A “Dissolução” da Metrópole – Milton Santos.

Recentemente, as tendências à dispersão começa a se impor e atingem parcela cada vez mais importante dos fatores, distribuídos em
áreas mais vastas e lugares mais numerosos. Com o fim da segunda guerra mundial,
a integração do espaço brasileiro e a modernização capitalista ensejam, em primeiro
lugar, uma difusão social e geográfica do consumo em suas diversas modalidades e,
posteriormente, a desconcentração da produção moderna, tanto agrícola quanto
industrial.

Em outro sentido, todavia, há um movimento de concentração das formas
de intercâmbio, no nível nacional e estadual ou regional, tanto no âmbito material
quanto no intelectual. A comercialização tende a se concentrar, economicamente e
geograficamente, ainda que a pobreza persistente da população assegure a
permanência de pequenos comércios e serviços, com estabelecimentos dispersos.

As novas formas de um trabalho intelectual mais sofisticado, de que dependem a
concepção e o controle da produção, são, também, concentradas, ainda que outras
formas de trabalho intelectual, cada vez mais numerosas, ligadas ao processo direto
da produção, mas também à sua circulação, sejam objeto de dispersão geográfica,
atribuindo novas funções às cidades de todos os tamanhos.

A nova divisão do trabalho territorial atinge, também, a própria região
concentrada, privilegiando a cidade de São Paulo, a respectiva Região Metropolitana
e seu entorno, onde a acumulação de atividades intelectuais ligadas à nova
modernidade assegura a possibilidade de criação de numerosas atividades produtivas
de ponta, ambos esses fatos garantindo-lhe preeminência em relação às demais
áreas e lhe atribuindo, por isso mesmo, novas condições de polarização. Atividades
modernas presentes em diversos pontos do País necessitam de se apoiar em São
Paulo para um número crescente de tarefas. São Paulo fica presente em todo o
território brasileiro, graças a esses novos nexos, geradores de fluxos de informação
indispensáveis ao trabalho produtivo. Se muitas variáveis modernas se difundem
amplamente sobre o território, parte considerável de sua operação depende de
outras variáveis geograficamente concentradas. Dispersão e concentração dão-
se, uma vez mais, de modo dialético, de modo complementar e contraditório. É
desse modo que São Paulo se impõe como metrópole onipresente e, por isso
mesmo, e ao mesmo tempo, como metrópole irrecusável para todo o território
brasileiro.

Agora, a metrópole está presente em toda parte, e no mesmo momento. A
definição do lugar é, cada vez mais no período atual, a de um lugar funcional à
sociedade como um todo. E, paralelamente, através das metrópoles, todas as
localizações tornam-se funcionalmente centrais. Os lugares seriam, mesmo, lugares
funcionais da metrópole.

Antes, sem dúvida, a metrópole estava presente em diversas partes do
País. Digamos que o núcleo migrava, para o campo e para a periferia, mas o
fazia com defasagens e perdas, com dispersão das mensagens e ordens. Se, ao
longo do tempo, o espaço se tornava mais e mais unificado e mais fluido, todavia
faltavam as condições de instantaneidade e de simultaneidade que somente hoje
se verificam.

Mas, ao contrário do que muitos foram levados a imaginar e a escrever, na
sociedade informatizada atual nem o espaço se dissolve, abrindo lugar apenas para
o tempo, nem este se apaga. O que há é uma verdadeira multiplicação do tempo,
por causa de uma hierarquização do tempo social, graças a uma seletividade ainda
maior no uso das novas condições de realização da vida social.

A simultaneidade entre os lugares não é mais apenas a do tempo físico,
tempo do relógio, mas do tempo social, dos momentos da vida social. Mas o tempo
que está em todos os lugares é o tempo do Estado e o tempo das multinacionais e
das grandes empresas. Em cada outro ponto, nodal ou não, da rede urbana ou do
espaço, temos tempos subalternos e diferenciados, marcados por dominâncias
específicas. Com isso, nova hierarquia se impõe entre lugares, hierarquia com nova
qualidade, com base em diferenciação muitas vezes maior do que ontem, entre os
diversos pontos do território.

Nenhuma cidade, além da metrópole, “chega” a outra cidade com a mesma
celeridade. Nenhuma dispõe da mesma quantidade e qualidade de informações
que a metrópole. Informações virtualmente de igual valor em toda a rede urbana
não estão igualmente disponíveis em termos de tempo. Sua inserção no sistema
mais global de informações de que depende seu próprio significado depende da
metrópole, na maior parte das vezes. Está aí o novo princípio da hierarquia, pela
hierarquia das informações… e um novo obstáculo a uma inter-relação mais frutuosa
entre aglomerações do mesmo nível, e, pois, uma nova realidade do sistema
urbano.

Os momentos que, no mesmo tempo do relógio, são vividos por cada
lugar, sofrem defasagens e se submetem a hierarquias (em relação ao emissor e
controlador dos fluxos diversos). Porque há defasagens, cada qual desses lugares
é hierarquicamente subordinado. Porque as defasagens são diferentes para as
diversas variáveis ou fatores é que os lugares são diversos.

As questões de centro-periferia, como precedentemente colocadas, e a
das regiões polarizadas, ficam, assim, ultrapassadas. Hoje, a metrópole está
presente em toda parte, no mesmo momento, instantaneamente. Antes, a metrópole
não apenas não chegava ao mesmo tempo em todos os lugares, como a
descentralização era diacrônica: hoje a instantaneidade é socialmente sincrônica.

Trata-se, assim, de verdadeira “dissolução da metrópole”, condição, aliás, do
funcionamento da sociedade econômica e da sociedade política.
Temos, agora, diante de nós, o fenômeno da “metrópole transacional” de
que fala Helena K. Cordeiro1. Esta é a grande cidade cuja força essencial deriva
do poder de controle, sobre a economia e o território, de atividades hegemônicas,
nela sediadas, capazes de manipulação da informação, da qual necessitam para o
exercício do processo produtivo, em suas diversas etapas. Trata-se de fato novo,
completamente diferente da metrópole industrial.

O dado organizacional é o espaço de fluxos estruturadores do território e
não mais, como na fase anterior, espaço onde os fluxos de matéria desenhavam o
esqueleto do sistema urbano2.

No caso brasileiro, vale a pena insistir sobre essa diferença pois em ambos
os momentos a metrópole é a mesma: São Paulo. Nas condições de passagem de
uma fase a outra, somente a metrópole industrial tem condições para instalar novas
condições de comando, beneficiando-se dessas precondições para mudar
qualitativamente. A metrópole informacional assenta sobre a metrópole industrial,
mas já não é a mesma metrópole. Prova de que sua força não depende da indústria
é que aumenta seu poder organizador ao mesmo tempo em que se nota uma
desconcentração da atividade fabril. O fato é que estamos diante do fenômeno de
uma metrópole onipresente, capaz, ao mesmo tempo, pelos seus vetores
hegemônicos, de desorganizar e reorganizar, ao seu talento e em seu proveito, as
atividades periféricas e impondo novas questões para o processo de desenvolvimento
regional.

Retomemos o exemplo, de modo figurativo. No passado, São Paulo sempre
esteve presente no País todo: presente no Rio um dia depois, em Salvador três dias
depois, em Belém dez dias depois, em Manaus trinta dias depois… São Paulo hoje
está presente em todos os pontos do território informatizado brasileiro3, ao mesmo
tempo e imediatamente, o que traz como conseqüência, entre outras coisas, uma
espécie de segmentação do mercado enquanto território e uma segmentação vertical
do território enquanto mercado, uma vez que os diversos agentes sociais e
econômicos não utilizam o território de forma igual. Isso representa um desafio às
planificações regionais, uma vez que as grandes firmas que controlam a informação
e a redistribuem ao seu talante têm papel entrópico em relação às demais áreas, e
somente elas podem realizar a negentropia. O espaço é assim desorganizado e
reorganizado a partir dos mesmos pólos dinâmicos. O fato de que a força nova das
grandes firmas, neste período científico-técnico, traga como conseqüência uma
segmentação vertical do território supõe que se redescubram mecanismos capazes
de levar a uma nova horizontalização das relações, que esteja não apenas a serviço
do econômico, mas também do social.

[SANTOS, Milton. A urbanização brasileira. 2. ed. São Paulo: Hucitec, 1994, p.
89-93.]

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