Conta Corrente e Poupança Interna

Delfim Netto

15 de setembro de 2010

Estamos hoje numa situação econômica e social muito melhor do que estivemos nestes últimos 30 anos. Os grandes fantasmas que sempre interromperam o nosso desenvolvimento (crise de energia, crise de financiamento do balanço em conta corrente ou, eventualmente, as duas juntas) parecem ter ficado para trás.

A grande crise de 1981/1983, cuja superação custou mais de 4% do PIB (e deixou uma destruição financeira no setor privado e no governo), foi, basicamente, produzida pela falta de suprimento interno de petróleo. Até o início dos anos 80 do século XX, importávamos 82% do petróleo que consumíamos. Com o dramático aumento dos seus preços, o valor das importações do produto cresceu de 600 milhões de dólares, em 1973 (9,8% das exportações), para 9,4 bilhões, em 1980 (46,6% das exportações), sendo responsável por 74% do nosso déficit em contas correntes desse ano. Esses fatos levaram a uma acumulação da dívida externa líquida (dívida total menos as reservas), que passou de 8,5 bilhões de dólares, em 1973, para 57,3 bilhões, em 1980.

Com o ajuste Volker nos EUA, em 1979, as facilidades de seu financiamento terminaram. Ele feriu de morte a ciranda que os petrodólares tornaram possível. Com ela, todos os países não produtores de petróleo contemporizavam seus déficits em conta corrente. O Brasil quebrou em 1981, mas não sozinho! Todo o mundo emergente sofreu o mesmo destino, inclusive os satélites da velha URSS, o que, aliás, marcou o começo do seu fim. Alguns analistas mal informados continuam a acreditar que foi o crescimento do Brasil em 1980 (9,2%) que produziu nossa crise. De fato, em 1979, o Brasil e o mundo começaram a cair em pedaços. Nem mesmo a conta dos juros das dívidas era financiável! O crescimento do PIB daqueles anos não exerceu qualquer papel, na margem, sobre as consequências dramáticas produzidas pelas contas externas. Isso mostra o quanto estão errados os economistas que continuam a sugerir que, se crescêssemos apenas 4% em 1979/1980 (crescemos 8%) para enfrentar a crise, ela não ocorreria: para eles, o Brasil era o peru que deveria ter morrido na véspera…

Nossa experiência não termina aí. Quebramos também no Plano Cruzado. Na octaetéride fernandista, acumulamos um déficit de 186 bilhões de dólares em conta corrente e quebramos mais duas vezes (1998 e 2002), a despeito das privatizações feitas às pressas para financiá-lo.

A partir de 2003, a situação mudou radicalmente, graças à rápida expansão da economia mundial, particularmente a chinesa, o que elevou a quantidade e os preços de nossas exportações, mas não a sua participação no total mundial. Em 1980/1984, ela era a mesma de hoje: 1,3%. A exportação chinesa, que em 1980/1984 era também de 1,3%, é hoje da ordem de 10%! Na verdade, por maiores que tenham sido os truques semânticos dos últimos governos, não se faz qualquer esforço exportador desde 1984. Pelo contrário, repetindo 1974 a 1978, sempre temos usado a taxa cambial como um instrumento oportunístico para combater a inflação.

Voltamos agora a acumular déficits em conta corrente, confiados em uma reserva cambial de 250 bilhões de dólares (em larga medida produzida por um diferencial de taxa de juros e, obviamente, insustentável) e na grave ilusão de que sendo o câmbio flexível, ele se ajustará calmamente. Todos sabemos que, se e quando, as expectativas se modificarem por qualquer motivo, o ajuste cambial será dramático e destruirá (mais uma vez) as finanças do governo e do setor privado. Isso está inscrito no fato saudado com alegria pelo nosso setor financeiro: “Os contratos de câmbio envolvendo o real em todo o mundo alcançaram 28 bilhões de dólares por dia em abril deste ano” (BIS, Trienial Central Bank Survey, Sept. 2010).

É preciso abandonar a discussão ingênua em torno das famosas identidades da contabilidade nacional (a única coisa realmente certa na teoria econômica). O déficit em conta corrente é mesmo apenas a diferença entre o nível do investimento e a da poupança interna, mas o que importa é a dis-cussão das variáveis cujo comportamento produz aquela identidade. Para garantir o crescimento precisamos do investimento. Para evitar o déficit em conta corrente estimulado pelo próprio crescimento, precisamos de poupança interna maior do que a endogenamente gerada por ele. Precisamos, mesmo, é de um bom sistema de poupança estável que permita o financiamento de longo prazo e de uma discussão sobre o papel do BNDES, como está sendo proposto agora pelo ministro Guido Mantega.

Delfim Netto é economista, formado pela USP e professor de Economia, foi ministro de Estado e deputado federal.

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