CAPÍTULO XXII – O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA II.

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CAPÍTULO XXII
O PROBLEMA DA MÃO-DE-OBRA II. A imigração européia

Como solução alternativa do problema da mão-de-obra sugeria-se fomentar uma corrente de imigração européia. O
espetáculo do enorme fluxo de população que espontaneamente se dirigia da Europa para os EUA parecia indicar a direção
que cabia tomar. E, com efeito, já antes da independência começara, por iniciativa governamental, a instalação de
“colônias” de imigrantes europeus. Entretanto, essas colônias que, nas palavras de Mauá, “pesavam com a mão de ferro”
sobre as finanças do país112 vegetavam raquíticas sem contribuir em coisa alguma para alterar os termos do problema da
inadequada oferta de mão-de-obra. E a questão fundamental era aumentar a oferta de força de trabalho disponível para a
grande lavoura, denominação brasileira da época correspondente à plantation dos ingleses. Ora, não existia nenhum
precedente, no continente, de imigração de origem européia de mão-de-obra livre para trabalhar em grandes plantações.

As dificuldades que encontraram os ingleses para solucionar o problema da falta de braços, em suas plantações da região
do Caribe, são bem conhecidas. É sabido, por exemplo, que grande parte dos africanos apreendidos nos navios que tra-
ficavam para o Brasil eram reexportados para as Antilhas como trabalhadores livres””3.

Nos EUA,conforme vimos, a solução básica adveio de uma forte intensificação no crescimento da população escrava,
o que em boa parte se deveu a que muitos desses escravos_não trabalhavam em
grandes plantações. A emigração européia para os EUA nada tinha que ver com a oferta de mão-de-obra para as
grandes plantações.
Se bem que estivessem interligados os dois movimentos – a expansão das plantações e a
corrente migratória européia -, os mesmos constituem sem embargo fenômenos autônomos. A expansão das planta-
ções norte-americanas se realizaria mesmo sem a corrente migratória européia, se bem que esta, ampliando a
procura interna de algodão e barateando a oferta de alimentos, deu impulso àquela expansão. A corrente migratória
seria, entretanto, difícil de explicar – pelo menos na escala em que ocorreu, no que se refere à primeira metade do
século – sem a expansão das plantações. A circunstância de que o algodão era um produto volumoso114, ocupando
grande espaço nos navios, enquanto as manufaturas que importavam os norte-americanos apresentavam uma grande
densidade econômica, favoreceu a baixa nos fretes de retorno da Europa para os EUA. E foi essa baixa dos preços
das passagens – em navios cargueiros e semicargueiros -que permitiu se avolumasse de tal forma a emigração
espontânea da Europa para os EUA.
Contudo, os baixos preços das passagens não seriam condição suficiente para
que se criasse a grande corrente migratória. O fundamental era que os colonos contavam com um mercado em
expansão para vender os seus produtos, expansão que era em grande parte um reflexo do desenvolvimento das
plantações do sul, à base de trabalho escravo.

As colônias criadas em distintas partes do Brasil pelo governo imperial careciam totalmente de fundamento
econômico;
tinham como razão de ser a crença na superioridade inata do trabalhador europeu, particularmente
daqueles cuja “raça” era distinta da dos europeus que haviam colonizado o país. Era essa uma colonização
amplamente subsidiada. Pagavam-se transporte e gastos de instalação e promoviam-se obras públicas artificiais
para dar trabalho aos colonos, obras que se prolongavam algumas vezes de forma absurda.
E, quase sempre, quan-
do, após os vultosos gastos, se deixava a colônia entregue a suas próprias forças, ela tendia a definhar, involuindo
em simples economia de subsistência. Caso ilustrativo é o da colonização’ alemã do Rio Grande do SuL
Ò governo imperial instalou aí a primeira
colônia em 1824, em” São Leopoldo, e, depois da guerra civil, o governo da~província realizou ~ fortes inversões para
retomar e intensificar a imigração dessa origem. Contudo, a vida econômica das colônias era extremamente precária, pois,
não havendo mercado para os excedentes de produção, o setor monetário logo se atrofiava, o sistema de divisão do
trabalho involuía e a colônia regredia a um sistema econômico rudimentar de subsistência. Viajantes europeus que
passavam por essas regiões se surpreendiam com a forma primitiva de vida dos colonos e atribuíam os seus males às leis
inadequadas do país ou a outras razões dessa ordem. A conseqüência prática de tudo isso foi, entretanto, que se formou na

Europa um movimento de opinião contra a emigração para o império escravista da América e já em 1859 se proibia a
emigração alemã para o Brasil.

Para que as colônias chegassem a constituir um êxito como política imigratória e atraíssem pelo exemplo correntes
espontâneas de povoamento, teria sido necessário que as mesmas se dedicassem de imediato a atividades produtivas
rentáveis
. Esse objetivo só poderia ser alcançado em dois casos: integrando a colônia nas linhas de produção de um
artigo de exportação ou orientando-a de imediato para a produção de artigos que dispusessem de mercado no país. A pro-
dução para exportação estava organizada no sistema de grandes plantações, exigindo uma imobilização de capital que
não era acessível aos colonos em sua etapa de instalação. Em todo caso, se se decidissem a plantar café, os colonos
teriam que concorrer com empresas que exploravam a mão-de-obra escrava. Demais, é perfeitamente explicável que a
classe dirigente da economia cafeeira, cuja influência no governo já era decisiva, não demonstrasse nenhum interesse em
subsidiar uma imigração que nada contribuiria para solucionar o problema da mão-de-obra em suas plantações e que com
ela viesse concorrer no mercado do café. Por outro lado, a possibilidade de produzir para o mercado interno dependia da
expansão deste, e pressupunha o desenvolvimento da economia de exportação. Como a chave do problema das
exportações era a oferta de mão-de-obra, retornava-se ao ponto de partida.
Reconhecendo que a política de colonização do governo imperial em nada contribuía para solucionar o problema da
mão-de-obra da grande lavoura, a classe dirigente da economia cafeeira passou a preocupar-se diretamente com ò problema. Em 1852
unrgrande plantador de café, o senador Vergueiro, se decidiu a contratar diretamente trabalhadores na Europa.

Conseguindo do governo o financiamento do transporte, transferiu oitenta famílias de camponeses alemães para a sua
fazenda em Limeira. A iniciativa despertou interesse e mais de 2 mil pessoas foram transferidas, principalmente de
Estados alemães e da Suíça, até 1857. A idéia do senador Vergueiro era uma simples adaptação do sistema pelo qual se
organizara a emigração inglesa para os EUA na época colonial: o imigrante vendia o seu trabalho futuro. Nas colônias
inglesas, o financiamento corria por conta do empresário. No caso brasileiro, o governo cobria a parte principal desse
financiamento, que era o preço da passagem da família. É fácil compreender que esse sistema degeneraria rapidamente
numa forma de servidão temporária,
a qual nem sequer tinha um limite de tempo fixado, como ocorria nas colônias
inglesas.
Com efeito, o custo real da imigração corria totalmente por conta do imigrante, que era a parte financeiramente
mais fraca. O Estado financiava a operação, o colono hipotecava o seu futuro e o de sua família, e o fazendeiro ficava
com todas as vantagens. O colono devia firmar um contrato pelo qual se obrigava a não abandonar a fazenda antes de
pagar a dívida em sua totalidade. É fácil perceber até onde poderiam chegar os abusos de um sistema desse tipo nas
condições de isolamento em que viviam os colonos, sendo o fazendeiro praticamente a única fonte do poder político. A
reação na Europa – onde tudo que dizia respeito a um país escravista suscitava imediata preocupação – não tardou. Em
1867 um observador alemão apresentou à Sociedade Internacional de Emigração de Berlim uma exposição em que
pretendia demonstrar que os “colonos” emigrados para as fazendas de café do Brasil eram submetidos a um sistema de
escravidão disfarçada1
15. Evidentemente o caminho tomado estava errado, e era indispensável reconsiderar o problema em
todos os seus termos.

A partir dos anos sessenta a questão da oferta da mão-de-obra tornou-se particularmente séria. A melhora nos preços
do café fazia mais e mais atrativa a expansão da cultura; por outro lado, a grande alta dos preços do algodão provocada pela Guerra de
Secessão nos EUA dera início a uma forte expansão da cultura da fibra nos estados do norte, restringindo-se em
conseqüência o tráfico de escravos para o sul.
A pressão dos acontecimentos exigia evidentemente medidas amplas. A
evolução se inicia pelo sistema de pagamento ao colono116. O regime inicialmente adotado era o de parceria, no qual a
renda do colono era sempre incerta, cabendo-lhe a metade do risco que corria o grande senhor de terras. A perda de uma
colheita podia acarretar a miséria para o colono, dada sua precária situação financeira. A partir dos anos sessenta
introduziu-se um sistema misto pelo qual o colono tinha garantida parte principal de sua renda.
Sua tarefa básica consistia
em cuidar de um certo número de pés de café, e por essa tarefa recebia um salário monetário anual. Esse salário era
completado por outro variável, pago no momento da colheita em função do volume desta.

O segundo problema a exigir solução era o do pagamento da viagem. Obrigando-se o colono a indenizar os gastos de
viagem, seus e de sua família, era inevitável que se suscitasse nele o temor de que sua liberdade futura estava
comprometida. Sendo os fazendeiros de café os mais diretamente interessados na imigração, era natural que corressem
por conta deles os gastos de transporte. Todavia, se a solução fosse adotada nesse sentido, somente os fazendeiros mais
ricos poderiam promover a imigração.
Mas, como não era possível obrigar o colono a permanecer em uma fazenda,
resultaria que uns pagariam o transporte do imigrante que serviria a outros. A solução veio em 1870, quando o governo
imperial passou a encarregar-se dos gastos do transporte dos imigrantes que deveriam servir à lavoura cafeeira
. Demais,
ao fazendeiro cabia cobrir os gastos do imigrante durante o seu primeiro ano de atividade, isto é, na etapa de maturação
de seu trabalho. Também devia colocar à sua disposição terras em que pudesse cultivar os gêneros de primeira
necessidade para manutenção da família. Dessa forma o imigrante tinha seus gastos de transporte e instalaçãojpagos e sabia a que se ater com res-peito à sua renda futura. Esse conjunto de medidas
tornou possível promover pela primeira vez na América uma volumosa corrente imigratória de origem européia destinada
a trabalhar em grandes plantações agrícolas.

Ainda assim é provável que essa imigração não houvesse alcançado níveis tão elevados, não fora o concurso de um
conjunto de condições favoráveis do lado da oferta.
Durante a mesma época em que evoluía favoravelmente o problema
no Brasil, processava-se a unificação política da Itália, de profundas conseqüências econômicas para a península.
A
região do sul – o chamado reino das duas Sicílias -, de menor grau de desenvolvimento e mais baixa produtividade agrí-
cola, encontrou-se em difícil situação para enfrentar a concorrência das regiões mais desenvolvidas do norte. Em
conseqüência, as indústrias manufatureiras do sul – a indústria têxtil havia alcançado um grau de desenvolvimento
relativamente alto – se desorganizaram, criando-se uma situação de depressão permanente para as províncias
meridionais. A pressão sobre a terra, do excedente de população agrícola, fez crescer a intranqüilidade social. A solução
migratória surgiu, assim, como verdadeira válvula de alívio.

Estavam, portanto, lançadas as bases para a formação da grande corrente imigratória que tornaria possível a
expansão da produção cafeeira no Estado de São Paulo. O número de imigrantes europeus que entram nesse estado sobe
de 13 mil, nos anos 70, para 184 mil no decênio seguinte e 609 mil no último decênio do século. O total para o último
quartel do século XIX foi 803 mil, sendo 577 mil provenientes da Itália”7.

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