A Era das Revoluções – Parte I: A Revolução Liberal-Burguesa na Inglaterra

Introdução

A Revolução Industrial na Inglaterra não se trata de um evento isolado, mas de um longo processo iniciado na segunda metade do século XVIII. Dela se originou um novo padrão de organização social, política, econômica e cultural. Em grandeza, compara-se apenas à Revolução Agrícola que marcou o final do período neolítico, e foi acompanhada por um vigoroso movimento de ruptura político-ideológica, a chamada Revolução Liberal-Burguesa.

Pioneira nesse processo, a Inglaterra foi seguida pelos Estados Unidos e pela França. A primazia, entretanto, garantiu àquele país uma hegemonia internacional que perdurou até o fim do século XIX e se transformou, gradativamente, num sistema mundial liderado pelos anglo-saxões em seu conjunto. Essa arrancada, ironicamente, ocorreu justamente num momento de ruptura, em que metrópole inglesa perdia suas treze colônias num movimento de emancipação.

A ruptura fazia saber que declinava a Inglaterra mercantilista e senhorial após a Guerra dos Sete Anos. É interessante observar que o ano de 1776 viu ser editada “A Riqueza das Nações”, clássico do liberalismo econômico escrito por Adam Smith. A partir daí, a chamada green England daria lugar à black England, a nascente Inglaterra capitalista.

A Revolução Americana e a Revolução Francesa, por outro lado, contribuíram para a consolidação deste novo mundo, marcando o início da história contemporânea e da hegemonia anglo-saxônica do sistema mundial.

A Revolução Liberal Inglesa de 1640

Precocemente, a Inglaterra iniciou o ciclo das Revoluções liberais-burguesas (ou Revoluções Atlânticas).

Alguns autores as consideram um evento particular, outros as consideram um conjunto, ou seja, cada qual um capítulo do processo histórico. Seja como for, essa passagem histórica é caracterizada pela ascenção ao poder de uma nova classe, a burguesia, cujo poder era legitimado pela acumulação de capital e não mais pelas terras e títulos, como durante o Ancien Règime. Essa aculumação deveu-se, em grande parte, à Revolução Comercial.

Socialmente, a revolução liberal-burguesa e capitalismo marcaram o fim da sociedade estamental (Rei, aristocracia, clero e povo) e o início de uma sociedade de classes, cujo predomínio era exercido pela burguesia. O proletariado, constituído pelo êxodo rural e pela decomposição do artesanato, estava na base da nova pirâmide social e, entre os dois grupos, existia uma classe média urbana, formada por profissionais liberais e pequenos comerciantes.

Economicamente, ocorreu a redistribuição da riqueza, que passou a concentrar-se nas mãos da burguesia emergente. Os operários, classe formada por ex-camponeses e seus descendentes passaram a ter salários que, mesmo pequenos, eram mais significativos do que os rendimentos que tinham quando trabalhavam no campo (embora a qualidade de vida tenha piorado nas fases iniciais da industrialização). Já a urbanização trouxe o crescimento das profissões liberais e dos serviços urbanos, fato que viabilizou o surgimento da classe média.

Transformando o paradigma social, político, econômico e cultural vigente à época, a revolução liberal-burguesa modificou a distribuição, primeiro da riqueza e, depois do poder. A burguesia, ao dominar as atividades econômicas, ganhou preponderância social e, em seguida, o poder propriamente dito. A Revolução Industrial foi um momento essencial das revoluções liberais-burguesas.

No caso da Inglaterra, o início do Século XVII, a Coroa decidiu aumentar os impostos sobre a burguesa, que pediu ao Parlamento, o qual reunia-se esporadicamente, para manifestar-se. A intransigência da monarquia precipitou um levante contra o Rei Carlos I, que, mesmo apoiado pelas forças do Norte e do Oeste britânicos, perdeu a guerra civil. Oliver Cromwell assumiu o controle do país e instaurou uma ditadura republicana por uma década, implantando as instituições liberais através de mecanismos autoritários e violentos. Os atos que se seguiram foram o cerceamento das liberdades individuais e a eliminação sumária dos seus antigos colaboradores, os levellers (artesãos) e os diggers (sem-terra). Foi um estado de exceção necessário para consolidar a Revolução contra os adversários de direita e de esquerda.

Em 1641, Cromwell publicou os Atos de Navegação, que, ao obrigar que o trânsito de produtos importados fosse feito em navios ingleses ou de seus países de origem, eliminou a possibilidade de atuação de intermediários, fato que afrontou os interesses holandeses. Tal episódio, precipitou o início das guerras entre Holanda e Inglaterra pela supremacia dos oceanos, que fez daquela, ao final do processo, a Senhora dos Mares.

A revolução liberal-burguesa na Inglaterra, que foi associada a lutas religiosas e tensões externas, terminou de fato em 1688, após a Revolução Gloriosa.

A Inglaterra havia se tornado o país que modificara mais profundamente sua estrutura social, econômica e política. Sobre esse último aspecto, foi introduzido o bipartidarismo, que, com pequenas modificações, existe até hoje. A noção de que a sociedade é uma soma de indivíduos foi fortalecida, e, em 1694, foi criado o Banco da Inglaterra, a primeira instituição do mundo com funções típicas de banco central.

Já a política externa inglesa assumiu definitivamente a lógica do capital, em oposição à lógica territorial que orientava os países europeus continentais. O objetivo era conquistar o maior mercado possível para os produtos ingleses. A estratégia de dominar os mares foi essencial para conseguir isso, assim como a negociação, geralmente por imposição, de tratados de livre comércio que beneficiassem os produtores britânicos. A união com a Escócia em 1707 também foi importante para fortalecer a posição internacional da Inglaterra.

Na Europa, a participação no equilíbrio continental era pontual, já que o maior interesse inglês em relação aos seus vizinhos era o de impedir que surgisse uma potência territorial que pudesse controlar todo o resto da Europa e impusesse limites ao comércio inglês – o objetivo era, portanto, manter o continente dividido. Na América, as colônias do Norte gozaram, até a segunda metade do século XVIII, de relativa independência, enquanto o Sul escravista, devido a sua grande produção de algodão, matéria-prima essencial para a nascente indústria têxtil metropolitana, continuava sob controle mais rígido da Coroa.

Comments
One Response to “A Era das Revoluções – Parte I: A Revolução Liberal-Burguesa na Inglaterra”
  1. Gil disse:

    Plágio do livro Historia do Mundo Contemporâneo. Paulo Visentini e Ana Pereira.

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