CAPÍTULO XV – REGRESSÃO ECONÔMICA E EXPANSÃO DA ÁREA DE SUBSISTÊNCIA

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CAPÍTULO XV
REGRESSÃO ECONÔMICA E EXPANSÃO DA ÁREA DE SUBSISTÊNCIA

Não se havendo criado nas regiões mineiras formas permanentes de atividades econômicas – à exceção de alguma
agricultura de subsistência -, era natural que, com o declínio da produção de ouro, viesse uma rápida e geral decadência.

À medida que se reduzia a produção, as maiores empresas se iam descapitalizando e desagregando. A reposição da mão-
de-obra escrava já não se podia fazer, e muitos empresários de lavras, com o tempo, se foram reduzindo a simples
faiscadores. Dessa forma, a decadência se processava através de uma lenta diminuição do capital aplicado no setor
minerador. A ilusão de que uma nova descoberta poderia vir a qualquer momento induzia o empresário a persistir na
lenta destruição de seu ativo
,
em vez de transferir algum saldo liquidável para outra atividade econômica. Todo o sistema
se ia assim atrofiando, perdendo vitalidade, para finalmente desagregar-se numa economia de subsistência.

Houvesse a economia mineira se desdobrado num sistema mais complexo, e as reações seguramente teriam sido
diversas. Na Austrália, três quartos de século depois, o desemprego causado pelo colapso da produção de ouro constituiu
o ponto de partida da política protecionista que tornou possível a precoce industrialização desse país72. A necessidade de
absorver o enorme excedente de mão-de-obra que se foi criando à medida que diminuiu a produção de ouro – problema
tanto mais grave quanto os setores lanífero e agrícola haviam introduzido técnicas  poupadoras de mão-de-obra no períoda anterior para poder subsistir contribuiu para formar no Estado de Vitória uma
consciência dàra de que só a industrialização poderia resolver o problema estrutural da região. Tivesse o país
permanecido sob a influência exclusiva dos grupos exportadores de lã, e a predominância das idéias liberais teria
impedido qualquer política de industrialização por essa época.

A existência do regime de trabalho escravo impediu, no caso brasileiro, que o colapso da produção de ouro criasse
fricções sociais de maior vulto. A perda maior foi para aqueles que tinham invertido grandes capitais em escravos e
viam a rentabilidade destes baixar dia a dia. O sistema se descapitalizava lentamente, mas guardava sua estrutura. Ao
contrário do que ocorria no caso da economia açucareira – que defendia até certo ponto sua rentabilidade conservando
uma produção relativamente elevada -, na mineração a rentabilidade tendia a zero e a desagregação das empresas
produtivas era total. Muitos dos antigos empresários transformavam-se em simples faiscadores e com o tempo revertiam
à simples economia de subsistência. Uns poucos decênios foram o sufi-dente para que se desarticulasse toda a economia
da mineração, decaindo os núcleos urbanos e dispersando-se grande parte de seus elementos numa economia de
subsistência,
espalhados por uma vasta região em que eram difíceis as comunicações e isolando-se os pequenos grupos
uns dos outros. Essa população relativamente numerosa encontrará espaço para expandir-se num regime de subsistência
e virá a constituir um dos principais núcleos demográficos do país. Neste caso, como no da economia pecuária do
Nordeste, a expansão demográfica se prolongará num processo de atrofiamento da economia monetária. Dessa forma,
uma região cujo povoamento se fizera em um sistema de alta produtividade, e em que a mão-de-obra fora um fator
extremamente escasso, involuiu numa massa de população totalmente desarticulada, trabalhando com baixíssima
produtividade numa agricultura de subsistência. Em nenhuma parte do continente americano houve um caso de
involução tão rápida e tão completa de um sistema econômico constituído por população principalmente de origem
européia.

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