O SISTEMA BIPOLAR E UNIVERSAL DA GUERRA FRIA

A ordem da Guerra Fria presidiu as relações internacionais nas
décadas do pós-guerra, entre 1947 e 1989. Em 1947, as rivalidades entre
os vencedores da Segunda Guerra Mundial precipitaram a formulação
da Doutrina Truman e o subseqüente lançamento do Plano Marshall.

Com essas medidas, os Estados Unidos engajavam-se na montagem de
uma área de influência na Europa ocidental, organizando a contenção
da influência continental soviética. A confrontação entre blocos
geopolíticos subordinados às superpotências nucleares, delineada já nas
conferências de paz de 1945, tornava-se o vetor principal das relações
internacionais.

A desativação do Muro de Berlim, em novembro de 1989, assinalou
o encerramento do período histórico da Guerra Fria. Marco da
decomposição do conjunto do bloco soviético da Europa oriental e do
processo de reunificação alemã, esse fato separou nitidamente duas
épocas. A Guerra Fria assentava-se na bipartição do espaço europeu,
cuja manifestação crucial foi a divisão da Alemanha. A “nova ordem”
internacional assistiu à reconstituição de um espaço europeu autônomo,
que tem por vértice a Alemanha reunificada.

Os quarenta e três anos de Guerra Fria constituíram um período
singular na história. O sistema internacional de Estados adquiriu uma
geometria bipolar e uma dimensão universal.

A bipolaridade de poder distingue a Guerra Fria de todo o período
precedente da história moderna e da contemporânea. Desde o surgimento dos Estados nacionais, na Europa pós-feudal, o poder
geopolítico distribuiu-se de maneira multipolar.

As crises do entreguerras – a depressão econômica aberta em 1929,
a emergência do fascismo e a do nazismo na Europa – solaparam as
bases da convivência internacional multipolar,
convulsionada desde o
fim do século XIX pelas repercussões da unificação alemã.
A Segunda
Guerra Mundial assestou um golpe de morte nas tradicionais potências
européias e o fim do conflito revelou um cenário mundial dominado
pelas novas superpotências do pós-guerra: os Estados Unidos e a União
Soviética.

Em princípio, os sistemas multipolares apresentam maior
estabilidade e segurança que os sistemas bipolares. A distribuição do
poder entre diversas potências gera possibilidades variadas de alianças,
que se modificam e evoluem no sentido da manutenção de um equilíbrio
dinâmico de forças. Essa situação de equilíbrio de poder diminui o
sentimento de insegurança das potências, formando as bases de períodos
mais ou menos prolongados de paz.

Nos sistemas bipolares, pelo contrário, toda e qualquer iniciativa
tomada por uma das potências, visando ampliar a sua margem de
segurança e o seu poder, é encarada pela potência rival como ameaça
direta e vital, que exige resposta simétrica.
Assim, a insegurança
transforma-se em fator decisivo das relações internacionais, originando
um movimento contínuo de cada um dos antagonistas tendente a
reforçar seu próprio poder. O exemplo clássico dessa dinâmica circular
típica da bipolaridade foi a corrida armamentista na qual se engajaram
as superpotências da Guerra Fria.

Entretanto, paradoxalmente, o sistema bipolar da Guerra Fria
coincidiu com longo período de quatro décadas de paz e estabilidade de
fronteiras no espaço euroasiático. Nessa área, foco principal da
confrontação entre soviéticos e americanos, a acumulação inédita de
armas convencionais e nucleares gerou o equilíbrio do terror,
prevenindo e impedindo a explosão de um conflito militar devastador
que não pouparia nenhum dos envolvidos. O equilíbrio do terror,
materializado na capacidade de aniquilação planetária disponível nos
arsenais das superpotências, foi forma singular de equilíbrio de poder
que fez da Guerra Fria a mais duradoura época de paz armada até hoje
conhecida.24

A Guerra Fria assinalou a decadência geopolítica da Europa. As
potências européias tradicionais controlaram a política internacional
contemporânea até a Primeira Guerra. Os efeitos desse conflito
devastador, que continuaram a repercutir no entreguerras,
representaram golpe definitivo nas potências européias. A Segunda
Guerra marcou sua substituição pelas superpotências da Guerra Fria.

Então, o espaço europeu foi bipartido em zonas de influência submetidas
aos Estados Unidos e à União Soviética. Geograficamente, a Guerra
Fria foi o período da hegemonia dos pólos de poder exteriores, localizados
a ocidente e a oriente do continente europeu.

A decadência geopolítica da Europa repercutiu fora do continente,
nas áreas coloniais da África e da Ásia: o período da Guerra Fria foi
também o da descolonização.
No pós-guerra, o crescimento dos
movimentos de libertação nacional africanos e asiáticos provocaram a
independência de praticamente todas as antigas colônias européias.
Esse
processo assinalou a dissolução da influência mundial de potências como
a Grã-Bretanha e a França,
que tinham constituído vastos impérios no
século XIX. Assinalou ainda o fim dos sonhos imperiais de Estados que
há muito tinham deixado de ser potências, mas conservavam domínios
coloniais no além-mar, como era o caso de Portugal.

O processo de descolonização ampliou o âmbito geográfico do
sistema internacional de Estados.
Antes da Segunda Guerra, o sistema
de Estados restringia-se ao norte da Eurásia, à América e à Oceania. No
pós-guerra, a Ásia meridional e a África passaram a abrigar dezenas de
novos Estados politicamente soberanos
. Assim, o sistema de Estados
tornou-se, pela primeira vez, um sistema universal.

A universalidade do sistema de Estados, expressa na Assembléia
Geral da ONU, é outro traço marcante da Guerra Fria. Entretanto, essa
universalidade se combinou com uma nítida hierarquia de poder político
e econômico.
Politicamente, a desigualdade de poder foi formalizada
no Conselho de Segurança da ONU, no qual os cinco membros
permanentes (Estados Unidos, União Soviética, Grã-Bretanha, França
e China) exercem direito de veto sobre as decisões do organismo.

Economicamente, a desigualdade de poder materializou-se em relações
de dependências tecnológica e financeira que subordinaram as nações
latino-americanas, asiáticas e africanas às potências industriais.

_____________________________
A Europa dividida
As conferências de Yalta e Potsdam, realizadas em 1945, reuniram
os vencedores da Segunda Guerra e redefiniram a organização
geopolítica do continente europeu. Os “Três Grandes” (Estados Unidos,
União Soviética e Grã-Bretanha) começaram a delinear nesses encontros
a bipartição do espaço europeu em zonas de influência antagônicas
.

A Conferência de Yalta realizou-se em fevereiro, poucas semanas
antes da rendição alemã.
Nesse encontro se reorganizaram as fronteiras
soviéticas e foram estabelecidas as bases dos novos regimes políticos a
serem implantados na Europa oriental.

O território soviético foi ampliado, com a inclusão de áreas
pertencentes à Romênia e à Polônia.
Sob protestos dos representantes
ocidentais, a URSS de Stalin confirmou a anexação dos Estados Bálticos
(Lituânia, Estônia e Letônia), realizada em 1939. Dessa forma, o território
soviético passava a coincidir, quase exatamente, com o território do
Império Russo às vésperas da Primeira Guerra. Stalin, o czar vermelho,
reafirmava a vocação imperial da Grande Rússia.

Na Europa oriental, as tropas nazistas tinham sido substituídas
pelo Exército soviético.
Em Yalta, o mapa militar do final da guerra
forneceu as bases para a organização dos novos regimes políticos que se
instalariam na região. Um acordo inicial entre os participantes previa a
formação de governos de união nacional na Polônia, na Tchecoslováquia,
na Hungria, na Romênia, na Bulgária, na Iugoslávia e na Albânia. Tais
governos contariam com representantes de todos os partidos
antifascistas mas seriam dirigidos pelos partidos comunistas.
Nessas
condições, Yalta assinalava a constituição de uma área de influência
soviética no Leste Europeu.

A Conferência de Potsdam realizou-se em julho, nos arredores
de Berlim, cidade ocupada pelas tropas soviéticas. O centro das
discussões foi a organização da administração da Alemanha derrotada.

Aí se delineou a futura partição geopolítica do território alemão.
Decidiu-se a divisão provisória da Alemanha em quatro zonas de
ocupação militar, administradas pelas potências vencedoras (Estados
Unidos, Grã-Bretanha, França e União Soviética). Os ocupantes deveriam
cumprir um programa de erradicação completa das estruturas nazistas
e realizar reformas voltadas para a democratização da sociedade alemã.

As medidas concernentes ao conjunto do território seriam tomadas em
comum acordo.

Berlim, situada na zona de ocupação soviética, na parte oriental
da Alemanha, foi subdividida em quatro setores administrativos,
subordinados a comandantes militares das potências vencedoras.
A
administração do conjunto da área da cidade estaria a cargo de um
Conselho de Controle Interaliado, no qual teriam assento os quatro
ocupantes.

Nos meses seguintes às conferências, as relações entre as potências
ocidentais e a URSS deterioraram-se progressivamente.
A constituição
dos governos de união nacional na Europa oriental acirrou as divergências
em torno do grau de influência soviética sobre os novos regimes políticos.
Na Alemanha ocupada, as políticas soviéticas voltadas para reformas
sociais e econômicas na zona oriental agudizaram os conflitos com
britânicos e americanos. Descia-se o plano inclinado que conduzia à
Guerra Fria.

Em fevereiro de 1947, ao anunciar verbas destinadas aos regimes
pró-ocidentais da Grécia e da Turquia, o presidente americano Harry
Truman formulava os princípios da doutrina que levaria o seu nome. A
Doutrina Truman, marco inicial da Guerra Fria, fundava-se no conceito
de que a União Soviética se movia segundo uma lógica expansionista,
que necessitava ser contida
. Os Estados Unidos assumiam a
responsabilidade de organizar a “contenção”, aplicando uma estratégia
de sustentação política, econômica e militar dos Estados europeus
capitalistas.25

À Doutrina Truman seguiu-se o lançamento do Plano Marshall,
com a liberação de vultosos créditos financeiros dirigidos à reconstrução
das economias capitalistas européias,
devastadas pela guerra. Tratava-
se de iniciativa de fundo político, destinada a materializar a estratégia
da “contenção”. A força do dólar e o dinamismo da economia norte-
americana passariam a alicerçar o espaço geopolítico da Europa
ocidental.

Reagindo às iniciativas norte-americanas, a União Soviética voltou-
se para a consolidação da sua área de influência no Leste Eeuropeu.
Entre 1947 e 1949, foram dissolvidos os precários governos de união
nacional desenhados em Yalta
.
Os partidos comunistas, controlados
diretamente por Moscou, formaram regimes monolíticos nos países da
Europa oriental e as estruturas econômicas da Zona foram adaptadas
ao modelo vigente na URSS.
O sistema unipartidário e a estatização
geral dos meios de produção transformaram a área de influência num
bloco de países satélites, estruturado à sombra do poder de Moscou.

Em 1948-1949, a aplicação do Plano Marshall nas zonas de
ocupação ocidentais da Alemanha e de Berlim, visando reconstituir o
poderio industrial do país, provocou a crise do Bloqueio de Berlim.
A
suspensão do bloqueio soviético resultou na divisão da Alemanha em
dois Estados. Surgiam a RFA (República Federal da Alemanha) e a RDA
(República Democrática Alemã).

Assim, o território alemão sintetizava e resumia a bipartição
geopolítica do espaço europeu. A “cortina de ferro” passava a dividir a
cidade de Berlim ao meio
. Doze anos mais tarde, seria erguido o Muro
de Berlim, conferindo sombria materialidade à mais célebre fronteira
entre os blocos geopolíticos antagônicos.

_____________________________________
O cisma sino-soviético e a distensão

A Revolução Chinesa de 1949 gerou um Estado socialista
autônomo diante da União Soviética. O poderio geopolítico desse Estado
– expresso na demografia, na extensão territorial e na base de recursos
econômicos – representou um desafio estratégico para Moscou.
A
rivalidade potencial entre Moscou e Pequim permaneceu oculta durante
a primeira década do poder de Mao Tsetung, mas eclodiu quando a
China tomou a decisão de desenvolver um programa nuclear nacional.

O cisma sino-soviético tornou-se público em julho de 1960, quando
a União Soviética rompeu o programa de cooperação militar bilateral,
suspendendo a assistência financeira e retirando todos os assessores
técnicos que trabalhavam na China.
A reação de Pequim consistiu no
fechamento da fronteira chinesa com a União Soviética
. A ruptura
expressava o temor de Moscou em relação a uma China que agregava
a modernização militar a seu potencial demográfico, alterando desse
modo o cenário estratégico asiático.

A China explodiu sua primeira bomba atômica em 1964. Dois
anos mais tarde, iniciou a Revolução Cultural, radicalizando suas
experiências coletivistas e afastando-se ainda mais da União Soviética.

Em agosto de 1969, pouco depois da abertura das negociações de paz
do Vietnã, estalaram conflitos armados ao longo do Rio Ussuri, na
fronteira sino-soviética. Naquele momento, a China e a União Soviética
ficaram perigosamente próximas da guerra total e a profundidade do
cisma tornou-se patente até para os mais céticos.

A reorientação da política externa americana empreendida por
Nixon e Kissinger a partir de 1969 tomou como pontos de partida as
evidências de que a estratégia da contenção na Ásia tinha entrado em
colapso e já não correspondia às tendências dinâmicas do sistema
internacional. A retirada do Vietnã, uma necessidade política premente
em função da oposição doméstica à guerra, significava a virtual supressão
do “cordão sanitário” de alianças asiáticas que rodeavam as duas
potências comunistas.

O cisma sino-soviético, cujas causas não se relacionavam com a
política americana, apresentava a oportunidade de reconfigurar
positivamente a contenção da União Soviética. A estratégia conduzida
por Nixon e Kissinger girou em torno de três eixos, que se reforçavam e
apoiavam uns aos outros: a “retirada honrosa” do Vietnã, a aproximação
e a cooperação com a China, a distensão das relações com a União Soviética.

A abertura para a China constituiu o aspecto mais sensacional e
dramático da nova política externa de Washington.
Em tese, essa
possibilidade existia desde o início dos atritos entre Moscou e Pequim –
e tanto o alemão Konrad Adenauer, em 1957, quanto o francês Charles
De Gaulle, no início dos anos 60, apontaram a inadequação da idéia de
contenção da China. Mas, nas palavras de Kissinger, “…durante muito
tempo, os elaboradores americanos de políticas, cegos por preocupações
ideológicas, foram incapazes de apreciar que a ruptura sino-soviética
representava uma oportunidade estratégica para o Ocidente”.26

A aproximação sino-americana realizou-se sob a forma sensacional
da viagem do presidente americano à capital de um Estado que
permanecia sem relações diplomáticas com os Estados Unidos. Nixon
visitou a China entre 21 e 27 de fevereiro de 1972, entabulando longas
conversações com Mao Tsetung e Chou En Lai, o número dois na
hierarquia chinesa. A visita não produziu qualquer acordo diplomático
formal – nem era essa a sua pretensão. Contudo, o Comunicado de Xangai,
declaração conjunta final, sugeriu, em linguagem apropriadamente
hiperbólica, uma aliança tácita destinada a se opor a eventuais tentativas
soviéticas de dominação da Ásia
.

O acordo tácito sino-americano tinha conseqüências estratégicas
para a União Soviética. Daquele momento em diante, Moscou deveria
trabalhar com o cenário complexo de duas frentes de combate: a Otan,
na Europa, e a China, na Ásia. O arsenal nuclear chinês, embora
incomparavelmente menor que o soviético, proporcionava dissuasão
limitada. A promessa implícita de apoio americano no caso de uma
agressão à China reduzia o espaço de manobra soviético.

A diplomacia triangular, tal como caracterizada por Kissinger,
substituía a contenção rígida – expressa no “cordão sanitário” – por
uma dinâmica de equilíbrio de poder no espaço asiático.
A dinâmica
dessa política exigia que Washington conservasse sempre a iniciativa,
fornecendo estímulos para a cooperação bilateral tanto com Moscou
quanto com Pequim. No esquema do triângulo, a posição negociadora
americana seria mais favorável enquanto os Estados Unidos estivessem
mais próximos de cada uma das potências comunistas do que estas
estivessem entre si.

A política da distensão exprimiu-se em várias frentes mas, antes
de tudo, na esfera dos tratados de limitação de armamentos nucleares.
Ao longo da década de l970, a partir da administração Nixon, ergueram-
se os pilares do edifício de tratados que regularam o equilíbrio do terror.

O primeiro pilar foi o Tratado de Limitação de Armas Estratégicas
(SALT-1) firmado em 1972 por Nixon e pelo líder soviético Leonid
Brejnev. No núcleo do SALT-1, encontrava-se o acordo sobre mísseis
antibalísticos (ABM), que limitou as defesas contra mísseis estratégicos
a apenas duas cidades e duzentos vetores para cada lado.
Seu significado
era o de virtualmente impedir a defesa da população diante de um ataque
nuclear. A lógica que o orientava se baseava na manutenção da eficácia
da represália devastadora, eliminando os incentivos de um sistema de
defesa nacional antimísseis para um primeiro ataque de surpresa.

O segundo pilar foram os acordos de limitação de armas ofensivas
estipulados pelo SALT-1 e, depois, pelo SALT-2, assinado em 1979 por
Jimmy Carter e Brejnev. Nos dois casos, fixaram-se tetos máximos,
extremamente elevados, de vetores e ogivas. Os limites definidos nesses
tratados não se destinavam a reduzir os arsenais nucleares, mas a ordenar
a corrida armamentista de modo a conservar a paridade estratégica
assimétrica.

A política da distensão atingiu seu ponto mais alto depois do
encerramento da administração Nixon, antecipado pelos
desdobramentos do escândalo de Watergate. Em 1975, reuniu-se em
Helsinque – com a participação dos Estados Unidos, da União Soviética,
do Canadá e dos Estados europeus – a Conferência sobre a Segurança e
a Cooperação Européia (CSCE). A Ata de Helsinque, que encerrou a
Cúpula, legitimava a ordem emanada do fim da Segunda Guerra
Mundial e da divisão da Europa em blocos geopolíticos antagônicos. A
CSCE tornou-se um fórum de segurança de primeira ordem, abrangendo
as superpotências e as suas alianças militares, a Otan e o Pacto de
Varsóvia. Mais tarde, com o fim da Guerra Fria, se transformaria num
organismo de caráter permanente: a atual Organização de Segurança e
Cooperação Européia (OSCE).

_____________________________
O Terceiro Mundo

O vasto movimento de descolonização que reorganizou o mapa
político da Ásia e o da África trouxe ao sistema internacional dezenas
de novos Estados. Uma das suas conseqüências mais importantes foi a
emergência de nova realidade: o Terceiro Mundo.

Em 1955 – quando os movimentos de libertação avançavam
rapidamente na Ásia e davam sinais de força na África – reuniu-se em
Bandung (Indonésia) uma Conferência Afro-Asiática.
Pela primeira vez,
os novos Estados independentes articulavam-se politicamente, lançando
um documento de dez pontos (a Carta de Bandung) orientados pelas
reivindicações de autodeterminação nacional e pela crítica ao colonialismo
e ao racismo. Dentre os 29 países participantes, destacavam-se a
Indonésia, a Índia, o Paquistão, a China Popular e o Egito.

A partir da reunião pioneira de Bandung, os líderes da Iugoslávia
(Josip Broz Tito), do Egito (Gamal Abdel Nasser) e da Índia (Jawaharlal
Nehru) passaram a organizar a criação de um movimento de Estados
desvinculados dos blocos geopolíticos da Guerra Fria.
Em 1961, com a
avalanche de independências no continente africano, reuniram-se as
condições para a instalação do novo movimento. Uma conferência
realizada em Belgrado (Iugoslávia) originou o Movimento dos Países
Não-Alinhados.

Em torno do conceito de uma neutralidade ativa, procurava-se
organizar um pólo de poder externo à bipolaridade da Guerra Fria. Os
não-alinhados rejeitavam o conflito Leste-Oeste, destacando a pobreza
dos novos países independentes e a necessidade de revisão das relações
Norte-Sul.
Assim, afirmavam a existência do Terceiro Mundo,
contraposto tanto às potências industriais capitalistas (o “Primeiro
Mundo”) quanto à URSS e à sua área de influência no Leste Europeu (o
“Segundo Mundo).27

O Terceiro Mundo e o terceiro-mundismo constituíram um
conceito e uma postura intelectual com várias e diversificadas dimensões.
No plano geopolítico, o terceiro-mundismo representou uma estratégia
de intervenção de Estados e partidos políticos que procuravam operar
num espaço distinto do comunismo oficial subordinado a Moscou. A
ruptura entre a China Popular e a União Soviética, a partir de 1960,
transformou o terceiro-mundismo em bandeira de Pequim, que
postulava liderança entre os novos Estados afro-asiáticos independentes.

Na América Latina, a Revolução Cubana de 1959 e a conseqüente
aglutinação de agrupamentos guerrilheiros em torno da liderança de
Fidel Castro e Che Guevara disseminaram o discurso terceiro-mundista
e a idéia de um processo revolucionário baseado nas populações rurais.

No plano universitário, um grupo de geógrafos franceses reunidos
em torno de Pierre George e Yves Lacoste elaborou uma definição social
e econômica desse conjunto de países. As realidades heterogêneas da
América Latina, da África e da Ásia Meridional eram agrupadas em
função de uma série de características comuns demográficas (como o
elevado crescimento vegetativo e o predomínio das populações no meio
rural), econômicas (a fraca industrialização, o peso determinante das
atividades agrominerais, a dependência de capitais e tecnologias
estrangeiros) e sociais (a disseminação da pobreza, da subnutrição, do
analfabetismo e as elevadas taxas de mortalidade infantil).

Comments
3 Responses to “O SISTEMA BIPOLAR E UNIVERSAL DA GUERRA FRIA”
  1. X disse:

    Cara valeu me ajudou muito

  2. wedson disse:

    aprenda a escrever direito.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: