Planos Econômicos – Cruzado – “O plano pela ótica de Veja”

5 de março de 1986
O início de um governo

Espremido na arena política, Sarney bane o cruzeiro da vida nacional e joga-se com audácia numa reforma que o país aprova

Por mais de um ano, desde que Tancredo Neves usou pela primeira vez a expressão, a Nova República foi pouco menos uma promessa e pouco mais que um truque. Desde a manhã de sexta-feira, quando o presidente José Sarney matou o cruzeiro, criou o cruzado, mutilou o alcance da correção monetária e empenhou o seu governo numa política de congelamento de preços e de salários, compondo a mais audaciosa reforma econômica das últimas décadas, ela é uma necessidade. Desde 1984, quando as bandeiras amarelas da campanha pelas diretas já começaram a expelir o regime de 1964, tentou-se de tudo com o velho e eficaz receituário da ambigüidade. Fez-se um novo regime com boa parte do elenco do velho. Gastou-se em nome da democracia com a mesma ligeireza com que se esbanjava quando ela era uma palavra maldita. Construiu-se uma Aliança Democrática que se mostra muito mais ativa em ocupar cargos do que em mostrar o que é capaz de fazer com eles. Esse conjunto de ambigüidades, somado a uma economia arruinada pelo regime anterior, aumentou a um nível intolerável a pressão sobre os negócios do Estado. Preservaram-se despesas, pessoas e compromissos. Em todos os setores em que a ambigüidade podia ser sustentada pela habilidade e pelas compensações do Erário, ganhou-se tempo. No único setor em que o Estado se comunica direta e irremediavelmente com a sociedade que o sustenta – a economia- a caldeira rompeu-se: explodiu a própria moeda. Mal sabia o pobre cruzeiro que caberia a ele o humilhante papel de banido da galeria dos ícones nacionais.

O presidente José Sarney, montado numa máquina rebelde e pasmacenta, apoiado por uma Aliança que briga mais consigo mesma do que com uma oposição temível à esquerda e tímida à direita, começou na semana passada o período que pode efetivamente ser tomado como o início do seu governo. Sua Presidência não começa em 15 de março do ano passado, pois foi a fatalidade que levou Tancredo Neves ao hospital e, dali, para o túmulo, enquanto o destino levava seu vice da interinidade à condição de titular. Não começa o seu governo na reforma ministerial de fevereiro, porque ela foi muito mais um dos deliciosos atos administrativos que a Constituição atribui ao presidente. O governo Sarney, imposto pela morte de Tancredo, começa com a morte do cruzeiro porque é a partir da semana passada que ele assume, num lance de coragem, a mais preciosa e traiçoeira das armas dos governantes: o risco.

Durante uma das reuniões sigilosas em que se discutiu a reforma da economia, ficou perfeitamente claro que o projeto do ministro Dilson Funaro assegura pouco mais de noventa dias de trégua, ao cabo dos quais ou ele sai robusto como se deseja, ou se torna vulnerável, quer por pressões especulativas, quer por ataques de um movimento sindical de conexões partidárias, ou até mesmo por golpes de aventureiros políticos.

Sarney teve pelo menos uma oportunidade de perceber, na própria sexta-feira, que o Partido da Frente Liberal tem pouca simpatia pelo prestígio político e popular adquirido pelo ministro Dilson Funaro. Há tempo o presidente sabe que o PMDB, assustado com a falta de dividendos eleitorais que o poder lhe impôs, está pronto para dar um bote sobre a retórica esquerdista pelo receio de que o governador Leonel Brizola, com seu balaio de penduricalhos populistas, continue a devastar-lhe o roçado. Brizola, saído de um resultado apenas satisfatório da eleição de novembro do ano passado, avançou sobre o que parece ser um eleitorado reformista do PMDB, quando, na realidade, ocupa apenas o espaço da inação e da ambigüidade. Goza do privilégio de ser contra tudo e a favor de pouco mais do que de si próprio.

Espremido politicamente, administrando uma economia que dava sinais de falência administrativa, Sarney teve audácia e jogou-se na reforma. O resultado, sem que houvesse qualquer reunião de notáveis da Aliança Democrática, foi um amplo apoio popular centralizado na sua própria pessoa. Em todos os Estados do país registraram-se não só manifestações de simpatia à coragem com que agora se enfrenta a inflação. No Rio de Janeiro, radicalizando até à selvageria o descontentamento popular contra comerciantes que remarcavam seus preços covardemente, depredaram-se lojas. A fúria popular da semana passada lembra vagamente o sinal de alerta dado em abril de 1983 em Santo Amaro, o principal bairro industrial da cidade de São Paulo, quando uma manifestação de desempregados terminou em monumental quebra-quebra. Àquela época havia uma multidão desequilibrada pela recessão, disposta a quebrar qualquer coisa, desde caminhões de laranjas até as grades do Palácio dos Bandeirantes. Nos meses seguintes, em diversos Estados, surgiram multidões dispostas a quebrar as portas que as separavam da comida. Três anos depois, os cariocas depredaram a loja da cadeia Bob’s porque ela cerrara suas portas com a finalidade de remarcar preços, ludibriando seus fregueses e o anseio da sociedade por uma economia estável. Idênticos no primarismo e na selvageria, os quebra-quebras diferem fundamentalmente na origem. Os de 1982 pertenciam a uma sociedade doente. O da semana passada, a uma sociedade que luta para se recuperar e agarra-se a um instante de audácia do governo para agarrar à unha um fantasma com o qual os brasileiros são obrigados a conviver: a inflação. Pela primeira vez em muitos anos, torce-se para que uma reforma feita à revelia do Congresso dê certo.

Se os comícios das diretas mostraram ao PDS, e ao seu presidente, o senador José Sarney, que o regime de 1964 estava finado, o apoio que a reforma econômica recebeu ensina que é preciso começar desde logo a construção de algo novo. A mão que há dois anos apedrejava o governo oferece-se agora para afagá-Io, desde que haja nexo na República. Por coincidência, Sarney valeu-se do remédio heróico numa semana em que a coligação partidária que ocupa os cargos públicos e dá a impressão de constituir o governo exibia suas fissuras e astúcias. A Frente Liberal no poder conspira contra o PMDB , valendo-se até mesmo de velhas fichas do SNI para abater nomeações. Já o PMDB, assustado com o desgaste de suas frondosas bandeiras, mede a estabilidade do barco com uma perna e a profundidade da água com a outra, para decidir se fica ou pula. Ambos, depois de terem fabricado sob a Presidência de José Sarney a maior inflação da História nacional, conseguiram apenas enriquecer o fascínio eleitoral de velhas figuras do almanaque populista: Jânio Quadros em São Paulo e Leonel Brizola no Rio de Janeiro.

A reforma econômica praticada por Sarney teve o mérito de mostrar ao país, pelo tamanho dos problemas, que há também grandes soluções disponíveis. Os atos administrativos, somados a um apoio que só persistirá se de parte do governo houver obstinação política, poderão levar o país a um debate político superior de muito às acrobacias pronominais populistas.
Começa a era do cruzado

Sarney decreta a morte do cruzeiro, acaba com a correção monetária,
congela os preços e abre uma luta de morte contra a inflação

Às 4h30 da madrugada da última sexta-feira, após ter decidido esperar o tempo que fosse preciso para ter em mãos o texto final do decreto que apresentaria ao país poucas horas depois, o presidente José Sarney releu, aprovou e assinou a mais revolucionária reforma econômica dos últimos vinte anos no Brasil. No silêncio do Palácio da Alvorada, onde acabara de receber o documento do ministro da Fazenda, Dilson Funaro, Sarney assinou o atestado de óbito do cruzeiro, falecido aos 19 anos de idade em conseqüência de inflação de último grau, substituiu-o pelo cruzado, nominalmente 1.000 vezes mais forte e acabou com a correção monetária generalizada – a matriz da malfadada “indexação” da economia brasileira, sistema de índices que aumentavam de maneira automática e permanente, puxando para cima, sem parar, todos os preços praticados no país.

“Chegamos à exaustão nos paliativos e nos tratamentos tópicos, e não foi para isso que os inexplicáveis caminhos do destino me fizeram presidente da República”, disse Sarney em seu discurso à nação, às 9h30 da manhã, na presença de todo o ministério. “Iniciamos hoje uma guerra de vida ou morte contra a inflação“. A decisão está tomada. Agora, cumpre executá-la e vencer”. São palavras que a população brasileira desejava ouvir há muito tempo. Talvez por isso, o habitual ceticismo que se segue aos pacotes econômicos baixados pelo governo pode ser substituído, a partir de agora, por um outro tipo de reação – pela primeira vez, é possível ao cidadão brasileiro argumentar numa conversa, sem ser ridicularizado, que acredita na queda da inflação.

PEDRA DE TOQUE – Ele pode estar equivocado nessa crença, assim como Sarney e Funaro, mas os 44 artigos do histórico decreto assinado em 28 de fevereiro em Brasília fornecem um número suficiente de motivos concretos e coerentes para se defender o acerto do caminho escolhido pelo governo no combate à inflação descontrolada que vinha envenenando a vida brasileira. “A inflação de março vai ser de zero”, garantia Funaro, com toda a tranqüilidade, na madrugada da sexta-feira, no 5º andar do prédio do Ministério da Fazenda, onde foi instalado, em torno de seu gabinete, o quartel-general da reforma. E a inflação de abril? “Vai ser de zero também, ou de zero vírgula alguma coisa”, persiste o ministro. Um número considerável de economistas, mesmo simpáticos ou ligados ao governo, desconfia de que as coisas não corram exatamente assim e sugere números que oscilam entre 3% e 5% de inflação mensal – bem menores que as taxas atuais, mas altos demais para que o programa seja bem sucedido.

Essa é, de qualquer forma, uma questão que se resolverá de maneira absolutamente pública, e aos olhos de todos os brasileiros, nas próximas semanas e meses: ou os preços param onde estão, ou continuam subindo. Se pararem, o governo terá ganho. Se subirem, terá perdido. Mas o fato é que desta vez ninguém, ou muito pouca gente, está torcendo contra o governo. Sarney pode ter captado corretamente esse estado de espírito ao convocar a população, em seu discurso, a ajudá-Io na execução de uma das medidas da reforma que é, no fundo, a pedra de toque do êxito ou fracasso de tudo: o congelamento de preços. “O sucesso deste programa não reside num decreto”, alertou Sarney. “Todos estaremos mobilizados nesta luta. Cada brasileiro ou brasileira será um fiscal dos preços – um fiscal do presidente, para a execução fiel do programa em todos os cantos deste Brasil.”

Primeiro dia de vida do Brasil sob o cruzado e sua nova economia, a última sexta-feira, transformada em feriado bancários por decreto do governo, mostrou que os brasileiros reagiram com simpatia à exortação de Sarney – e mesmo comerciantes deixaram claro que torcem para que desta vez tudo dê certo. Em Porto Alegre, a dona da butique Falks, Maria Teresa Rosa, 32 anos, aboliu prontamente as taxas do seu crediário. “Se a expectativa é de nenhuma inflação, não vamos cobrar nada além do preço à vista”, diz Maria Teresa. “E tenho certeza de que o plano do governo vai funcionar.”

HUMILHAÇÃO – A mesma sexta-feira mostrou que a ajuda pedida pelo presidente será indispensável, diante das formidáveis dificuldades inerentes a qualquer projeto de congelamento de preços, da histórica inépcia da máquina fiscalizadora do Estado brasileiro e da vontade das pessoas de vender mais caro aquilo que têm. Na manhã de sexta-feira, por exemplo, funcionários da rede de supermercados Angeloni, em Florianópolis, dedicavam-se sem qualquer camuflagem à tarefa de remarcar os preços dos alimentos e das bebidas. Já no início da tarde de sexta-feira, o chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda, Luiz Gonzaga Belluzzo, acionou pela primeira vez o diretor-superintendente da Polícia Federal, Romeu Tuma, pedindo que interviesse contra abusos praticados no comércio. “Qualquer cidadão tem o direito de prender em flagrante quem estiver violando os termos do decreto presidencial“, avisaria Tuma à noite pela televisão. Ele aconselha que o cidadão, antes, tente resolver o problema via Sunab ou alertando a Polícia Federal.

Porto Alegre, alertados por consumidores indignados, fiscais da Sunab puniram com uma multa de 27 milhões de cruzeiros, ou 27.000 cruzados, o presidente da Associação Gaúcha de Supermercados, Marcelo Zaffari, dono de treze supermercados na capital. Configurado o delito de remarcação de preços na filial do bairro Cidade Baixa, Zaffari foi vaiado, quando tentava explicar-se aos fiscais, pela multidão de clientes acotovelados entre as prateleiras.

Será uma luta árdua e, para vencê-la, a vontade política do governo é essencial. Quando os telefones da Sunab não atendem ou seus funcionários pedem que as reclamações contra a violação do congelamento lhes sejam entregues por escrito, como ocorreu logo no primeiro dia em algumas capitais, o programa começa a correr riscos sérios diante da opinião pública. “A fiscalização será feita com todo o rigor”, promete João Manuel Cardoso de Mello, assessor especial do ministro Funaro. Será conveniente, também, que se fiscalizem a Sunab e os demais agentes do governo encarregados de fazer cumprir a lei – pois, se mantiverem a sua habitual postura de letargia e apesar disso permanecerem em seus cargos, será difícil convencer o cidadão comum de que o decreto presidencial é para valer. “Um projeto como esse, naturalmente, teria de ter dificuldades em seu primeiro dia”, comentou o presidente na noite de sexta-feira. “Mas nós vamos fechar, vamos prender, vamos ser muito enérgicos. Os preços não subirão.”

OUTRO MUNDO – Na ânsia de reclamar, o povo não poupou nem mesmo o gabinete do ministro da Fazenda – onde o telefone 223-5859 tocou praticamente o dia todo, na sexta-feira, com queixas sobre violações ao decreto. A secretária de Funaro, dona Sônia, atendeu-as como pôde, às vezes consultando assessores do gabinete – a certa altura, o próprio ministro decidiu vir ao telefone, onde ouviu uma irada denúncia de uma dona-de-casa de Salvador. Funaro interpretou esses entreveros iniciais como sinal de que a mobilização desejada por Sarney pode estar em marcha. Ele guardou intacto seu otimismo, compartilhado com entusiasmo pelos principais integrantes da equipe econômica. “Esta foi uma extraordinária oportunidade de se fazer uma reforma profunda sem traumas”, festejava o assessor Cardoso de Mello. “Em março e abril podemos ter deflação”, arriscava o economista. Pérsio Arida, assessor do gabinete do ministro do Planejamento, João Sayad, aludindo a um situação jamais vivida por qualquer brasileiro – a de queda de preços.

Vamos viver em outro mundo a partir de hoje, dia 28 de fevereiro de 1986″, garante Funaro. “Um mundo tão diferente do velho que será difícil lembrar dele. ” Esse outro mundo prometido por Funaro está contido no decreto-lei assinado por Sarney – um conjunto de medidas que se encadeiam entre si, mexem em virtualmente qualquer relação que envolva dinheiro neste país e exigiram a edição de uma cartilha, impressa na sexta-feira, para explicar aos brasileiros como conviver com a reforma. A idéia é distribuir maciçamente essa cartilha, bem como divulgar em ampla escala as tabelas que, daqui por diante, farão parte do dia-a-dia dos cidadãos, como instrumento indispensável para que ele possa pagar, receber e operar em geral com a nova moeda em curso no país. De fato, mais que em qualquer outra reforma econômica, as medidas adotadas na última sexta-feira afetam de alto a baixo a vida nacional e não deixam nenhum brasileiro imune a seus efeitos.

A primeira e mais vistosa das mudanças é a substituição do cruzeiro, como moeda corrente no Brasil, pelo cruzado – obtido com a eliminação de três zeros das notas atuais de cruzeiros, que passarão a ser carimbadas com seu novo valor, a introdução do símbolo CZ$ e a esperança de que seja mais forte que seu antecessor. Já na sexta-feira, o presidente da Casa da Moeda, Carlos Alberto Direito, podia exibir uma cédula com as mudanças decretadas pelo advento do cruzado. É a quarta moeda que o Brasil tem neste século, depois do mil-réis, que durou até 1943, do cruzeiro, que viveu até 1967, e do cruzeiro novo, que voltou a chamar-se apenas cruzeiro e morreu na madrugada da última sexta-feira. Ao contrário da reforma monetária de 1967, porém, desta vez não basta tirar os três zeros e saber que 1 000 cruzeiros passam a valer 1 cruzado – junto com o cruzeiro morreu também a correção monetária, justamente no momento que ultrapassava os 10 000% de aumento em relação ao patamar de sua criação, em 1965. Essa medida atinge o cerne da indexação, com os reajustes automáticos de preços que dominavam de ponta a ponta a economia do país.

“UM GOLPE DE JUDÔ” – As demais medidas vão se encadeando nesta realidade – a de que não existe mais correção automática. A correção monetária é substituída pelo lPC, ou Índice de Preços ao Consumidor, que medirá a inflação que houver daqui para diante e será aplicada exclusivamente para remunerar as cadernetas de poupança, Fundo de Garantia, o PIS-Pasep e as aplicações financeiras com prazos superiores a um ano. Nenhum contrato poderá mais prever pagamentos reajustáveis por correção monetária ou ORTN – substituídas pelas Obrigações do Tesouro Nacional, ou OTN, que ganham o valor de 106,40 cruzados (conversão dos 106.400 cruzeiros a que tinham chegado as velhas ORTN) e permanecerão com sua cotação fixa durante um ano. Também desaparecem os reajustes automáticos e diários no câmbio. O dólar, a partir de agora, tem o seu valor fixado em 13,84 cruzados e assim fica – só subindo quando o governo julgar necessário aumentá-lo.

Sem a indexação, o governo estima que a inflação deixará de se auto-alimentar e terá de ser controlada, daqui por diante, através da administração de salários e preços. Os salários, com a reforma, são fixados no seu valor médio real dos últimos seis meses, deixam de ter o reajuste semestral automático e só mudam uma vez por ano, nos dissídios de cada categoria profissional, segundo o que estabelecerem as livres negociações entre empregados e patrões. Amarrando esse sistema, os novos salários em cruzados ganharam, desde já, um abono de 8% e, para o futuro, reajustes a cada vez que a inflação chegar a 20%. Com os preços, a reforma adotou o congelamento por tempo indefinido, fixando-os, em cruzados, pela média do valor dos produtos no mercado desde 1º de janeiro de 1984. A reforma se completa, enfim, com a elevação do salário mínimo para 800 cruzados e o congelamento dos aluguéis e prestações do BNH por um ano.

“Nossa reforma é como um golpe de judô”, resume Funaro. “Pegamos a força do adversário e a aproveitamos em nosso favor.” Para o ministro, a economia brasileira estava intoxicada pela indexação e, qualquer que fosse o remédio, a inflação cairia. “Nosso problema não era brigar por índices de 8%, 9% ou 10% ao mês, como fossem grandes vitórias só porque são inferiores a 15% ou 16%”, diz Funaro. “Nosso problema era e é remunerar quem trabalha neste país.” Eleições? “Acho pouco”, interpreta o ministro. “Obter bons resultados eleitorais em novembro porque a inflação foi vencida pode ser importante, mas vale menos do que os resultados finais que esperamos conseguir com essas mudanças – fazer o Brasil investir como nunca, evitar que a renda do trabalhador seja devorada por um sistema onde os preços aumentavam todo o dia e os salários duas vezes por ano e dar, com a estabilidade econômica, as condições para que a democracia permaneça. ”

ESPERA DIFÍCIL – Essas metas ambiciosas começaram a desenhar-se, segundo o presidente José Sarney, em abril do ano passado, logo após a morte de Tancredo Neves. Sarney se lembra de ter chamado nessa época o ministro do Planejamento, João Sayad, e de ter especulado com ele sobre tratamentos de choque contra a inflação. “Sayad”, recomendou na Ocasião o presidente, “você deveria mandar alguém a Israel ver o que eles estão fazendo por lá. Parece interessante.” Sayad acatou a sugestão e despachou seu assessor Pérsio Arida para Telavive. Arida foi, viu e não gostou – a reforma israelense não estava dando certo. Viagens de pesquisa repetiram-se na Argentina, que em julho passado fez o seu Plano Austral. Lá esteve, entre outros, o chefe da Assessoria Econômica do Ministério da Fazenda, Luiz Gonzaga Belluzzo, que retornou com mais dúvidas que certezas. A idéia, de qualquer forma, permaneceu no ar, e passou a ganhar força operacional a partir de setembro último, quando Dilson Funaro substituiu Francisco Dornelles no comando da economia.

Desde então, um grupo básico de oito pessoas – Belluzzo e Cardoso de Mello, da Fazenda, Arida e Andrea Calabi, do Planejamento, Fernão Bracher, presidente do Banco Central, Edmar Bacha, presidente do IBGE, André Lara Rezende e Mendonça de Barros, também do BC – passou a trabalhar concretamente na elaboração do plano, sob a direção de Funaro e com o acompanhamento de Sayad. Sarney, periodicamente, era informado do andamento da operação. “Eu tinha um mês ou um dia marcado para decretar a reforma”, recorda Sarney. “A hora seria marcada pela própria inflação. Quando ela fugisse ao controle, entraríamos com o nosso plano.” Não foi uma espera fácil. “Enquanto a idéia amadurecia, eu ia sendo criticado, malhado, chamado de indeciso – e tinha de ficar quieto”, conta o presidente. “Não podia dizer nada do que iria fazer, pois o sigilo era indispensável para o plano. Mas sabia que estava na linha certa.”

Enquanto o grupo discutia os contornos do plano, uma série de medidas práticas foi sendo adotada para criar as condições necessárias à futura desindexação: a unificação de todos os índices de correção de preços no IPCA, agora substituído pelo IPC, a reforma tributária de novembro, que aumentou a receita do governo em mais 110 trilhões de cruzeiros (ou 110 bilhões de cruzados) para 1986, a extinção da conta-movimento do Banco do Brasil, que praticamente lhe dava poderes de emitir dinheiro, e, finalmente, o corte no crédito duas semanas atrás. No início do ano, chegou-se a pensar em abril como uma boa data para a detonação da reforma. Mas a inflação recorde de janeiro, superior a 16%, e o progressivo risco de desmoralização completa do governo, no plano político, apressaram a decisão.

LUZ VERDE –Na pior das hipóteses, acabamos com uma inflação em cruzeiros e começamos uma inflação nova, em cruzados“, brincou Sayad numa das reuniões. “É, mas aí quem acaba é o governo”, observou alguém. Com a inflação de fevereiro prometendo estourar de novo – acabou ficando em 14,3% -, decidiu-se não esperar mais. Quinze dias atrás, numa reunião às 8 horas da manhã entre Sarney, Funaro e Sayad, o presidente deu luz verde para que a reforma entrasse em vigor assim que o trabalho de sua montagem ficasse pronto. “As condições para fazermos a desindexação estão boas”, disse Funaro na ocasião. “Estamos com o setor externo tranqüilo, finanças públicas sob controle, boa perspectiva na balança comercial, reservas em divisas e alimentos em situação regular.” Sarney, então, perguntou: “E quando vocês podem entrar com a reforma?” Funaro pediu tempo. “Precisamos de mais alguns dias”, respondeu. “Vamos rechecar os planos e voltamos a informá-lo. ”

Já na reunião seguinte Funaro informou que a reforma poderia ser feita no final do mês. Sarney fixou o dia 28 de fevereiro, conveniente por ser uma sexta-feira, e as reuniões se intensificaram, tanto no 5º do Ministério da Fazenda como no Planalto e no Alvorada, sempre avançando madrugada adentro. Numa delas. o presidente decidiu que suas simpatias, quanto ao nome da nova moeda, estavam mesmo com a palavra cruzado – uma sugestão do economista Francisco Lopes, um dos mais eloqüentes defensores da idéia da desindexação. A equipe que trabalhava no plano havia pesquisado no dicionário, entre as 726 palavras começadas com as letras “cr”, algum nome capaz de substituir o cruzeiro mantendo-lhe as iniciais. Chegou-se a falar na “cristal'” mas a idéia não prosperou e Sarney acabou optando pelo cruzado – designação, no Império, de moedas de prata que circularam pelo curto período de 1834 a 1848.

A decisão foi arrematada na última segunda-feira. “Meus amigos”, disse Sarney a um grupo já ampliado por ministros e assessores de outras áreas, “essa é uma decisão dificílima, mas temos de tomá-Ia. Vocês todos sabem como eu cheguei à Presidência. Não tenho compromisso com grupo político ou econômico nenhum nem sou candidato a nada. O que eu sei é que o Brasil está precisando de uma reforma como essa. Portanto, vamos fazê-Ia.” Nesse mesmo dia, Sarney havia convocado a seu gabinete o consultor-geral da República, Saulo Ramos, a quem entregou um calhamaço com todas as medidas escritas pelos economistas, determinando-lhe que começasse a redigir o texto final do decreto. “Você não pode consultar jurista nenhum”, recomendou o presidente. “Tem de redigir isso sozinho.” Ramos trabalhou duro. “Na primeira leitura não entendi nada”, conta e4le. “mastiguei aquilo tudo até terça-feira, fui consultando os economistas e pouco a pouco a coisa saiu.”

REAÇÕES FAVORÁVEIS – Sarney, com o texto pronto, examinou artigo por artigo. Cortou, por exemplo, o R que constava da expressão ORTN. “Se as obrigações do tesouro não são mais reajustáveis, não há por que manter o R”, argumentou. Ao deparar com a questão dos novos salários em cruzados, espantou-se:”Mas isso quer dizer que os salários em cruzados podem ficar menores?”, perguntou. Os assessores explicaram que sim, nominalmente. Sarney insistiu, então, na necessidade de se dar o abono, que acabou introduzido à última hora. Na noite de quinta para sexta-feira, por fim, decidiu esperar os últimos retoques feitos no Ministério da Fazenda para assinar o decreto de madrugada mesmo. Acabou não dormindo. Às 7 horas da manhã recebeu líderes políticos para explicar-lhes a reforma, às 9 e meia iniciou a reunião com o ministério e em seguida anunciou as medidas pela televisão.

As reações foram largamente favoráveis, deixando os críticos em minoria. “A reforma tem mais de 50% de chances de dar certo”, acredita o ex-ministro Delfim Netto. Outro ex-ministro, Mário Henrique Simonsen, dá cotação maior para o cruzado. “O aumento de 33% no salário mínimo e o abono de 8% podem trazer certos desequilíbrios e problemas de gerência monetária, mas acho que as medidas têm 75% de chances de ser um êxito”, diz Simonsen. Já o apoio do professor Octávio Bulhões, sumo sacerdote da austeridade financeira, foi incondicional. Na quinta-feira, sabendo que, por motivos de saúde, ele não compareceria à reunião do Conselho Monetário Nacional, em Brasília, em que seriam expostas as medidas, Funaro telefonou-lhe para indagar de seu estado. Do Rio de Janeiro, Bulhões informou que iria fazer uma punção pulmonar e resumiu o que achava da reforma, então já do seu conhecimento. “Só lamento não poder estar aí com você, amanhã, para participar desse grande momento.”

Os empresários e economistas, de um modo geral, também aplaudiram a reforma. “Era isso e tinha de ser feito”, aprovou o acionista do Bradesco, Amador Aguiar. “O programa de estabilidade tem para dar certo” , ecoou o presidente da Federação do Comércio de São Paulo, Abram Szajman. O economista Ibrahim Eris acha que o governo agiu corretamente, embora desconfie de que possam ocorrer decepções no futuro. “A reforma é inteligente e os sacrifícios estão bem distribuídos, mas vão ter de ser encarados como permanentes”, diz Eris. “Não existe solução indolor para a inflação.”

GRITOS DE GUERRA – Resta, para o governo, convencer as lideranças sindicais – e as perspectivas iniciais, pelo menos em público, não são boas. Na quinta-feira, após conversar em Brasília com Walter Barelli, o economista-mor dos sindicatos paulistas, o ministro Funaro manifestava-se razoavelmente animado. No dia seguinte, porém, só ouviria gritos de guerra. “0 governo rompeu qualquer possibilidade de negociação com os trabalhadores ao anunciar que as medidas são irrevogáveis”, atacou o presidente da CUT, Jair Meneguelli. ‘Não temos absolutamente nada a fazer em Brasília”. Meneguelli acha que a conta maior da reforma será paga pelos trabalhadores. “Os juros não foram tabelados e a especulação financeira vai continuar, enquanto os salários são arrochados.” O presidente do Sindicato dos Eletricitários de São Paulo, Antônio Magri, também bate duro. “Há na reforma pontos que prejudicam extremamente os trabalhadores e contradizem as afirmações do governo de que não haveria sacrifícios para os assalariados”, diz Magri. A CUT acena desde já com discussões sobre uma greve geral – e o mesmo faz a Conclat, a outra central que disputa o comando do movimento sindical.

“Esse é um risco que o programa corre”, admite Beluzzo. “Mas os sindicatos têm de entender que não se está tomando um centavo dos salários.” O presidente Sarney fala num tom bem mais enérgico. “Os sindicatos do Brasil vivem ainda no século passado”, contra-atacou Sarney. “Para eles não interessam salários, só política e eleições.” As ameaças de greve, do segundo o presidente, não farão o governo ceder. “Não vamos recuar”, promete ele. “Os sindicatos estão contra a História e contra a sociedade. Arrisquei minha cabeça nessas decisões, e não volto atrás.” Na verdade, não é nem a disposição de Sarney em enfrentá-Ia, ou das centrais sindicais em fazê-Ia, que determinará os destinos da anunciada greve geral. Isso depende, bem mais simplesmente, dos resultados concretos da reforma – com inflação a zero ou a taxas mínimas não haverá greve alguma, nem qualquer agitação sindical que envolva a massa de trabalhadores. Do bom andamento da reforma depende, mais que isso, a estabilidade do país como um todo. Jogam no seu sucesso, portanto, não apenas o governo e sim todos aqueles que querem um país capaz de dar certo.

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