História da Argentina – Parte II

O Processo de Consolidação

Algumas regiões do Rio da Prata estavam tão interessadas em tornarem-se independente de Buenos Aires quanto da Espanha. Em 1811, sob o comando de Francia, o Paraguay produziu sua própria declaração de independência.

Em 1812 as vitoriosas batalhas em que Manuel Belgrano libertou Tucumán e Salta asseguraram o êxito da independência e permitiram que José Gervasio Artigas reunisse o primeiro Congresso da Independência em Arroyo de la China, atual Concepción, Uruguai, em março e abril de 1815. As campanhas militares lideradas pelo general José de San Martín e Simón Bolívar entre 1814 e 1817 incrementaram as esperanças de independência da Espanha, que foi declarada finalmente em Tucumán em 9 de julho de 1816 Esta é a data oficial da independência da Argentina apesar das comemorações se darem em 25 de Maio fazendo referência ao início do processo de independência que começou em 1810.

Em 1820, José de San Martín preparava um exército destinado a libertar o Chile e o Peru declarando sua independência. Em 26 de junho de 1822 celebrou-se a histórica reunião com Simón Bolívar. Os ventos (e os líderes) da Independência da Argentina sopraram para as demais colônias espanholas na América do Sul.

Os argentinos consideram San Martín — que realizou a campanha de independência da Argentina, Chile e Peru — como herói de sua emancipação e “Pai da Pátria”.

Após a derrota dos espanhóis, as disputas internas se deram entre os ‘unitários’ e os ‘federais’. Iniciou-se um longo conflito para determinar o futuro da Nação. Em 1820, com a Batalha de Cepeda, iniciou-se um período de autonomias provinciais e guerras civis sendo que a união entre as províncias só se manteve graças aos chamados tratados interprovinciais. Na prática as províncias eram autônomas por cerca de 40 anos. Os caudilhos provinciais dominaram o mapa político e manejavam seus redutos com exércitos próprios.

Os Governos Constitucionais

Governo Rivadavia

Em 1826 o Congresso nomeou o primeiro presidente constitucional, Bernardino Rivadavia. Rivadavia era um Centralista que já mostrara anteriormente seu modo de governar quando exerceu o cargo de ministro de governo da província de Buenos Aires em 1821. Neste período o governo provincial focou, principalmente, nos melhoramentos da cidade de Buenos Aires, freqüentemente repartindo o seu custo com todo o país, para torná-la uma cidade com ares mais europeus. Rivadavia construiu largas avenidas, escolas, calçamento de ruas e iluminação pública e fundou a Universidade de Buenos Aires, assim como dos cursos de teatro, geologia e medicina.

Durante seu governo federal a partir de 1826, ele criou diversos museus e expandiu a biblioteca nacional e protagonizou escândalos de corrupção. Na economia e política o governo ia mal, a guerra que ocorria com o Brasil referente à Província Cisplatina, atual Uruguai, esvaziava os caixas e, ao mesmo tempo, várias rebeliões provinciais foram deflagradas já que o governo unitário estava longe de se estabelecer.

Rivadavia renunciou ao governo em 1827 e se exilou na Europa. Foi sucedido por Vicente López y Planes.

Governo Lopez y Planes

Alejandro Vicente López y Planes (1785 – 1856) assumiu interinamente entre 7 de Julho a 18 de Agosto de 1827 até que a legislatura provincial (de base federalista) elegeu Manuel Dorrego como governador em 12 de agosto.

Lopez y Planes, além de político, foi escritor e advogado e autor da letra do hino nacional argentino, adotado em 11 de Maio de 1813.

Governo Manuel Dorrego

Dorrego adotou uma postura favorável à autonomia provincial durante seu governo. Formou seu governo por estancieiros conservadores e reconheceu, como general da milícia do sul, Juan Manuel de Rosas (futuro ditador argentino). Empenhou-se na restauração das relações com os caudilhos do interior e na construção de uma base política popular na província de Buenos Aires, o que resultou em uma vitória expressiva nas eleições provinciais de maio de 1828.

Este fato alarmou os unitários portenhos, que acusaram Dorrego de participação fraudulenta no processo eleitoral e, mediante a possibilidade de não recuperarem o poder ao federalista popular, conspiraram um golpe de Estado contra um governo legalmente constituído.

O fato que gerou a oportunidade para os golpistas foi a celebração do acordo entre Brasil e Argentina que reconheceu a independência do Uruguai assinado em 5 de setembro de 1828.

Ainda que o novo acordo fosse melhor que este anterior (que cedeu a província cisplatina para o Brasil), os unitários se mostraram insatisfeitos. Dentre estes estava Juan Galo Lavalle, ex-soldado e herói da independência argentina e que, no momento do acordo, era o comandante das tropas portenhas no Uruguai. Ao tomar conhecimento da assinatura do tratado, Lavalle organizou suas tropas e marchou rumo à Buenos Aires.

Com a chegada de Lavalle e sua tropa à Buenos Aires ao final de novembro de 1828, os unitários ignoraram os princípios de defesa da democracia institucional que, até então, defendiam na retórica, e se uniram ao movimento militar de Lavalle e derrubaram o governo em 1 de dezembro de 1828.

Lavalle assume o governo e Dorrego foge, porém é logo capturado e executado sumariamente pelo governo golpista em 13 de dezembro do mesmo ano, fato que deu início a uma nova guerra civil entre unitários e federais.

Guerra Civil e governo de Juan Manuel de Rosas

Juan Manuel José Domingo Ortiz de Rozas y López de Osornio encabeçou um levante popular que triunfou em Buenos Aires e no resto do litoral, enquanto que as províncias do interior permaneciam no campo unitarista. Depois de ter capturado o general unitário Paz, o interior foi reconquistado e a Argentina voltou à unidade.

Governou Buenos Aires entre 1829-1832. Este era um período de autonomia das províncias, entretanto os governadores de Buenos Aires tiveram status de presidente, principalmente os que atuaram pela unidade nacional mesmo que seja através de pactos federativos (como defendiam os ditos ‘federais’).

Renunciou por não lhe serem concedidos poderes absolutos, deixando o posto com um homem de sua confiança, Balcarce, que logo o trairia. Mesmo assim, Rosas seguiu dominando a situação como comandante em chefe do exército.

Governo Balcare e 2º Governo Rosas

Juan Ramón Balcarce governou Buenos Aires entre 1832 e 1835, parte sob as rédeas de Juan Manuel de Rosas, pois houve um rompimento e Rosas novamente assumiu o poder. Seu governo não teve grandes realizações e sua falta de liderança propiciou um afastamento político entre as províncias argentinas neste período.

Em seu segundo governo, Rosas tenta legitimar seu governo através de um plebiscito onde ele obtém uma vitória esmagadora. Seu governo foi longo e ditatorial, de 1835 até 1852 quando foi deposto por um novo levante militar.

Nesse período a Argentina enfrentou o bloqueio da armada francesa (1838) e o enfrentamento à Confederação Peruano-Boliviana, tentativas de golpe de Lavalle e intervenção da esquadra Britânica. Em 1842, com apoio dos governadores do interior e após conseguir um tratado com a França, alcançou um poder absoluto sobre o território argentino.

Apoiou-se nas massas federais (camponeses, gaúchos, negros), organizou o Partido Restaurador Apostólico e manteve o país numa perene cruzada contra os unitaristas , exterminando seus inimigos. Seu governo ditatorial conseguiu a estabilidade política interna, manteve a integridade nacional e favoreceu o crescimento econômico.

Em 1850 o General Urquiza, governador da Província de Entre Ríos, se rebelou com o apoio dos unitaristas e dos Governos do Brasil e de Montevidéu. Iniciou-se o golpe com a invasão de Santa Fé e a marcha sobre Buenos Aires e o concluiu com a vitória sobre as tropas de Rosas na Batalha de Monte Caseros em 1852.

Governo Urquiza

Mediante a um conturbado ambiente interno, onde Buenos Aires praticamente se regia como um Estado Independente, O General Justo José de Urquiza y García organizou o Congresso Constituinte de Santa Fé (1853), que aprovou no ano seguinte uma Constituição de caráter republicano, representativo e federal.

Urquiza foi proclamado presidente da Confederação ainda à revelia de Buenos Aires em 1852. Em 1853 a Assembléia Constitucional promulgou uma constituição que permanece até então com pequenas modificações e se converteu no primeiro presidente constitucional em março de 1854.

Durante sua presidência foram melhoradas as relações exteriores, se impulsionou a educação pública, se promoveu a colonização e se iniciaram planos para a construção de ferrovias. Seu trabalho de organização nacional foi, entretanto, atrapalhado pela oposição de Buenos Aires, que saiu da Confederação, e iniciou uma guerra em 1859 que foi finalizada no ano seguinte com um acordo onde Buenos Aires fizeram emendas à constituição.

Desta forma foi eleito Santiago Derqui para presidente e Urquiza e Bartolomé Mitre foram nomeados governadores de Entre Ríos e Buenos Aires, respectivamente.

Governo Santiago Derqui

Seu breve governo — dezoito meses, entre 1860 e 1861— acabou com sua renúncia ao cargo depois da derrota da Confederação Argentina na Batalha de Pavón.

Os acordos passaram longe de amenizar os conflitos internos e guerra civil recomeçou. Na Batalha de Pavón. Bartolomé Mitre derrotou Urquiza e, em seguida foi eleito presidente constitucional por um período de seis anos.

Novos Governos Constitucionais

Governo Bartolomé Mitre

Somente em seu governo que se obteve, de fato, unidade do país e se iniciou um período de relativo progresso. Durante sua presidência se organizou a administração da justiça, que deixou de ser um assunto privado (onde o caudilho regional vencedor decidia sobre a sorte dos vencidos) para passar a ser uma atribuição do Estado nacional.

Também marca seu período o início da Guerra do Paraguai, chamada de guerra da tríplice aliança pelos argentinos e grande guerra pelos paraguaios, onde a Argentina, aliada a Brasil e Uruguai, enfrentou o Paraguai.

Governo Sarmiento

Domingo Faustino Sarmiento foi eleito em 1868 e, em seu governo, duplicou o número de escolas públicas e construiu por volta de 100 bibliotecas públicas. A imigração européia também foi incentivada.

Durante sua presidência, concluiu-se a Guerra do Paraguai, na qual a Argentina anexou às custas do Paraguai, o território que hoje corresponde à província argentina de Formosa.

Em 1870, Justo José de Urquiza foi assassinado durante uma revolta contra o governo central. Em 1874, Sarmiento entregou a presidência ao seu sucessor, Nicolás Avellaneda. Posteriormente, Sarmiento iria se opor ao regime conservador e excludente liderado pelo general Julio Argentino Roca e seus últimos anos de vida foram de contestação política e intelectual, a famosa “La Vejez de Sarmiento”.

Os Governos do PAN (Partido Autonomista Nacional)

O Partido Autonomista Nacional foi fundado em 1874 com a união do Partido Autonomista de Adolfo Alsina e Nacional de Nicolás Avellaneda.

Governo Nicolás Avellaneda

Em 1874 assumiu a presidência em meio a acusações de fraude e enfrentou um levante de Bartolomé Mitre, o qual sufocou em poucos meses.

Enfrentou uma crise econômica com diminuição de gastos públicos, demissão de funcionários e redução de salários. Mais tarde iniciou-se a exportação de carne argentina nos primeiros navios frigoríficos. Em 1876 impulsionou a Campanha do Deserto do Ministro da Guerra, general Julio Argentino Roca, o qual avançou sobre terras indígenas ao norte e liberou milhões de hectares para a instalação de instâncias.

Em 20 de setembro de 1880, o Congresso Nacional declarou Buenos Aires capital da República Argentina.

Durante essas ultimas gestões de maior estabilidade política surgiu o que podemos considerar uma Argentina como estado moderno. Uma característica desse período é o incentivo massivo à imigração européia (principalmente italiana) e investimento vigoroso em educação primária que fez o pais ter a população com mais anos de educação formal da América Latina. A prosperidade econômica foi grande com o aumento da exportação de carnes, grãos e lã para a Europa e Estados Unidos.

Governo Julio Argentino Roca

Seguindo a política consolidada no período anterior, com 37 anos de idade, Roca foi o mais jovem presidente da Argentina em toda sua história. Seu governo levou a uma grande prosperidade da nação, alimentada por uma maciça imigração européia, a construção de ferrovias e o desenvolvimento das exportações agrícolas, e assentou as bases do moderno Estado argentino. Separou efetivamente a Igreja do Estado, sancionando as leis de Registro Civil e de Matrimônio Civil, o que levou a romper relações diplomáticas com o Vaticano. Deu um extraordinário impulso à educação mediante a Lei 1420 (iniciativa de Sarmiento, então diretor do Conselho Nacional de Educação) que estabelecia o ensino primário gratuito, obrigatório e laico para todos os habitantes do país. Entretanto, a especulação financeira e a corrupção se destacaram durante seu governo que se sustentou, em parte, por fraudes eleitorais.

Conduziu a mesma política de genocídio aos indígenas e purificação étnica que já fora adotada nos pampas. Com um exército moderno e bem preparado, submeteu a Patagônia, vencendo a tenaz resistência dos povos originais de etnia mapuche, causando uma grande quantidade de vítimas e expulsando as populações restantes para áreas periféricas. Se estima que a campanha causou diretamente a morte de uns 20.000 indígenas.

Governo Miguel Juaréz Celman

Em 1886 assumiu Miguel Juaréz Celman, cunhado de Roca, que renunciou, sob pressão, em 1890.

Também mantendo a política educacional e de imigração dos governos anteriores, deu grande impulso às obras públicas, porém foi incapaz de manter a estabilidade econômica.

O Eurocentrismo se refletiu nas obras públicas que tinham o intuito de tornar Buenos Aires semelhante as capitais européias. Em seu governo foram erguidos o Teatro Colón, numerosas escolas, e expandida a infra-estrutura sanitária da cidade. O porto de Buenos Aires foi reformulado, de acordo com projeto do engenheiro Eduardo Madero. Celman promoveu também a privatização de ferrovias, julgando que tal serviço não devia permanecer em mãos estatais.

Criou um registro público de propriedades imóveis, sancionou as leis do Matrimônio Civil e os códigos de mineração, penal e de comércio. A face legalista do governo, porém, contrastava com acusações de corrupção, baseadas sobretudo na concessão de obras a pessoas de seu círculo íntimo, mas também na especulação imobiliária e financeira dos membros do governo, além do excesso de gastos públicos. Os excessivos gastos criaram uma situação de instabilidade financeira. Em fins da década de 1880 o banco Baring Brothers exigiu pagamentos que drenaram as reservas de ouro do país, levando à inconversibilidade da moeda e à inflação. Em 1890 numerosas greves exigiram melhorias salariais. Em 26 de julho daquele ano inicia a chamada Revolução do Parque comandada por Leandro N. Alem.

Apesar da repressão aos inssurreitos, Juárez Celman renunciou poucos dias depois, em 6 de agosto de 1890. Carlos Pellegrini, seu sucessor, teve que enfrentar uma situação na qual a dívida externa da Argentina superava 60% do Produto Interno Bruto, e onde a maioria dos bancos havia fechado suas portas.

Em 1891, Leandro N. Alem. Funda a UCR, (União Cívica Radial) que é o partido político de classe média mais antigo das Américas.

Nesse momento, a disputa política na Argentina se polariza entre os Radicais da UCR e os Autonomistas do PAN (Partido Autonomista Nacional).

Governo Carlos Pellegrini e seguintes

O vice-presidente Carlos Pellegrini assume em 1890 após a renúncia de Celman e completou o mandato em 1892. Governou para sanear dívidas e criou o Banco de La Nacion Argentina.

Depois foi sucedido por Luis Sáenz Peña (1892), José Evaristo Uriburu (1895), Julio Argentino Roca (1898), Manuel Quintana (1904), José Figueroa Alcorta (1906), Roque Sáenz Peña (1910) e Victorino de la Plaza (1914).

O período de 1880 a 1929 o país teve grande prosperidade econômica, mas caiu na armadilha de ser apenas fornecedor de matérias primas e ficar dependente das importações dos produtos industrilizados.

Assim como também ocorreu no Brasil, os governos republicanos da época foram aliados das oligarquias latifundiárias e as forças conservadoras dominaram a política local até, pelo menos, 1916, quando a lei Sáenz Peña implantou o sufrágio universal que permitiu a eleição de Hipólito Yrigoyen.

Pode-se entender que o PAN é o partido que herdou a política dos antigos Federalistas, já que estes eram ligados aos grande produtores rurais que eram considerados caudilhos, pois controlavam seus territórios com força militar, que lhes permitiam uma certa autonomia em relação ao governo central que tentava se estruturar.

O centenário da independência

Apesar da prosperidade econômica argentina, o país estava marcado por grandes desigualdades regionais e sociais.

Em 1910 completou-se o centenário da Revolução de Maio, passo inicial para a independência. O Governo argentino, presidido por José Figueroa Alcorta, decidiu organizar as festividades da data, como um acontecimento internacional ao qual estiveram presentes personalidades de todo o mundo. Compareceram a Infanta Isabel, da Espanha; o presidente do Chile, Pedro Montt e representantes de numerosos países. Os presidentes da Bolívia e do Brasil estiveram ausentes devido às más relações diplomáticas com a Argentina. A capital, Buenos Aires, foi o centro dos festejos, com diversas cerimônias organizadas pelo governo e particulares.

Paralelamente às festividades, os sindicatos expressaram seu descontentamento com a desigualdade social e econômica. A CORA e a FORA, dirigidas por correntes socialista, sindicalista revolucionária e anarquista, realizaram protestos e ameaçaram promover uma greve geral. Pediam o fim da Lei de Residência, que dava ao governo a possibilidade de expulsar estrangeiros sem o devido processo legal. O governo impôs estado de sítio e a polícia reprimiu os manifestantes. Os partidos operários se fragmentaram e a greve não se realizou.

Para a elite argentina, o ato do Centenário foi uma demonstração do poder e grandeza que perduraria por alguns anos.

Os governos radicais (1916-1930)

Os Radicais eram os políticos da UCR (União Cívica Radical).

Com a chegada dos radicais ao poder, houve uma declaração de princípios: a Causa contra o Regime Anterior, focado na classe alta e latifundiária, a Reparação Histórica, a recuperação da ética e o respeito ao Federalismo.

Com a unidade nacional já estabelecida o federalismo era algo consensual entre os partidos. O desafio era manter o respeito à autonomia constitucional das províncias já que existia uma tentação centralizadora dos presidentes que tanto geraram conflitos e guerras contra as províncias e suas lideranças regionais.

Primeiro governo de Yrigoyen (1916-1922)

Com a promulgação da Lei Sáenz Peña, a Argentina teve suas primeiras eleições livres, com sufrágio universal e secreto. Yrigoyen foi eleito e assumiu a presidência em 1916. Este período é conhecido pela história argentina como “A Etapa Radical”, que se segue até 1930, quando é interrompido por um golpe de Estado.

O governo privilegiou um setor anteriormente esquecido, a classe média. Entre as ações mais importantes do 1º mandato de Yrigoyen estão a criação da Yacimientos Petrolíferos Fiscales (YPF), a reforma universitária e a criação da Marinha Mercante Nacional.

O país teve grande fomento econômico neste período devido à Primeira Guerra Mundial quando os países em guerra importaram produtos primários em grande quantidade.

Governo de Alvear (1922-1928)

As eleições presidenciais ocorreram em 2 de abril de 1922. A UCR obteve 450.000 votos, equivalente a 50% dos votos. Os adversários eram os Conservadores da ‘Concentração Nacional’ os Socialistas do ‘Partido Socialista’ e os Liberais do Partido Democrata Progressista. que obtiveram respectivamente 200 mil, 75 mil e 75mil votos.

Marcelo Torcuato de Alvear desenvolveu uma presidência diferente de seu antecessor: as medidas de transformação econômica, política e social delineadas no governo de Yrigoyen foram atenuadas, quando não revertidas, como no caso da Reforma Universitária.

Houve grande conflito entre os partidários da UCR, fragmentando o partido. De um lado, os ‘antipersonalistas’, que apoiavam o presidente; do outro, os aliados de Yrigoyen, os ‘personalistas’. As duas ramificações da UCR apresentaram candidatos distintos para a eleição presidencial de 1928, entre eles o próprio Yrigoyen, concorrendo a um segundo mandato, sendo reeleito com aproximadamente o dobro de votos de seu oponente.

Segundo governo de Yrigoyen (1928-1930)

Hipólito Yrigoyen é reconduzido ao cargo em 12 de outubro de 1928. No ano seguinte se inicia a Grande Depressão mundial. O novo governo não conseguiu reagir à crise. A divisão e o enfrentamento entre setores internos da UCR criou um nível de violência política inédito desde o fim das guerras civis.

O presidente ordena intervenção federal nas províncias de Mendoza e San Juan, governadas por movimentos radicais dissidentes. Ao final, um personalista assassinou um senador da Província de Mendoza. O crime causou comoção no país e, pouco tempo depois, Yrigoyen sofreu um atentado de um militante anarquista ao sair de sua casa em direção à sede do Governo. No início de 1930 houve um novo assassinato em uma província sob intervenção federal: o advogado Manuel Ignacio Castellano, oponente de Yrigoyen.

As eleições parlamentares de março causam uma derrota acachapante do radicalismo na cidade de Buenos Aires, onde o Partido Socialista Independente obtém a vitória. O radicalismo personalista foi derrotado pela oposição em todo o país por cerca de 40 mil votos.

Com a crise econômica e política, o governo de Yrigoyen ficou extremamente debilitado, faltando ainda quatro anos para novas eleições presidenciais. A UCR encontrava-se totalmente dividida e o governo não dialogava com a oposição.

Trinta e sete dias após a YPF intervir no mercado petroleiro, com a fixação do preço e rompimento dos trustes, ocorreu outro golpe de Estado, em 6 de setembro de 1930. Assim, o general José Félix Uriburu derrota o governo constitucional, iniciando uma série de golpes de estado e governos militares que se estenderão até 1983.

Uma nova ditadura – A década infame

Os treze anos seguintes estariam dominados pelas consequências do golpe do general José Félix Uriburu, que ficou pouco tempo no poder, substituído brevemente por Agustín Pedro Justo, que ficou no cargo até 1938. No plano econômico mundial, o protecionismo impera entre os países. A Inglaterra anuncia a Convenção de Ottawa, que dá vantagens alfandegárias às suas colônias: devido à grande dependência argentina com o país, foi firmado o pacto Roca-Runciman em 1933, que privatizou o setor ferroviário do país em troca de vantagens na exportação de carne para o Reino Unido.

Esse novo grupo político que governou a Argentina durante a chamada Década Infame (governos Ortiz, Josto e Castillo) era uma aliança chamada ‘Concordancia’ que era composta pelo Partido Demócrata Nacional, A UCR antipersonalista e o Partido Socialista Independente.

Com o uso aberto de fraude eleitoral e repressão, a União Cívica Radical personalista foi sistematicamente excluída do governo. Surgiram então correntes nacionalistas apoiadoras de Yrigoyen, que formaram o ‘FORJA’ (Fuerza de Orientación Radical de la Joven Argentina). Também surgem os primeiros núcleos da intransigência radical, que conduzirá a UCR na década seguinte.

Lisandro de la Torre, do Partido Socialista, juntamente com seu aliado, o Partido Democrata Progressista, denunciaram no Congresso os sucessivos atos de corrupção em benefício da elite realizados pelo regime, o que incluiu o assassinato do senador Enzo Bordabehere dentro do Senado.

O movimento operário argentino também se organiza nesta época, formando a Confederação Geral do Trabalho (CGT).

Roberto Marcelino Ortiz governou de 1938 a 1942 e não negava as fraudes eleitorais. Era um radical “antipersonalista”, ou seja, opositor a Yrigoyen. Durante seu governo intermediou o pacto de paz entre o Paraguai e a Bolívia, que haviam se enfrentado nos anos anteriores na Guerra do Chaco. Por motivos de saúde deu lugar a seu vice, Ramón Castillo ocupou a presidência até 1943.

A partir de 1940 o governo adotou um novo modelo econômico denominado Industrialização por Substituição de Exportações. Formou-se a UIA (União de Industriais Argentinos), que foi tomando mais poder com o desenvolvimento da indústria, fomentado pelo governo.

Os setores que estavam a frente do governo privilegiaram as elites rurais e atrasaram significativamente o início da industrialização da Argentina que gerou um grande atraso no cenário internacional.

A revolução de 4 de Julho de 1943

Em 1943 ocorre novo golpe de estado na Argentina, pelas mãos do GOU (Grupo de Oficiais Unidos), jovens militares de tendências filofascistas, anticomunistas e ultracatólicas. O golpe é levado por Arturo Rawson, que imediatamente foi substituído por Pedro Ramírez. O então coronel Juan Domingo Perón ocupa inicialmente um cargo como secretário no Ministério da Guerra, em seguida diretor do Departamento de Trabalho e mais adiante Ministro da Guerra e vice-presidente.

O Peronismo (1945-1955)

A política argentina entre 1943 e 1944 começou a dar demonstrações de apoio à Alemanha, que começava a ser derrotada na Europa mas sustentado com matérias primas de origem argentina. Também um breve apoio ao Japão. Somente em 1945, último ano do conflito, é que a Argentina fez declaração formal de guerra à Alemanha.

Edelmiro Farrel, outro militar governou de 1944 a 1946 e assumiu uma política de aproximação com os Estados Unidos, sofreu oposição interna de Juan Perón, que tinha uma linha política própria, que incluía elementos do chamado ‘Populismo’ (nacionalista).

Farrel mandou prender Perón na ilha Martín García. Pode-se ter como data de início do movimento peronista 17 de outubro de 1945, quando as movimentações populares organizadas pela CGT conseguiram a libertação de Perón.

O primeiro governo de Juan D. Perón (1946-1955)

Nas eleições de 1946 Perón se apresentou como candidato do Partido Laborista (Trabalhista), tendo como vice um radical da dissidente Junta Renovadora. A aliança que Perón aglutinou era tão heterogênea e incoerente quanto suas idéias políticas. Estavam juntos: Os sindicalistas da CGT, Os Yrigoyenistas do FORJA e os conservadores das províncias do interior.

No outro lado também não tinha a coesão ideológica como forte: Estavam juntoas a UCR antipersonalista, a União Democrática, o Partido Socialista, O Partido democrata Progressista, O Partido Comunista, os conservadores da Província de Buenos Aires, e o embaixador dos Estados Unidos, Spruille Braden.

Perón foi eleito com 56% dos votos.

Após assumir a presidência, Perón começa rapidamente a consolidar seu poder. Internamente, dissolve o Partido Trabalhista e o integra ao novo Partido Peronista (chamado brevemente de Partido Único da Revolução), que contará com três vertentes: a sindical (da CGT, única associação sindical permitida), a política e, a partir de 1952, quando o direito de voto foi estendido às mulheres, a vertente feminina. Mais tarde se considerará a Juventude Peronista como quarta vertente do Movimento. Por outra parte, procedeu-se a remoção via juízo político dos membros da Corte Suprema e em 1949 convocou-se eleições para a Assembléia Constituinte que ditou uma nova Carta Constitucional de acordo com os princípios do mandatário.

O governo peronista foi particularmente duro com a oposição política e sindical: muitos dos seus dirigentes foram presos. Nas universidades do país removeram-se professores dissidentes e impulsionou-se a CGU — Central Geral Universitária — como representante dos estudantes em oposição à majoritária FUA (Federação Universitária Argentina). Com um critério similar, criou-se a UES (União de Estudantes Secundários). A partir de 1950, a situação econômica começa a piorar. Ainda assim, Perón volta a se eleger em 1951.

Em 1949 Perón reformou a Constituição de 1853, de maneira que pôde ser reeleito em 1951. Neste ano, Eva Perón tentou acender à nomeação de vice-presidente no segundo mandato de Perón. Apesar do respaldo da CGT, a oposição militar a conduziu à sua célebre renúncia em um ato na Avenida 9 de Julio. Evita morreu de câncer uterino, aos 33 anos, em 1952. Seu corpo foi embalsamado e mantido em exposição até o golpe militar que expulsou seu marido do poder em 1955. Clandestinamente o cadáver foi enviado à Itália e enterrado com nome falso em Milão. Em 1972 foi devolvido a Perón. Atualmente se encontra no cemitério de La Recoleta em Buenos Aires.

O estado de bem-estar e a economia no primeiro peronismo

A chegada do peronismo ao poder pela democracia produziu-se em pleno período pós-guerra, o qual significava a debilidade econômica da Europa em ruínas e a forte liderança dos Estados Unidos no hemisfério ocidental. Neste cenário, a Argentina se encontrava pela primeira vez em sua história na posição de credor dos países centrais, graças a suas exportações de carne e grãos às potências beligerantes. O principal devedor era o Reino Unido, que diante da emergência declarou sua iliquidez, bloqueando a livre disponibilidade de seus montantes. O governo peronista optou por utilizar estes créditos para adquirir empresas de serviço públicas de capital britânico, que de qualquer forma seus proprietários desejavam transferir, visto a inaptidão de continuar intervindo capitais.

A bonança econômica da Argentina continuava, impulsionada pelo crescente mercado que se havia formado pela baixa das importações provenientes dos países em guerra. Isto permitiu ao governo aplicar uma vasta política de bem-estar que incluía a efetivação de novos direitos sociais, como períodos de férias e descanso, planos de moradia, investimentos em saúde e educação, etc. Ao passo que todos estes benefícios eram largamente expostos em publicidade e capitalizados pelas figuras de Perón e sua mulher, que comandava uma fundação de assistência social financiada basicamente com fundos estatais e aportes empresarias (geralmente de caráter obrigatório), também as nacionalizações e estatizações dos serviços públicos, como as ferrovias britânicas, eram proclamadas como conquistas de soberania e independência econômica.

O tempo, porém, evidenciou que o modelo econômico não era sustentável, já que o Erário se destinava quase exclusivamente à distribuição de benefícios diretos para os assalariados — o que impedia novos investimentos e o crescimento da produção. O contexto mundial deixou de ser favorárel, já que os Estados Unidos, mediante o Plano Marshall, colocava seus excedentes agrícolas na Europa, o que limitava o acesso ao mercado dos alimentos argentinos.

A partir de 1950 a situação econômica começa a piorar e um novo ministro de Economia, Alfredo Gómez Morales, aplicou medidas de corte ortodoxas, como o ajuste do gasto público. Perón, que havia declarado uma vez que “cortaria suas mãos” antes que endividasse a Nação comprometendo sua independência econômica, contraiu um empréstimo com o Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento, além de firmar contratos de exploração petrolífera com companhias estadunidenses.

Com esta situação o governo começa a ter dificuldades políticas; um golpe militar (a Revolução Libertadora), liderado por Eduardo Lonardi, ocorre em 1955. Assim, Perón teve que se exilar, fixando-se por fim na Espanha — e mesmo no exílio continuou sendo popular para os argentinos.

De 55 a 76: Violência, instabilidade e conflito

Durante os anos 60 e 70 todos os governos eleitos foram derrubados por golpes militares. O conflito social e a violência política se intensificaram. Paradoxalmente a economia registrou um dos mais altos índices de crescimento do mundo. A partir da segunda metade da década de 60 os problemas sociais se agravam e aparece a insurgência guerrilheira de ERP e Montoneros, além de outras organizações armadas. Em 1972 Perón volta ao país e o claro triunfo do Peronismo nas eleições de 1973 é afetado pela morte do mesmo no ano seguinte. O país caminhava para uma tragédia.

A Revolução Libertadora (1955-1958)

Em 6 de setembro de 1955 as Forças Armadas, a mando do general Eduardo Lonardi, derrubam Perón e estabelecem a chamada Revolução Libertadora. Poucos dias depois, o general Pedro Eugenio Aramburu tirou Lonardi do cargo, tomou a presidência e revogou a Constituição Nacional reformada em 1949. O governo militar foi assessorado por uma Junta Consultiva Nacional, integrada por todos os partidos políticos com exceção dos que apoiavam o peronismo ou o comunismo.

Em 1956 o governo militar ordenou o fuzilamento de 31 militares e civis peronistas que haviam tentado dar um golpe de estado.

Em 1957 ocorrem eleições para reforma da Constituição, com o peronismo sendo ilegalizado. A União Cívica Radical do Povo, dirigida por Ricardo Balbín, obteve a primeira minoria, ainda que a quantidade de votos em branco do eleitorado peronista tivesse sido levemente superior. A União Cívica Radical Intransigente, dirigida por Arturo Frondizi, sustentou que a revogação da Constituição e a convocação de uma Constituinte com a proscrição do Peronismo eram atos ilegais, abandonando a Assembléia Constituinte em 1957. A Assembléia validou a revogação das reformas constitucionais de 1949, restabelecendo a Constituição de 1853 e agregou o artigo 14, sobre proteção ao trabalho.

Presidência de Frondizi (1958-1962)

Em 1958 Arturo Frondizi, pela União Cívica Radical Intransigente e com um projeto desenvolvimentista, ganhou as eleições presidenciais com apoio do peronismo ilegalizado. Seu governo foi economicamente alinhado com os Estados Unidos — fazendo parte da Aliança para o Progresso — e diplomaticamente independente, com apoio a Cuba após a imposição do embargo econômico estadunidense.

As reformas na indústria de base e infraestrutura implementadas durante o seu governo permitiram que a Argentina, na década seguinte, tivesse o mais alto índice de crescimento econômico do mundo. Devido à anulação da lei que proibia o Peronismo de existir legalmente e sua negativa em anular as eleições legislativas de 1962, onde o Peronismo teve grande vitória, foi destituído pelas Forças Armadas e preso.

Golpe militar e presidência de Guido (1962-1964)

O governo de Frondizi foi derrubado em 1962 por um golpe militar, depois da vitória do peronismo em várias eleições provinciais. Aproveitando a confusão, a Corte Suprema designou José María Guido, que era presidente provisório do Senado, como novo presidente do país, em seguida substituído por uma Junta de Comandantes.

Presidência de Arturo Illia (1963-1966)

Em 7 de julho de 1963 ocorrem novas eleições presidenciais, com a proscrição do peronismo, sendo eleito Arturo Umberto Illia, candidato da União Cívica Radical do Povo.

Illia assumiu em 12 de outubro de 1963. Seu primeiro ato de governo consistiu em eliminar as restrições que pesavam sobre o peronismo. Desde a Revolução Libertadora as manifestações deste partido estavam proibidas pelo Decreto 4161/56 — cinco dias após Illia ocupar o cargo, realizou-se um ato comemorativo pelo 17 de outubro na Praça Miserere sem nenhuma limitação. Também foram revogadas as restrições eleitorais, habilitando a participação do peronismo nos comícios legislativos de 1965. Também revogou-se a proibição ao Partido Comunista e se promulgou penalidades à discriminação e violência racial.

Em 15 de junho de 1964 é publicada a lei do salário mínimo, vital e móvel, que previa a constituição do Conselho do Salário, integrado por representantes do Governo, empresariado e sindicatos. Também foi promulgada a Lei de Abastecimento, destinada a controlar os preços da cesta básica e a fixação de valores mínimos de gratificações e pensões.

Arturo Frondizi iniciou em seu governo uma política de exploração petrolífera baseada na concessão de territórios a empresas privadas, reservando à empresa estatal YPF a atividade de exploração e compra da produção das empresas concessionárias. Illia em sua plataforma eleitoral agregava que a política de concessões era contrária aos interesses nacionais, comprometendo-se a anular os contratos de concessão, o que ocorreu em 15 de novembro de 1963.

A participação da educação nas despesas do Orçamento argentino subiu de 12% em 1963 para 23% em 1965. Em novembro de 1964 inicia-se o Plano Nacional de Alfabetização, com o objetivo de diminuir a taxa de analfabetismo que era à época cerca de 10% da população adulta. Em junho de 1965 o Programa contava com 12.500 centros de alfabetização e seu trabalho alcançava 350.000 alunos de dezoito a oitenta e cinco anos de idade.

Também foram promulgadas leis para o controle do preço dos medicamentos, além de impor limites para a remessa de divisas ao exterior e compra de insumos. As empresas também deveriam prestar contas de seus custos e formalizar todos os contratos que concediam regalias à produção. Tais leis tiveram grande peso político para a destituição de Illia da presidência da Argentina por meio de um golpe militar.

Illia promoveu políticas econômicas que visavam o ordenamento do setor público, diminuição da dívida externa e de impulso à industrialização. O Produto Interno Bruto argentino evoluiu −2,4% em 1963, 10,3% em 1964 e 9,1% em 1965. O desemprego diminui de 8,8% em 1963 para 5,2% em 1966.

As eleições legislativas sem restrição partidária ocorrem em 1965, com vitória do Peronismo sobre a União Cívica Radical por mais de meio milhão de votos. Isso agita a situação interna das Forças Armadas, tanto pela existência de facções militares e peronistas que tinham um estreito vínculo político como pela existência de setores militares fortemente antiperonistas.

Concomitantemente, agrega-se uma forte campanha de desmoralização do governo impulsionada por setores econômicos através de certos meios de comunicação. Estes jornalistas apelidam o presidente como “a tartaruga”, caracterizando sua gestão como sem energia e lenta, com alento aos militares para eliminar a administração do partido militar. Desta forma, a política de Illia torna-se seriamente debilitada.

Em 28 de junho de 1966 ocorre o golpe — com protestos de setores da imprensa e do sindicalismo — em meio à indiferença da população. O general Julio Alsogaray se apresenta às 5 horas deste dia no despacho presidencial e convida Illia a se retirar, que a princípio se nega, mas às 7h20, ao ver o gabinete invadido por policiais com pistolas lança-chamas e a Casa Rosada cercada por tropas, opta por se retirar. No dia seguinte assume o General Juan Carlos Onganía.

O golpe conduziu uma série de presidentes apoiados pelo Exército. Alejandro Lanusse, em 1971, foi apoiado por vários setores e tentou restabelecer a democracia em um ambiente de contínuos protestos de peronistas da classe trabalhadora.

Presidências de Cámpora, Perón e Isabel Martínez (1973-1976)

Em 11 de março de 1973 a Argentina teve eleições gerais pela primeira vez em 10 anos, com um acachapante triunfo do peronismo, ainda que o próprio Juan Perón tenha sido proibido de se apresentar como candidato. Poucos meses depois, em 13 de julho deste ano, o presidente Héctor José Cámpora renuncia para permitir novas eleições sem restrições, nas quais Perón, recentemente chegado do exílio, em 20 de junho de 1973 (mais conhecido como dia do Massacre de Ezeiza, cuja investigação judicial nunca chegou a se materializar), vence por ampla maioria nas eleições de segundo turno de 23 de setembro de 1973.

Perón morreu em 1 de julho de 1974. Sua mulher, María Estela Martínez de Perón, o sucedeu com uma administração cercada de problemas econômicos, conflitos dentro do partido e o crescente terrorismo praticado por insurgentes e movimentos paramilitares. Um novo golpe militar a retirou do poder em 24 de março de 1976.

Processo de reorganização nacional (1976-1983)

Jorge Rafael Videla (1976-1981)

O país se encontrava num caos político posteriormente à morte de Perón. Grupos extremistas realizavam seqüestros e assassinatos, levando a sociedade a um terror poucas vezes visto no país. Nesta situação surge o autodenominado Processo de Reorganização Nacional, presidido originalmente por Jorge Rafael Videla, que se caracterizou por acentuada repressão, levando a cabo constantes perseguições, torturas e execuções de presos políticos. Assim como os outros países do Cone Sul, o governo argentino integrou a Operação Condor.

A administração de Videla foi marcada por violações sistemáticas aos direitos humanos, principalmente nos meios estudantis, além de questões de limites de fronteira com o Chile, que estiveram próximas de um conflito armado — matéria diplomaticamente mediada por João Paulo II. Houve também desmantelamento dos sindicatos e polarização na divisão de classes sociais.

É durante o seu governo que surge, devido aos inúmeros detidos desaparecidos, as Mães da Praça de Maio, associação de mães que durante anos reivindicou do governo o paradeiro de seus filhos. As caminhadas ocorriam todas as quintas-feiras e só deixaram de ser realizadas em 2006.

A economia do país, porém, cresceu, tornando-se mais competitiva e moderna, adaptando-se às correntes mundiais. Houve também um grande incremento nas obras públicas.

Os últimos anos militares

Em 1982, durante a presidência de Leopoldo Galtieri, iniciou-se a Guerra das Malvinas contra o Reino Unido, disputando-se a soberania das ilhas. O absoluto fracasso das tropas argentinas e a morte de aproximadamente 600 jovens soldados propulsionou o golpe definitivo ao regime militar. Com a volta da democracia em 10 de dezembro de 1983, estimou-se que o número de vítimas do governo era de cerca de 10 mil pessoas. A marca mais profunda das ditaduras foi a repressão sobre setores específicos da sociedade, especialmente os elementos politicamente mais ativos, como jornalistas e sindicalistas.

Cabe destacar que como em quase toda a América Latina, e devido à grande confusão anterior, graças ao temor que organizações armadas geraram na população, o Processo de Reorganização Nacional foi apoiado pela maioria do povo argentino, assim como também se realizaram festejos pela Guerra das Malvinas. Na atualidade este processo é condenado por grande parte da população.

O retorno da democracia

A derrota na Guerra das Malvinas obrigou o regime militar a convocar eleições democráticas. Contudo, as violações massivas aos direitos humanos realizadas entre 1976 e 1983, assim como uma ampla tradição em golpes militares, farão complexo o processo de transição à democracia, com reiteradas insurreições militares. Em 1989, pela primeira vez na história, um presidente de um partido entregou o poder a um presidente de outro partido. A situação voltou a se repetir em 1999, mostrando uma notável consolidação da democracia na Argentina.

Neste período a Argentina protagonizará uma importante mudança político-institucional e econômica, ao fundar junto com o Brasil, Paraguai e Uruguai o Mercosul, Mercado Comum da América do Sul.

Apesar do avanço democrático, os governos eleitos pelo povo têm se mostrado insuficientes para atender os problemas sócio-econômicos da população. A pobreza, que em 1974 era de 5%, subiu a 25% em 1983, atingindo o pico de 56% da população em 2002. O desemprego, que era de 6% em 1975 e 18% em 1995, chegou a espantosos 31% em 2002.

O governo de Raúl Alfonsín (1983-1989)

Em 30 de outubro de 1983 realizaram-se eleições para escolha das autoridades democráticas. Raúl Alfonsín, candidato pela União Cívica Radical, foi eleito com 52% dos votos, contra 40% do Partido Justicialista (peronista). O radicalismo também obteve maioria na câmara dos Deputados, porém o peronismo a conseguiu no Senado. Em 10 de dezembro de 1983 assumiu o novo governo democrático.

Direitos humanos, transição à democracia e sublevantes militares

O governo de Raúl Alfonsín teve que enfrentar o problema da transição à democracia em um país com grande tradição de governos militares que havia chegado à tragédia do terrorismo de estado e da guerra.

Em 15 de dezembro de 1983, o presidente sanciona os decretos 157 e 158. Pelo primeiro, ordenava-se acusar os dirigentes das organizações guerrilheiras ERP e Montoneros; o segundo ordenava processo contra as três juntas militares que dirigiram o país desde o golpe militar de 24 de março de 1976 até a Guerra das Malvinas. No mesmo dia criou uma Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (CONADEP), integrada por diferentes personalidades com a missão de relevar, documentar e registrar casos e provas de violações aos direitos humanos, para fundar a acusação às juntas militares.

Em setembro de 1984 a CONADEP produz o informe “Nunca Más”. Em 4 de outubro de 1984 a Câmara Federal (tribunal civil) toma a decisão de retirar do tribunal militar que estava acusando as juntas para fazer cargo diretamente ao mesmo. A acusação realizou-se entre 22 de abril e 14 de agosto de 1985, cuidando-se de 281 casos. Em 9 de dezembro publicou-se a sentença, condenando Jorge Videla e Eduardo Massera à prisão perpétua; Roberto Viola a 17 anos de prisão; Armando Lambruschini a 8 anos de prisão e Orlando Ramón Agosti a 4 anos de reclusão. Pelas características que teve, a condenação das juntas militares realizada por um governo democrático constitui um feito sem precedentes no mundo, que contrastou fortemente com as transições negociadas ocorridas no Uruguai, Chile, Brasil, Espanha, Portugal e África do Sul.

O governo de Alfonsín esteve permanentemente ameaçado por setores das Forças Armadas que se negavam a aceitar a acusação por violações dos direitos humanos durante o regime militar anterior. Na Semana Santa de 1987 produziu-se uma grande rebelião militar encabeçada por jovens oficiais que se denominavam “caras pintadas”. Ao mesmo tempo que os chefes militares demostravam que não estavam dispostos a obedecer as ordens do presidente Alfonsín e reprimir a insurreição, milhões de pessoas saíram às ruas para se opor ao levante militar. Durante vários dias o país esteve à beira da guerra civil. Finalmente Alfonsín, sem poder militar para frear um golpe de estado, negocia secretamente com os líderes militares uma série de medidas para evitar que se realizassem novos julgamentos contra militares por violações aos direitos humanos. Estas medidas se concretizaram nas leis de Obediência Devida e Ponto Final, não sem antes sofrer outras duas insurreições militares durante 1988 (18 de janeiro e 1 de dezembro) e um permanente estado de insubordinação das Forças Armadas.

Obra de governo

Durante o governo de Alfonsín restabeleceu-se a autonomia universitária quebrada em 1966, pôs-se em marcha o Plano Nacional de Alfabetização e o Plano Alimentar Nacional (PAN), além da sanção de leis de guarda compartida e divórcio matrimonial. Em 1987 o Congresso sanciona uma lei de transferência da capital do país para Viedma — capital da província de Rio Negro — como parte de um projeto para mudar o eixo político-econômico centralista que caracteriza o país, que fracassou.

No plano internacional destacou-se o protagonismo argentino no impulso ao Grupo Contadora (da América Central) para unificar a posição dos devedores frente aos credores e negociar a dívida externa; os acordos com o governo democrático do Brasil, que incluiriam posteriormente na formação do Mercosul (1991); a política externa de apoio aos processos de paz na América Latina e ajuda aos governos democráticos para consolidar o processo de transição à democracia na região; a firmação do Tratado de Paz e Amizade com o Chile (1985), que pôs fim a uma disputa de limites territoriais com aquele país, e com o qual a Argentina esteve a ponto de ir à guerra em 1978 e a presidência da 43ª Assembléia Geral das Nações Unidas (1989).

Na área econômica Alfonsín assume seu governo no momento em que produzia-se a grande crise mundial da dívida externa. Durante o governo militar a dívida externa argentina havia crescido de 7 bilhões de dólares em 1976 para 66 bilhões de dólares em 1983. Somado a isso, grande parte do aparato produtivo, sobretudo do setor industrial, havia quebrado. Diante dessa situação, Alfonsín decidiu aplicar em 1985 um plano econômico, o Plano Austral, que ele mesmo qualificou como “economia de guerra”.

O Plano Austral conseguiu conter a inflação durante algum tempo, mas não pôde resolver os problemas estruturais da economia argentina no período. O congelamento dos salários, a decisão inicial de Alfonsín de atacar os sindicatos, a persistência da lei sindical fascista da ditadura e a identificação dos sindicatos com a oposição peronista levaram a um grande impasse entre o governo radical e a Central Geral dos Trabalhadores (CGT), expressa com 13 greves gerais. Por fim, o governo radical negocia com os sindicatos e sanciona por unanimidade a nova Lei Sindical.

Os graves problemas econômicos expressam-se em uma taxa de inflação de 343% em 1988 e o início de um processo hiperinflacionário a partir de fevereiro de 1989 superior a 3000% ao ano, o que fez aumentar a pobreza a um nível histórico até então: 47,3% em outubro de 1989 na Grande Buenos Aires.

É neste contexto econômico que se realizaram as eleições presidenciais de 14 de maio de 1989, com a vitória do candidato opositor, o peronista Carlos Menem, com 51% dos votos. A magnitude do caos econômico-social obrigou Alfonsín a antecipar a passagem do cargo, renunciando em 8 de julho daquele ano.

Pela primeira vez na história da Argentina realizava-se uma sucessão entre dois mandatários civis constitucionais de diferentes partidos políticos.

O governo de Carlos Saúl Menem (1989-1999)

Menem governou a Argentina entre 1989 e 1999. Seu primeiro mandato começou em 1989, após vencer seu concorrente da União Cívica Radical por 15 pontos porcentuais. Recebeu o governo em 8 de julho de 1989, com o país mergulhado no caos econômico e inflacionário iniciado no governo de Alfonsín.

Durante seu primeiro mandato, Menem se concentrou em estabilizar a situação inflacionária do país. Para tanto, sancionou a Lei de Convertibilidade, impulsionada pelo seu ministro da economia Domingo Cavallo, que tinha o objetivo de equilibrar a equivalência entre o dólar e o peso argentino. Além disso, privatizou inúmeras empresas, abriu o mercado e firmou o Tratado de Assunção, que deu origem ao Mercosul, na intenção de formar um forte bloco econômico sul-americano e estabelecer um mercado comum entre seus membros. Também em seu primeiro mandato ocorreram os atentados à Embaixada de Israel (1992) e à Associação Mutual Israelita Argentina — AMIA (1994), em que morreram quase 100 pessoas.

Com a reforma constitucional de 1994, Menem se lançou à reeleição em 1995, vencendo seu opositor — José Octavio Bordón, da FREPASO — com 20 pontos porcentuais de diferença

O segundo mandato de Menem esteve caracterizado pelo aumento dos indicadores negativos, como o desemprego, a pobreza e o trabalho sem registro. Além disso a dívida externa aumentou em quase 82 bilhões de dólares. Estes problemas continuaram crescendo até a queda do sucessor de Menem, Fernando de la Rúa, em 2001. Ao final de 1998, quando a Corte Suprema decide que Menem não pode ser presidente pela terceira vez consecutiva, iniciou-se uma recessão de quatro anos que se tornaria a mais longa e destrutiva da história argentina.

A crise econômica

A sucessão de De la Rúa

De forma interina, assume a Presidência do país o presidente provisório do Senado, Ramón Puerta. Em 23 de dezembro a Assembléia Legislativa se reúne, e nomeia presidente provisório o então governador da província de San Luis pelo Partido Justicialista Adolfo Rodríguez Saá. Em seu discurso no Congresso argentino, o novo presidente anuncia a moratória, ou suspensão do pagamento das obrigações por empréstimos a diferentes organismos internacionais de crédito, e a particulares que estivessem em posse de títulos da dívida externa argentina.

A estabilidade do novo governo e das forças de segurança é novamente posta em xeque diante do surgimento de novos conflitos nas proximidades da Casa Rosada e do Congresso Nacional: os manifestantes continuavam se aproximando dos edifícios do governo. São ouvidas repulsas contra os membros da Corte Suprema de Justiça, contra membros do novo gabinete e contra senadores e deputados, que não contavam com apoio popular. O lema mais retomado pelos manifestantes era o “Que se vayan todos“, o que resumia o descontentamento que sofriam os políticos por parte de grande maioria da população. Alguns conflitos ocorreram dentro do Congresso Nacional, onde houve pequenos incêndios e quebra de cristais e mobiliário. Sem o apoio de importantes governadores, e também de integrantes de seu partido, Rodríguez Saá decide apresentar a renúncia ao cargo em 30 de dezembro de 2001.

Assume a presidência de forma interina o então presidente da Câmara de Deputados Eduardo Camaño até que a Assembléia Legislativa aprova, em 31 de dezembro de 2001, a substituição pelo peronista (partido justicialista) Eduardo Duhalde, que tornou-se o quinto presidente em apenas duas semanas (De la Rúa; Ramón Puerta; Adolfo Rodríguez Saá; Eduardo Camaño e Duhalde). Seu mandato provisório foi marcado por um foco assistencialista no âmbito interno e pela desvalorização do peso e o protecionismo à produção interna.

Duhalde permanece no governo até maio de 2003 quando passa a faixa para o, também peronista, Néstor Kirchner.

O governo de Néstor Kirchner

Kirchner observa a retirada do quadro do ex-presidente Reynaldo Bignone do Colegio Militar da Nação

Em 27 de abril de 2003 realizou-se o primeiro turno das eleições presidenciais. Cinco candidatos reuniram a maioria dos votos: Carlos Menem (24%), Néstor Kirchner (22%), Ricardo López Murphy (16%), Adolfo Rodríguez Saá (14%) e Elisa Carrió (14%).

Carlos Menem, o candidato vencedor do primeiro turno, não se apresentou ao segundo turno — com sua queda contínua nas pesquisas, intencionava “deslegitimar” a eleição de seu oponente. Assim, foi declarado eleito presidente Néstor Kirchner, que assumiu seu mandato em 25 de maio de 2003.

Kirchner assumiu confirmando Roberto Lavagna e outros membros do gabinete de Duhalde no seu governo. A linha política e econômica de centro-esquerda foi apresentada como uma única alternativa, já que o país ainda passava por uma moratória que não estava em curso por opção de governo, mas sim por falta de uma outra alternativa.

Nesse contexto foi feita a desvalorização do peso e, após a estabilidade das contas internas, foi iniciada a política de superávit primário para acúmulo de reservas internacionais. Com isso as exportações foram impulsionadas e o Produto Interno Bruto cresceu cerca de 9% ao ano e atualmente as perdas do ápice da crise já foram recuperadas.

A Argentina confirmou sua dificuldade em alternar visões políticas e econômicas nas últimas eleições onde Néstor Kirchner foi sucedido por sua própria esposa, Cristina Kirchner em 10 de dezembro de 2007. Sua eleição representa um marco histórico por ser a primeira mulher à frente do governo nacional, mas que não conseguiu mostrar identidade própria até então, confirmando um continuísmo.

Os governos democráticos argentinos não suportaram as crises internacionais devido às dificuldades políticas que se tornavam insustentáveis toda vez que a economia não prosperava. Atualmente a Argentina sofre as consequências da crise econômica iniciada com a quebra do sistema financeiro nos EUA. Uma das medidas decretadas foi a estatização do sistema de previdência privada. Como ponto positivo existe o fato de que a economia de toda a América do sul possui um mercado interno crescente e uma grande demanda reprimida e poucos riscos de novas intervenções militares. Com essas bases a Argentina pretende superar mais esse momento histórico.

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