Planos Econômicos – Collor – “O Plano pela ótica de Veja” III

Reportagens



21 de março de 1990
O presidente
dispara sua bomba

Empossado, Collor baixa o mais
ambicioso e drástico plano
econômico para vencer a inflação

Antes de tomar posse, o presidente Fernando Collor informou que só tinha uma bala na agulha para disparar contra a inflação e, portanto, não poderia errar. Na sexta-feira da semana passada, menos de 24 horas depois de subir a rampa do Planalto, Fernando Collor fez o disparo – só que, ao invés de uma bala de revólver, detonou uma bomba nuclear sobre a economia.

Desde que a inflação se tornou um pesadelo permanente da vida nacional, o cidadão comum vem sendo habituado, compulsoriamente, a conviver com autoridades que, de tempos a tempos, baixam um pacote com a finalidade de arrumar a economia, prometem que o paraíso estará na próxima esquina e depois batem em retirada, deixando um estrago pior que o de antes. Ao invés de baixar um novo pacote, Collor disparou a proposta de uma nova economia, basicamente através da eliminação de uma moeda em estado terminal de envenenamento e da sua substituição por outra de sangue limpo – e os brasileiros terão os próximos cinco anos de seu governo para descobrir se a bomba atingiu o monstro da inflação ou caiu sobre suas próprias cabeças.

Nunca se viu um pacote tão ambicioso em suas finalidades, tão drástico em suas medidas e tão doloroso, de imediato, no bolso de quem possui algum dinheiro guardado no banco. Detalhado, complexo, o pacote de Fernando Collor traça uma linha divisória na paisagem social do país – e sua marca é a quantia de 50.000 cruzados novos. Quem se encontra abaixo dessa linha, em termos de dinheiro guardado, ficou livre da parte mais chocante das mudanças na economia – o confisco de todas as importâncias superiores a 50.000 cruzados novos depositadas nas cadernetas de poupança e nas contas correntes e de 80% das aplicações no over e demais produtos financeiros. Quem se encontra na parte de cima foi convocado, compulsoriamente, a pagar a conta – através da mais gigantesca operação de captura de dinheiro pertencente ao público já promovida na história das relações econômicas no Brasil. Todo esse dinheiro será transformado em papel e colocado sob os cuidados do governo, que promete devolver tudo direitinho, com juros de 6% ao ano mais correção monetária, depois de dezoito meses.

PACOTE AMARGO – É certo que, caso o brutal enxugamento na liquidez geral conduza efetivamente à troca da moeda podre, o cruzado novo, pela moeda sadia, o cruzeiro ressuscitado, o sacrifício terá valido a pena – sobretudo levando-se em conta que o governo foi sacar o dinheiro nos bolsos onde ele existia em quantidade maior, e onde se multiplicava, sem esforço, à custa de todos. Do ponto de vista dos cidadãos que não fizeram nada de errado, ganharam seu dinheiro trabalhando e só o aplicaram em ativos financeiros porque essa era a única alternativa para que não sumisse, o pacote é extremamente amargo. Pode-se até dizer que quem resolveu guardar suas economias no over, onde, indiscutivelmente, se pagava os juros mais altos do mundo, estava envolvida numa operação de alto risco – pois obviamente os juros só estavam tão altos porque eram pagos por um cliente quebrado. A coisa se complica com o avanço nas cadernetas de poupança, um refúgio até agora sagrado e do qual se pode dizer tudo, menos que servisse à especulação em favor de tubarões. Mais grave, ainda, é o confisco no dinheiro guardado em conta corrente, que nem investimento é – mas apenas a cautela indispensável do cidadão comum que não pode mantê-lo em casa sob o risco de ser assaltado. Ao atacar a poupança, Collor jogou uma sombra nos destinos de um tipo de investimento em que todos confiavam. Mais que isso, quebrou uma promessa explícita de sua própria campanha e fez exatamente aquilo que, segundo ele, seu adversário no segundo turno da sucessão presidencial, Luiz Inácio Lula da Silva, cogitava secretamente fazer caso fosse vitorioso. Ao confiscar o dinheiro da conta corrente, Collor intervém de forma inédita na propriedade privada – e deixa as pessoas pensando que nada está realmente a salvo do governo, a menos que fique fisicamente fora de seu alcance.

Há, no entanto, uma outra questão nesse país dos + 50.000 cruzados novos e dos – 50.000 cruzados novos – é que, pela primeira vez, a parcela maior do sacrifício, ao menos em sua fase inicial, não foi parar no bolso dos que estão no andar de baixo. De fato, tanto na montagem de seu plano como na decisão de ir adiante com ele, Collor e equipe, obviamente, não foram se aconselhar com pessoas que têm dinheiro e que, ao longo de toda a história recente e remota dos pacotes econômicos brasileiros, sempre tiveram sua opinião solicitada – banqueiros, empresários, profissionais bem-sucedidos. Caso tivessem perguntado a eles o que achavam, certamente teriam ouvido, e com argumentos solidamente racionais, que a maioria das medidas dolorosas deveria ser arquivada. Pela primeira vez, assim, acionou-se um programa econômico sem a aprovação prévia daqueles que a equipe de Collor considera “os mesmos de sempre” e o efeito mais visível disso é que a bomba detonou de forma a não deixar nenhum ativo financeiro ao abrigo de seu alcance, salvo os valores que haviam sido formados em papel-moeda e guardados num cofre ou, então, trocados por dólares.

Mais uma vez, assim, constatou-se que Collor vem fazendo exatamente aquilo que dizia que iria fazer – e isso volta a reforçar a suspeita de que o “verdadeiro Fernando Collor”, cujo desmascararnento seus opositores vêm anunciando e sucessivamente adiando há mais de um ano, talvez seja mesmo o Collor que está aí. O novo presidente, algum tempo atrás, previu que seu governo iria “deixar a direita indignada e a esquerda perplexa”. Nada correspondia com mais fidelidade à essa previsão do que o terremoto econômico da semana passada.
O choque de Zélia

Na estréia do governo, a ministra produz um
terremoto na economia do país, com medidas que vão do congelamento à abertura nas importações

Os brasileiros que há muito tempo clamavam por providências na área da economia ficaram perplexos na semana passada quando finalmente elas foram tomadas pelo presidente Fernando Collor de Mello. A receita despachada na cozinha da economista Zélia Cardoso de Mello não era o que todos esperavam – seu projeto de estabilização econômica contra uma inflação que já superava os 80% mensais é muito mais duro, muito mais espantoso do que qualquer coisa já produzida nesse terreno por economistas brasileiros, é provavelmente mais severo do que qualquer ajuste feito nesta década em qualquer país do mundo e dá todos os sinais de que vai mesmo vencer a inflação. A dúvida que fica é de outra natureza: qual será o preço que o país deverá pagar por isso ou, se ele for razoável, qual será o tamanho da confusão que se instalará no cotidiano de cada pessoa até o momento em que a intimidade do pacote de Zélia Cardoso de Mello esteja totalmente desvendada para os cidadãos comuns.

Na sexta-feira, após a divulgação do plano de estabilização da economia, vivia-se num mundo regido por duas moedas, o cruzado novo e o cruzeiro, que volta à praça quatro anos depois de ser enterrado, apalpavam-se velhas cédulas que de repente tinham recuperado um pedaço do antigo prestígio e ouviam-se referências quase inacreditáveis a um confisco que o novo governo acabara de aplicar até mesmo em itens sagrados, como a conta corrente e a caderneta de poupança. “A sociedade está perplexa”, comentava Luiz Inácio Lula da Silva, que quase ganhou o direito de assinar pacotes econômicos quando disputou a eleição presidencial com Collor de Mello. “Collor instaurou o pânico neste país dizendo a todos que se eu fosse eleito mexeria na poupança das pessoas e das empresas. Foi exatamente o que ele fez – só que ele acabou mexendo até mesmo nas contas correntes. Não dá para acreditar.”

Ficou patente na apresentação da reforma que o presidente Fernando Collor de Mello assimilou com relação à inflação aquele tipo de preocupação quase fatalista que acompanha os economistas nesse terreno desde que os indices inflacionários transformaram a moeda brasileira num papel de segunda categoria e desenharam uma catástrofe social no horizonte do país. “Não temos alternativas”, disse Collor ao anunciar a série de medidas que enviaria para apreciação do Congresso – um ritual indispensável para que possa aplicá-las na prática. “O Brasil não aceita mais a derrota. Agora, é vencer ou vencer”, afirmou o presidente. O tom solene que empregou estava à altura do conteúdo do pacote que ele desembrulhou na semana passada.

“O pacote é fortíssimo, o mais pesado já aplicado na América Latina, e as chances de que a inflação caia são imensas”, diz o ex-ministro Mário Henrique Simonsen. Para Simonsen, a reforma de Collor poderá reduzir a inflação brasileira a zero, através do ataque arquitetado durante meses pela sua equipe econômica. O plano extingue órgãos públicos e cargos na hierarquia do funcionalismo, carrega a mão na cobrança de impostos, acaba com incentivos fiscais tão familiares quanto os fornecidos à área da Sudene, dá um aperto na contabilidade dos bancos – muito prejudicados nessa manobra -, suga com violência o dinheiro que circulava no mercado através de um confisco temporário sobre o overnight, a caderneta de poupança e as contas correntes. Com esse enxugamento, o governo poderá tirar de circulação uma quantia de moeda igual a 15% do PIB, algo como 571 bilhões de dólares. “Essas medidas vão acabar com a inflação”, promete Ibrahim Eris, um dos autores do plano, hoje na presidência do Banco Central.

DOSE CAVALAR – A equipe de Zélia queria justamente enxugar o dinheiro do mercado para criar uma moeda forte. Há uma intenção de controlar ao máximo as emissões, uma promessa que terá de ser provada na prática. Mas, pelo alcance daquilo que já entrou em vigor na semana passada, pode se dizer que esse pacote difere dos anteriores num aspecto crucial: ele faz do congelamento de preços apenas um detalhe complementar de seu corpo de medidas para concentrar-se realmente no que faz diferença na luta contra a inflação. Tudo pode acabar num enorme desastre, mas pelo menos na largada o plano econômico impressionou bem alguns observadores bem situados para examinar sua composição arquitetônica.

“Do ponto de vista técnico, o programa só faz sentido”, diz o economista Luíz Gonzaga BeIluzzo, secretário de Ciência e Tecnologia do Estado de São Paulo e um dos arquitetos do Plano Cruzado. Belluzzo, que por razões de convicção política e lealdade partidária opõe-se ao governo Collor, foi um dos economistas da primeira divisão a reagir positivamente, desde o momento inicial, ao choque da sexta-feira. “Se todos nós concordamos que a raiz da inflação está na degeneração da moeda, pela expansão monetária descontrolada, como é possível negar méritos a uma tentativa articulada de conter tal descontrole?”, pergunta ele. Belluzzo admite que a dose é cavalar, mas observa que a situação real da economia brasileira exige remédios radicais. “Obviamente, se a gente estivesse vivendo numa realidade mais suave, o melhor seria lidar com a questão através de medidas menos dolorosas”, diz. “Mas o fato real, com o qual todos estávamos de acordo até ontem, é que a degenerescência monetária tinha atingido um nível patológico – e aí, por mais que possamos não gostar, individualmente, do efeito imediato das medidas, não há como discordar do seu rigor. Não podemos, em suma, querer resultados japoneses aplicando métodos africanos.”

PONTES DINAMITADAS – Da maneira como está, o pacote de Collor já entrou em vigor, mas deverá ainda se submeter ao exame do Congresso para continuar valendo. Foi enviado aos Parlamentares na forma de uma série de “medidas provisórias”, um dispositivo que dá uma vantagem de saída ao Executivo – ele entra em execução imediatamente. O Congresso tem um mês de prazo para examinar uma medida provisória. Se não se pronunciar sobre ela, significa que está ferida de morte. Pode, porém, recusá-la explicitamente, aprová-la e também dar-lhe sua adesão apenas em parte, vetando ou alterando certos pontos da medida. Na sexta-feira, tinha-se como possível que essas medidas provisórias de Collor de Mello sejam aprovadas, mas o novo presidente não pode por enquanto ficar seguro a respeito desse resultado. Seu problema é que precisa da aprovação, porque estaria numa situação quase insustentável em caso de fracassar o seu pacote econômico.

“O caminho escolhido por Collor é sem volta”, diz o deputado Antônio Delfim Netto, outro que já ocupou a cadeira de regente da economia brasileira. “Ele avançou dinamitando as pontes, precisa que o plano dê certo”, afirma Delfim. Segundo o raciocínio do deputado, Collor acredita de tal forma no seu sucesso em combater o déficit público, causa primordial da inflação, que praticamente destruiu a grande fonte de financiamento do déficit – o overnight. Depois de tomar o dinheiro dos aplicadores, com a promessa de devolver-lhes essa soma só daqui a um ano e meio, jamais conseguirá que eles voltem a emprestar dinheiro ao governo se precisar apelar outra vez para os recursos do over. “A Economia é uma ciência diferente da Física ou da Química porque nela os átomos aprendem”, diz o deputado. Em sua opinião, o pacote lançado pelo governo ganharia com algumas correções, mas tinha de ser feito e aponta na direção correta.

Um dos problemas do plano é sua complexidade. Não se pode esperar que uma dona de casa ou mesmo um empresário menos familiarizado com o jargão desses documentos tenha chance de entender facilmente sua lógica geral. Foi em decorrência dessa barreira que o pacote provocou tanta perplexidade nos primeiros momentos de sua vida pública. Essa dificuldade ganhou ênfase na sexta-feira com a tentativa dos economistas que o subscreveram de explicá-lo a platéias leigas na televisão.

Do ponto de vista da comunicação ao público, a apresentação das medidas beirou o naufrágio. Zélia, a estrela guia e porta-voz número 1 do programa, estava francamente mal na conferência à imprensa, às 15 horas da sexta-feira, destinada a revelar para o Brasil, ao vivo, a exata megatonagem da bomba collorida. Por uma combinação de inexperiência, nervosismo e exaustão, Zélia acabou dando, em vez de uma seqüência clara de informações, uma aula penosa, freqüentemente impenetrável e às vezes alarmante. Resultado: quem esperava explicações ficou confuso e, pior que isso, assustado.

Pode-se dizer tudo do pacote de Cofior, menos que se trata de um aglomerado de meias medidas. Ele é feito de medidas inteiras. A idéia sobre a qual foi construído é a de arrasar a velha economia e erguer uma economia nova em seu lugar. Há a expectativa de uma certa recessão para os próximos tempos e até se espera que algumas empresas, especialmente as pequenas e mais frágeis, possam sucumbir ao aperto do remédio em dose elefantina. Se a economia brasileira, um organismo embriagado nos últimos tempos, sair da ressaca com boa saúde, terá valido a pena. Se não, terá sobrado apenas um monstruoso sacrifício para um paciente que já não estava bem.

Nesse primeiro contato com a vida sob novas regras econômicas, os brasileiros podem estar vivendo uma experiência que tem algum parentesco com a situação vivida em 1948 pela Alemanha, onde também se promoveu um sumiço do dinheiro com a finalidade de melhorar a condição geral da economia. No Brasil de hoje, há ainda maneiras de se fazer caixa em cruzeiros, mas não são muitas. Uma delas é trabalhando. A outra, vendendo estoque mais barato para atrair quem tenha cruzeiros disponíveis no bolso. Nessa situação, dificilmente algum comerciante apelará para a estratégia de abrir segunda-feira com os preços aumentados. Ao contrário, procurará diminuir os seus preços. Como se sabe, o resultado desse novo comportamento é a valorização do dinheiro. Isto é, o inverso da inflação. Essa é a estratégia dos responsáveis pelo pacote econômico – e na medida em que sua estratégia funcione poderão ir suavizando um pouco as regras duras que baixaram na última sexta-feira.

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