CAPÍTULO X – PROJEÇÃO DA ECONOMIA AÇUCAREIRA: A PECUÁRIA

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CAPÍTULO X
PROJEÇÃO DA ECONOMIA AÇUCAREIRA: A PECUÁRIA

A formação de um sistema econômico de alta produtividade e em rápida expansão na faixa litorânea do Nordeste
brasileiro teria necessariamente de acarretar conseqüências diretas e indiretas para as demais regiões do subcontinente
que reivindicavam os portugueses.
De maneira geral estavam assegurados os recursos para manter a defesa da colônia e
intensificar a exploração de outras regiões. De maneira particular, havia surgido um mercado capaz de justificar a
existência de outras atividades econômicas.

Vimos anteriormente que, em razão de sua alta rentabilidade e elevado grau de especialização, a economia açucareira
constituía um mercado de dimensões relativamente grandes.
Para usar uma expressão atual: era essa uma economia de
elevadíssimo coeficiente de importações. Com efeito, não obstante a quase inexistência de fluxo monetário dentro da
economia açucareira, o seu grau de comercialização era muito elevado.
A alta rentabilidade do negócio induzia à
especialização, sendo perfeitamente explicável – do ponto de vista econômico – que os empresários açucareiros não
quisessem desviar seus fatores dejprodução para atividades secundárias, pelo menos quando eram favoráveis as perspec-
tivas do mercado de açúcar. A própria produção de alimentos para os escravos, nas terras do engenho, tornava-se
antieconômica nessas épocas
.
A extrema especialização da economia açucareira constitui, na verdade, uma contraprova
de sua elevada rentabilidade.

No capítulo vi procuramos demonstrar que foi a especialização extrema da economia açucareira antilhana que, na
segunda metade do século XVII, estimulou o desenvolvimento das colônias de povoamento do norte dos EUA. A elevada
rentabilidade do negócio açuca-reiro fez surgir, em tempo relativamente curto, um mercado completamente novo para um
sem-número de produtos, pois os annlhanos (particularmente nas ilhas inglesas) não usavam suas terras e seus escravos
senão para produzir açúcar.    Pode-se admitir, como ponto pacífico, que à economia açucarara constituía üm mercado dé dimensões relativamente
grandes, podendo, portanto, atuar como fator altamente dinâmico do desenvolvimento de outras regiões do país. Um
conjunto de circunstâncias tenderam, sem embargo, a desviar para o exterior em sua quase totalidade esse impulso
dinâmico. Em primeiro lugar havia os interesses criados dos exportadores portugueses e holandeses, os quais gozavam
dos fretes excepcionalmente baixos propiciados pelos barcos que seguiam para recolher açúcar. Em segundo lugar estava
a preocupação política de evitar o surgimento na colônia de qualquer atividade que concorresse com a economia
metropolitana.

Se se compara a evolução de São Vicente – que resultou ser uma colônia de povoamento – com a da Nova
Inglaterra, vis-à-vis das duas poderosas economias açucareiras que coexistiram com ambas, as similitudes e diferenças
são ilustrativas. Em um e outro caso, os objetivos iniciais da colonização fracassaram. Os colonos que sobreviveram às
dificuldades iniciais se dedicaram a atividades de baixa rentabilidade, transformando-se o núcleo de população de
empresa colonial em colônia de povoamento.
Os colonos da Nova Inglaterra encontraram na pesca não só um meio de
subsistência, como também uma de suas primeiras atividades comerciais. Voltaram-se assim para o mar, desde o
começo. Cedo se dedicaram a construir as embarcações de que necessitavam, desenvolveram essa habilidade e
progressivamente lograram independência de iniciativa nos negócios que tinham como base o transporte marítimo. Ao
surgir o grande mercado das Antilhas eles lá apareceram em seus próprios barcos. Ainda assim, seria difícil explicar o
seu grande êxito na conquista do mercado antilhano sem ter em conta que a Inglaterra – em razão de suas convulsões na
segunda metade do século xvn e guerras externas na primeira metade do século xvm – se encontrou, durante
prolongados períodos, impossibilitada de abastecer o mercado antilhano.

Em São Vicente, onde a escassez de mão-de-obra resultou ser maior do que na Nova Inglaterra -o excedente de
população nas Ilhas Britânicas possibilitou importar mão-de-obra européia em regime de servidão temporária -, a
primeira atividade comercial a que se dedicaram os colonos foi a caça ao índio. Dessa forma, voltaram-se para o
interior e se transformaram em sertanistas profissionais
. Assim como os portugueses no século xy penetraram no território, africano na caça de escravos negros, os habitantes de São Vicente serão levados a
penetrar a fundo nas terras americanas na caça indígena. Daí resultará o desenvolvimento em grau eminente da habilidade
exploratório-militar, qualidade esta que veio a constituir o fator decisivo da precoce ocupação de vastas áreas centrais do
continente sul-americano60.

É provável, entretanto, que o principal fator limitante da ação dinâmica da economia açucareira sobre a colônia de
povoamento do sul haja sido a própria abundância de terras nas proximidades do núcleo canavieira. O que
caracterizava a economia antilhana era sua extrema escassez de terras. A evolução econômico-social dessas ilhas, nos
séculos que seguiram ao advento da economia açucareira, será profundamente marcada por esse fato, assim como a
evolução da economia nordestina brasileira estará condicionada pela fluidez de sua fronteira. A essa abundância de
terras se deve a criação, no próprio Nordeste, de um segundo sistema econômico, dependente da economia açucareira.

Ao contrário do que ocorreria nas Antilhas, era relativamente pequena a porção do mercado da economia açucareira a
que podiam ter  acesso outros produtores coloniais. No setor de bens de consumo, as importações consistiam
principalmente em artigos de luxo, os quais, evidentemente, não podiam ser produzidos na colônia. O único artigo de
consumo de importância que podia ser suprido internamente era  a carne,
que figura na dieta mesmo dos escravos, como
observa Antonil.
Era no setor de bens de produção que o suprimento local encontrava maior espaço para expandir-se. As
duas principais fontes de energia dos engenhos – a lenha e os animais de tiro – podiam ser supridaslocalmente com grande vantagem. O mesmo ocorria
com o material de construção mais amplamente utilizado na época: as madeiras.

Ao expandir-se a economia açucareira, a necessidade de animais de tiro tendeu a crescer mais que
proporcionalmente, pois a devastação das florestas litorâneas obrigava a buscar a lenha a distâncias cada vez maiores. Por
outro lado, logo se evidenciou a impraticabilidade de criar o gado na faixa litorânea, isto é, dentro das próprias unidades
produtoras de açúcar. Os conflitos provocados pela penetração de animais em plantações devem ter sido grandes, pois o
próprio governo português proibiu, finalmente, a criação de gado na faixa litorânea.
E foi a separação das duas atividades
econômicas – a açucareira e a criatória -que deu lugar ao surgimento de uma economia dependente na própria região
nordestina. A criação de ga
do – na forma em que se desenvolveu na região nordestina e posteriormente no sul do Brasil –
era uma atividade econômica de características radicalmente distintas das da uni-dade açucareira. A ocupação da terra era
extensiva e até certo ponto itinerante. O regime de águas e as distâncias dos mercados exigiam periódicos deslocamentos
da população animal, sendo insignificante a fração das terras ocupadas de forma permanente
. As inversões fora do
estoque de gado eram mínimas, pois a densidade econômica do sistema em seu conjunto era baixíssima. Por outro lado, a
forma mesma como se realiza a acumulação de capital na economia criatória induzia a uma permanente expansão –
sempre que houvesse terras por ocupar – independentemente das condições da procura.
A essas características se deve que
a economia criatória se Jiaja transformado num fator fundamental de penetração e ocupação do interior brasileiro.

Deve-se ter em conta, entretanto, que essa atividade, pelo menos em sua etapa inicial, era um fenômeno econômico
induzido pela economia açucareira e de rentabilidade relativamente baixa. A renda total gerada pela economia criatória
do Nordeste seguramente não excederia 5 por cento do valor da exportação de açúcar. Essa renda estava constituída pelo
gado vendido no litoral e pela exportação de couros. O valor desta última no século xvm – quando se havia expandido
grandemente a criação no sul – não seria muito superior a cem mil libras*1.

Se nos limitamos à região diretamente dependente da economia açucareira, no começo do século xvn, dificilmente se
pode. admitir que sua — Tenda bruta alcançasse cem mü libras”, numa época em que p valor da exportação de açúcar
possivelmente superava os 2 milhões.

A população que se ocupava da atividade criatória era evidentemente muito escassa. Segundo Antonil, os
currais variavam de 200 a mil cabeças e havia fazendas de 20 mil cabeças de gado. Admi-tindo-se arelação de um
para cinqüenta entre a população humana e a animal – o que corresponde grosso modo a um vaqueiro para 250 ca-
beças -, resulta que o total da população que vivia da criação nordestina não seria superior a 13 mil pessoas,
supondo-se 650 mil cabeças de gado. O recrutamento de mão-de-obra para essas atividades baseou-se no elemento
indígena que se adaptava facilmente à mesma.
Não obstante a resistência que apresentaram os indígenas em algumas
partes, ao verem-se espoliados de suas terras, tudo indica que foi com base na população local que se fez a expansão
da atividade criatória.

Que possibilidades de crescimento apresentava esse novo sistema econômico que surgira como um reflexo da
atividade açucareira? A condição fundamental de sua existência e expansão era a disponibilidade de terras.
Dada a
natureza dos pastos do sertão nordestino, a carga que suportavam essas terras era extremamente baixa. Daí a rapidez
com que os rebanhos penetraram no interior, cruzando o São Francisco e alcançando o Tocantins e, para o norte, o
Maranhão nos começos do século xvn.
É fácil compreender que, à medida que os pastos se distanciavam do litoral,
os custos iam crescendo, pois o transporte do gado se tornava mais oneroso
. O fato de que essa expansão se haja
mantido por tanto tempo deve-se, em grande parte, a que a economia criatória sofreu modificações fundamentais,
conforme indicaremos mais adiante.

No que respeita à disponibilidade de capacidade empresarial, a expansão criatória não parece haver encontrado
obstáculos. Essa atividade apresentava para ò colono sem recursos muito mais atrativos que as ocupações acessíveis na economia açucarara.
Aquele que não – -dispunha de recursos para iniciar por conta própria a criação tinha possibilidade de efetuar a
acumulação inicial trabalhando numa fazenda de gado.
À semelhança do sistema de povoamento que se desenvolveu
nas colônias inglesas e francesas, o homem que trabalhava na fazenda de criação durante um certo número de anos
(quatro ou cinco) tinha direito a uma participação (uma cria em quatro) no rebanho em formação, podendo assim
iniciar criação por conta própria.
Tudo indica que essa atividade era muito atrativa para os colonos sem capital, pois
não somente da região açucareira mas também da distante colônia de São Vicente muita gente emigrou para dedicar-
se a ela. Por outro lado, conforme já indicamos, o indígena se adaptava rapidamente às tarefas auxiliares da criação.

Do lado da oferta não existiam, portanto, fatores limitativos à expansão da economia criatória. Esses fatores
atuavam do lado da procura. Sendo a criação nordestina uma atividade dependente da economia açucareira, em
princípio era a expansão desta que comandava o desenvolvimento daquela.
A etapa de rápida expansão da produção de
açúcar, que vai até a metade do século xvn, teve como contrapartida a grande penetração nos sertões. Da mesma
forma, no século xvm, a expansão da atividade mineira comandará o extraordinário desenvolvimento da criação no sul.

A expansão pecuária consiste simplesmente no aumento dos rebanhos e na incorporação – em escala reduzida – de
mão-de-obra. A possibilidade de crescimento extensivo exclui qualquer preocupação de melhora de rendimentos. Por
outro lado, como as distâncias vão aumentando, a tendência geral é no sentido de redução da produtividade na
economia.
Dessa forma, excluída a hipótese de melhora nos preços relativos, à medida que ia crescendo a economia
criatória nordestina, a ren-da média da população nela ocupada ia diminuindo, sendo particularmente desfavorável a
situação daqueles criadores que se encontravam a grandes distâncias do litoral.

Ao contrário do que ocorria com a economia açucareira, a criatória – não obstante nesta não predominasse o
trabalho escravo -representava um mercado de ínfimas dimensões. A razão disso está em que a produtividade
média da economia dependente era muitas vezes menor do que a da principal, sendo muito inferior seu grau de
especialização è comercialização. Observada a economia criatória em conjunto; suà principal atividade deveria ser aquela
ligada à-própria subsistência de sua população.
Pára compreender esse fato, é necessário ter em conta que a criação de
gado também era em grande medida uma atividade de subsistência, sendo fonte quase única de alimentos, e de uma
matéria-prima (o couro) que se utilizava praticamente para tudo. Essa importância relativa do setor de subsistência na
pecuária será um fator fundamental das transformações estruturais por que passará a economia nordestina em sua longa
etapa de decadência.

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