CAPÍTULO XVIII – CONFRONTO COM O DESENVOLVIMENTO DOS EUA

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CAPÍTULO XVIII
CONFRONTO COM O DESENVOLVIMENTO DOS EUA

As observações anteriores põem em evidência as dificuldades criadas indiretamente, ou agravadas, pelas limitações
impostas ao governo brasileiro nos acordos comerciais com a Inglaterra firmados entre 1810 e 1827. Sem embargo, não
parece ter fundamento a crítica corrente que se faz a esses acordos, segundo a qual eles impossibilitaram a industrializa-
ção do Brasil nessa etapa, retirando das mãos do governo o instrumento do protecionismo. Observando atentamente o que
ocorreu na época, comprova-se que a economia brasileira atravessou uma fase de fortes desequilíbrios, determinados
principalmente pela baixa relativa dos preços das exportações e pela tentativa do governo, cujas responsabilidades se
havia avolumado com a independência política, de aumentar sua participação no dispêhdio nacional. A exclusão do
entreposto português, as maiores facilidades de transporte e comercialização – devidas ao estabelecimento de inúmeras
firmas inglesas no país – provocaram uma baixa relativa dos preços das importações e um rápido crescimento da procura
dè artigos importados. Criou-se, assim, uma forte pressão sobre a balança dè pagamentos,
que teria de repercutir na taxa
de câmbio.
Por outro lado, conforme indicamos, a forma como se financiou o déficit do governo central veio reforçar
enormemente essa pressão sobre a taxa de câmbio. Na ausência de uma corrente substancial de capitais estrangeiros ou de
uma expansão adequada das exportações, a pressão teve de resolver-se em depreciação externa da moeda, o que provocou
por seu lado um forte aumento relativo dos preços dos produtos importados. Se se houvesse adotado, desde o começo,
uma tarifa geral de 50% ad valorem, possivelmente o efeito protecionista não tivesse sido tão grande como resultou ser
com a desvalorização da moeda83.

A suposição de que estaria ao alcance do Brasil – na hipótese de . total liberdade denação – adotar uma política
idêntica dos EU A,nessa primeira fase dcTséculo xix**, não resiste a uma análise detida dos ía-tos. Esse problema encerra
particular interesse e pode sintetizar-se numa pergunta que muitos homens de pensamento se têm feito no Brasil: por que
se industrializaram os EUA no século xix, emparelhan-do-se com as nações européias, enquanto o Brasil evoluía no
sentido de transformar-se no século xx numa vasta região subdesenvolvida? Superado o fatalismo supersticioso das
teorias de inferioridades de clima e “raça”, essa pergunta adquiriu uma significação mais real do ponto de vista
econômico. Convém, portanto, que lhe dediquemos alguma atenção.

O desenvolvimento dos EUA, em fins do século xvm e primeira metade do xix, constitui um capítulo integrante do
desenvolvimento da própria economia européia, sendo em muito menor grau o resultado de medidas internas
protecionistas adotadas por essa nação americana.
O protecionismo surgiu nos EUA, como sistema geral de política
econômica, em etapa já bem avançada do século xix, quando as bases de sua economia já se haviam consolidado. Pela
primeira tarifa norte-americana de 1789, os tecidos de algodão pagavam tão-somente 5% ad valorem, e a média para
todas as mercadorias era 8,59o85. Vários ajustamentos permitiram que a tarifa para tecidos de algodão alcançasse
17,5%, em 1808, época em que a indústria têxtil norte-americana já se podia considerar consolidada.

Para compreender o desenvolvimento dos EUA no. período imediato à independência, é necessário ter em conta as
peculiaridades dessa colônia que indicamos nos capítulos v e vi. A época de sua independência, a população norte-
americana era mais ou menos da magnitude da do Brasil. As diferenças sociais, entretanto, eram profundas, pois enquanto nô,Brasil a classe dominante era o grupo dos grandes agricultores escravistas, nos EUA uma
classe de pequenos agricultores é um grupo de grandes comerciantes urbanos dominava o país. Nada é mais ilustrativo
dessa diferença do que a disparidade que existe entre os dois principais intérpretes dos ideais das classes dominantes
nos dois países: Alexander Hamilton e o Visconde de Cairu. Ambos são discípulos de Adam Smith, cujas idéias
absorveram diretamente e na mesma época na Inglaterra. Sem embargo, enquanto Hamilton se transforma em paladino
da industrialização, mal compreendida pela classe de pequenos agricultores norte-americanos, advoga e promove uma
decidida ação estatal de caráter positivo – estímulos diretos às indústrias e não apenas medidas passivas de caráter
protecionista86-, Cairu crê supersticiosamente na mão invisível e repete: deixai fazer, deixai passar, deixai vender.

As medidas restritivas com respeito à produção manufatureira que a Inglaterra impunha às suas colônias, na época
mercantilista, tiveram de ser aplicadas de forma muito especial nos EUA, pelo simples fato de que o sistema de
agricultura de exportação não dera resultado nas colônias do norte.
A relação dessas colônias com a Metrópole evoluíra
num sentido distinto conforme indicamos nos capítulos referidos. As linhas gerais da política inglesa passaram a ser as
seguintes: fomentar nas colônias do norte aquelas indústrias que não competissem com as da Metrópole, permitindo a
esta reduzir suas importações de outros países; não permitir que a produção manufatureira das mesmas nos demais
setores concorresse com as indústrias da Metrópole em outros mercados coloniais. A
s medidas coercitivas começam a
surgir quando as colônias do norte chegam a concorrer com a Metrópole nas exportações de manufaturas87.

No caso especial do aço, houve preocupação de dificultar sua produ–ção na colônia, mas em compensação se fomentou a
produção do ferro, para permitir à Inglaterra reduzir sua dependência dos países do Báltico.
Não é sem razão, portanto,
que um dos estudiosos mais criteriosos desta matéria pôde afirmar: “In studying those times, the presumption becomes
better defined with every new detail of fact revealed, that upon the whole industrial development of the colonies was
about where it would have been had their economic policies been governed by their own people”88. Por outro lado, as
próprias colônias, que se defrontam com dificuldades para efetuar as importações de manufaturas de que necessitavam,
desde cedo criaram consciência da conveniência de fomentar a produção interna. Já em 1655 Massachusetts passou uma
lei obrigando todas as famílias a produzir os tecidos de que necessitassem.
Muitas colônias proibiam a exportação de
certas matérias-primas, como couros, para que fossem manufaturadas localmente. Por último cabe referir o extraordinário
avanço da indústria da construção naval, a qual desempenharia um papel fundamental no desenvolvimento ocorrido na
época das guerras napoleônicas. Já antes da independência as três quartas partes do comércio norte-americano se
realizavam em seus próprios barcos89.

 guerra de independência, cortando por vários anos todo suprimento de manufaturas inglesas, criou um forte
estímulo à produção interna, que já dispunha de base para expandir-se. Logo em seguida teve início a etapa de grandes
transtornos políticos na Europa, os quais criaram estímulos extraordinários para o desenvolvimento da economia norte-
americana. Durante muitos anos os EUA forama única potência neutra que dispunha de uma grande frota mercante. Com
as dificuldades de abastecimento europeu, as Anti-lhas inglesas e francesas voltam-se para o mercado norte-americano
de alimentos.
Para que se tenha idéia dessa prosperidade, basta ter em conta que de 1789 a 1810 a frota mercante norte-americana cresceu de 202 mil para 1.425.000 toneladas, e que todos
esses barcos eram construídos no país90.

A experiência técnica acumulada desde a época colonial, a lucidez de alguns de seus dirigentes que perceberam o
verdadeiro sentido do desenvolvimento econômico que se operava com a Revolução Industrial, e a grande
acumulação de capitais da fase das guerras napoleônicas não seriam, entretanto, suficientes para explicar as
transformações desse país na primeira metade do século xix. Por muito tempo ainda a economia norte-americana
dependerá, para desenvolver-se, da exportação de produtos primários. Com efeito, foi como exportadores de uma
matéria-prima – o algodão – que os EUA tomaram posição na vanguarda da Revolução Industrial, praticamente desde
os primórdios desta.
A Revolução Industrial, no último quartel do século xvm e primeira metade do século xix,
consistiu basicamente em profunda transformação da indústria têxtil. É esse um fenômeno fácil de explicar se se tem
em conta que os tecidos constituem a principal mercadoria “elaborada” nas sociedades pré-capitalistas. O mercado de
tecidos já estava feito, ao passo que o mercado de grande número de outras manufaturas existia apenas em forma
embrionária. A primeira fase da Revolução Industrial apresenta, na verdade, duas características básicas: a
mecanização dos processos manufatureiros da indústria têxtil e a substituição nessa indústria da lã pelo algodão91,
matéria-prima cuja produção se podia expandir mais facilmente.
Se à Inglaterra coube a tarefa de introduzir os
processos de mecanização, foram os EUA que se incumbiram da segunda: fornecer as quantidades imensas de algodão
que permitiriam, em alguns decênios, transformar a fisionomia da oferta de tecidos em todo o mundo.
Com efeito,
entre 1780 e a metade do século xrx, o consumo anual de algodão pelas fábricas inglesas aumentou de 2-mil toneladas para
cerca de 250 mil. Essa enorme expansão do consumo dê tecidos de algodão não refletia um crescimento autônomo da
procura. Foi na verdade conseguido, nessa primeira etapa, principalmente através de uma intensa concorrência às
manufaturas locais de base artesanal e através da redução relativa do consumo de outras fibras. O instrumento principal
dessa concorrência foi a baixa nos preços: entre o último decênio do século xvin e a metade do século xix os preços das
manufaturas inglesas de algodão se reduziram de duas terças partes92. Ora, essa redução foi, em grande parte, um reflexo
da baixa do preço do algodão, possível graças a um concurso de circunstâncias que favoreceram a produção em grande
escala desse artigo nos EUA93.

O algodão, que chegou a representar mais da metade do valor das exportações dos EUA, constitui o principal fator
dinâmico do desenvolvimento da economia norte-americana na primeira metade do século xix.
O seu cultivo permitiu a
incorporação de abundantes terras férteis em Alabama, Mississípi, Louisiania, Arkansas e Flórida, as quais eram
utilizadas em forma mais ou menos idêntica ao que ocorreria no Brasil com o café. As formas extensivas de cultura obri-
gavam a buscar sempre novas terras e a penetrar no interior do continente. E foi principalmente como reflexo desse
sistema, em expansão no sul, que se povoou o meio-oeste norte-americano, abrin-do-se espaço para as grandes correntes
de colonização européia, as quais penetravam no centro do continente subindo os grandes rios que as ligavam com os
mercados do sul.

À semelhança do que ocorreu ao Brasil ao se abrirem os portos, a balança comercial dos EUA com a Inglaterra era via
de regra deficitária nos primeiros decênios do século XDC.Contudo, esse déficit, em vez de pesar sobre o câmbio – como
foi o caso no Brasil – e provocar um rea-justamento em níveis mais baixos de intercâmbio, tendia a transformar-se em
dívidas de médio e longo prazos, invertendo-se em bônus dos governos central e estaduais. Formou-se, assim quase
automaticamente, uma corrente de capitais que seria de importância fundamental para o desenvolvimento do país. Isto foi
possível graças à política financeira do Estado, concebida por Hamilton, e à ação pioneira do governo central primeiro e
estaduais depois na construção de uma infra-estrutura econômica e no fomento direto de atividades básicas
94.

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