I. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA

Regina Célia Araújo / Manal da Funag de Geografia 2a edição.

 

I. SOCIEDADE E ESPAÇO: O CAMPO DE REFLEXÕES DA GEOGRAFIA

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1. O Espaço Geográfico

As sociedades humanas, ao produzirem sua vida material e sua história, modificam os ambientes naturais e produzem também espaço. O processo de humanização da natureza e de transformação desta em recurso produtivo resulta na produção social de formas espaciais diferenciadas, ou, mais simplesmente, na produção do espaço geográfico. O geógrafo Milton Santos define espaço como acumulação desigual de tempos. Nessa perspectiva, o espaço geográfico é coagulação do trabalho social, materialização de idéias e de ações das sociedades sobre a natureza.

O espaço geográfico materializa atributos das sociedades que os produziram. Sendo assim, ele está em permanente mutação. O surto industrialista vivenciado pela Europa no século XIX, por exemplo, transformou radicalmente a geografia do continente: as precárias vias de circulação medievais e as modestas cidades – com ruelas estreitas que obedeciam a um plano radioconcêntrico – cederam lugar às ferrovias e às grandes aglomerações urbanas. A abertura contemporânea da economia brasileira para os fluxos globalizados de capitais e mercadorias está mudando a geografia das atividades produtivas do país, na medida em que os novos investimentos estão promovendo, ao mesmo tempo, uma desconcentração dos ramos industriais tradicionais pelo território e uma reconcentração das indústrias de base tecnológica em alguns pólos do Centro-Sul. Do mesmo modo, a integração crescente da economia chinesa com o mercado mundial está mudando a paisagem urbana das cidades
litorâneas, que adquirem as feições das modernas aglomerações urbanas ocidentais.

A geografia estuda uma realidade em permanente mutação, e não um objeto fixo. Ainda de acordo com Milton Santos, a paisagem, assim como o espaço, cristaliza em suas formas o passado e o presente das sociedades que a produziram:

“Uma região produtora de algodão, de café ou trigo. Uma paisagem urbana ou uma cidade de tipo europeu ou de tipo americano. Um centro urbano de negócios e as diferentes periferias urbanas. Tudo isto são paisagens, formas mais ou menos duráveis. O seu traço comum é ser a
combinação de objetos naturais e de objetos fabricados, isto é, objetos sociais, e ser o resultado da acumulação da atividade de muitas gerações.

Em realidade, a paisagem compreende dois elementos:

Os objetos naturais, que não são obra do homem nem jamais foram tocados por ele.

Os objetos sociais, testemunhas do trabalho humano, no passado como no presente.

A paisagem não tem nada de fixo, de imóvel. Cada vez que a sociedade passa por um processo de mudança, as relações sociais e políticas também mudam, em ritmos e intensidade variados. A mesma coisa acontece em relação ao espaço e a paisagem que se transforma
para se adaptar às novas necessidades da sociedade.

As alterações por que passa a paisagem são apenas parciais.

De um lado alguns dos seus elementos não mudam – pelo menos em aparência – enquanto a sociedade evolui. São as testemunhas dopassado. Por outro lado, muitas mudanças sociais não provocam necessariamente ou automaticamente modificações na paisagem. Considerada em um ponto determinado no tempo, uma paisagem representa diferentes momentos do desenvolvimento de uma sociedade.

A paisagem é resultado de uma acumulação de tempos. Para cada lugar, cada porção do espaço, essa acumulação é diferente: os objetos não mudam no mesmo lapso de tempo, na mesma velocidade ou na mesma direção.

A paisagem, assim como o espaço, altera-se continuamente para poder acompanhar as transformações da sociedade. A forma é alterada, renovada, suprimida, para dar lugar a uma outra forma que atenda às necessidades novas da estrutura social. “A história é um processo sem fim, mas os objetos mudam e dão uma geografia diferente a cada momento da história” dizia Kant, o filósofo e geógrafo.

[SANTOS, Milton. Pensando o espaço do homem. São Paulo:
Hucitec, 1986, p. 37-38.]

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2. Teorias Geográficas da Relação Sociedade-Natureza

Os mais importantes pensadores da geografia criaram teorias diferentes acerca das relações entre a natureza, a história e o espaço geográfico. Como sempre acontece na história das ciências, essas teorias são também uma expressão do contexto histórico no qual surgiram.

Nas obras do geógrafo alemão Friedrich Ratzel, publicadas no último quartel do século XIX, o estudo da influência do meio – ou das condições naturais – sobre a humanidade ocupa lugar de destaque. Ratzel distinguia os povos naturais, aqueles que vivem submetidos às leis da natureza, dos povos civilizados, mais independentes com relação ao meio. Assim, o progresso consistiria na emancipação progressiva dos homens das determinações naturais, alcançado na medida em que as sociedades dominassem de maneira progressivamente mais plena os recursos naturais disponíveis em seu meio. O território dos povos civilizados seria a expressão de uma ligação completa e íntima entre sociedade e natureza:

“Chamamos naturais certos povos não porque eles vivem nas mais íntimas relações imagináveis com a natureza, mas porque vivem sob a constrição da natureza. A distinção entre povo natural e povo civilizado não deve ser buscada no grau, mas no seu modo de
dependência com a natureza. A civilização não é propriamente independência da natureza no sentido de uma separação completa, mas no sentido de uma união mais multíplice e mais ampla. O camponês que acumula o trigo no seu celeiro é tão mais dependente do seu campo
quanto o é o indiano que recolhe nos pântanos o seu arroz aquático, que não semeou; mas para o camponês esta dependência é menos grave, é para ele uma leve cadeia, que não o prende tão facilmente, porque ele foi bastante prudente para recolher provisões, enquanto qualquer vento forte que lance à água as espigas de arroz atinge o indiano de modo
vital. Não nos tornamos completamente livres da natureza pelo fato de a explorarmos e estudarmos mais a fundo; tornamo-nos cada vez mais independentes dos acidentes singulares do seu ser e agir na medida em que multiplicamos as ligações. Precisamente em razão da nossa civilização estamos unidos à natureza mais intimamente que todas as
gerações que nos precederam.

[RATZEL, Friedrich. Povos naturais e povos
civilizados. In: MORAES, Antônio Carlos Robert (Org.). Ratzel. São Paulo:
Ática, 1990, p. 122.]

Para Ratzel, a decadência ou o progresso de uma sociedade estariam ligados respectivamente à perda e à conquista de territórios, e o tamanho de um Estado seria indicador do grau de civilização de seu povo. Não por acaso, as suas teses foram associadas ao expansionismo latente da Alemanha do século XIX. De acordo com ele:

“Para a geografia política, cada povo, localizado na sua área essencialmente delimitada, representa um corpo vivo que se estendeu sobre uma parte da Terra e se diferenciou de outros corpos, que igualmente se expandiram por fronteiras ou espaços vazios. As populações estão em contínuo movimento interno. Ele se transforma em movimento externo, para diante ou para trás, quando se ocupa um novo trecho de terra ou se abandona uma possessão anterior (…).

A expansão dos horizontes geográficos, produto dos esforços físicos e intelectuais de inúmeras gerações, apresenta continuamente novas áreas para a expansão espacial das populações. Dominar politicamente essas áreas, amalgamá-las e mantê-las unidas requer
energia ainda maior: Tal energia só pode se desenvolver lentamente pela e através da cultura (…).

Vemos, acima de tudo, uma íntima relação entre expansão política e religiosa. Mas mesmo elas são ultrapassadas pela enorme influência do comércio, que ainda hoje atua como um impulso poderoso em todas as direções de expansão. Fornecendo apoio a todos esses
impulsos estão as pressões populacionais, que aumentam com a cultura, e que, tendo por sua vez promovido a cultura, levam à expansão devido às pressões espaciais (…).

Assim como a área do Estado cresce com sua cultura, vemos também que, nos estágios inferiores de civilização, os povos estão organizados em Estados menores. De fato, quanto mais descemos nos níveis da civilização, menores se tornam os Estados. Logo, o tamanho
de um Estado também se torna um dos parâmetros do seu nível cultural.

[RATZEL, Friedrich. As leis do crescimento espacial dos Estados. In:
MORAES, Antônio Carlos Robert (Org.), Ratzel. São Paulo: Ática, 1990,
p. 176-178.]

O geógrafo francês Vidal de La Blache esteve na origem de uma outra importante escola da geografia. Em suas obras, publicadas entre o final do século XIX e o início do século XX, La Blache propôs que, na relação histórica e cumulativa com a natureza – cujos recursos são desigualmente distribuídos –, os diferentes grupos humanos criariam “gêneros de vida” particulares. O contato entre “gêneros de vida” diferentes explicaria o contínuo aumento das fronteiras ecúmenas da terra, pela difusão de técnicas e hábitos ou pela complementariedade dos recursos naturais, realizada pelo comércio.

O progresso residiria, então, na ampliação da capacidade produtiva e no progressivo enfrentamento das limitações impostas pela natureza, resultante desse contato:

“Observe em um mostruário de museu o espólio de vestuários, armas e adereços do mundo melanésio: nas conchas, escamas de tartarugas, dentes, espinhas, madeira e fibras vegetais, podemos reconhecer as características do meio litoral e equatorial; nos ornamentos dos índios brasileiros, encontramos as coloridas plumas das aves da floresta, nos pastores das savanas africanas, as peles de rinocerontes e as correias de couro de hipopótamo. Pode-se recorrer a inúmeros exemplos de modos de vida inspirados diretamente no meio ambiente. Excluindo-se os incêndios e os desbravamentos temporários, esse meio foi pouco modificado, o mundo vegetal e animal permanece no estado de natureza; quase nada se buscou no exterior: Por outro lado, quando olhamos a nossa volta, nas regiões de alta civilização, vemos que os nossos campos, os nossos prados e até mesmo a nossa floresta em parte são artificiais, que os nossos companheiros, vegetais e animais, são aqueles que escolhemos, e que os muitos instrumentos e materiais que usamos podem ser também utilizados em meios físicos diferentes. De um lado, civilizações autônomas; de outro, civilizações nas quais o meio natural não se distingue senão através das complicações de elementos heterogêneos. Parece que há um abismo entre esses rudimentos de cultura, expressão de meios locais, e esses resultados de progresso acumulados de que vivem as nossas civilizações superiores. Uns são tão exatamente decalcados dos lugares onde se encontram, que não podemos transportá-los nem imaginá-los em outra parte; os outros são dotados da faculdade de transmitir-se e de se espalhar:

[LA BLACHE, Paul Vidal de. Principes de Géographie
Humaine. Paris: Editions Utz, 1990, p. 209.]

As cidades, lugar de encontro por excelência, funcionariam como verdadeiras “oficinas de civilização”. Para muitos estudiosos, as teses de Vidal de La Blache operaram no sentido de apresentar uma justificativa ideológica para o colonialismo francês na África e na Ásia, já que, a partir delas, foi possível argumentar que a difusão do “gênero de vida” europeu pavimentaria o caminho do progresso nesses continentes.

O pensamento geográfico sofreu grandes alterações desde o século XIX. Os conceitos e as teorias fundamentais da disciplina foram problematizados e novas e importantes correntes teóricas surgiram, muitas das quais fundadas na dimensão espacial da dinâmica das contradições sociais. Do mesmo modo que as demais ciências humanas, a geografia viveu um processo de especialização acadêmica, ediferentes arcabouços conceituais sustentam cada uma das suas áreas. A Geografia Econômica, por exemplo, dedica-se à análise da espacialidade dos processos e estruturas produtivas e à formulação das mais diversas teorias de localização. A Geografia Histórica preocupa-se com a formação dos territórios e com a história dos espaços e dos lugares, valendo-se de métodos investigativos caros aos
historiadores. A Geografia Cultural abrange temas como a percepção do espaço na vida cotidiana e no universo cultural, além de estudar a construção social de identidades baseadas em lugares. A Geografia Política desvenda as complexas relações entre os Estados e os territórios e as dimensões políticas dos fenômenos de configuração do espaço.

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