FAQ – Crise de 1930 e o Avanço da Industrialização Brasileira

A primeira metado do século XX foi marcada fortemente por três acontecimentos: a Primeira Guerra Mundial, a Grande Depressão e a Segunda Guerra Mundial. Segundo Hobsbawm, foi o período em que as economias capitalistas atravessaram sua crise mais profunda e terrível. As explicações para o comportamento cíclico da economia são variáveis, mas a constatação empírica é irrefutável: as economias capitalistas são intrinsecamente instáveis.

A instabilidade cíclica atinge, em alguns momentos, dimensões e consequências significativas, que abalam profundamente um grande número de países, configurando crises econômicas mundiais. Assim, podemos classificar a Primeira Grande Depressão (1873-96) como a primeira dessas crises globais. A Segunda Grande Depressão (1929-33), também chamada de Grande Depressão, foi o período histórico de maior redução do nível de atividade em quase todos os países do mundo, com excessão da URSS. Segundo Hobsbawm, destruiu o liberalismo econômico por meio século, pois o mundo que emergiu da Depressão foi marcado pelas políticas intervencionistas de inspiração keynesiana e pela busca da construção do estado de bem-estar social (welfare state) nos países desenvolvidos.

No Brasil, a Revolução de 30 ocasionou a perda de hegemonia política pela burguesia cafeeira em favor da classe industrial ascendente.

1. Quais foram os efeitos da Grande Depressão sobre a política econômica brasileira? Que mecanismos de defesa do café foram utilizados durante a Grande Depressão? De que forma a desvalorização cambial atendia ao objetivo de defesa do café?

O Brasil era o principal produtor de café já no século XIX e atuava no mercado internacional como semi-monopolista, com grande vantagens comparativas. Por outro lado, a única alternativa para alocar o capital obtido da cafeicultura era o reinvestimento na produção de mais café, resultando em crises de superprodução. Assim, desenvolveram-se diversos mecanismos de defesa do café, um dos quais, a depreciação da moeda nacional nos momentos de queda dos preços de exportação, procedimento que diminuía as perdas de receitas dos cafeicultores. Os mecanismos foram se sofisticando, tal que o governo passou a comprar os excedentes de produção financiado por empréstimos externos.

Quando a crise mundial de 1929 atingiu a cafeicultura, esta se encontrava em situação extremamente vulnerável. Para uma produção de 28 milhões de sacas, apenas 14 milhões foram exportadas. A política de defesa do café, sem mecanismos efetivos para conter a superprodução, só agravava esse desequilíbrio. Nossa economia ainda era imensamente dependente do café – uma de suas únicas rendas – portanto, mais uma vez, lançou-se mão do mecanismo cambial para sua defesa. Entretanto, o preço continuava caindo.

Evidentemente a preservação da renda dos cafeiculores era paga pelo conjunto da sociedade (“socialização das perdas”, nos termos de Celso Furtado). Essas medidas não foram suficientes, assim, o governo tomou a decisão de utilizar uma solução econômica lógica, embora aparentemente absurda: a diminuição da oferta de café pela queima de excedentes (cuja compra era financiada por impostos sobre a exportação de café e pela pura e simples expansão do crédito). Devido a esse mecanismo de defesa de renda da cafeicultura, a queda na renda nacional foi da ordem de cerca de 30%, um valor razoável se comparado à economia americana que declinara 50%.

Para Furtado, o financiamento público da compra de excedentes anteciparam outras intervenções estatais, com o objetivo de manutenção do nível de emprego e da demanda agregada (keynesianismo avant la lettre) e, em função disso, já em 1933 a renda nacional voltou a crescer com níveis de investimento equivalentes aos de 1929. Considerando que a economia mundial só voltou a dar sinais de recuperação em 1934, pode-se inferir que a recuperação econômica se deu por fatores internos.

2. Que papel assumiu o mercado interno após a Grande Depressão?

Durante a Depressão o preço dos importados subiu cerca de 33%, causando uma redução das importações na ordem de 60%. Parte da procura, antes satisfeita com importações, passou a ser atendida pela oferta interna. Assim, a demanda interna passaria a ter importância crescente como elemento dinâmico nessa conjuntura de recessão mundial. Tratava-se de uma situação nova com a preponderância do setor ligado ao mercado interno no processo de formação de capital e no conjunto de investimentos do país.

A crise do café afugentava os capitais investidos na cafeicultura. Parte desses capitais foi absorvida pela própria agricultura exportadora, particularmente o algodão.

No lado da indústria, embora o aumento da produção requeira o aumento da importação de máquinas, isso não foi necessário, pois era possível usar a capacidade ociosa preexistente, como no caso da indústria têxtil. Posteriormente, foi possível importar equipamentos usados mais baratos, decorrentes das fábricas fechadas durante o período da Depressão. Num terceiro momento, o crescimento da procura por bens de capital e o forte aumento dos preços de importação desses bens, devido à desvalorização cambial, criaram condições propícias à instalação de uma indústria de bens de capital no país.

Como resultado, a renda nacional aumentou 20% no período, enquanto a renda per capita subiu 7%. Na mesma época, os Estados Unidos ou países de desenvolvimento semelhante ao Brasil que seguiram políticas ortodoxas de combate à crise, ainda estavam em depressão em 1937.

3. O que caracteriza o modelo de industrialização dos substituição de importações?

Segundo Maria da Conceição Tavares, a Grande Depressão foi um momento de ruptura com o modelo primário-exportador da economia brasileira em favor de um modelo de desenvolvimento voltado para o mercado interno. O conceito de substituição das importações, além de significar o início da produção interna de um bem antes importado, denota também uma mudança qualitativa na pauta de importações do país, ou seja, conforme aumenta a produção interna de bens de consumo anteriormente importados, aumenta a importação de bens de capital e bens intermediários necessários a essa produção.

4. Explique o conceito de industrialização restringida:

Apesar de a dinâmica da economia brasileira ter passado, a partir dos anos 30, a ser determinada internamente, tratava-se de um processo de industrialização ainda incompleto, uma vez que os setores produtores de bens de capital e de bens intermediários, os chamados bens de produção, eram muito pouco desenvolvidos no país. Por isso, João Manuel Cardoso de Mello denominou esse período, que se estende até o início da implantação do Plano de Metas no governo JK de “industrialização restringida”. Nesse quadro, as bases técnicas e financeiras da acumulação são insuficientes para que se implante, num golpe, o núcleo fundamental da indústria de bens de produção, que permitiria à capacidade produtiva crescer adiante da demanda, autodeterminando o processo de desenvolvimento industrial.

5. Qual foi o projeto nacional que se tentou implantar durante o Estado Novo?

Além de representar o fim da descentralização republicana, fruto do próprio enfraquecimento da oligarquia cafeeira, o Estado Novo foi uma tentativa de afirmação de um projeto nacional, no qual caberia ao Estado assumir o papel de indutor do desenvolvimento industrial, quer implantando agências governamentais para a regulação das atividades econômicas, quer estabelecendo uma nova legislação trabalhista, quer ainda assumindo o papel de produtor direto, com a construção da usina siderúrgica de Volta Redonda, marco do desenvolvimento industrial nacional.

Analistas observam que, nos processos de industrialização do século XX, período do capitalismo monopolista, com predomínio das grandes corporações, as escalas técnicas e financeiras requeridas para o avanço da industrialização estavam muito acima das forças dos capitalistas locais. Como na década de 30 ainda não fazia parte da estratégia das empresas capitalistas produzir em outros países (especialmente nos países subdesenvolvidos), a única possibilidade de implantar grandes projetos de indústrias de bens de produção concentrava-se na ação estatal – essa era a proposta de Vargas.

Logo após o golpe de 1937, o forte aumento das importações provocou escassez de divisas e forçou o governo a adotar o monopólio cambial, com uma taxa única desvalorizada e com um sistema de controle cambial similar ao vigente entre 1931-34. O objetivo imediato era reduzir o nível agregado de importações. Era uma repetição de uma situação comum na economia brasileira: a convivência quase permanente com crises cambiais, permeadas por alguns momentos particulares de tranquilidade relativamente às divisas externas e à capacidade de cumprimento dos compromissos assumidos pelo país.

Somente em 1941 a balança comercial passou a ser superavitária, com o aumento das exportações e recuperação dos preços do café. Apesar da diminuição das importações, a produção industrial, após sofrer forte queda no crescimento, voltou a crescer mesmo com a séria escassez de bens de capital importados.

6. Como evoluiu o crescimento industrial do país no pós-guerra, durante o Governo Dutra?

A posição liberal inicial do governo Dutra, bem como sua contraposição ao intervencionismo de Vargas, apoiava-se no que Besserman Vianna chama de “ilusão de divisas” (pois o volume de reservas internacionais do país parecia bastante confortável) e na certeza de que o Brasil era credor político dos EUA por sua colaboração na 2a GM. Acreditava-se que uma política liberal de câmbio seria capaz de atrair investimentos diretos estrangeiro, equilibrando o estruturalmente o balanço de pagamentos brasileiro.  Assim, o mercado livre foi instituido, com a abolição das restrições e do controle dos fluxos de divisas por parte do governo (existentes desde os anos 1930). O resultado foi a queima de divisas, só em parte gasta com importação de máquinas e matérias-primas essenciais.

Em 1947, diante da impossibilidade de sustentar a política anterior, voltam os controles cambiais, enquanto o país enfrente uma escassez de moedas fortes. O sistema de licenciamento de importações reduziu o déficit comercial.

A conjugação de uma taxa de câmbio sobrevalorizada com controle cambial, a partir de 1947, produziu um triplo efeito em benefício da industrialização substantiva de importações:

  1. subsídio às importações de bens de capital e bens intermediários
  2. protecionismo contra importação de bens competitivos
  3. aumento da rentabilidade da produção para o mercado interno

Além disso, a política do Banco do Brasil de crédito à indústria foi bastante importante.

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Comments
One Response to “FAQ – Crise de 1930 e o Avanço da Industrialização Brasileira”
  1. Marcela disse:

    Quais Foram as Crises Na Industrialização do Brasil?

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