AS GUERRAS DO SÉCULO XX E AS ORIGENS DA GUERRA FRIA

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AS GUERRAS DO SÉCULO XX E AS ORIGENS DA
GUERRA FRIA

A ordem européia de Bismarck entrou em dissolução acelerada
após a Aliança Franco-Russa.
No lugar de um sistema de poder em
equilíbrio dinâmico, formavam-se arcos de alianças antagônicas,
prenunciando a guerra.
A estabilidade multipolar com raízes na derrota
napoleônica, que durou cerca de um século, desmanchava-se
definitivamente.

A queda de Bismarck, em 1890, deu impulso suplementar ao
expansionismo alemão.
Nos altos círculos do Estado, cimentava-se uma
visão de mundo baseada na geopolítica do espaço vital (Lebensraum) e
nos germanismos cultural e racial (Kulturkampf).
A geopolítica alemã,
inspirada em Ratzel, associava o progresso social à afirmação territorial
do Estado, estimulando as idéias expansionistas. A Kulturkampf
incentivava o nacionalismo alemão, difundindo idéias de superioridade
racial e destino histórico.
Em 1893 era fundada a Liga Pangermânica,
círculo político e intelectual que propugnava o expansionismo alemão
na Europa central, em regiões habitadas por minorias étnicas de origem
germânica.
As noções expansionistas substituíam a idéia de equilíbrio
de poder dos tempos de Bismarck, configurando a agressiva política
externa da virada do século (Weltpolitik).

O jogo de alianças enrijeceu-se velozmente. Em 1904 a França
concluía a Entente Cordial com a Grã-Bretanha.
Em 1907, formava-se a
Tríplice Entente, envolvendo britânicos, franceses e russos.
Isolada, a
Alemanha aprofundava a sua aliança com a decadente monarquia dual
austro-húngara, emprestando-lhe apoio no cenário complexo dos Bálcãs.


cada uma deixa livre à outra o Egipto e o Reino de Marrocos.

Assim constituída, esta aliança vai-se afirmar de forma bem clara em determinados momentos de crise internacional; por exemplo, na conferência de Algeciras em 1906 e no caso de Agadir em 1911, a Inglaterra e a França surgem em bloco, impondo a sua força, inclusive de natureza armada. Aliás, uma das dimensões dessa aliança era, exactamente, a intervenção/colaboração militar entre as duas potências em caso de guerra ou agressão de terceiros.

O pavio que acendeu o barril de pólvora europeu foi a crise
sérvia.
Liderando os movimentos nacionalistas nos Bálcãs, os sérvios
desafiaram a hegemonia austro-húngara na região.
A crise desaguou
no atentado de Sarajevo, em 28 de junho de 1914, quando jovens
militantes sérvios assassinaram o arquiduque Francisco Ferdinando,
herdeiro do trono de Viena.

O mecanismo cego das alianças entrou em funcionamento. Em
julho, a Áustria atacou a Sérvia, e a Rússia movimentou as suas tropas
em defesa do aliado balcânico. Em agosto a Alemanha declarou guerra
à Rússia, e a França se mobilizou. A Alemanha invadiu a Bélgica e
ameaçou a França. A Grã-Bretanha interveio ao lado da França e da
Rússia, declarando guerra à Alemanha.

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A Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra foi um conflito europeu, não uma guerra
mundial.
De certo modo, representou a continuação e a expansão da
Guerra Franco-Prussiana de 1871,
pois o eixo do confronto foi a disputa
continental entre a Alemanha e a França.
A Rússia, aliada da França, e
a Áustria-Hungria, aliada da Alemanha, participaram como
coadjuvantes no conflito principal.

Guerra Franco-Prussiana ou Guerra Franco-Germânica (19 de Julho de 1870 – 10 de Maio de 1871) foi um conflito ocorrido entre França e Prússia no final do século XIX. Durante o conflito, a Prússia recebeu apoio da Confederação da Alemanha do Norte, da qual fazia parte, e dos estados do Baden, Württemberg e Bavária. A vitória incontestável dos alemães marcou o último capítulo da unificação alemã sob o comando de Guilherme I da Prússia. Também marcou a queda de Napoleão III e do sistema monárquico na França, com o fim do Segundo Império e sua substituição pela Terceira República Francesa. Também como resultado da guerra ocorreu a anexação da maior parte do território da Alsácia-Lorena pela Prússia, território que ficou em união com a Alemanha até o fim da Primeira Guerra Mundial.

A Espanha estava sem rei desde 1868 devido à abdicação de Isabel II, em virtude da Revolução de 1868 e as CortesParlamento espanhol – ofereceram a Coroa ao príncipe prussiano Leopoldo de Hohenzollern-Sigmaringen, primo do rei da Prússia, Guilherme I. Um Hohenzollern no trono espanhol seria demais para a Europa antiprussiana[1]. O imperador francês Napoleão III pressionou a Prússia para impedir que o parente distante do rei prussiano assumisse o trono espanhol. O ministro do exército francês realizou, na Câmara, um discurso indignado e belicoso contra a Prússia, o que gerou sentimentos antifranceses no sul da Alemanha.

O chanceler prussiano Otto Von Bismarck e seus generais estavam interessados em uma guerra contra a França, pois esse país punha empecilhos à integração dos Estados do sul da Alemanha na formação de um novo país dominado pela Prússia – o Império Alemão. Bismarck, o unificador da Alemanha, preparara um poderoso exército e conhecia a mediocridade em que se encontrava o exército francês. Sabia também que, se fosse atacado pelos franceses, teria o apoio dos estados alemães do Sul e, derrotando a França, já não haveria nenhum obstáculo a seu projeto de unificar a Alemanha. Por outro lado, os conselheiros de Napoleão III asseguraram-lhe que o exército francês era capaz de derrotar os prussianos, o que restauraria a declinante popularidade do imperador, perdida em consequência das inúmeras derrotas diplomáticas sofridas.

O governo francês assinou em 10 de Maio de 1871 o Tratado de Frankfurt, pondo fim à guerra entre a França e a Prússia. Neste documento ficava estabelecido que, por direito de guerra e pela população da a Alsácia-Lorena ser de maioria germânica, a província francesa da Alsácia e parte da Lorena (até mesmo Metz) passariam para o domínio do Império Alemão. Devido aos grandes danos causados à Prússia, a França foi obrigada a pagar uma indenização de guerra de cinco bilhões de francos de ouro e a financiar os custos da ocupação das províncias do norte pelas tropas alemãs, até o pagamento da indenização. Em troca, foram libertados 100 mil prisioneiros de guerra franceses, os quais foram admitidos nas linhas prussianas para reprimir a Comuna de Paris. Depois de dois meses de luta sangrenta, a Comuna foi esmagada pelas tropas de Adolphe Thiers.

O maior triunfo de Bismarck ocorreu em 18 de janeiro de 1871, quando Guilherme I da Prússia foi proclamado imperador da Alemanha em Versalhes, o antigo palácio dos reis da França. Para a Prússia, a proclamação do Segundo Império alemão foi o clímax das ambições de Bismarck em unificar a Alemanha.

A onerosa obrigação francesa só foi cumprida em setembro de 1873. Naquele mesmo mês, as tropas alemãs abandonaram a França, depois de quase três anos de ocupação.

A Grã-Bretanha foi um caso à parte. No fundo, a motivação que
a arrastava ao conflito era a manutenção do equilíbrio de poder
continental, pano de fundo indispensável da sua política mundial.

Assim, os britânicos mantinham excepcional coerência histórica,
repetindo a atitude adotada cem anos antes contra Napoleão.
Novamente, tratava-se de derrotar a potência continental candidata à
hegemonia européia, desta vez materializada na Alemanha.

Entretanto, a Grã-Bretanha revelou-se incapaz de cumprir essa
função. Após as grandes batalhas de Verdun e do Somme, de 1916, ficou
patente o equilíbrio de forças militares e a impotência da Tríplice Entente
para derrotar a Alemanha. Apenas com a entrada dos Estados Unidos
no conflito, em 1917, o panorama bélico foi dramaticamente modificado,
e a Alemanha entrou em colapso.

Os Estados Unidos praticavam, desde a Doutrina Monroe (1823),
uma política externa direcionada primordialmente para a América.
O
isolacionismo, em relação à intrincada diplomacia dos Estados
europeus, constituía uma orientação estrutural de Washington, ancorada
em modos de enxergar o mundo derivados da própria formação nacional
dos Estados Unidos.22

No final do século, a constituição de poderosa esquadra e o
alargamento da influência norte-americana para o Caribe e o Pacífico
tinham consolidado a sensação de ilhamento da potência norte-
americana em relação ao Velho Continente. Entretanto, esse isolamento
auto-imposto tinha como pano de fundo a situação de equilíbrio de
poder na Europa.
Nela residia a garantia norte-americana contra
eventuais tentativas de interferência nos assuntos hemisféricos.
Por isso, o expansionismo geopolítico dos Estados Unidos no
hemisfério ocidental realizava-se à sombra das disputas européias.

Enquanto não emergisse uma potência européia hegemônica (isto é,
com poder suficiente para interferir nas questões das Américas), a
segurança dos Estados Unidos estaria assegurada.
No fundo, a ativa
diplomacia britânica voltada para conservar o equilíbrio europeu
formava o biombo atrás do qual se escondia o isolacionismo americano.

A entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra decorreu da
impotência britânica para conservar o equilíbrio, derrotando a Alemanha.
Assim, após dois anos de apoio material indireto à Tríplice Entente,
Washington declarou guerra à Alemanha em abril de 1917.
O engajamento
americano não representou, portanto, a ruptura do seu tradicional
isolacionismo, mas o contrário: a única forma de recriar as condições
anteriores, propícias ao ilhamento. Essa postura seria confirmada após
o fim da guerra, com a retirada militar norte-americana do Velho
Continente e a recusa em participar da Liga das Nações.

A Primeira Guerra alterou profundamente o mapa político europeu.

A desagregação do Império Russo (substituído pela União Soviética após
a Revolução Bolchevique)
, a dissolução da Áustria-Hungria e do Império
Turco deram origem aos novos Estados da Europa centro-oriental e
balcânica.
A derrota alemã acarretou a devolução da Alsácia e da Lorena
à França e também a criação do “corredor polonês”, isolando a Prússia
oriental. Todo o sistema de Estados do século XIX foi demolido.

O Tratado de Versalhes (1919) e as outras disposições diplomáticas
que reorganizaram as fronteiras européias (Tratado de Brest-Litovsk
de 1918, Tratado de Saint-Germain e Tratado de Neuilly de 1919,
Tratado de Trianon e Tratado de Sèvres de 1920, Tratado de Lausanne
de 1923, Tratado de Locarno de 1925)
não foram orientados para a
constituição de um sistema equilibrado de poderes.
Ao contrário do
Congresso de Viena de 1815, os tratados que encerraram a Primeira
Guerra se pautaram quase que unicamente pelo revanchismo, aplicado
contra as potências derrotadas. Longe de produzirem uma arquitetura
estável no conjunto do continente, multiplicaram as zonas de tensão e
os focos de atrito.

O Tratado de Versalhes representou a humilhação nacional da
Alemanha.
Ela foi responsabilizada pela guerra e obrigada a pagar
indenizações financeiras e materiais.
A França recebeu de volta a Alsácia
e a Lorena e adquiriu direitos de exploração do carvão do Sarre por
quinze anos. As Forças Armadas alemãs foram quase dissolvidas, e a
fronteira franco-germânica foi desmilitarizada, sob supervisão francesa.

Foi consolidada a independência polonesa e vastos territórios habitados
por alemães transferiram-se para a Polônia. Finalmente, a Alemanha
perdeu as possessões coloniais, que se tornaram mandatos administrados
pelas potências vencedoras, em nome da Liga das Nações.

Em Versalhes se encontraram as raízes da ascensão do nazismo,
em meio ao ambiente de dissolução moral e desordem econômica da
Alemanha de Weimar. O nacionalismo alemão fertilizou-se sob a
humilhação imposta pelos vencedores.
A geopolítica do espaço vital
ressurgiu fortalecida, reclamando as terras povoadas por alemães na
Polônia, na Tchecoslováquia e na Ucrânia
. A ascensão fulminante de
Hitler, em 1933, a destruição da frágil ordem republicana e a
proclamação do Terceiro Reich anunciavam o novo conflito.

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O “apaziguamento” e a Segunda Guerra Mundial

Inicialmente, a política de Hitler combinou em doses apropriadas
a ousadia e a prudência. A Alemanha retirou-se da Liga das Nações em
1933 mas assinou um acordo de não-agressão com a Polônia poucos
meses depois.
Em 1935 Hitler anunciava a retomada do treinamento
militar e um ano depois remilitarizava a Renânia,
desobedecendo ao
Tratado de Locarno
. A passividade das potências do Ocidente estimulou-
o a ir mais longe. O Eixo Berlim-Roma foi formado em 1936, e os Estados
nazi-fascistas coligados passaram a apoiar os rebeldes de Francisco
Franco na Guerra Civil Espanhola (1936-1939).

Em 1937, Chamberlain tornava-se primeiro-ministro britânico.
Com o francês Daladier, ele articulou a política do apaziguamento,
destinada a evitar um conflito com a Alemanha, cedendo posições ao
nazismo. Essa política franco-britânica se expressou em 1938 na
passividade diante da anexação alemã da Áustria (Anschluss) e,
principalmente, no vergonhoso episódio da Conferência de Munique,
quando a Tchecoslováquia foi despedaçada com a entrega dos Sudetos
à Alemanha e dos territórios eslovacos à Hungria.


O apaziguamento correspondeu a um projeto, que fracassou
completamente, de edificação de um sistema de dissuasão mútua entre
a Alemanha nazista e a União Soviética bolchevique.
A Grã-Bretanha e
a França acreditavam que o fortalecimento de Hitler representaria um
seguro contra a União Soviética e, para isso, sacrificavam a Áustria e a
Tchecoslováquia.23

As vãs esperanças de Chamberlain e Daladier serviram apenas
para aplainar o terreno no qual Hitler manobrava. Em março de 1939,
tropas alemãs invadiam a Boêmia e a Morávia tchecas. Em agosto, os
chanceleres alemão e soviético firmavam um tratado de não-agressão,
com cláusulas secretas de divisão da Polônia e dos Estados Bálticos (Pacto
Molotov-Ribbentrop)
. Em setembro, o Exército alemão invadia a Polônia,
deflagrando a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

A Segunda Guerra representou a renovação da tentativa de unir
a Europa pela força.
Quase um século e meio depois, Hitler seguia a
trilha de Napoleão, conduzindo o projeto de edificação de um império
continental.
A nova guerra, cujos horrores suplantaram os de todas as
anteriores, colocou um ponto final na história do equilíbrio europeu
de poder. Essa longa experiência, nascida da derrota francesa de 1815,
esgotou-se completamente com a ofensiva alemã de 1939.

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