CAPITULO XVI – O MARANHÃO E A FALSA EUFORIA DO FIM DA ÉPOCA COLONIAL

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CAPITULO XVI
O MARANHÃO E A FALSA EUFORIA DO FIM DA ÉPOCA COLONIAL

O último quartel do século xvm constitui uma nova etapa de dificuldades para a colônia. As exportações, que em
torno de 1760 se haviam aproximado de 5 milhões de libras, pouco excedem em média, nos últimos 25 anos do século,
os 3 milhões. O açúcar enfrenta novas dificuldades e o valor total de suas vendas desce a níveis tão baixos como não se
havia conhecido nos dois séculos anteriores
73. As exportações de ouro, durante esse período, promediaram pouco mais de
meio milhão de libras. Enquanto isso a população havia subido a algo mais de 3 milhões de habitantes. A renda per
capita, ao terminar o século, provavelmente não seria superior a 50 dólares de poder aquisitivo atual – admitida uma
população livre de 2 milhões -, sendo esse provavelmente o nível de renda mais baixo que haja conhecido o Brasil em
todo o período colonial74.

Observada em conjunto, a economia brasileira se apresentava como uma constelação de sistemas em que-alguns
se articulavam entre si e outros permaneciam praticamente isolados As articulações se operavam em torno de dois
pólos principais: as economias do açúcar e do ouro.
Articulada ao núcleo açucareiro, se bem que de forma cada vez
mais frouxa, estava a pecuária nordestina.

Articulado ao núcleo mineiro estava o hinterland pecuário sulino, que se estendia de São Paulo ao Rio Grande.
Esses dois sistemas, por seu lado, ligavam-se frouxamente através do rio São Francisco, cuja pecuária se beneficiava
da meia distância a que se encontrava entre o Nordeste e o centro-sul para dirigir-se ao mercado que ocasionalmente
apresentasse maiores vantagens. No norte estavam os dois centros autônomos do Maranhão e do Pará. Este último
vivia exclusivamente da economia extrativa florestal organizada pelos jesuítas com base na exploração da mão-de-
obra indígena.
O sistema jesuítico, cuja produtividade aparentemente chegou a ser elevada mas sobre o qual não se
dispõe de muitas informações – a Ordem não pagava impostos nem publicava estatísticas -,
entrou em decadência com
a perseguição que sofreu na época de Pombal.
O Maranhão, se bem constituísse um sistema autônomo, articulava-se
com a região açucareira através da periferia pecuária. Dessa forma, apenas o Pará existia como um núcleo totalmente
isolado.
Os três principais centros econômicos – a faixa açucareira, a região mineira e o Maranhão – se interligavam,
se bem que de maneira fluida e imprecisa, através do extenso hinterland pecuário
.

Dos três sistemas principais, o único que conheceu uma efetiva prosperidade no último quartel do século foi o
Maranhão. Essa região se beneficiou inicialmente de uma cuidadosa atenção do governo português, a cuja testa estava
Pombal,
então empenhado em luta de morte contra a Ordem dos Jesuítas.
Os colonos do Maranhão eram adversários
tradicionais dos jesuítas na luta pela escravização dos índios. Pombal ajudou-os criando uma companhia de comércio
altamente capitalizada que deveria financiar o desenvolvimento da região, tradicionalmente a mais pobre do Brasil75.

Tão importante quanto a ajuda financeira, entretanto, foi a modificação no mercado mundial de pro dutos tropicais, provocada pela guerra, de
independência dos EUA e logo em seguida pela Revolução Industrial inglesa. Os dirigentes da companhia perceberam
desde o início que o algodão era o produto tropical cuja procura estava crescendo com mais intensidade, e que o arroz
produzido nas colônias inglesas e principalmente consumido no sul da Europa não sofria restrição de nenhum pacto
colonial.
Os recursos da companhia foram assim concentrados na produção desses dois artigos. Quando os principais
frutos começavam a surgir, ocorreu, demais, que o grande centro produtor de arroz foi excluído temporariamente do
mercado mundial em razão da guerra de independência das colônias inglesas da América do Norte. A produção
maranhense encontrou, assim, condições altamente propícias para desenvolver-se e capitalizar-se adequadamente.
A
pequena colônia, em cujo porto entravam um ou dois navios por ano e cujos habitantes dependiam do trabalho de algum
índio escravo para sobreviver, conheceu excepcional prosperidade no fim da época colonial, recebendo em seu porto de
cem a 150 navios por ano e chegando a exportar 1 milhão de libras.

Excluído o núcleo maranhense, todo o resto da economia colonial atravessou uma etapa de séria prostração nos
últimos decênios do século. Na região do ouro, a depressão é particularmente profunda
e se estenderá pela primeira
metade do século seguinte. Essa decadência afeta indiretamente a região pecuária do sul, a qual atravessará prolongado
período de dificuldades internas. Contudo, um conjunto de fatores circunstanciais deu à colônia, no começo do século
xix, uma aparência de prosperidade, tanto maior quanto a transferência do governo metropolitano e a abertura dos
portos, em 1808, criaram um clima geral de otimismo.

O último quartel do século xvm e os primeiros dois decênios do seguinte estão marcados por uma série de
acontecimentos políticos que tiveram grandes repercussões nos mercados mundiais de produtos tropicais. O primeiro
desses acontecimentos foi a guerra de independência dos EUA, a cujos reflexos indiretos na região maranhense já nos
referimos. O segundo foi a Revolução Francesa e os subseqüentes transtornos nas suas colônias produtoras de artigos
tropicais. Por último vieram as guerras napoleônicas, o bloqueio e o contrabloqueio da Europa, e a desarticulação do
vasto império espanhol da América.

Em 1789 entrou em colapso a grande colônia açucareira francesa -que era Haiti. Nesse pequeno território estavam
concentrados quase meio milhão de escravos que se revoltaram é destruíram grande parte da riqueza ali acumulada,
modificando a situação do mercado do açúcar. Abre-se, assim, para a região açucareira do Brasil, nova etapa de
prosperidade.
O valor das exportações de açúcar, com efeito, mais què duplica na etapa das guerras napoleônicas. A
atividade industrial na Inglaterra é intensa durante esses anos de guerra, e a procura de algodão cresce fortemente.

Seguindo o Maranhão, o Nordeste dedica recursos à produção desse artigo. As dificuldades surgidas nas colônias
espanholas também repercutem no mercado de produtos tropicais e couros.
Dessa forma, praticamente todos os produtos
da colônia se beneficiam de elevações temporárias de preços.
O valor total da exportação de produtos agrícolas
praticamente duplica entre os anos 80 do século xvni e o fim da era colonial, aproximando-se dos 4 milhões de libras.

Entretanto, essa prosperidade era precária, fundando-se nas condições de anormalidade que prevaleciam no mercado
mundial de produtos tropicais. Superada essa etapa, o Brasil encontraria sérias dificuldades, nos primeiros decênios de
vida como nação politicamente independente, para defender sua posição nos mercados dos produtos que tradicionalmente
exportava.

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