CAPÍTULO V – AS COLÔNIAS DE POVOAMENTO DO HEMISFÉRIO NORTE

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CAPÍTULO V
AS COLÔNIAS DE POVOAMENTO DO HEMISFÉRIO NORTE

O principal acontecimento da história americana no século xvn foi, para o Brasil, o surgimento de uma poderosa
economia concorrente no mercado dos produtos tropicais.
O advento dessa economia decorreu, em boa medida, do
debilitamento da potência militar espanhola na primeira metade do século XVII, debilitamento esse observado de perto
pelas três potências cujo poder crescia na mesma época: Holanda, França e Inglaterra. A idéia de apoderar-se da rica
presa, que era o quinhão espanhol da América, estava sempre presente nesses países, e se não chegou a concretizar-se em
maior escala foi graças às rivalidades crescentes entre a Inglaterra e a França.
Estes dois países trataram de apoderar-se
das estratégicas ilhas do Caribe para nelas instalar colônias de povoamento com* objetivos militares. “On n’eut dans les
débuts – diz um autor francês -qu’une idée maitresse: conquête des terres à métaux précieux ou, à défaut, ães lerres
donnant accès à celles-là”19. Franceses e ingleses se empenham, assim, no começo do século XVII, em concentrar nas
Antilhas importantes núcleos de população européia, na expectativa de um assalto em larga escala aos ricos domínios da
grande potência enferma desse século.
Referindo-se aos objetivos de Richelieu com respeito à colonização da Martinica,
observa um historiador francês, “il devenait urgent d’avoir au plus tôt une forte milice et qu’elle füt durable. Cest de ce
príncipe que Von part et à ce príncipe que Yon s’accroche: il faut aux iles des colons nombreux, cultivateurs et soldats”20.

Em razão de seus objetivos políticos essa colonização deveria basear-se no sistema da pequenapropriedade. Os colonos
eram atraídos com propaganda e engodos, — ou eram recrutados entre criminosos, ou mesmo seqüestrados21. A cada um
se atribuía um pedaço de terra limitado que deveria ser pago com o fruto de seu trabalho futuro.

As Antuhas inglesas se povoaram com maior rapidez que as francesas e com menos assistência financeira do governo,
provavelmente devido à maior facilidade de recrutamento de colonos que apresentavam as ilhas britânicas
. O século XVII
foi uma etapa de grandes transformações sociais e de profunda intranqüilidade política e religiosa nessas ilhas. Nos três
quartos de século que antecederam ao Toleration Act de 1689 a intolerância política e religiosa deu origem a importantes
deslocamentos de população dentro das ilhas e para o exterior22. Esses movimentos de população provocados por fatores
religiosos e políticos estão intimamente ligados ao início da expansão colonizadora inglesa da primeira metade do século
xvn, mas de nenhuma forma explicam esta última.
O transporte de populações através do Atlântico requeria na época
vultosas inversões. Sem embargo, o fato de que importantes grupos de população estivessem dispostos a aceitar as mais
duras condições para emigrar criou a possibilidade de exploração de mão-de-obra européia em condições relativamente
favoráveis. Organizam-se importantes companhias com o objetivo de financiar o translado desses grupos de população,
as quais conseguem amplos privilégios econômicos sobre as colônias que chegassem a fundar. Somente em casos
excepcionais e com objetivos militares explicitamente declarados – como ocorreu na Geórgia já em plenoséculo XVIII – o
governo inglês tomará a seu cargo o financiamento jlo translado da população colonizadora.

A colonização de povoamento que se inicia na América no século xvn constitui, portanto, seja uma operação com
objetivos políticos,
seja uma forma de exploração de mão-de-obra européia que um conjunto de circunstâncias tornara
relativamente barata nas ilhas britânicas. Ao contrário do que ocorrera com a Espanha e Portugal, que se haviam visto
afligidos por uma permanente escassez de mão-de-obra quandoiniciaram a ocupação da América, a Inglaterra do século
XVII apresentava um considerável excedente da população, graças às profundas modificações de sua agricultura iniciadas
no século anterior23.
Essa população sobrante, que abandonava os campos à medida que o velho sistema de agricultura
coletiva ia sendo eliminado, e que as terras agrícolas eram desviadas para a criação de gado lanígero
, vivia em condições
suficientemente precárias para submeter-se a um regime de servidão por tempo limitado, com o fim de acumular um
pequeno patrimônio. A pessoa interessada assinava um contrato na Inglaterra, pelo qual se comprometia a trabalhar para
outra por um prazo de cinco a sete anos, recebendo em compensação o pagamento da passagem, manutenção e, ao final
do contrato, um pedaço de terra ou uma indenização em dinheiro. Tudo indica que essa gente recebia um tratamento igual
ou pior ao dado aos escravos africanos24.

O início dessa colonização de povoamento no século xvn abre uma etapa nova na história da América. Em seus
primeiros tempos essas colônias acarretam vultosos prejuízos para as companhias queas organizam
.
Particularmente
grandes são os prejuízos dados pelas colônias que se instalam na América do Norte
25.0 êxito da colonização agrícola
portuguesa tivera como base a produção de um artigo cujo mercado se expandira extraordinariamente. A busca de artigos
capazes de criar mercados em expansão constitui a preocupação dos novos núcleos coloniais. Demais, era necessário
encontrar artigos que pudessem ser produzidos em pequenas propriedades, condição sem a qual não perduraria o
recrutamento de mão-de-obra européia.
Em tais condições, os núcleos situados na região norte da América Setentrional
encontraram sérias dificuldades para criar uma base econômica estável.
Do ponto de vista das companhias que finan-
ciaram os gastos iniciais de translado e instalação, a colonização dessa parte da América constitui um efetivo fracasso.

Não foi possível encontrar nenhum produto, adaptável à região, que alimentasse uma corrente de exportação para a
Europa capaz de remunerar os capitais invertidos. Com efeito, o que se podia produzir na Nova Inglaterra era exatamente
aquilo que se produzia na Europa, onde os salários estavam determinados por um nível de subsistência extremamente
baixo na época.
Demais, o custo do transporte era de tal forma elevado, relativamente ao custo de produção dos artigos
primários, que uma diferença mesmo substancial nos salários reais teria sido de escassa significação. Explica-se assim o
lento desenvolvimento inicial das colônias do Norte do continente,
as quais muito possivelmente teriam permanecido
num segundo plano por muito tempo se acontecimentos a que nos referiremos mais adiante não tivessem modificado os
dados do problema.

As condições climáticas das Antilhas permitiam a produção de um certo número de artigos – como o algodão, o anil,
o café eprincipalmente o fumo – com promissoras perspectivas nos mercados’ da Europa. A produção desses artigos era
compatível com o regime da pequena propriedade agrícola e permitia que as companhias colonizadoras realizassem
lucros substanciais ao mesmo tempo que os governos das potências expansionistas – França è Inglaterra -viam crescer as
suas milícias.

Os esforços realizados, principalmente na Inglaterra, para recrutar mão-de-obra no regime prevalecente de servidão
temporária se intensificaram com a prosperidade de negócios
. Por todos os meios procurava-se induzir as pessoas que
haviam cometido qualquer crime ou mesmo contravenção a vender-se para trabalhar na América em vez de ir para o
cárcere. Contudo, o suprimento de mão-de-obra deveria ser insuficiente, pois a prática do rapto de adultos e crianças
tendeu a transformar-se em calamidade pública nesse país
26. Por esse e outros métodos a população européia das Antilhas
cresceu intensamente, e só a ilha de Barbados chegou a ter, em 1634, 37.200 habitantes dessa origem.

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