Escalada para a Primeira Guerra do Congresso ao Imperialismo, ao Arrepio do Concerto – 3a Parte

Nacionalismo


O apelo à identidade nacional e a supostos interesses nacionais foi um elemento central, na época, para transformar a participação política em psicose de massa. Tinha não só a função de manipular as massas como de desviar a atenção de contradições internas com imagens xenófobas de inimigos externos. O nacionalismo do fim do século XIX, num sentido amplo, reflete a tentativa de encontrar novas identidades e novos pontos de referência para os mais diversos grupos sociais e classes. Isso acontece numa ordem societária que se transforma profunda e rapidamente, propulsionada por uma dramática industrialização modernizadora (HOBSBAWM).

O nacionalismo, em geral, em seu aspecto liberal e libertário, como no risorgimento da primeira metade daquele século, cedeu lugar, a partir de 1880 a um nacionalismo integrista, militante, expansionista e chauvinista. A direita reivindicara o monopólio do patriotismo expurgado de ideais democráticos.

Esse nacionalismo direitista caracterizou especialmente Estados como a Alemanha, onde a realização da unidade nacional, a modernização industrial e a passagem para uma sociedade de massas e mercado aconteceram num lapso muito curto, acarretando prejuízos traumáticos e oferta compensatória de grandeza nacional (WEHLER). Não havia, por outro lado, uma cultura política consolidada para lhe fazer oposição.

Como resultado do avanço do nacionalismo integrista, o pensamento social-darwinista influenciou a percepção das relações internacionais de modo cada vez mais forte: os Estados estavam em posições opostas entre eles mesmos, permanentemente, numa luta pela sobrevivência, e o crescimento do poder de um ocorreria apenas à custa da perda de poder de um outro, numa lógica de soma-zero.

A Escalada para a Guerra (1871-1914)

O ano de 1871 significou o fim da solidariedade dos gabinetes conservadores e da intervenção em Estados vizinhos para que o respectivo sistema fosse mantido. A indireta ajuda prussiana para a derrota da Comuna de Paris, naquele ano, marcou o ponto final dessa tradição conservadora do sistema de Viena.

A maioria dos historiadores subdivide as relações internacionais entre 1871 e 1918 em dois períodos:

  1. O primeiro se estende entre 1871 a 1890, quando a diplomacia da Europa e as relações internacionais foram dominadas pelas alianças do sistema de Bismarck;
  2. O segundo abrange desde a renúncia forçada de Bismarck, as ofensivas alemãs na política externa e caracteriza-se pelas tensões crescentes, pela bipolarização em blocos de poder permanentes e pelo resvalo na Primeira Guerra Mundial.

Embora, a partir de 1871, fosse a maior potência militar do continente, a Alemanha não chegou a transformar esse potencial em prática política consistente. Até 1890, a política externa alemã era guiada mais pela pressuposta vulnerabilidade do país a coalizões inimigas. Depois de 1890, a Alemanha chegou a reivindicar um status político internacional correspondente ao seu poder econômico. Ao mesmo tempo, a França conseguiu quebrar seu isolamento ao concluir uma aliança com a Rússia em 1894.

Formou-se um equilíbrio inspirado por medo mútuo – uma “paz armada” que se assemelhava a Guerra Fria dos anos pós-1945. É importante notar, entretanto, que os 43 anos entre 1871 e 1914 representaram o segundo maior período de paz, superado apenas após 1945. Esse fato, creditam alguns teóricos, é fruto do sucesso de uma diplomacia comprometida com a solução de conflitos. Outra perspectiva (GEISS), considera o período como um longo tempo de incubação daquilo que seria o maior conflito da história humana. Por essa ótica, as soluções superficiais das crises diplomáticas não evitaram a constituição e o aprofundamento das grandes linhas fundamentais de conflito que se descarregaram em agosto de 1914.

No contexto da história do Império Alemão, alguns autores vêem as decisões da política externa como função dos seus efeitos políticos internos. A finalidade principal do processo político teria sido a estabilização interna de um sistema ultrapassado, ou seja, a oposição das elites governantes ao processo emancipatório da sociedade industrial (KEHR, BERGHAHN e WEHLER).

No período entre 1871 e 1914, o entrelaçamento da economia mundial numa única economia global, dominada por relações sociais capitalistas, ganhou nova qualidade. A migração internacional atingiu seu ponto alto (40 milhões de pessoas), além de não haver qualquer restrição à exportação de capitais ou à repatriação de lucros. Os investimentos dos grandes cresceram mais de cinco vezes e o comércio mundial aumentou anualmente, em média, 3,4%. De fato, pode-se interpretar a globalização no final do século XX como uma retomada de princípios e processos que se tinham iniciado no final do século XIX.

Foi nesse período, também, em que se completou e se estabilizou um longo período de divisão mundial do trabalho: de um lado, fornecedores de matérias-primas; de outro, regiões produtoras de bens industrializados. A redução dos custos dos transportes (estradas de ferro e, depois, navios à vapor) possibilitaram, pela primeira vez na história, o surgimento de um mercado mundial agrário integrado.

Nesse contexto, a escalada vertiginosa da Alemanha unificada como potência econômica líder da Europa, a relativa estagnação da Grã-Bretanha e o enfraquecimento da França foram, em grande parte, responsáveis elo abalo do equilíbrio europeu. A indústria alemã se destacava justamente nos setores, à época, de ponta, da segunda revolução industrial (aço, produtos químicos e construção de máquinas) enquanto as da França e Grã-Bretanha se destacavam em setores em retração como o têxtil.

É consenso que uma nova orientação político econômica tenha-se estabelecido na Europa Ocidental a partir da década de 1870. Era preciso “tratar a economia nacional como conjunto produtivo digno de proteção e incentivo do Estado” (WEHLER). Os impostos protecionistas foram um fenômeno de toda a Europa e dos Estados Unidos, independente de alianças ou antagonismos externos. Argumenta-se que o protecionismo e as guerras alfandegárias contribuíram decisivamente para o desenvolvimento do nacionalismo radical e integrista, e mesmo do militarismo da Europa (GIRAULT). Mesmo o dumping já aparece como razão para a deterioração das relações britânico-alemãs.

Otto von Bismarck

Do lado político, as relações internacionais entre 1871 e 1890 estiveram fortemente marcadas pelas concepções políticas de segurança do alemão Otto Von Bismarck. Seu objetivo principal era garantir a integridade do recém-criado Império Alemão contra os vizinhos, temerosos de uma hegemonia alemã e contra uma possível revanche francesa. Sua política era a de sugerir uma “saturação” do Império Alemão e seu desinteresse por qualquer aumento de poder. Bismarck cerceou, portanto, o potencial de poder alemão (HILDEBRAND).

O instrumento favorito da política de Bismarck foram as alianças formais e duradouras, mesmo em tempos de paz, começando com a Dupla Aliança com a Áustria-Hungria em 1879, que incluiu a Itália em 1882 mediante um tratado secreto e, depois, em 1883, a Bulgária.

As tensões nos Bálcãs eram complexas e multidimensionais e suas causas estavam na decadência do Império Otomano na região e na tentativa de preencher esse vácuo de poder pelos nacionalismos locais, pelas potências regionais (Bulgária e Sérvia) e pelas grandes potências (Áustria-Hungria e Rússia). Em princípio, a Áustria era favorável à manutenção do status quo turco na região, por temer uma vitória do nacionalismo eslavo em seu território multiétnico. Após 1878, a potência mudou de estratégia e engajou-se numa concorrência aberta com a Rússia nos Bálcãs, que durou até a Primeira Guerra Mundial.

O sistema de alianças de Bismarck formou-se em reação à crises, como a da “guerra à vista”, provocada pela ameaça velada de uma guerra preventiva contra a França pela Alemanha, embutida em um artigo de jornal. A reação da Rússia e da Inglaterra deu força à Bismarck na política interna, já que este rejeitava qualquer guerra preventiva – preferia o isolamento diplomático.

A Rússia, também, esperava que a Alemanha se posicionasse inequivocamente à seu favor na questão dos Bálcãs, por ocasião do Congresso de Berlim. Impedida de fazê-lo, pela aliança com a Áustria, foi acusada de traição quando Bismarck adotou uma atitude de mediação. Assim, a possibilidade de isolamento propiciaram a Bismarck o motivo de celebrar a Dupla Aliança com a Áustria.

Foi esboçado também, um novo Tratado dos Três Imperadores (Alemanha, Rússia e Áustria), que previa neutralidade no caso de um ataque de outra potência, além de dividir os Bálcãs em duas esferas de influência, uma russa e outra austríaca.

A crise de Boulanger aguçou reações chauvinistas porção indeterminada na França quanto na Alemanha. Por sua vez, a crise da Bulgária, com o recrudescimento da rivalidade entre a Áustria-Hungria e a Rússia, abriu a possibilidade de uma aproximação da França com a Rússia.

Kaiser Wilhelm II

Bismarck também celebrou um tratado secreto com a Rússia em 1887 que previa mútua neutralidade e apoio à causa russa de abertura dos estreitos. Nos bastidores, entretanto, , formava um bloco anti-russo, através do Tratado do Mediterrâneo em 1887. Em suma, o sistema de alianças de Bismarck tornara-se complicado e contraditório.

Ao mesmo tempo, uma agressiva política protecionista das elites junker à agricultura russa, atingiram a Rússia em um ponto bastante vulnerável. “As raízes da aliança franco-russa estão na política financeira de Bismarck” (BRIDGE e BULLEN). Alguns teóricos que as sementes que germinaram em 1914 foram plantadas em 1887.

A saída de Bismarck do poder é considerada um turning point não só na política externa alemã, mas de todos os países europeus. A partir de 1897, iniciava-se a Weltpolitik agressiva da fase Guilhermina, em que a Alemanha se comportava como potência insatisfeita. O programa de construção naval, por sua vez, iniciou o período de antagonismo anglo-teutônico.

A percepção da Alemanha era de que a conclusão da aliança franco-russa criou a possibilidade, sempre temida, de uma guerra em duas frentes. Contra essa possibilidade, os militares alemães desenvolveram o Plano Schlieffen. Este supunha a incapacidade de uma mobilização rápida das forças russas e previa conduzir o conjunto das forças alemãs, desprezando a neutralidade da Bélgica, a uma batalha violenta e decisiva contra a França e, depois de uma rápida vitória, construir a frente de leste contra a Rússia.

Plano Schlieffen

Imbuída a persuadir a Inglaterra a fazer concessões, planejava superar essa em poderio naval. Como a Inglaterra considerou esse militarismo uma ameaça, iniciou sua própria militarização e aproximou-se da Rússia e França.

A chamada crise da anexação da Bósnia pela Áustria-Hungria de 1908-1909, acendeu mais uma fagulha. A Sérvia, que cobiçava as duas províncias, protestou em uníssono com a Rússia, que internamente tinha apoio condicionado à posição de defensora dos eslavos do sul. Uma nota alemã contendo, segundo muitas interpretações, uma ameaça de guerra caso a anexação não fosse aceita pela Rússia, fez com que a grande potência recuasse. Entretanto, essa vitória custou muito caro à Áustria-Hungria e à Alemanha uma vez que antagonismo austro-russo empurrou-a para uma dependência completa da Alemanha. A decisão russa de não passar por uma segunda humilhação na crise de 1914, determinou a Primeira Guerra Mundial.

Essa crise se deu pelo atentado ao herdeiro do Império Austro-Húngaro Franz Ferdinand em junho de 1914 por um estudante bósnio nacionalista organizado pela Mão Negra sérvia. A Áustria viu no atentado a ansiada possibilidade de avançar militarmente contra a Sérvia, mas dependia da Alemanha já que o movimento envolveria necessariamente um apoio da Rússia.

Francisco Ferdinando e sua esposa em Sarajevo

Francisco Ferdinando, arquiduque da Áustria, em Sarajevo

O Imperador Guilherme II esperava que o Czar, chocado com o assassinato de um monarca europeu, aceitasse a punição da Sérvia. Em 28 de julho, a Áustria declarou guerra à Sérvia, iniciando uma escalada que envolveu a Alemanha, a Rússia, a França e a Inglaterra. A entrada, em 1917, de outros atores ultramarinos, como os Estados Unidos, deram à guerra uma dimensão verdadeiramente mundial.

Comments
2 Responses to “Escalada para a Primeira Guerra do Congresso ao Imperialismo, ao Arrepio do Concerto – 3a Parte”
  1. Diogo Leite disse:

    Muito bom gente, continuem assim.. a partir de hoje estarei acompanhando o blog.

  2. Excelente conteúdo…..parabéns pelo trabalho desenvolvido.

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