4. O Processo de Industrialização e as Tendências Atuais da Localização da Indústria no Brasil

O processo de industrialização brasileira gerou uma profunda concentração
espacial. A indústria da Região Sudeste é responsável por quase dois terços da
força de trabalho e mais de dois terços do valor da produção. As regiões Sul e
Nordeste aparecem muito atrás, enquanto as regiões Norte e Centro-Oeste
apresentam uma participação apenas marginal no Setor Secundário do país.

Entretanto, nas últimas décadas, observa-se uma tendência incipiente de
desconcentração industrial, manifesta no intenso crescimento da produção em
estados como Paraná, Santa Catarina, Bahia, Amazonas e Ceará. A isenção fiscal
oferecida pelos governos estaduais assim como as diferenças regionais de custos
da mão-de-obra – significativamente menores nos estados do Nordeste – ajudam a
entender esta tendência recente.

Apesar dela, o predomínio paulista no Setor Secundário nacional – cujas
raízes encontram-se na etapa inicial da industrialização, ocorrida no interior da
economia cafeeira exportadora – ainda é marcante. O Estado de São Paulo concentra
pouco menos que a metade do valor total da produção industrial do país.

A participação do Rio de Janeiro na indústria brasileira apresenta uma
redução mais intensa e também mais antiga. Em 1920, a antiga Guanabara, somada
ao Rio de Janeiro, tinha quase 30% do valor da produção. Em 1960, quando a
capital foi transferida para Brasília, a participação fluminense já tinha caído para
16%, e hoje ela não chega a 10%.

A redução da participação de São Paulo e do Rio de Janeiro explica a
diminuição da participação geral do Sudeste. Mas, nessa região, ocorre significativo
crescimento da participação de Minas Gerais no Setor Secundário nacional. Esse
crescimento deve-se, em grande parte, à concentração de siderúrgicas de grande
porte no Vale do Aço eformação de importantes distritos industriais nos arredores
de Belo Horizonte.

_____________________________________
O espaço industrial da Região Sudeste

O triângulo Rio-São Paulo-Belo Horizonte é o grande pólo industrial do país,
abrangendo o leste do Estado de São Paulo, o sul de Minas Gerais, o Rio de Janeiro
e avançando por todo o sul do Espírito Santo, até Vitória. No interior dessa área,
encontra-se um complexo heterogêneo de atividades secundárias que envolve indústrias
modernas e tradicionais, fabricação de bens de consumo e de bens de produção.

A cidade de São Paulo transformou-se no principal pólo industrial do país
já nas primeiras décadas do século. A economia cafeeira de exportação gerou as
condições para o arranque industrial da cidade.
São Paulo encontrava-se em situação geográfica estratégica, no nó de ligação
entre o leque de ferrovias que se abria para o oeste cafeeiro e o porto de Santos. A
capital tornou-se, desde logo, o centro dos negócios de exportação e importação e
das atividades bancárias, atraindo capitais e empresários. O fluxo imigratório orientado
inicialmente para o café gerou uma classe operária numerosa, constituída por
trabalhadores italianos e espanhóis. O crescimento econômico do interior abria
vastos mercados consumidores para os manufaturados que começavam a ser
fabricados na capital.

Nesse primeiro surto industrialista, predominaram as fábricas de bens de
consumo não-duráveis (têxteis, vestuário, calçados, bebidas e alimentos), além das
pequenas metalúrgicas e químicas.

As primeiras áreas industriais situaram-se junto aos eixos ferroviários que
ligavam a cidade ao Rio de Janeiro (E. F. Central do Brasil), ao longo dos bairros
do Belenzinho, Brás e Moóca, e junto aos trilhos da Sorocabana, na Lapa. No
pós-guerra, a indústria transbordou os limites do município da capital e surgiram
centros industriais de grande porte nos municípios vizinhos. Os eixos rodoviários
substituíram as linhas de trem, atraindo as novas fábricas que se implantavam.

Ao longo do eixo da Via Anchieta, na direção da Baixada Santista, os
municípios de Santo André, São Bernardo do Campo, São Caetano do Sul e
Diadema passaram a abrigar as grandes montadoras automobilísticas implantadas
no governo de Juscelino Kubitschek (1956-1961). Com elas, instalaram-se as
fábricas de autopeças e as metalúrgicas e, mais tarde, as indústrias químicas. O
chamado ABCD transformou-se na maior aglomeração industrial da América Latina
e no berço do principal pólo do movimento sindical brasileiro.
No eixo da Via Dutra, na direção do Rio de Janeiro, uma significativa
aglomeração industrial foi criada no município de Guarulhos. Entre os eixos das vias
Raposo Tavares e Castelo Branco, também surgiu uma região fabril, envolvendo
particularmente os municípios de Osasco e Carapicuíba.

Nas últimas décadas, o espaço paulista vem conhecendo um processo de
dispersão industrial. O interior do estado apresenta um crescimento industrial muito
maior que a metrópole, tanto quanto à absorção da força de trabalho como quanto
ao valor da produção.

Esse processo é conseqüência da expansão econômica do interior paulista,
que por muito tempo se fundamentou na agricultura e na agroindústria. O crescimento
dos núcleos urbanos regionais – como Campinas, São José dos Campos, Sorocaba,
Ribeirão Preto, Santos e Cubatão – gerou mercados consumidores e reuniu força
de trabalho para o deslanche da industrialização. A implantação de infra-estruturas
energéticas e vias de transporte modernas criou novas localizações favoráveis para
as indústrias.

A desconcentração industrial no Estado de São Paulo reflete também a
tendência ao deslocamento de novas empresas para fora das localizações
metropolitanas. O caráter terciário da metrópole é cada vez mais evidente.

No Rio de Janeiro, o crescimento industrial foi impulsionado por fatores
históricos diferentes. No início do século, a cidade era a capital do país e abrigava
o maior porto marítimo nacional. Contava com mais de 1 milhão de habitantes,
enquanto São Paulo não ultrapassava os 100 mil. Mas não polarizava uma economia
de exportação com o dinamismo das plantações cafeeiras paulistas, o que determinou
um crescimento industrial muito menos vigoroso.

A industrialização do Rio de Janeiro apoiou-se na dimensão do mercado
consumidor formado pela aglomeração urbana e nos atrativos oferecidos pela
presença dos órgãos de governo e empresas estatais.

O processo de expansão espacial da indústria seguiu uma trajetória similar à
de São Paulo. As linhas férreas definiram regiões industriais na zona norte da cidade,
enquanto a zona sul, na orla litorânea, abrigava os bairros residenciais de alta renda.

Mais tarde, os municípios da Baixada Fluminense, na Grande Rio – como
Nova Iguaçu, Duque de Caxias, São João do Meriti e Nilópolis –, transformaram-
se em importantes distritos industriais. Nova Iguaçu, com mais de 1 milhão de
habitantes, situada no eixo da Via Dutra e da E. F. Central do Brasil, é a maior
aglomeração industrial da periferia do Rio. Duque de Caxias, com cerca de 700 mil
habitantes, é um pólo químico organizado em torno da REDUC.

Outra destacada concentração industrial fluminense localiza-se na Zona
Serrana, em cidades como Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo. Essa região
desenvolveu-se como um tradicional centro têxtil, que conquistou parcelas
expressivas do mercado nacional.

A formação das metrópoles de São Paulo e do Rio de Janeiro estimulou a
expansão industrial no Vale do Paraíba, que tinha sido em meados do século XIX
o foco das plantações cafeeiras escravistas e vivera depois uma profunda decadência.
O sinal pioneiro da industrialização do Vale foi a implantação da primeira
siderúrgica estatal, a CSN, iniciada em 1941. Em Volta Redonda e Barra Mansa,
na parte fluminense do Vale, a CSN impulsionou o aparecimento de estabelecimentos
metalúrgicos. No Vale do Paraíba paulista, durante as décadas de 1960 e 1970,
inúmeras cidades polarizadas por São José dos Campos e Taubaté transformaram-
se em núcleos industriais. Situados no caminho que liga os principais mercados
consumidores do país, junto à rodovia e à ferrovia, e contando com farto
abastecimento de água, os municípios da região tornaram-se localizações privilegiadas
para estabelecimentos ligados à produção de bens intermediários e bens de consumo
duráveis.

Belo Horizonte nasceu em 1897, como cidade planejada. Sua origem está
ligada a um projeto estratégico das elites mineiras, destinado a reverter o processo
de decadência econômica de Minas Gerais.
Após a Revolução de 1930, as elites mineiras direcionaram a sua atenção
para o desenvolvimento industrial do estado. Essa nova orientação materializou-
se por meio da concessão de incentivos diversos para a atração de investimentos
industriais privados e também por uma pressão permanente sobre o governo
central, destinada a garantir a instalação de um vasto parque siderúrgico estatal
no estado.

As políticas de concessão de incentivos para o capital privado resultaram
na vigorosa industrialização dos arredores de Belo Horizonte, com a formação de
núcleos fabris modernos e diversificados nos municípios da Região Metropolitana.
Contagem, com cerca de 400 mil habitantes, é o principal desses núcleos, abrigando
um importante parque metalúrgico e químico. Em Betim, instalou-se no final da
década de 1970 a Fiat Automóveis, primeira montadora transnacional situada fora
do Estado de São Paulo.

A luta pela implantação da siderurgia de grande porte envolveu a valorização
das vastas reservas de minérios de ferro e manganês do chamado Quadrilátero
Central. Antes da Segunda Guerra, a implantação da Cia. Siderúrgica Belgo-Mineira,
transnacional, abriu a via de industrialização das cidades do Alto Vale do Rio Doce.
Décadas depois, vultosos investimentos estatais resultaram na criação de outras
usinas gigantescas e na transformação do “Vale do Aço” na maior concentração
siderúrgica do país.

________________________________
Outras concentrações industriais

Na Região Sul, de Porto Alegre a Curitiba, estende-se uma importante região
industrial, marcada pela predominância de ramos tradicionais. A produção industrial
do Nordeste concentra-se em torno das metrópoles regionais (Salvador, Recife e
Fortaleza). No Norte, a mais expressiva concentração industrial corresponde à
Zona Franca de Manaus.

A expansão industrial do Sul apoiou-se fortemente em fatores regionais. O
fluxo imigratório que formou zonas de colonização alemãs, italianas e eslavas trouxe
artífices e elementos qualificados. Um empresariado regional apareceu nas áreas
coloniais.

O Vale do Itajaí ilustra esse modelo de industrialização. Lá, em cidades
como Joinville, Blumenau e Brusque, desenvolveram-se fábricas têxteis, de louças
e brinquedos. O complexo têxtil dessa área, inicialmente rudimentar, cresceu e
conquistou o mercado nacional. Outro exemplo de expansão de uma indústria local
é oferecido pelos estabelecimentos vinícolas da Serra Gaúcha, implantados nas
cidades de Caxias do Sul e Bento Gonçalves. Nas cidades gaúchas de colonização
alemã próximas a Porto Alegre, como Novo Hamburgo e São Leopoldo,
estabeleceram-se fabricantes de artigos de couro e calçados.

Uma característica do modelo industrial do Sul é o predomínio das indústrias
dependentes de matérias-primas vegetais e agropecuárias. É o que ocorre não só
com a fabricação de vinhos, artigos de couro e calçados, como também com a
agroindústria de óleos vegetais disseminada pelas principais cidades do interior da
região e, ainda, com os frigoríficos e indústrias de fumo do Rio Grande do Sul. O
importante ramo de madeira e mobiliário do Paraná, estabelecido em Curitiba e
Ponta Grossa, é outra ilustração desse processo.

Entretanto, a principal concentração industrial complexa e diversificada do
Sul localiza-se na Grande Porto Alegre, onde o município de Canoas se destaca
como pólo metalúrgico, químico e de material elétrico.

Na Região Nordeste, a indústria moderna é produto do planejamento
governamental, cujos alicerces repousam sobre os incentivos fiscais fornecidos pela
Sudene e na implantação de um setor hidrelétrico de porte na Bacia do São Francisco.

A presença de mão-de-obra abundante e barata representa incentivo suplementar.
Em Salvador, essa estratégia industrializante se manifestou com o surgimento
do pólo petroquímico de Camaçari e do distrito industrial de Aratu. O primeiro gira
em torno da Refinaria Landulfo Alves que gera matérias-primas para empresas
petroquímicas e químicas estatais, privadas e transnacionais. O segundo caracteriza-
se pelo predomínio de fábricas de bens de consumo duráveis atraídas pelos incentivos
da Sudene.

Na Grande Recife, os incentivos fiscais geraram os distritos de Jaboatão,
Cabo e Paulista, também marcados pelo predomínio das indústrias de bens de
consumo duráveis e dos capitais oriundos do Centro-Sul.

A estratégia de modernização industrial do Nordeste apoiou-se na idéia de
transferência de capitais externos à região. A ênfase nas indústrias de alta capitalização
– de bens intermediários e de bens de consumo duráveis – resultou numa absorção
de mão-de-obra relativamente baixa, pouco contribuindo para elevar os níveis de
vida e emprego da população das metrópoles regionais.

Na última década, no contexto da abertura econômica, o processo de
industrialização vem ganhando novos contornos. A modernização da infra-
estrutura regional e mecanismos de isenção fiscal estão na base do novo ciclo
industrializante que caracteriza a região. O crescimento do setor têxtil no Rio
Grande do Norte e no Ceará, e, em menor escala, em Sergipe e Pernambuco,
por exemplo, é tributário da conjunção dos mecanismos de incentivos fiscais e
do custo da mão-de-obra, significativamente menor do que nas regiões industriais
do Centro-Sul. Ao contrário do que ocorreu com grande parte das indústrias
de tecelagem e confecção que operam no Centro-Sul, as filiais nordestinas de
empresas tais como a Vicunha e a Alpargatas continuaram ampliando as suas
vendas depois da abertura das importações. Verifica-se uma tendência similar
no setor calçadista.

No Ceará, estado nordestino que experimentou os maiores índices de
crescimento econômico na primeira metade da década de 1990, o apoio do governo
estadual, através da isenção fiscal e dos mais diversos investimentos em infra-estrutura
de transportes tem sido decisivo. Nesse caso, as estratégias industriais não se
restringem ao setor de bens de consumo, como indica a recente formação de um
consórcio entre a CVRD, a CSN e o Grupo Vicunha – já solidamente implantado
no estado – para a implantação da Companhia Siderúrgica do Ceará, em Pecém, e
os projetos de transformar a futura siderúrgica em fator de atração para montadoras
de automóveis e indústrias de autopeças.

A Zona Franca de Manaus nasceu em 1967, sob a supervisão da Suframa
(Superintendência da Zona Franca de Manaus), vinculada ao Ministério do Interior.

A isenção total de impostos sobre importação de máquinas, matérias-primas e
componentes e sobre exportação de mercadorias, aliada ao baixo custo da mão-de-obra local, deveria atrair grandes empresas transnacionais e nacionais para a
fabricação de bens de consumo duráveis na região.

Devido à Zona Franca, o Estado do Amazonas saltou de 145 indústrias em
1967 para 800 em 1977, sendo 549 localizadas em Manaus. A participação do
estado na produção industrial brasileira saltou de 0,3% em 1970 para 1,8% em
1985. Em 1987, a Zona Franca representava 75% do PIB de todo o estado e
gerava mais de 120 mil empregos diretos e indiretos. Grande parte da produção de
eletrodomésticos do país concentrava-se na capital do Amazonas.

As empresas eletroeletrônicas dominam o parque industrial da Zona Franca,
vindo em seguida as mecânicas e as de material de transporte. Os mercados
consumidores são extra-regionais: a produção destina-se ao consumo nacional e
internacional. Os capitais dominantes são transnacionais; praticamente não se utiliza
matérias-primas regionais.

Assim, o processo de industrialização da área é nitidamente artificial. A política
recente de abertura da economia nacional e redução das tarifas de importação
coloca em risco a continuidade de seu desenvolvimento.

 

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: