CAPÍTULO XXXIII – O DESEQUILÍBRIO EXTERNO E SUA PROPAGAÇÃO

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CAPÍTULO XXXIII
O DESEQUILÍBRIO EXTERNO E SUA PROPAGAÇÃO

No capítulo anterior se fez referência ao fato de que a baixa do coeficiente de importação havia sido obtida,
nos anos trinta, à custa de um reajustamento profundo dos preços relativos.
A alta da taxa cambial reduziu praticamente à
metade o poder aquisitivo externo da moeda brasileira
e, se bem houve flutuações durante o decênio nesse poder
aquisitivo, a situação em 1938-1939 era praticamente idêntica à do ponto mais agudo da crise. Esta situação permitira um
amplo barateamento relativo das mercadorias de produção interna, e foi sobre a base desse novo nível de preços relativos
que se processou o desenvolvimento industrial dos anos trinta.

Observamos também que a formação de um só mercado para produtores internos e importadores – conseqüência
natural do desenvolvimento do setor ligado ao mercado interno – transformou a taxa cambial em um instrumento de
enorme importância para todo o sistema econômico. Qualquer modificação, num sentido ou noutro, dessa taxa acarretaria
uma alteração no nível dos preços relativos dos produtos importados e produzidos no país, os quais concorriam em um
pequeno mercado.
Era perfeitamente óbvio que a eficiência do sistema econômico teria de prejudicar-se com os
sobressaltos provocados pelas flutuações cambiais.

A possibilidade de perdas de grandes proporções, ocasionadas pelo brusco barateamento das mercadorias
concorrentes importadas, desencorajaria as inversões no setor ligado ao mercado interno. Não era por outra razão que as
economias mais desenvolvidas se haviam submetido ao delicado e dispendioso mecanismo do padrão-ouro
, que fazia
solidários a todos os sistemas nacionais de preços. Já vimos que para uma economia tipicamente exportadora de matérias-
primas o regime do padrão-ouro se apresentava impraticável. Mas, superada essa etapa,  que se tornava impraticável era subsisti dentro da indisciplina dosistema de preços que havia prevalecido antes.

Apequena valorização externa da moeda brasileira ocorrida entre 1934 e 1937 trouxe sérios transtornos a alguns
setores industriais ligados ao mercado interno
.
Essa melhoria na situação cambial foi, entretanto, passageira, pois nos
últimos anos do decênio houve nova depreciação no valor externo da moeda brasileira, o que praticamente restabeleceu o
nível de preços relativos que havia prevalecido depois da crise168. Ora, no começo do decênio seguinte a política cambial
iria ser submetida a uma prova definitiva. Acumulações sucessivas de saldos positivos na balança de pagamentos,
resultantes da situação criada pela guerra, iriam pressionar a taxa cambial no sentido de rebaixá-la.
Sendo a oferta de
divisas internacionais muito superior à procura, era inevitável que a cotação das mesmas baixasse.

Que conseqüências poderia ter essa elevação do poder de compra externo da moeda brasileira? Em primeiro lugar
significaria preços mais baixos, em cruzeiros, para os produtos exportados. Os exportadores, em vez de receberem 20
cruzeiros por dólar de café exportado, recebiam tão-somente 10, digamos. Como o preço internacional do café estava
fixado em acordos, a valorização da moeda significaria, em última instância, prejuízos crescentes para o setor ca-feeiro.

A contrapartida dessa valorização seria o barateamento das mercadorias importadas, o que teria conseqüências diretas
no setor manufatureiro. Se bem que a oferta externa de artigos manufaturados estivesse comprimida, o produtor interno
se preocupava seriamente com a possibilidade de bruscas importações em um nível de preços muito mais baixo do que
o que prevalecia no mercado. Dessa forma se aliavam contra a revalorização externa da moeda os interesses dos
exportadores e dos produtores ligados ao mercado interno. Compreende-se, assim, que o governo tenha fixado a taxa  Cambial, evitando explicitamente qualquer recuperação do poder de compra externa da moeda.

Criou-se, em consequência dessa política, uma situação algo paradoxal. No momento em que o mercado mundial se
transformava de forma crescente em um mercado de vendedores, isto é, enquanto aumentava o número de compradores e
diminuía a oferta de mercadorias, o Brasil fixava o valor externo de sua moeda em um nível de preços relativos que
refletia a situação do decênio anterior, no qual havia sido necessário baixar o valor externo da moeda pára recuperar o
equilíbrio na balança de pagamentos. Essa situação iria favorecer enormemente as atividades ligadas ao mercado externo.

Mas, como nem sempre eram as linhas tradicionais de exportação as que se beneficiavam, pois a estrutura da procura
externa se havia modificado, houve fortes deslocamentos de fatores dentro da economia em benefício da produção
daqueles artigos que encontravam mercado no exterior. Tal situação, sem lugar à dúvida, concorreu para agravar os
efeitos dos sérios desequilíbrios internos surgidos na economia durante esse período.

A política seguida durante os anos da guerra foi, na essência, idêntica à que se havia adotado imediatamente depois
da crise. Teve, como seria natural, conseqüências totalmente distintas, pois as situações eram radicalmente diversas. Ao
se fixar a taxa cambial, sustentava-se o nível da renda monetária, tal como havia conseguido com a compra do café
invendável no decênio anterior.
Neste o café não encontrava compradores; na nova etapa esses compradores existiam,
mas efetuavam a compra a crédito, isto é, pagavam com uma moeda que, em parte, era simples promessa de pagamento
futuro. As conseqüências internas eram as mesmas: criava-se o fluxo de poder de compra dentro da economia sem uma
contrapartida na oferta de bens e serviços
. A diferença entre as duas situações estava no efeito que tinha sobre o sistema
econômico esse fluxo de poder de compra criado sem contrapartida real. No começo dos trinta esse poder de compra
novo tomava olugar automaticamente de outro que minguava, isto é, daquele formado pela procura externa que se
debilitava. Dessa forma evitava-se que se reduzisse o grau de utilização da capacidade produtiva ligada ao setor interno.

A situação que agora prevalecia era totalmente diversa. Partia-se de uma conjunturaem que a capacidade produtiva ligada ao mercado interno estava sendo intensamente utilizada. O índice de preçosde exportação cresceu em 75
por cento, entre 1937 e 1942, sendo portanto muito forte o estímulo externo. Ora, como o quantum das exportações no
mesmo período reduziu-se apenas em 25 por cento, ainda que a taxa de câmbio houvesse baixado de 20 para 15 cruzeiros
por dólar a renda monetária criada pelo estímulo externo não se teria reduzido. Ao conservar a taxa de câmbio, estava-se,
na realidade, incrementando a renda monetária do setor exportador, num momento em que a oferta de produtos
importados se havia reduzido em mais de 40 por cento169.

O contraste entre as duas situações ressalta dos dados seguintes. Entre 1929 e 1933, o efeito combinado da
estabilização do quantum das exportações e da baixa de preços dos produtos exportados detenninou – não obstante a
desvalorização da moeda – uma redução da renda monetária criada pelas exportações de aproximadamente 35 por cento.
Entre 1937 e 1942, os mesmos fatores determinaram uma elevação da renda monetária criada no setor exportador de
aproximadamente 45 por cento
. Ora, como a redução do quantum das importações neste segundo período foi de 43 por
cento, é fácil compreender o desequilíbrio que se introduziu na economia através do setor externo170. Não sendo possível
evitar a contração da oferta de bens importados, todo o aumento da renda monetária e mais uma parte dessa renda que
antes se gastava com importações eram represados no mercado interno. Se se tem em conta, demais, a pressão resultante
dos gastos de guerra e a baixa de produtividade provocada pelas dificuldades de toda ordem criadas pela mesma guerra, compreendem-se o extremo esforço a que
foi submetido o” sistema econômico e a estagnação em que esteve
submerso nesse período?71

Vejamos outros aspectos do problema cambial. Pela lógica do sistema cambial então vigente, a queda na procura
relativa de divisas deveria acarretar a depreciação destas, evitando-se assim que o desequilíbrio externo se propagasse em
toda sua extensão ao sistema econômico. A queda na procura de divisas significava, por outro lado, que o fluxo de renda
monetária criado no setor exportador não tinha uma contrapartida real adequada na oferta de bens importados, sendo esse
o ponto de partida do desequilíbrio.
Uma tal situação não podia, entretanto, perdurar, pois ao reduzir-se a procura de
divisas abaixo da oferta destas, haveria uma baixa de preços das mesmas, recebendo os exportadores menores somas em
cruzeiros por suas cambiais e redu-zindo-se a renda monetária criada no setor de exportação. Essa redução de rendas
viria contrapesar a contração na oferta de bens e serviços importados, corrigindo-se assim o desequilíbrio. É verdade que
o barateamento das divisas significava que os importadores despenderiam menores somas com as mercadorias
importadas, isto é, comprariam as divisas a mais baixos preços. Ocorre, entretanto, que o maior comprador de divisas
nessa ocasião eram as autoridades monetárias, que ficavam com toda a massa de divisas que não encontravam aplicação
no intercâmbio corrente. O montante do fluxo de renda criado pela retenção forçada dessas divisas seria
proporcionalmente menor, conforme fosse a baixa do preço das mesmas. Em síntese: o valor dessas reservas cambiais era
aproximadamente igual ao excesso da renda criada no setor exportador sobre a contrapartida de bens e serviços
importados. Reduzindo-se o valor daquelas reservas, se reduziria em igual montante o excesso de renda monetária sobre
a oferta de bens importados.

Mas não está aí todo o problema. Mesmo que tivesse sido possível evitar o aumento do fluxo de renda criado pelas
exportações, através de uma revalorização cambial, com isso não se evitaria a acumulação de reservas monetárias
. Em condições normais a baixade preço das divisas aumenta necessariamente a
procura destas, pois barateia as mercadorias importadas, Incrementando seu poder de concorrência. Dessa forma se
restabelece o equilíbrio entre oferta e procura de divisas. No período de guerra, porém, por mais que se barateassem as
divisas, o volume das importações não cresceria, pois a produção de bens exportáveis e a disponibilidade de transporte
marítimo estavam controladas nos países em guerra e independiam do sistema de preços. Dadas as condições que então
prevaleciam, qualquer que fosse a revalorização do cruzeiro, a procura externa de mercadorias brasileiras se teria
mantido e a oferta de mercadorias importadas teria ficado, de modo geral, inalterada. A acumulação de reservas era,
portanto, inevitável.
A única possibilidade que existia de corrigir esse tipo de desequilíbrio estava em um
desencorajamento dos produtores-exportadores, mediante o controle dos preços em cruzeiros. Mas, se uma tal política
fosse considerada, os importadores premidos pelas necessidades de guerra teriam aumentado os preços em divisas ou
ameaçado cortar as exportações para o Brasil, se este insistisse em uma tal política cambial.

E bem verdade que se poderia ter evitado que a elevação, que a partir de 1941 se manifesta nos preços de exportação,
inflasse a renda dos exportadores aprofundando o desequilíbrio. Mas, mesmo que os preços pagos ao produtor e aos
intermediários no setor exportador houvessem sido conservados no nível de 1939, o desequilíbrio se teria formado à
medida que se acumulavam reservas. Ora, como a economia estava funcionando à plena utilização de sua capacidade
produtiva, mesmo sem ter em conta os efeitos da baixa geral de produtividade, era inevitável que a pressão resultante do
desequilíbrio entre o nível da renda monetária e o da oferta de bens e serviços se resolvesse numa alta de preços. Essa alta
de preços por seu lado refletia-se nos custos do setor exportador e dificultava a execução de qualquer política tendente a
conservar o nível da renda nesse setor. Não resta dúvida, destarte, que o desequilíbrio se teria formado, com ou sem
revalorização monetária. Mesmo que se tivesse optado por uma política de revalorização, o desequilíbrio, que sempre
viria, teria tornado muito difícil levá-la adiante. Desencadeada a alta dos preços internos, apressão sobre o setor exportador teria aumentado de tal forma que se tornaria impraticável obrigar os exportaidores a entregarsuas divisas por
um preço rebaixado ao arbítrio das autoridades monetárias.

A situação que se criou nos anos da guerra era de grande complexidade e exigia, se se pretendesse corrigir o
desequilíbrio que se estava formando no sistema econômico – e que se manifestava através da alta rápida e
desordenada dos preços – uma ação muito mais ampla que a simples manipulação cambial.
Teria de partir do princí-
pio de que a economia estava sendo submetida a um sobreesforço, e precisava produzir mais que o de que se
necessitava correntemente para consumir e inverter no país. Essa diferença era dada pela acumulação de reservas
cambiais, as quais indicavam o montante do que se produzia mas não se utilizava no território nacional. Por outro
lado, devia-se ter em conta que o governo estava aumentando os seus gastos com despesas militares, reduzindo mais
ainda a parte do produto destinada a atender às necessidades dos consumidores e aos desejos dos inversionistas.

Finalmente, caberia considerar a baixa geral de produtividade, ocasionada pelos transtornos do comércio de
cabotagem, pela substituição de combustíveis de qualidade superior por outros de qualidade inferior, pela paralisação
de máquinas por falta de peças, pela substituição de equipamentos mecânicos por mão-de-obra, etc.

Enquanto isso, o fluxo de renda continuava a avolumar-se. O setor externo gerava uma massa de poder de
compra que ia aumentando com a elevação dos preços internacionais. O governo distribuía uma massa de salários
maior
1
72. No setor privado a baixa de produtividade não acarretava redução no pagamento aos fatores de produção
empregados. Para restabelecer o equilíbrio entre esse fluxo de renda e a oferta de bens e serviços, que se havia
reduzido, teria sido necessário atuar sobre o conjunto da economia para distribuir adequadamente o peso da carga. A
ação poderia ter sido orientada, seja no sentido de reduzir diretamente o fluxo de renda – cortando salários e outras
remunerações -, seja no sentido de esterilizar parte da renda que se criava. Numa economia de livre empresa estesegundo método é de aplicação mais fácil e de resultados menos imprevisíveis. Cortar remunerações pode acarretar efeitos extremamente desalentadores, seja sobre os empresários, seja sobre os próprios assalariados. Em uma etapa em que se necessitava estimular a produção esse método seria de efeitos
contraproducentes. A esterilização de parte da renda significava apenas postergar o seu usufruto, o que é perfeitamente
aceitável em épocas de emergência, particularmente se essa medida vem acompanhada de uma série de controles diretos
sobre a distribuição dos produtos essenciais.

Poderia perguntar-se por que razão no Brasil não se tentou corrigir o desequilíbrio através de uma série de medidas
destinadas a congelar parte da renda monetária excedente
, política que foi seguida com bastante êxito em numerosos
países.
A razão disso talvez esteja no fato que não é fácil introduzir com êxito medidas desse tipo quando o processo
inflacionário já está totalmente aberto. E esse processo se teria aberto no Brasil com mais rapidez do que na maioria dos
demais países. Vejamos a razão.

Ao iniciar-se a conflagração armada, em 1939, a economia mundial se encontrava em plena depressão. Havia, por
esse motivo, uma grande capacidade produtiva não utilizada na maioria dos países, sendo considerável o número de
desempregados nos EUA, na Inglaterra, no Canadá, na Austrália e mesmo em países de economias menos desenvolvidas,
onde o fenômeno do desemprego é menos aparente. A tensão causada pela guerra trouxe, através do aumento rápido dos
gastos governamentais, a utilização progressiva da capacidade produtiva ociosa. Calcula-se, por exemplo, que na
Austrália essa ocupação plena da capacidade existente não foi lograda antes de 1942. Somente depois de três anos de
guerra é que a economia australiana chegou a sofrer uma verdadeira pressão de procura excedente. Processos idênticos
ocorreram na maioria dos países. Esse período intermediário constituiu uma espécie de amortecedor, dando tempo aos
governos de montarem o aparelhamento necessário ao controle da situação, antes que se manifestasse abertamente o
desequilíbrio. Em razão disso, foi relativamente fácil prever os setores onde se manifestaria mais agudamente o
desequilíbrio entre a procura e a oferta. Nesses setores, com tempo, foram introduzidos sistemas de controle direto.Çòi6 outro lado, também foi possível J introduzir com a devida’antecipação mecanismos
destinados à oriert tar a utilização dos recursos; evitando-se assim-que surgisse nos pontos mais vulneráveis desequilíbrio
demasiadamente agudo.

.. A economia brasileira, conforme vimos, se havia recuperado por suas próprias forças nos anos trinta e, ao contrário
do que ocorrera nos EÜA e numerosos outros países, havia chegado a 1937 com um nível de renda per capita superior
ao de 1929. Por outro lado, a crise de 1938 foi de efeitos reduzidos no Brasil, pela simples razão de que o setor externo
da economia não se havia propriamente recuperado na etapa anterior.
Destarte, a queda da renda real, entre 1937 e
1938, foi de apenas 2 por cento, e já em 1939 o nível de 1937 havia sido recuperado. Dessa forma, a economia
brasileira não teve a seu favor um período de transição ao ser submetida ao esforço que a guerra impôs a praticamente
todos os países do mundo. A tensão suplementar que se exerce sobre a economia, a partir de 1940, é automaticamente
acompanhada de uma alta brusca de preços.
O nível geral de preços, que entre 1929 e 1939 havia aumentado apenas
em 31 por cento, entre 1940 e 1944 sobe 86 por cento. Já em 1942, primeiro ano em que a economia é submetida a um
esforço mais intenso, o nível de preços sobe 18 por cento173.

Uma vez o desequilíbrio resolvido em alta de preços, qualquer política corretora se torna mais difícil de aplicar.
Isto porque a alta dos preços não é senão um sintoma de que a forma de distribuição da renda se está modificando com
rapidez. Vejamos mais de perto esse processo. A massa de renda criada no setor exportador se viu, bruscamente, sem
contrapartida real, ao reduzirem-se as importações
. Em 1942, por exemplo, o valor fob das exportações excedeu em 60
por cento o valor cif das importações, alcançando o saldo de 2,8 bilhões de cruzeiros. Demais, a economia continuava
a produzir café em quantidade superior à que podia colocar no exterior ou consumir.
Os estoques de café acumulados
em 1942 se aproximaram de 1 bilhão de cruzeiros. Se a estes fatores adicionamos o déficit governamental, que for de 1,5 bilhão de cruzeiros, temos já uma magnífica base de operação para o sistema bancário expandir os meios
de pagamentos, os quais aumentaram, entre 1942 e 1943, em cerca de 60 por cento174. Entre 1940 e 1943 a quantidade
total de bens e serviços à disposição da população no território nacional aumentou apenas em 2 por cento, enquanto o
fluxo de renda se incrementou em 43 por cento. Essa disparidade dá uma idéia do desequilíbrio que se formou entre a
oferta real e a procura monetária175. Esse desequilíbrio teria de acarretar uma elevação de preços,
a qual, uma vez
iniciada, tenderia a acelerar-se, pois uma das formas de defesa da renda real consiste em reduzir ao mínimo os ativos
líquidos. Ora, a alta de preços não é outra coisa senão uma valorização, por efeito de pressão da procura, de todos os bens
em processo de produção ou já produzidos e em mãos dos intermediários. Essa elevação de preços tende a propagar-se a
todo o sistema econômico, e a forma que toma esse processo é responsável pelo grau de redistribuição da renda que
provoca.

E fácil compreender que, ao iniciar-se um processo brusco de elevação de preços, os empresários – pela razão de que
detêm estoques de operação ou de outro tipo nas várias etapas do processo produtivo – realizam ganhos substanciais de
capital. Dessa forma, a correção do desequilíbrio traz consigo necessariamente – sempre que os mecanismos atuem
espontaneamente – uma redistribuição da renda em benefício de uns grupos e em prejuízo de outros. Como cada um
desses grupos se comporta de forma distinta no que respeita à utilização da renda, essas transferências fazem mais difícil
prever a forma como a população, em seu conjunto, quererá gastar a totalidade da renda. É por essa razão que, iniciando
um processo de elevação rápida dos preços, torna-se extremamente difícil neutralizar a massa excedente de renda e
introduzir controles diretos em pontos estratégicos.

A fixação da taxa cambial foi, conforme assinalamos, uma forma de  proteger o setor exportador contra à pressão
que as reservas cambiais acumuladas exerciam no sentido de valorização da moeda brasileira, e, portanto, de baixa dos
preços em cruzeiros das mercadorias exportadas. Entretanto, concorrendo para manter elevado o nível da renda
monetária, esse mecanismo de defesa desencadeou outros processos que tiveram efeitos inversos. A rápida ascensão dos
preços teve evidentemente que repercutir sobre os custos no setor de exportação. Desde o momento em que se fixou a
taxa do câmbio, o setor exportador encontrou-se capacitado para reter a totalidade do aumento dos preços no mercado
exterior. Se o nível dos preços internos subisse ainda mais que o dos preços de exportação, é evidente que o setor
exportador sofreria uma baixa de rentabilidade. Neste caso, a fixação da taxa de câmbio apenas teria evitado perdas de
maiores proporções para os exportadores. Entretanto assim não ocorreu para o conjunto da economia exportadora, pois,
entre 1939 e 1944, enquanto o nível dos preços internos se elevou 98 por cento, o dos preços de exportação cresceu em
110 por cento, se bem que tenha favorecido de forma muito desigual a distintos grupos176. Em todos os anos desse
período os preços de exportação marcharam muito na frente do nível interno de preços, o que revela que o setor
exportador pôde tirar partido da taxa fixa de câmbio para aumentar sua participação relativa na renda territorial. Se bem
que no período do pós-guerra, que se estende até 1949, os preços internos se tenham elevado com intensidade idêntica
aos de exportação, o desnível criado nos anos anteriores persistiu e ainda se ampliou nos anos subseqüentes177. Este ponto
tem enorme importância na explicação das transformações ocorridas na economia brasileira no decênio dos anos
quarenta. Enquanto os preços internos e os de exportação se elevam intensamente em todo o período que tem início em 1939, jos preços, de Importação crescem com muito menor rapidez. Entre1939 e 1944, por exemplo; os preços de importação aumentaram em 64 por cento, conquanto o nível dos preços internos se elevou em 98 por cento. No período seguinte a disparidade continua a acentuar-se: entre 1944 e 1949 os preços de importação se elevam em 36 por cento, conquanto o nível interno de preços cresça em 70.

A conseqüência prática dessa disparidade crescente foi a subversão do nível relativo de preços que havia servido
de base para o desenvolvimento industrial desde o começo dos anos trinta. Se se compara a evolução do nível interno
de preços no Brasil com a do nível dos preços de importação, entre 1929 e 1939, comprova-se um crescimento
relativo de 60 por cento nas mercadorias importadas. Foi sobre essa paridade de preços que se desenvolveu a
economia brasileira desde a depressão até o presente. Uma tal paridade não significa necessariamente que o nível de
preços dentro do país seja alto ou baixo, ou melhor, que a moeda esteja sub ou sobrevalorizada no exterior. Tanto é
possível afirmar que em 1939 a moeda brasileira era subvalorizada no exterior como que o contrário ocorria em 1929.
Entre 1939 e 1949 opera-se um processo inverso, elevando-se o nível de preços dentro do país, comparativamente ao
nível dos preços de importação. Houve, portanto, uma revalorização da moeda brasileira, apenas ocultada pelo
sistema de controle de câmbio. Tendia a restabelecer-se a paridade entre o poder de compra interno e o externo que
havia prevalecido em 1929. É fácil perceber que uma modificação dessa ordem traria conseqüências profundas para o
sistema econômico. A paridade de 1929 se refletia em um coeficiente de importações relativamente elevado. Ora, nos
anos trinta o desenvolvimento da economia teve por base o impulso interno e se processou no sentido da substituição
de importações por artigos de produção interna. Com efeito, à medida que crescia a economia reduzia-se o coeficiente
de importações17*.

O coeficiente de importações reflete a composição do dispendio total da população, ertre produtos importados e de
produção interna. Para que a população, que antes gastava perto de 20 por cento de sua renda com artigos importados,
passe a gastar apenas Í0 por cento, é indispensável que haja uma mudança fundamental nos preços relativos dos artigos
importados e de produção interna. Uma mudança no nível dos preços relativos teria de ser causada ou por um crescimento
muito maior da produtividade dentro do país que nos setores congêneres dos países de onde procedem as importações, ou
por uma modificação na taxa cambial, isto é, por uma baixa no poder aquisitivo externo da moeda. É fácil compreender
que, dada a pobreza de capital e técnica de que padece uma economia subdesenvolvida, seria pouco avisado atribuir
principalmente à melhora de produtividade relativa a redução do coeficiente de importações. Essa redução na realidade só
se operou porque uma série de circunstâncias favoreceram a manutenção da renda monetária e ampliou o mercado do
setor interno, encarecendo as mercadorias importadas. Modificar essa nova paridade de preços seria comprometer toda a
estrutura econômica que se havia fundado sobre ela. Não significa isso que o coeficiente de importações não pudesse ser
modificado. Se se recuperava a capacidade para importar e esta crescia mais rapidamente que a renda, haveria que contar
com uma elevação do coeficiente. Mas essa elevação não teria de ser feita alterando simplesmente a paridade de preços a
que nos referimos. Se se reduzissem relativamente os preços de importação, o coeficiente subiria rapidamente, mas
subiria criando novos desequilíbrios na economia.

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