CAPÍTULO XXIII – O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA III.

___________________________________
CAPÍTULO XXIII
O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA III. Transumância amazônica

Além da grande corrente migratória de origem européia para a região cafeeira, o Brasil conheceu no último quartel
do século xix e primeiro decênio do xx um outro grande movimento de população: da região nordestina para a
amazônica.

A economia amazônica entrara em decadência desde fins do século xvin. Desorganizado o engenhoso sistema de
exploração da mão-de-obra indígena estruturado pelos jesuítas, a imensa região reverteu a um estado de letargia
econômica. Em pequena zona do Pará se desenvolveu uma agricultura de exportação que seguiu de perto a evolução da
maranhense, com a qual estivera integrada comercialmente através dos negócios da companhia de comércio criada na
época de Pombal. O algodão e o arroz aí também tiveram sua etapa de prosperidade, durante as guerras napoleônicas, sem
contudo jamais alcançar cifras de significação para o conjunto do país. A base da economia da bacia amazônica eram
sempre as mesmas especiarias extraídas da floresta que haviam tornado possível a penetração jesuítica na extensa região.

Desses produtos extrativos o cacau continuava a ser o mais importante. A forma como era produzido, entretanto, não
permitia que o produto alcançasse maior significação econômica. A exportação anual média, nos anos quarenta do século
xix, foi de 2.900 toneladas, no decênio seguinte alcança 3.500 e nos anos sessenta baixa para 3.300. O aproveitamento
dos demais produtos da floresta deparava-se sempre com o mesmo obstáculo: a quase inexistência de população e a
dificuldade de organizar a produção com base no escasso elemento indígena local.
Era o caso, por exemplo, da produção
de borracha, cuja exportação se registra desde os anos vinte, alcançando 460 toneladas anuais como média nos anos
quarenta, 1.900 no decênio seguinte e 3.700 nos anos sessenta. É por essa época que começa a registrar-se o aumento nos
preços doproduto.
De 45 libras por tonelada nos anos quarenta, opreço médio de exportação sobe para 118 libras no
decênio seguinte, 125 nos anos sessenta e 182 nos setenta”8.

A borracha estava destinada, nos fins do século xa è começo do xx, a transformar-se na matéria-prima de procura
em mais rápida expansão no mercado mundial.
Assim como a indústria têxtil caracterizara a Revolução Industrial de
fins do século xvra e a construção das estradas de ferro os decênios da metade do século seguinte, a indústria de
veículos terrestres a motor de combustão interna será o principal fator dinâmico das economias industrializadas,
durante um largo período que compreende o último decênio do século passado e os três primeiros do século xx. Sendo
a borracha um produto “extrativo” e estando o estoque de árvores então existente concentrado na bacia amazônica, o
problema de como aumentar sua produção para atender a uma procura mundial crescente se afigurava extremamente
difícil.
Impunha-se, evidentemente, uma solução a longo prazo, porquanto era óbvio que a possibilidade de aumentar a
produção de borracha extrativa na Amazônia não era muito grande. Uma vez demonstrado que uma ou mais das
plantas que produzem a matéria-prima da borracha podiam adaptar-se a outras regiões de clima similar, a produção de
borracha teria de desenvolver-se de preferência ali onde existisse um adequado suprimento de mão-de-obra e recursos
para financiar o seu longo período de gestação.

Todavia, a rapidez com que crescia a procura de borracha nos países industrializados, em fins do século xix,
exigia uma solução a curto prazo. A evolução da economia mundial da borracha desdobrou-se assim em duas etapas:
durante a primeira encontrou-se uma solução de emergência para o problema da oferta do produto extrativo; a segunda
se caracteriza pela produção organizada em bases racionais, permitindo que a oferta adquira a elasticidade requerida
pela rápida expansão da procura mundial1″. A primeira fase da economia da borracha se desenvolve totalmente na
região amazônica e está marcada pelas grandes dificuldades que apresenta o meio
. Os preços continuam sua marcha
ascensional, alcançando,no triênio 1909-11, a média de 512 libras por tonelada, ouseja, mais que decuplicando o nível
que prevalecera na metade do século anterior. Essa enorme elevação de preços indicava claramente que a oferta de
borracha era inadequada e que uma solução alternativa teria de surgir. Com efeito, ao introduzir-se a borracha oriental
de modo regular no mercado, depois da Primeira Guerra Mundial, os preços do produto se reduziram de forma
permanente a um nível algo inferior a cem libras por tonelada.

Ainda mais do que no caso do café, a expansão da produção de borracha na Amazônia era uma questão de
suprimento de mão-de-obra.
Se bem que as possibilidades de incremento não fossem muito grandes, as exportações de
borracha extrativa brasileira subiram da média de 6 mil toneladas nos anos setenta, para 11 mil nos oitenta, 21 mil nos
noventa e 35 mil no primeiro decênio deste século. Esse aumento da produção deveu-se exclusivamente ao influxo de
mão-de-obra, pois os métodos de produção em nada se modificaram. Os dados disponíveis com respeito ao fluxo
migratório para a região amazônica, durante essa etapa, são precários e se referem quase exclusivamente aos embarques
em alguns portos nordestinos. Sem embargo, se se comparar a população nos estados do Pará e Amazonas, segundo os
censos de 1872 e 1900, observa-se que a mesma cresce de 329 mil para 695 mil habitantes. Admitindo-se um
crescimento anual vegetativo de 1 por cento – as condições de salubridade são reconhecidamente precárias na região -,
depreende-se que o influxo externo teria sido da ordem de 260 mil pessoas, não contados aqueles que já haviam
penetrado na região que viria a ser depois o Território e Estado do Acre. Desse total de imigrantes, cerca de 200 mil
correspondem ao último decênio do século, conforme se deduz da comparação dos censos de 1890 e 1900. Se se admite
um idêntico influxo para o primeiro decênio do século xx, resulta que a população destacada para a região amazônica
não seria inferior a meio milhão de pessoas.

Essa enorme transumância indica claramente que em fins do século passado já existia no Brasil um reservatório
substancial de mão-de-obra e leva a crer que, se nâo tivesse sido possível solucionar o problema da lavoura cafeeira
com imigrantes europeus, uma solução alternativa teria surgido dentro do próprio país.
Aparentemente, a imigração européia para a região cafeeira deixou
disponível-e excedente de população nordestina para a expansão da produção da borracha.

A população do Nordeste, conforme já indicamos, estava ocupada, desde o primeiro século da colonização, em dois
sistemas econômicos: o açucareiro e o pecuário.
A decadência da economia açucareira, a partir da segunda metade do
século xvn, determinou a transformação progressiva do sistema pecuário em economia de subsistência. Nesse tipo de
economia, a população tende a crescer em função da disponibilidade de alimentos, a qual depende diretamente da
disponibilidade de terras.
Se se compara a evolução dos núcleos de economia de subsistência nas distintas partes do país,
esse problema da disponibilidade de terras aparece com toda sua significação. As colônias européias localizadas no Rio
Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina encontraram-se em situação particularmente favorável desse ponto de vista. A
qualidade e a abundância de suas terras proporcionaram-lhe um suprimento mais que adequado de alimentos, mesmo em
um nível baixo de técnica agrícola. Assim, não obstante o rudimentar de sua economia monetária, essas colônias
apresentavam uma taxa altíssima de crescimento demográfico vegetativo, taxa essa que constituiu motivo de admiração
para os europeus que as visitavam em fins do século xix e começo do xx. Essa massa de população das regiões de
colônias e o excedente virtual de produção de alimentos que nestas havia constituirão fatores básicos do rápido de-
senvolvimento da região sul do país em etapas subseqüentes, quando a expansão do mercado interno, ao impulso do
desenvolvimento cafeeiro, criar os estímulos que anteriormente não existiam.

Na região central, onde floresce a economia mineira, a população tende a deslocar-se a grandes distâncias, em razão
da maior escassez de boas terras.
Forma-se, assim, uma corrente migratória em direção ao Estado de São Paulo, bem
antes da penetração da lavoura cafeeira120
. Outra corrente cresceu na direção de Mato Grosso, ocupando primeiro as ter-
ras bem irrigadas do chamado Triângulo Mineiro. A vanguarda desses movimentos de população – com exceção das regiões.de colônias, onde a propriedade dà terra constituía preocupação
principal do homem que a trabalhava- estava sempre formada por indivíduos de iniciativa è com algum capital que logo
se apropriavam de grandes extensões de terras, cujo usufruto, entretanto, era compartilhado por muitos outros em um
sistema de economia de subsistência.

Na região nordestina uma expansão vegetativa desse estilo se realizava desde o século xvn. Em algumas sub-regiões,
na segunda metade do século xix, os sintomas de pressão demográfica sobre a terra tornaram-se mais ou menos evidentes.

O desenvolvimento da cultura algodoeira, nos primeiros decênios do século, havia permitido uma diversificação da
atividade econômica, o que contribuíra para intensificar o crescimento da população.
Nos anos sessenta, quando ocorre a
grande elevação de preços provocada pela guerra civil nos EUA, a produção de algodão se intensifica e certas regiões,
como o Ceará, conhecem pela primeira vez uma etapa de prosperidade.
Essas ondas de prosperidade iam contribuindo,
entretanto, para criar um desequilíbrio estrutural na economia de subsistência, à qual sempre revertia a população nas
etapas subseqüentes. Esse problema estrutural assumira extrema gravidade por ocasião da prolongada seca de 1877-80,
durante a qual desapareceu quase todo o rebanho da região e pereceram de cem a 200 mil pessoas
. O movimento de ajuda
às populações vitimadas logo foi habilmente orientado no sentido de promover sua emigração para outras regiões do país,
particularmente a região amazônica.
A concentração de gente nas cidades litorâneas facilitou o recrutamento. Por outro
lado, as condições de miséria prevalecentes dificultaram, pelo menos durante algum tempo, a reação dos grupos
dominantes da economia da região, os quais viam na saída da mão-de-obra a perda de sua principal fonte de riqueza.

Iniciada a corrente transumante, foi mais fácil fazê-la prosseguir. Os governos dos estados amazônicos interessados
organizaram serviços de propaganda e concederam subsídios para gastos de transporte. Formou-se, assim, a grande
corrente migratória que fez possível a expansão da produçãode borracha na região amazônica, permitindo à economia
mundial preparar-se para uma solução definitiva do problema.

Se se comparam os dois grandes movimentos de população ocorridos no Brasil, em fins do século xix e começo do
xx, surgem alguns contrastes particularmente notórios. O imigrante europeu, exigente’e ajudado por seu governo, chegava à
plantaçãodecafé com todos os gastos pagos, residência garantida, gastos de manutenção assegurados até a colheita.
Ao
final do ano estava buscando outra fazenda em que lhe oferecessem qualquer vantagem. Dispunha sempre de terra para
plantar o essencial ao alimento de sua família, o que o defendia contra a especulação dos comerciantes na parte mais
importante de seus gastos
. A situação do nordestino na Amazônia era bem diversa: começava sempre a trabalhar
endividado, pois via de regra obrigavam-no a reembolsar os gastos com a totalidade ou parte da viagem, com os
instrumentos de trabalho e outras despesas de instalação.
Para alimentar-se dependia do suprimento que, em regime de
estrito monopólio, realizava o mesmo empresário com o qual estava endividado e que lhe comprava o produto.
As
grandes distâncias e a precariedade de sua situação financeira reduziam-no a um regime de servidão.
Entre as longas
caminhadas na floresta e a solidão das cabanas rudimentares onde habitava, esgotava-se sua vida, num isolamento que
talvez nenhum outro sistema econômico haja imposto ao homem.
Demais, os perigos da floresta e a insalubri-dade do
meio encurtavam sua vida de trabalho121.

Os planos do imigrante nordestino que seguia para a Amazônia, seduzido pela propaganda fantasista dos agentes
pagos pelos interesses da borracha, ou pelo exemplo das poucas pessoas afortunadas que regressavam com recursos,
baseavam-se nos preços que o produto havia alcançado em suas melhores etapas. Ao declinarem estes de vez, a miséria
generalizou-se rapidamente. Sem meios para regressar ena ignorância do que realmente se passava na economia mundial
do produto, lá foram ficando. Obrigados a completar seu orçamento com recursos locais de caça e pesca, foram
regredindo à forma mais primitiva de economia de subsistência, que é a do homem que vive na floresta tropical, e que pode ser aferida
por sua baixíssima taxa de reprodução
. Excluídas as conseqüências políticas que possa haver tido122, e o enriquecimento
forruito de reduzido grupo, o grande movimento de população nordestina para a Amazônia consistiu basicamente em um
enorme desgaste humano em uma etapa em que o problema fundamental da economia brasileira era aumentar a oferta de
mão-de-obra.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: