CAPÍTULO VI – CONSEQÜÊNCIAS DA PENETRAÇÃO DO AÇÚCAR NAS ANTILHAS

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CAPÍTULO VI
CONSEQÜÊNCIAS DA PENETRAÇÃO DO AÇÚCAR NAS ANTILHAS

Àmedida que a agricultura tropical – particularmente a do fumo – transformava-se num êxito comercial, cresciam as
dificuldades apresentadas pelo abastecimento de mão-de-obra européia. Do ponto de vista das companhias interessadas
no comércio das novas colônias, a solução natural do problema estava na introdução da mão-de-obra africana escrava.
Na
Virgínia, onde as terras não estavam todas divididas em mãos de pequenos produtores, a formação de grandes unidades
agrícolas se desenvolveu mais rapidamente. Surge assim uma situação completamente nova no mercado dos produtos
tropicais: uma intensa concorrência entre regiões que exploram mão-de-obra escrava de grandes unidades produtivas, e
regiões de pequena propriedade e população européia
. A conseqüente baixa dos preços ocorrida nos mercados
internacionais cria sérias dificuldades às populações antilhanas e vem demonstrar a fragilidade de todo o sistema de
colonização ensaiado naquelas regiões tropicais27. As colônias de povoamento dessas regiões, com efeito, resultaram ser
simples estações experimentais para a produção de artigos de potencialidade econômica ainda incerta. Superada essa
etapa de incerteza, as inversões maciças exigidas pelas grandes plantações escravistas demonstram ser negócio muito
vantajoso.

A partir desse momento se modifica o curso da colonização anti-lhana, e essa modificação será de importância
fundamental para o Brasil. A idéia original de colonização dessas regiões tropicais, à base de pequena propriedade,
excluía per se toda cogitação em torno à produção de açúcar. Entre os produtos tropicais, mais que qualquer outro, este
era incompatível com o sistema da pequena propriedade.

Nesta primeira fase da colonização agrícola não-portuguesa das terras americanas, aparentemente se dava por assentado
que ao Brasil cabia o monopólio da produção açucareira. Às colônias antilhanas ficavam reservados os demais produtos
tropicais. A razão de ser dessa divisão de tarefas derivava dos próprios objetivos políticos da colonização an-tilhana,
onde franceses e ingleses pretendiam reunir fortes núcleos de população européia. Sem embargo, esses objetivos
políticos tiveram de ser abandonados sob aforte pressão de fatores econômicos.

É provável entretanto que as transformações da economia anti-lhana tivessem ocorrido muito mais lentamente, não
fora a ação de um poderoso fator exógeno em fins da primeira metade do século XVII. Esse fator foi a expulsão definitiva
dos holandeses do Nordeste brasileiro. Senhores da técnica de produção e muito provavelmente aparelhados para a
fabricação28 de equipamentos para a indústria açucareira, os holandeses se empenharam firmemente em criar fora do
Brasil um importante núcleo produtor de açúcar.
É tão favorável a situação que encontram nas Antilhas francesas e
inglesas que preferem colaborar com os colonos dessas regiões a ocupar novas terras e instalar por conta própria a
indústria. Na Martinica as dificuldades causadas pela baixa dos preços do fumo eram grandes, o que facilita o início de
qualquer negócio tendente a restaurar a prosperidade da ilha.
Nas Antilhas inglesas as dificuldades econômicas haviam
sido agravadas pela guerra civil que se prolongava nas ilhas britânicas. Praticamente isoladas da Metrópole, as colônias
inglesas acolheram com grande entusiasmo a possibilidade de um intenso comércio com os holandeses
. Estes não
somente deram a necessária ajuda técnica, como também propiciaram crédito fácil para comprar equipamentos, escravos
e terra29. Em pouco tempo se constituíram nas ilhas poderosos grupos financeiros que controlavam grandes quantidades de terras e possuíam engenhos
açucareiros de ^ grandes proporções.
Dessa forma, menos de um decênio depois da expulsão dos holandeses do Brasil,
operava nas Antilhas uma economia n açucareira de consideráveis proporções, cujos equipamentos eram total- I mente
novos, e que se beneficiava de mais favorável posição geográfica.
As conseqüências dessa autêntica eclosão de um
sistema econômico dentro de outro foram profundas. A população de origem européia decresceu rapidamente, tanto nas
Antilhas francesas como nas inglesas, enquanto crescia verticalmente o número de escravos africanos. Em Barbados, por
exemplo, a população branca se reduziu à metade e a negra mais que decuplicou no correr de dois decênios. Nesse
ínterim, ariqueza da ilha tinha aumentado quarenta vezes30. Na França, onde o governo estava menos submetido à
influência das companhias de comércio, a reação provocada pelas rápidas transformações econômico-sociais das ilhas foi
maior. Inúmeras medidas foram tomadas para deter o seu abandono pela população branca e a rápida transformação das
colônias de povoamento em grandes plantações de açúcar.
Tratou-se inclusive – contra a orientação da política colonial da
época – de introduzir nas ilhas atividades manufatureiras.
Colbert tomou o assunto em suas mãos, sugeriu inúmeras
soluções, enviou operários especializados em missões técnicas para estudar os recursos da ilha. Tudo inutilmente. A
valorização das terras provocada pela introdução do açúcar agiu inexoravelmente, destruindo em pouco tempo esse
prematuro ensaio de colonização de povoamento das regiões tropicais da América31.

Se a economia açucareira ao florescer nas Antilhas fez desá-parecer às colônias de povoamento que se havia tentado
instalar nessas ilhas, por outro lado contribuiu grandemente para tomar economicamente viáveis as colônias desse tipo
que os ingleses já haviam estabelecido na região norte do continente. Conforme já indicamos, estas últimas colônias
estiveram longe de ser um êxito econômico para as companhias que haviam financiado sua instalação, pois os únicos
produtos que na época justificavam um comércio transatlântico nelas não podiam ser produzidos. Contudo, os membros
dessas colônias que sobreviveram às vicissitudes da etapa de instalação empenharam-se em criar uma economia auto-
suficiente, suplementada por algumas atividades comerciais que lhes permitiam atender a um mínimo indispensável de
importações. Essas colônias pareciam fadadas a um lento desenvolvimento – o que aliás ocorreu com os grupos de
população francesa situados no Canadá – quando o advento da economia açucareira antilhana, no começo da segunda me-
tade do século xvn, veio abrir-lhes inesperadas perspectivas.

A penetração do açúcar nas ilhas caribenhas expeliu uma parte substancial da população branca nelas estabelecida,
boa parte da qual foi instalar-se nas colônias do norte. Tratava-se, em grande parte, de pequenos proprietários que se
viram na contingência de alienar suas terras e que se transferiram com algum capital. Por outro lado, o açúcar
desorganizou e, em algumas partes, eliminou a produção agrícola de subsistência
. As ilhas se transformaram, em pouco
tempo, em grandes importadoras de alimentos, e as colônias setentrionais, que havia pouco não sabiam que fazer com seu
excedente de produção de trigo, se constituíram em principal fonte de abastecimento das prósperas colônias açucareiras.

Como bem observa um historiador inglês: “Starting with fish, timber and meat, the New Englander by a clever, complex
system of sale and barter in which the West Indies (…) formed the connecting link, drew to themselves any sòrt of commodíty from-the Old World of which
they had need?32.

E não ficou na exportação de bens de consumo a importante corrente comercial que se formou entre os dois grupos de
colônias inglesas. Não dispondo de força hidráulica para mover os engenhos, as ilhas dependiam principalmente de
animais de tiro como fonte de energia. Tampouco dispunham de madeira para fabricar as caixas em que se exportava o
açúcar. Do norte vinham uma e outra coisa33. Esse importante comércio se efetuava principalmente em navios dos colo
nos da Nova Inglaterra, o que veio fomentar a indústria de construção naval nessa região
.
Essa indústria, encontrando
condições excepcionalmente favoráveis em razão da abundância de madeira adequada, se desenvolveu intensamente,
transformando-se em uma das principais atividades exportadoras das colônias setentrionais. Por último cabe mencionar a
instalação de uma importante indústria derivada da cana: a destilação de bebidas alcoólicas. Neste caso a integração se
realizou com as Antilhas francesas. Estas, estando interditadas de usar a matéria-prima de que dispunham – para evitar a
concorrência às indústrias de bebidas da Metrópole – vendiam-na a preços extremamente baixos. Os colonos do norte se
prevaleciam desses baixos preços para concorrer vantajosamente com as próprias Antilhas inglesas nesse negócio
altamente lucrativo.

As colônias do norte dos EUA se desenvolveram, assim, na segunda metade do século XVII e primeira do século
XVIII, como parte integrante de um sistema maior no qual o elemento dinâmico são as regiões antilha-nas produtoras
de artigos tropicais.
O fato de que as duas partes principais do sistema – a região produtora do artigo básico de
exportação, e a região que abastecia a primeira – hajam estado separadas é de fundamental importância para explicar o
desenvolvimento subseqüente de ambas. A essa separação se deve que os capitais gerados no conjunto do sistema não hajam sido canalizados exclusivamente para a atividade acucareira, que na realidade era á mais lucrativa.
Essa separação, ao tornar possível o desenvolvimento de uma economia agrícola não-especi-alizada na exportação de
produtos tropicais, marca o início de uma nova etapa na ocupação econômica das terras americanas.
A primeira etapa
consistira basicamente na exploração da mão-de-obra preexistente com vistas a criar um excedente líquido de produção
de metais preciosos; a segunda se concretizara na produção de artigos agrícolas tropicais por meio de grandes empresas
que usavam intensamente mão-de-obra escrava importada.

Nesta terceira etapa surgia uma economia similar à da Europa contemporânea, isto é, dirigida de dentro para fora,
produzindo principalmente para o mercado interno, sem uma separação fundamental entre as atividades produtivas
destinadas à exportação e aquelas ligadas ao mercado interno.
Uma economia desse tipo estava em flagrante contradição
com os princípios da política colonial e somente graças a um conjunto de circunstâncias favoráveis pôde desenvolver-se.

Com efeito, sem o prolongado período de guerra civil por que passou a Inglaterra no século xvii, teria sido muito mais
difícil aos colonos da Nova Inglaterra firmar-se tão amplamente nos mercados das prósperas ilhas antilhanas. Demais, a
famosa legislação protecionista naval que no último quartel desse século excluiu os holandeses do comércio das colônias
constitui outro forte aliciante não só para as exportações da Nova Inglaterra como também para sua indústria de
construção de barcos. Por último, o prolongado período de guerras que a Inglaterra manteve com a França tornou precário
o abastecimento das Antilhas com gêneros europeus,
criando para os colonos do norte a situação favorável de
abastecedores regulares das ilhas inglesas eocasionais das francesas34.

Os esforços, quase malogrados, feitos pelos ingleses para eliminar os contatos comerciais desses colonos com as
Antilhas francesas constituem aprimeira etapa de um período de fricção echoque de interesses que se fez cada vez mais
manifesto.
Com efeito, uma vez lograda a supremacia e excluídos os franceses de suas po- — sições principais na Americana Inglaterra
pretendeu, na~segunda metade do século xvin, pôr cobro à crescente concorrência que as colônias setentrionais estavam
fazendo à economia metropolitana. As medidas legislativas se sucederam, então, mas serviram apenas para aumentar a
tensão e pôr à mostra o profundo desencontro de interesses, que já existia, precipitando a separação.

De um ponto de vista macroeconômico, as colônias da Nova Inglaterra (assim como Nova York e Pensilvânia)
continuaram a ser, avançando o século xvm, economias de produtividade relativamente baixa. O produto por habitante
deveria ser substancialmente inferior ao das colônias agrícolas de grandes plantações. Contudo, o tipo de atividade
econômica que nelas prevalecia era compatível com pequenas unidades produtivas, de base familiar, sem o
compromisso de remunerar vultosos capitais. Por outro lado, a abundância de terras tornava atrativa a imigração
européia no regime de servidão temporária. Ao surgir para o pequeno proprietário a possibilidade de vender
regularmente parte de sua produção agrícola, tornou-se para ele viável o financiamento da viagem de um imigrante
cujo trabalho seria explorado durante quatro anos. Estima-se que pelo menos a metade da população européia que
emigrou para os EUA antes de 1700 estava constituída de pessoas que haviam aceitado um ou outro regime de servidão
temporária35. A principal vantagem que esse sistema apresentava para o pequeno proprietário estava em que a
imobilização de capital era muito menor que a exigida pela compra do escravo, sendo também menor o risco em caso
de morte. O escravo africano constituía um negócio muito mais rentável para o grande capitalista, mas de maneira
geral não estava ao alcance do pequeno produtor. Por outro lado, as atividades agrícolas dessas colônias tampouco
justificavam grandes inversões. Explica-se, assim, que a importação de mão-de-obra européia em regime de servidão
temporária tenha continuado nas colônias mais pobres e haja sido excluída das colônias mais ricas, não obstante fosse
amplamente reconhecido que o trabalho escravo era o mais barato. A transição para o escravo africano só se realizou ali onde foi possível especializar a agricultura num artigo exportável em grande escala.

Essas colônias de pequenos proprietários, em grande parte auto-suficientes, constituem comunidades com
características totalmente distintas das que predominavam nas prósperas colônias agrícolas de exportação. Nelas era
muito menor a concentração da renda, eas mesmas estavam muito menos sujeitas a bruscas contrações econômicas.

Demais, a parte dessa renda que revertia em benefício de capitais forâneos era insignificante. Em conseqüência, o padrão
médio de consumo era elevado, relativamente ao nível da produção per capita. Ao contrário do que ocorria nas colônias
de grandes plantações, em que parte substancial dos gastos de consumo estava concentrada numa reduzida classe de
proprietários e se satisfazia com importações, nas colônias do norte dos EUA OS gastos de consumo se distribuíam pelo
conjunto da população, sendo relativamente grande o mercado dos objetos de uso comum.

A essas diferenças de estrutura econômica teriam necessariamente de corresponder grandes disparidades de
comportamento dos grupos sociais dominantes nos dois tipos de colônias. Nas Antilhas inglesas os grupos dominantes
estavam intimamente ligados a poderosos grupos financeiros da Metrópole e tinham inclusive uma enorme influência no
Parlamento britânico.
Esse entrelaçamento de interesses inclinava os grupos que dirigiam a economia antilhana a
considerá-la exclusivamente como parte integrante de importantes empresas manejadas da Inglaterra. As colônias
setentrionais, ao contrário, eram dirigidas por grupos ligados, uns a interesses comerciais centralizados em Boston e Nova
York –
os quais freqüentemente entravam em conflito com os interesses metropolitanos -, e outros representativos de
populações agrícolas praticamente sem qualquer afinidade de interesses com a Metrópole. Essa independência dos grupos
dominantes vis-à-vis da Metrópole teria de ser um fator de fundamental importância para o desenvolvimento da colônia,
pois significava que nela havia órgãos políticos capazes de interpretar seus verdadeiros interesses e não apenas de refletir
as ocorrências do centro econômico dominante.

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