FAQ – O Milagre Brasileiro

O que se convencionou chamar de milagre econômico brasileiro foi um período de intenso crescimento do PIB e da produção industrial entre 1968 e 1973. A economia brasileira beneficiou-se do grande crescimento do comércio mundial e dos fluxos financeiros internacionais para aumentar sua abertura comercial e financeira em relação ao exterior (in “Economia Brasileira”)

1. Faça um breve apanhado sobre o comportamento da economia mundial no pós-guerra:

Eric Hobsbawm chama o período compreendido entre o pós-guerra e a década de 1970 de Era de Ouro da economia capitalista, referindo-se ao enorme desenvolvimento das economias no período, sobretudo as do Japão, Alemanha, Espanha e Taiwan. O fenômeno provocou um intenso crescimento dos fluxos mundiais de comércio e de capitais financeiros, possibilitando um salto industrial mesmo em alguns países subdesenvolvidos. Inclua-se nesse grupo o Brasil a partir de finais da década de 1960.

2. Qual foi o diagnóstico do processo inflacionário brasileiro elaborado por Delfim Netto, que assumiu a direção da economia em 1967?

À frente da equipe econômica de seguidos governos militares, Delfim Netto entendia que, após o ajuste das contas públicas efetuado pelo PAEG e com os salários rigidamente controlados, a inflação passou a apresentar um forte componente de custos, decorrentes da grande capacidade ociosa existente e dos altos custos financeiros. A solução para a continuidade da queda da inflação seria a retomada do crescimento econômico, tendência verificada em toda a economia mundial da época. Para isso, era fundamental que se adotasse uma política monetária expansiva e que houvesse um grande aumento do crédito ao setor privado, estimulando a produção para o mercado interno e externo.

3. Que departamentos da economia podem ser considerados responsáveis pelo crescimento econômico durante o milagre?

O novo ciclo de crescimento foi comandado pelos setores produtores de bens de consumo duráveis (crescimento de cerca de 23%) e de bens de capital (crescimento de cerca de 18%). Ou seja, manteve-se a mesma matriz de crescimento implantada durante o Plano de Metas, com aumento na abertura estrutural da economia para o exterior.

O crescimento da indústria de bens de consumo não duráveis manteve-se bem abaixo das taxas de crescimento dos outros setores, alcançando “apenas” cerca de 9% ao ano. A agricultura cresceu dentro de suas taxas históricas (cerca de 4,5%), depois de um crescimento medíocre no período 1961-67 – mas deve-se observar que seu crescimento foi maior nas culturas voltadas à exportação, enquanto na produção de alimentos básicos o crescimento oscilou na faixa de 2%, o que significa que a produção desses alimentos cresceu numa taxa inferior ao crescimento da população, diminuindo a disponibilidade média de proteínas por habitante.

4. O financiamento externo durante o milagre brasileiro era realmente imprescindível? Por quê?

De acordo com as autoridades econômicas da época, o capital externo que entrou no país sob a forma de empréstimos teria sido fundamental no financiamento do crescimento, justificando assim a intensificação do endividamento, e mesmo autores críticos da orientação da política econômica, como notadamente Paul Singer, admitem a importância do capital estrangeiro naquela conjuntura.

A dívida externa é uma das consequências das relações do país com o resto do mundo. Contabilmente, o estoque da dívida externa bruta é o resultado acumulado da parcela dos déficits em transações correntes não financiados pelo ingresso de capitais de risco ou pela redução das reservas internacionais do país. Os dados da balança comercial do Brasil no período considerado (1968-73) mostram que ela está rigorosamente equilibrada.

A única explicação para o extraordinário crescimento da dívida externa ao longo do milagre seria de origem financeira: o excesso de liquidez internacional diminuiu bastante as taxas de juros, tornando os empréstimos muito atraentes. Ao mesmo tempo, o sistema financeiro brasileiro, especialmente no setor privado, nunca se voltou para o financiamento produtivo de médio e longo prazo. Portanto, o aumento do endividamento ocorreu por causa da captação de recursos do exterior e seu repasse para empresas de dentro do país, sem uma necessidade estrita de empréstimos externos que financiassem grandes déficits em transações correntes. Segundo Paulo Cruz,

“a economia brasileira foi ‘capturada’, juntamente com outras várias economias, num movimento geral do capital financeiro internacional em busca de oportunidades de valorização”

Dois terços do aumento de endividamento total foram convertidos em reservas.

5. Como evoluíram os indicadores sociais durante o milagre econômico?

A questão social foi um dos grandes questionamentos do milagre – o que se dizia era que “a economia ia bem, mas o povo ia mal”. O intenso crescimento durante o milagre trouxe grandes benefícios para as classes de maior renda, incluindo-se aí a parte da classe média assalariada que fornecia os quadros técnicos necessários à gestão da economia, como engenheiros, economistas, administradores, analistas de sistemas, etc. A renda concentrou-se ainda mais em consequência da diminuição do valor real do salário mínimo. A apropriação da renda pelos 50% mais pobres passou de 17% em 1960 para 15% em 1970, enquanto para os 10% mais ricos, evoluiu de cerca de 40% para cerca de 48% no mesmo período.

Houve certa recuperação do salário mínimo em termos reais até 1973, mas a retomada inflacionária a partir de 1974, não captada pelo IGP manipulado, infringiu uma nova queda. Entre 1964 e 74, o salário mínimo acumulou perdas de poder aquisitivo da ordem de 42%.

As consequências da política de exclusão social desse período foram dramáticas e podem ser sintetizadas no agravamento das condições de saúde da maioria da população, que se deteriorou a ponto de ocorrerem epidemias como a de meningite e no fato de voltarem a crescer as taxas de mortalidade infantil em todo país.

Essa forma de crescimento da produção industrial e agrícola, especialmente voltada a exportação, foi classificada por Fernando Fajnzylber como “competitividade espúria”, pois estava baseada no agravamento das questões sociais a partir da deterioração da relação salário/câmbio. Já Rui Mauro Marini e Theotônio dos Santos desenvolveram o conceito de “superexploração dos trabalhadores” para explicar esse tipo de acumulação, similar ao dos períodos de acumulação primitiva, em que não eram respeitados os direiros políticos e sociais das classes trabalhadoras.

6. Quais eram os limites estruturais do crescimento dependente?

No ápice do ciclio expansivo, em 1973, um conjunto de contradições decorrentes do desenvolvimento se manifestaria. A principal delas foi o enorme aumento de importação de bens de produção resultante de uma industrialização em grande desproporcionalidade departamental, dado que o Departamento I da economia era insuficientemente desenvolvida.

Isso provocou o surgimento de focos de tensão inflacionária e o reaparecimento de déficits comerciais. As pressões inflacionárias foram ainda incrementadas pelos aumentos dos salários, que começavam a se recuperar em função do enorme aumento da demanda por trabalhadores. Além disso, o grande aumento da agricultura para a exportação reduziu a produção de alimentos e matérias-primas para consumo interno, gerando pressões adicionais sobre os preços. Com o 1o choque do petróleo em 1973, essas tensões inflacionárias se amplificaram ainda mais.

O peso dos serviços na conta das transações correntes também começou a aumentar, em decorrência do aumento de juros no mercado financeiro internacional. Esse déficit era coberto com crescente endividamento, com base na avaliação de que as turbulências da economia mundial seriam passageiras.

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One Response to “FAQ – O Milagre Brasileiro”
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  1. Consumo « disse:

    […] ao financiamento ao consumidor, com prazos que poderiam inclusive superar dois anos. Durante o Milagre Econômico Brasileiro, o principal setor a puxar o crescimento foi o de bens […]



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