CAPÍTULO XI – FORMAÇÃO DO COMPLEXO ECONÔMICO NORDESTINO

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CAPÍTULO XI
FORMAÇÃO DO COMPLEXO ECONÔMICO NORDESTINO

As formas que assumem os dois sistemas da economia nordestina – o açucareiro e o criatório – no lento processo de
decadência que se inicia na segunda metade do século xvn constituem elementos fundamentais na formação do que no
século xx viria a ser a economia brasileira.
Vimos já que as unidades produtivas, tanto na economia açucareira como na
criatória, tendiam a preservar a sua forma original, seja nas etapas de expansão, seja nas de contração. Por um lado o
crescimento era de caráter puramente extensivo, mediante a incorporação de terra e mão-de-obra, não implicando modi-
ficações estruturais que repercutissem nos custos de produção e portanto na produtividade. Por outro lado, a reduzida
expressão dos custos monetários – isto é, a pequena proporção da folha de salários e da compra de serviços a outras
unidades produtivas – tornava a economia enormemente resistente aos efeitos a curto prazo de uma baixa de preços.

Convinha continuar operando, não obstante os preços sofressem uma forte baixa, pois os fatores de produção não tinham
uso alternativo.
Como se diz hoje em dia, a curto prazo a oferta era totalmente inelástica. Contudo, se os efeitos a curto
prazo de uma contração da procura eram muito parecidos nas economias açucareira e criatória, a longo prazo as
diferenças eram substanciais!

Muito ao contrário do que ocorria com a açucareira, a economia criatória não dependia de gastos monetários no
processo de reposição do capital e de expansão da capacidade produtiva
. Assim, enquanto na região açucareira dependia-
se da importação de mão-de-obra e equipamentos simplesmente para manter a capacidade produtiva, na pecuária o capital
se repunha automaticamente sem exigir gastos monetários de significação.
Por outro lado, as condições de trabalho e
alimentação na pecuária eram tais que propiciavam um forte crescimento vegetativo de sua própria força de trabalho. A
essas disparidades se devem as diferenças fundamentais no comportamento dos dois sistemas no longo
período de declínionos preços do açúcar.

Ao reduzir-se o efeito dinâmico do estímulo externo, a economia açucareira entra numa etapa de relativa
prostração. A rentabilidade do negócio açucareiro se reduz, mas não de forma catastrófica. Os novos preços ainda eram
suficientemente altos para que a produção de açúcar constituísse para as Antilhas o magnífico negócio que era.
Contudo, no caso brasileiro, passava-se de uma situação altamente favorável – em que a indústria estivera aparente-
mente capacitada para autofinanciar a duplicação de sua capacidade produtiva em dois anos – para uma outra de
rentabilidade relativamente baixa63. A situação fez-se mais grave no século xvm, em razão do aumento nos preços dos
escravos e da emigração da mão-de-obra especializada
, determinados pela expansão da produção de ouro. Como a
produção de açúcar no Nordeste esteve em todo o século xvm abaixo dos pontos altos alcançados no século anterior, é
provável que parte das antigas unidades produtivas se hajam desorganizado em benefício daquelas que apresentavam
condições mais favoráveis de terras e transporte.

No caso da criação, o afrouxamento do efeito dinâmico externo, aparentemente, teve conseqüências distintas. A
expansão do sistema era, aí, um processo endógeno, resultante do aumento vegetativo da população animal.
Dessa
forma, sempre havia oportunidade de emprego para a força de trabalho que crescia vegetativamente, e também para
elementos que perdiam sua ocupação no sistema açucareiro em lenta decadência. Sem embargo, se a procura de gado na
região litorânea não estava aumentando num ritmo adequado, o crescimento do sistema pecuário se fazia através do
aumento relativo do setor de subsistência. Em outras palavras, a importância relativa da renda.

monetária ia diminuindo, o que acarretava necessariamente uma redu–ção paralela de sua produtividade econômica6*. A
redução relativa da renda monetária teria de repercutir no grau de especialização da economia e no sistema de divisão do
trabalho dentro da mesma. Muitos artigos que antes se podiam comprar nos mercados do litoral – e que eram importados –
teriam agora de ser produzidos internamente.
Essa produção, entretanto, limitava-se ao âmbito local, constituindo uma
forma rudimentar de artesanato.
O couro substitui quase todas as matérias-primas, evidenciando o enorme encarecimento
relativo de tudo que não fosse produzido localmente. Esse atrofiamento da economia monetária se acentua à medida que
aumentam as distâncias do litoral, pois, dado o custo do transporte do gado, em condições de estagnação do mercado de
animais, os criadores mais distantes se tornavam submarginais. Os couros passaram a ser a única fonte de renda monetária
destes últimos criadores.

Tudo indica que no longo período que se estende do último quartel do século xvn ao começo do século xix a
economia nordestina sofreu um lento processo de atrofiamento, no sentido de que a renda real per capita de sua
população declinou secularmente. É interessante observar, entretanto, que esse atrofiamento constituiu o processo
mesmo de formação do que no século xix viria a ser o sistema econômico do Nordeste brasileiro, cujas características
persistem até hoje
. A estagnação da produção açucareira não criou a necessidade – como ocorreria nas Antilhas – de
emigração do excedente da população livre formado pelo crescimento vegetativo desta
. Não havendo ocupação adequada
na região açucareira para todo o incremento de sua população livre, parte dela era atraída pela fronteira móvel do interior
criatório. Dessa forma, quanto menos favoráveis fossem as condições da economia açucareira, maior seria a tendência
imigratória para o interior.
As possibilidades da pecuária para receber novos contingentes de população – quando existe
abundância de terras – são sabidamente grandes, pois aoferta de alimentos é, nesse tipo de economia, muito elástica a
curto prazo.

Contudo, como a rentabilidade da economia pecuária dependia em grande medida da rentabilidade da própria economia
açucareira, ao  transferir-se população desta para aquela nas etapas de depressão se intensificava a conversão da pecuária
em economia de subsistência.
Não fora esse mecanismo, e a longa depressão do setor açucareiro teria provocado, seja
uma emigração de fatores, seja a estagnação demográfica. Sendo a oferta de alimentos pouco elástica na região litorânea,
o crescimento da população teria sido muito menor, não fora essa articulação com o sistema pecuário.

A redução da renda real resultante de baixa dos preços de exportação, numa região agrícola onde a terra é escassa,
afeta necessariamente a oferta de alimentos, seja porque se desviam terras que antes produziam alimentos, para
produzir artigos exportáveis – e recuperar assim o valor das exportações -, seja porque a importação de alimentos
deverá reduzir-se. Numa região pecuária – porquanto a população se alimenta do mesmo produto que exporta – a
redução das exportações em nada afeta a oferta interna de alimentos e, assim, a população pode continuar crescendo
normalmente durante um longo período de decadência das exportações. No Nordeste brasileiro, como as condições de
alimentação eram melhores na economia de mais baixa produtividade, isto é, na região pecuária, as etapas de
prolongada depressão em que se intensificava a migração do litoral para o interior teriam de caracterizar-se por uma
intensificação no crescimento demográfico. Explica-se assim que a população do Nordeste haja continuado a crescer – e
possivelmente haja intensificado o seu crescimento – em todo o século e meio de estagnação da produção açucareira a
que fizemos referência.

A expansão da economia nordestina durante esse longo período consistiu, em última instância, num processo de
involução econômica: o setor de alta produtividade ia perdendo importância relativa e a produtividade do setor
pecuário declinava à medida que este crescia. Na verdade, a expansão refletia apenas o crescimento do setor de sub-
sistência, no qual se ia acumulando uma fração crescente da população. Dessa forma, de sistema econômico de alta
produtividade em meados do século xvn, o Nordeste se foi transformando progressiva-mente numa economia em que
grande parte da população produzia apenas o necessário para subsistir. A dispersão de parte da população, num sistema de pecuária extensiva, provocou uma involução nas formas de divisão do trabalho e especialização,
acarretando um retro–cesso mesmo nas técnicas artesanais de produção.
A formação da população nordestina e a de sua
precária economia de subsistência -elemento básico do problema econômico brasileiro em épocas posteriores – estão
assim ligadas a esse lento processo de decadência da grande empresa açucareira que possivelmente foi, em sua melhor
época, o negócio colonial-agrícola mais rentável de todos os tempos

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