Reestruturação Produtiva e Mudanças Tecnológicas

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O crescimento industrial ocorrido na fase conhecida como “milagre econômico”,
a partir do final da década de 1960 e durante a de 1970, baseou- se fundamentalmente
no padrão industrial e tecnológico anterior, com grande ênfase em indústria de bens
intermediários, altamente intensivas em recursos naturais, e de bens duráveis de consumo.

A existência de variados mecanismos de incentivos estaduais e regionais e
uma ampla fronteira de recursos naturais, apoiada no avanço da infra-estrutura,
propiciaram um processo de desconcentração para várias regiões e estados
brasileiros.

O crescimento agropecuário, ao contrário, se fez com grandes transformações
estruturais e tecnológicas, especialmente com a incorporação produtiva dos cerrados.
Assim, ao lado do grande crescimento da produção de grãos nos estados do Sul do
Brasil, ocorreu também o movimento da fronteira em sentido ao Centro-Oeste.

O movimento migratório e os serviços tenderam a acompanhar o crescimento
industrial e agropecuário.

As transformações estruturais em curso alterarão, seguramente, o sentido
regional do desenvolvimento econômico brasileiro.

O processo de reestruturação industrial no contexto internacional e a abertura
da economia pressionam a indústria brasileira a realizar mudanças tecnológicas e
organizacionais que permitam ganhos de produtividade capazes de prepará-las para
enfrentar a competição internacional. Nesse sentido, as mudanças tecnológicas em
curso induzem à expansão os setores que estão fortemente sustentados na ciência e
na técnica, reduzindo a demanda por recursos naturais. A localização dessas
atividades, como demonstra a experiência mundial, é fortemente influenciada pela
existência de centros de pesquisa e ensino, mercado de trabalho profissional, relações
interindustriais articuladas geograficamente e facilidade de acesso1. Por outro lado,
essas atividades tendem a reforçar os processos aglomerativos, recriando os distritos
industriais, embora não necessariamente nas velhas e tradicionais áreas industriais2.

No caso do Brasil, acredita-se que a reestruturação produtiva teria um efeito
reconcentrador das atividades industriais, porque as novas indústrias tenderiam a
se localizar na área mais desenvolvida do País, especialmente no grande eixo que
vai da região central de Minas Gerais até o nordeste do Rio Grande do Sul, embora
mantendo-se a desconcentração relativa da área metropolitana de São Paulo3.

Assim, vem ganhando importância a experiência dos novos distritos
industriais, com ênfase em indústrias baseadas em modernas tecnologias.
Levantamentos realizados por Medeiros et alii4 indicam a existência de 15 cidades
com alguma experiência em pólos tecnológicos, embora mais recentemente tenham
sido feitas avaliações pessimistas com relação a esses casos (Tapia, 19935; Negri e
Pacheco, 1993).

Dessas experiências, as mais bem-sucedidas são as localizadas no Estado
de São Paulo, especialmente em Campinas, São Carlos e São José dos Campos,
onde estariam sendo aglomeradas indústrias modernas.

O caso de Campinas é singular. Além da história de pesquisa na cidade –
em virtude do Instituto Agronômico de Campinas, criado em 1887, do Instituto
Biológico de Defesa Agrícola e Animal, criado em 1927, do Instituto de Tecnologia
de Alimentos, criado em 1969a criação da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) veio reforçar e redefinir a posição da cidade como centro de ensino e
pesquisa. O papel da Unicamp como uma universidade especializada em pós-
graduação foi vital para que a Telebrás decidisse pela instalação do Centro de
Pesquisa e Desenvolvimento (CPqD) naquela cidade, em 1976. Posteriormente,
foram criados o Centro Tecnológico para Informática (CTI), em 1984, a Companhia
de Desenvolvimento Tecnológico (Codetec), em 1976, o Laboratório Nacional de
Luz Sincroton (LNLS), em 1987, transformando Campinas, talvez, no mais
importante centro de ensino e pesquisa do País.

Baseada nessas condições, e no parque industrial já existente, além da
proximidade geográfica com a área metropolitana de São Paulo, a região de Campinas
vem-se transformando na mais importante nova região industrial do País. Constituída
por uma rede de cidades de porte médio, estabeleceu-se um corredor industrial entre
Campinas e Araraquara, incluindo as cidades de Campinas e seus satélites, Americana,
Limeira, Piracicaba, Rio Claro, São Carlos e Araraquara, cujo conjunto já alcançava,
em 1985, mais de 200 mil empregos industriais. Além de um parque industrial
diversificado e com a presença de um grande número de filiais de empresas
multinacionais, parte das novas indústrias, especialmente em Campinas e São Carlos,
pode ser considerada de tecnologia moderna, articulada com as instituições de pesquisa
e ensino da região, algumas surgidas como spin-off daquelas instituições.

Apesar das críticas aos resultados dessas experiências, apontando o limite
do seu crescimento (Tapia, 1993; Negri e Pacheco, 1993), novas iniciativas deverão
surgir nessas cidades. Caso o Brasil consiga retomar o crescimento, aquela região
certamente se transformará na mais atraente alternativa locacional para vários
segmentos das indústrias de alta tecnologia, além da expansão de setores já
consolidados, a exemplo da metalomecânica.
Outro caso que merece destaque é São José dos Campos, sede de várias
grandes empresas multinacionais que ali encontraram uma alternativa locacional em
razão da sua localização no eixo Rio-São Paulo, das facilidades da região, da sua
proximidade ao Porto de São Sebastião e do clima ameno das montanhas de Campos
de Jordão. A cidade possui ainda a sede do Centro Técnico Aeroespacial (CTA),
instalada na década dos 40, e a do Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA), que
transformou São José dos Campos em uma das cidades mais avançadas no ensino de
engenharia do País. As pesquisas do CTA e de seus institutos coligados desembocaram
na criação da Empresa Brasileira de Aeronáutica (Embraer), em 1969. Além das
instituições de pesquisa ligadas ao setor militar, no início da década de 1960 foi criado
o Instituto de Pesquisas Espaciais (INPE), ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que, além das pesquisas
correspondentes, criou também os cursos de mestrado e doutorado em áreas afins.
Com base nas instituições de ensino e pesquisa locais, foi instalado na cidade
um conjunto de atividades industriais, especialmente na linha de armamentos. Esse
fato permitiu que o emprego industrial em São José dos Campos subisse de 17 mil
para 48 mil entre 1970 e 1980, continuando a crescer até 1987.
No entanto, o fim da Guerra Fria, os efeitos do fim da Guerra Irã-Iraque e
da Guerra do Golfo e as pressões políticas internacionais, especialmente dos Estados
Unidos, contra a exportação de armas pelo Brasil, aliado à queda da demanda de
aeronaves, colocaram a nova indústria de São José dos Campos em profunda crise
conjuntural e estrutural, como indica a maioria das análises sobre a região (Diniz e
Razavi, 19936; Tapia, 1993) (…).

[DINIZ, Clélio Campolina e TEIXEIRA DOS SANTOS, Fabiana Borges. Sudeste:
Heterogeneidade Estrutural e Perspectivas. In: AFFONSO, Rui de Britto Álvares e
SILVA, Pedro Luiz Barros (org.). Desigualdades regionais e desenvolvimento.
São Paulo: Fundap/UNESP, 1995, p. 212-215.]

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