República Velha IV (Bullets)

Sociedade & Cultura

A profunda distância entre elite política e os demais setores da sociedade, que caracterizava o novo regime republicano, marcaria intensamente a literatura do período. O desajustamento entre instituições e as necessidades da população constituiria objeto preferencial das obras de importantes escritores da virada do século.

Em Euclides, em Lobato, em Hilário Tácito, em Lima Barreto, no primeiro Graça Aranha tematizam-se as oposições campo/cidade, branco/ mestiço, rico/pobre, cosmopolita/brasileiro, imigrante/nacional… Variam no tempo e no espaço as incidências dessas tensões: os desequilíbrios dizem respeito ora a problemas regionais, que acabam envolvendo o poder central, ora à estrutura mesma da sociedade, feita de classes e grupos de status que integram de modo assimétrico e injusto o sistema da nação

  • Os Sertões: Euclides da Cunha descreve a Guerra de Canudos, sublinhando a imensa distância social entre tropas oficiais, representantes da “civilização branca”, e a comunidade sertaneja. Embora considerasse os sertanejos retrógrados e primitivos, Euclides denunciava com veemência sua destruição, quando deveriam ser civilizados e integrados.
  • Lima Barreto: Este autor falava dos contrastes presentes nas próprias cidades. Denunciava as tristes condições a que estavam relegados os mestiços em uma sociedade racista e autoritária.

Especialmente São Paulo e Rio de Janeiro conheceram extraordinário crescimento, tornando-se os maiores centros urbanos do país. As profundas transformações por que passavam a sociedade e economia republicanas não poderiam deixar de refletir de maneira decisiva na produção cultural do período. As tendências renovadoras desaguaram no movimento modernista que tomou corpo em São Paulo na década de 1920.

O processo social e econômico gerava uma sede de contemporaneidade junto à qual o resto da nação parecia ainda uma vasta província do Parnaso

  • Em 1912 o escritor Oswald de Andrade regressava ao Brasil de uma viagem à Europa, trazendo consigo as idéias inovadoras do movimento futurista
  • Em 1913, o pintor Lasar Segall realizava uma exposição em São Paulo em que trazia a público uma obra totalmente inspirada no Expressionismo alemão
  • Em 1917, Menotti del Picchia e Manuel Bandeira, publicaram trabalhos que, se não configuravam ainda a estética modernista, rompiam com os cânones vigentes do parnasianismo; ocorreu também a polêmica exposição de Anita Malfatti, onde a pintora apresentou obras que seguiam as diretrizes estéticas mais modernas do período

Faz-se o elogio da nacionalidade trazendo à tona elementos sociais e étnicos até então desprezados como inferiores. Mas, ao mesmo tempo, mantêm-se em profunda sintonia com a estética européia mais moderna.

O ponto culminante do movimento modernista foi a organização da Semana de Arte Moderna, em fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo. Dela participaram poetas, escritores, músicos e pintores comprometidos com a elaboração da nova estética.

No romance, o naturalismo, desprovido da forte convicção determinista que animou um Aluísio Azevedo e um Adolfo Caminha, enlanguesce nas mão de Emanuel Guimarães, Xavier Marques, Canto e Mello, A écriture artiste e o relevo psicológico de Raul Pompéia são agora esta fase com foros de gênio.

O regionalismo, que desde o início do nosso romance constitui uma das principais vias de autodefinição da consciência local, com José de Alencar, Bernardo Guimarães, Franklin Távora, Taunay, transforma-se agora no “conto sertanejo”, que alcança voga surpreendente. Gênero artificial e pretensioso, criando um sentimento subalterno e fácil de condescendência em relação ao próprio país, a pretexto de amor da terra, ilustra bem a posição dessa fase que procurava, na sua vocação cosmopolita, um meio de encarar com olhos europeus as nossas realidades mais típicas.

O Simbolismo, projeção final do espírito romântico, constitui desenvolvimento mais original, limitando-se, porém, à obra de Cruz e Sousa (ainda próxima dos parnasianos a despeito de tudo), e à de Alphonsus de Guimaraens, pouco conhecida antes dos nossos dias. Como movimento estético e ideológico, o Simbolismo serviu de núcleo a manifestações espiritualistas, contrapostas ao naturalismo plástico dos parnasianos.

O Modernismo rompe com este estado de coisas. As nossas deficiências, supostas ou reais, são reinterpretadas como superioridades. A filosofia cósmica e superficial, que alguns adotaram em certo momento nas pegadas de Graça Aranha, atribui um significado construtivo, heróico, ao cadinho de raças e culturas localizado numa natureza áspera.

Mário de Andrade, em Macunaíma (a obra central e mais característica do movimento modernista), compendiou alegremente lendas de índios, ditados populares, obscenidades, estereótipos desenvolvidos na sátira popular, atitudes em face do europeu, mostrando como a cada valor aceito na tradição acadêmica e oficial correspondia, na tradição popular, um valor recalcado que precisava adquirir estado de literatura.

prosseguiremos com “A Política Externa da República Velha”

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: