CAPÍTULO III – RAZÕES DO MONOPÓLIO

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CAPÍTULO III
RAZÕES DO MONOPÓLIO

Os magníficos resultados financeiros da colonização agrícola do Brasil abriram perspectivas atraentes à utilização
econômica das novas terras. Sem embargo, os espanhóis continuaram concentrados em sua tarefa de extrair metais
preciosos. Ao aumentar a pressão de seus adversários, limitaram-se a reforçar o cordão de isolamento em torno do seu
rico quinhão.
As terras onde estavam concentrados se singularizavam na América por serem densamente povoadas. Na
verdade, a empresa colonial espanhola tinha como base a exploração dessa mão-de-obra.
A Espanha não chegou a
interessar-se em fomentar um intercâmbio com as colônias ou entre estas. A forma como estavam organizadas as relações
entre Metrópole e colônias criava uma permanente escassez de meios de transporte; e era a causa de fretes
excessivamente elevados
10. A política espanhola estava orientada no sentido de transformar as colônias em sistemas
econômicos o quanto possível auto-suficientes e produtores de um excedente líquido – na forma de metais preciosos – que
se transferia periodicamente para a Metrópole. Esse afluxo de metais preciosos alcançou enormes proporções relativas e
provocou profundas transformações estruturais na economia espanhola.
O poder econômico do Estado cresceu
desmesuradamente, e o enorme aumento no fluxo de renda gerado pelos gastos públicos – ou por ‘gastos privados
subsidiados pelo governo – provocou uma crônica inflação que se traduziu em persistente déficit na balança comercial.

Sendo aEspanha o centro de uma inflação que chegou a propagar-sé por toda a Europa, não. é de estranhar que ó nível
geral de preços haja — sido persistentemente mais elevado nesse país que em seus vizinhos, o que necessariamente teria
de provocar um aumento de importações e uma diminuição de exportações”
. Em conseqüência, os metais preciosos que a
Espanha recebia da América sob a forma de transferências unilaterais provocavam um afluxo de importação de efeitos
negativos sobre a produção interna e altamente estimulante para as demais economias européias.
Por outro lado, a
possibilidade de viver direta ou indiretamente de subsídios do Estado fez crescer o número de pessoas economicamente
inativas, reduzindo a importância relativa na sociedade espanhola e na orientação da política estatal dos grupos dirigentes
ligados às atividades produtivas.

A decadência econômica da Espanha prejudicou enormemente suas colônias americanas. Fora da exploração mineira,
nenhuma outra empresa econômica de envergadura chegou a ser encetada. As exportações agrícolas de toda a imensa
região em nenhum momento alcançaram importância significativa em três séculos de vida do grande império colonial. O
abastecimento de manufaturas das grandes massas de população indígena continuou a basear-se no artesanato local, o que
retardou a transformação das economias de subsistência preexistentes na região. Não fora o retrocesso da economia
espanhola – particularmente acentuado no século XVII’2- e a exportação de manufaturas de produção metropolitana para as
colônias teria necessariamente evoluído, dando lugar a vínculos econômicos de natureza bem mais complexa que a
simples transferência periódica de um excedente de produção sob a forma’de metais preciosos. O consumo de
manufaturas européias pelas densas populações da meseta mexicana e do altiplano andino teria criado a necessidade de
uma contrapartida de exportações de produtos locais, seja para consumo na Espanha, seja para reexportação. Um
intercâmbio desse tipo provocaria necessariamente transformações nas estruturas arcaicas das economias indígenas e
possibilitaria maior penetração de capitais e técnica europeus.

Houvesse a colonização espanhola evoluído nesse sentido e muito maiores teriam sido as dificuldades enfrentadas
pela empresa portuguesa para vencer. A abundância de terras da melhor qualidade para produzir açúcar de que
dispunha – terras essas bem mais próximas da Europa -, a barateza de uma mão-de-obra indígena mais evoluída do
ponto de vista agrícola13, bem como o enorme poder financeiro concentrado em suas mãos, tudo indica que os
espanhóis podiam haver dominado o mercado de produtos tropicais – particularmente o do açúcar14-desde o século xvi.

A razão principal de que isso não haja acontecido foi, muito provavelmente, a própria decadência econômica da
Espanha.
Não existindo por trás um fator político – como ocorreu em Portugal -, o desenvolvimento de linhas de
exportação de produtos agrícolas americanos teria que ser provocado por grupos econômicos poderosos, interessados
em vender seus produtos nos mercados coloniais. Seria de esperar que os produtores de manufaturas liderassem esse
movimento, não fora a decadência em que entrou esse setor na etapa das grandes importações de metais preciosos e de
concentração da renda em mãos do Estado espanhol. Cabe portanto admitir que um dos fatores do êxito da empresa
colonizadora agrícola portuguesa foi a decadência mesma da economia espanhola,
a qual se deveu principalmente à
descoberta precoce dos metais preciosos.

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