desgraça que deveria ser cuidadosamente escondida. Acusavam-no, em outras palavras, de falta de patriotismo, se não de traição. Pecha semelhante, lembremo-nos, foi atribuída aos que, durante os governos militares, denunciavam no exterior os crimes da ditadura. Dizia-se, então, que os denunciadores estavam denegrindo o nome do país. A acusação atingiu Nabuco profundamente e dela procurou defender-se em várias ocasiões.

A escravidão, alegava, era um crime condenado pela civilização. Diríamos hoje, um crime contra a Humanidade. Combatê-la, elevar o Brasil ao nível de civilização já atingido por outros povos, não podia constituir ato impatriótico. Convocar a opinião internacional para nos auxiliar nessa luta era, antes, um serviço patriótico prestado à nação brasileira. Em “O abolicionismo” denunciou como um dos males da escravidão exatamente o ter ela corrompido nosso patriotismo colocando-o a serviço de um crime. Não admitia contradição entre nação e civilização. A nação realizava-se ao incorporar os valores civilizacionais. Era, em outros termos, a mesma argumentação de José Bonifácio em 1823. A escravidão, dizia o Andrada, agredia os valores do cristianismo e da civilização. Com ela não se podia construir um regime liberal nem uma nação.

Nabuco nisso também foi um pioneiro. A ideia de crimes contra a Humanidade, de crimes que extrapolam fronteiras e interesses nacionais, ganha cada vez mais aceitação. Uma das boas consequências da globalização é certamente a difusão cada vez mais ampla da noção de direitos humanos. O abolicionista certamente se sentiria vingado com a vitória de seu ponto de vista. Mesmo como diplomata, ele não admitiria tolerância ou condescendência com tais crimes sob qualquer justificativa, ideológica, política, pragmática, ou de defesa da soberania nacional.

Joaquim Nabuco seguramente concordaria com os termos das declarações de Dilma Rousseff sobre direitos humanos feitas à repórter do “Washington Post”.

José Murilo de Carvalho é historiador.

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