5 razões a favor de Belo Monte

No início do mês, um vídeo de artistas da globo sobre Belo Monte inflamou o debate sobre a construção desta usina hidrelétrica. Compartilho com vocês os argumentos do diplomata João Francisco Pereira, publicados em sua página do Facebook, que ajudam a esclarecer porquê Belo Monte é, sim, uma boa idéia.

I – A energia hidrelétrica, diferentemente do que é apresentado no vídeo, é, SIM, uma das fontes de energia mais limpas do mundo. O Brasil, vejam vocês, tem uma das matrizes energéticas mais limpas de TODOS os países industrializados. O investimento em hidrelétricas está diretamente associado aos compromissos de redução de CO2 assumidos no Protocolo de Kyoto, mais energia com menos emissão de gases. (Ouso sugerir, aliás, que ONGs estrangeiras como a Avaaz – que presta apoio ao “Projeto Gota d’água – pressionem efetivamente o governo americano para assinatura do Protocolo).

II – O Brasil, queiramos nós ou não, está crescendo e continuará crescendo nos próximos anos. Isso não é chute meu, isso não é torcida minha. Talvez a economia não cresça a taxas tão elevadas quanto espera o governo, mas até o mais pessimista dos economistas sabe que vai crescer. Ao mesmo tempo, a população brasileira, hoje estimada em quase 200 milhões, deve se estabilizar lá pelo meio do século em algum número entre 230 e 250 milhões. Segundo as previsões oficiais isso significa que a demanda por energia elétrica daqui até 2020 (em oito anos!) deve aumentar em 60%. Repito, vamos precisar daqui a oito anos de 60% a mais de energia do que produzimos hoje. Pergunto: como manter o crescimento sustentado do país sem energia elétrica? Como dar garantias básicas de vida a toda essa gente sem energia elétrica? Como continuar o processo de inclusão social que o país vem vivenciando nos últimos anos sem energia elétrica? Porque energia elétrica significa, SIM, redução da pobreza extrema, energia elétrica significa, sim, dignidade. Ao contrário do argumento simplista (pra não dizer pior) do começo do vídeo, o aumento da capacidade elétrica do país não é pra beneficiar a classe-média do Sul Maravilha, que poderá continuar vendo sua novela das oito sem medo de apagão. É pra permitir que milhares de brasileiros miseráveis que ainda vivem sem luz possam, um dia, comprar uma geladeira. Alguém aí consegue imaginar a revolução que uma geladeira pode gerar na vida de uma família que passa fome? Sim, pessoal, não nos esqueçamos que em pleno século XXI, enquanto a Ingrid Guimarães ironiza um pretenso medo de ficar sem energia pro Ipad, ainda temos gente que passa fome no Brasil.

III – Há impactos ambientais? Mas é claro que há impactos ambientais! Qualquer ação do homem sobre o meio ambiente implica em impactos. É justamente daí que vem a noção de Desenvolvimento Sustentável (que o vídeo, aliás, menciona muito rapidamente). Desenvolvimento Sustentável nada mais é do que a tentativa de achar um equilíbrio entre desenvolvimento e preservação ambiental. A idéia chave é justamente tentar mitigar ao máximo os impactos causados pelo homem. Alguns dos atores globais do vídeo procurou saber como foi alterada a Usina para reduzir os impactos? A época das obras faraônicas e sem preocupacoes ambientais feitas no regime militar, alguns verdadeiros desastres, como a Usina de Balbina, passou. Temos que superar esse trauma. A tecnologia evoluiu, a engenharia evoluiu. O projeto atual de Belo Monte é completamente diferente do proposto pela primeira vez em 1975. A área alagada foi reduzida em mais da metade em relação ao projeto original e, diferentemente do que se diz no vídeo, o projeto não vai inundar “640 km2 de floresta amazônica”. O número verdadeiro é algo em torno de 450-500 km2, sendo que cerca de 200km2 já são regularmente alagados pelo próprio rio na época da cheia. É, sim, verdade que a capacidade de geração de energia de Belo Monte não será plena em pelo menos metade do ano e isso ocorre basicamente porque foi escolhido um modelo de hidrelétrica (“usina a fio d’agua”) em que não está prevista a construção de um reservatório. Mas, ora, esse modelo foi escolhido JUSTAMENTE por oferecer o MENOR impacto ambiental possível, para que a área de alagamento pudesse ser reduzida. Houve uma opção clara em gerar menos energia para gerar menos impacto. Cabe lembrar também que o sistema elétrico brasileiro é interligado. A produção de Belo Monte, quando reduzida, será compensada pela produção de Itaipu e das hidrelétricas do Sul/Sudeste e, em períodos de seca, vice-versa. Não nos esqueçamos também que o Brasil tem uma das legislações ambientais mais avançadas do mundo (assim como a política indígena, que trato abaixo). A exigência de elaboração de Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e de Relatório de Impacto Ambiental (RIMA) foi cumprida e houve oitivas com as populações afetadas. Isso foi suficiente para atender, explicar e ouvir toda a população local? Não saberia dizer. Houve pressão política para que as licenças fossem aprovadas? É provável. Aqui, sim, creio eu que deveriam entrar as verdadeiras críticas.

IV – A utilização, como sugere o vídeo, de fontes eólica ou solar como alternativas à produção de energia é enganosa. Quem é contra a produção e investimento em energia eólica ou solar? Ninguém em sã consciência. É claro que seria fantástico viver em um mundo movido a partir do vento e do sol, mas sugerir para as pessoas que existe a possibilidade de que isso ocorra no curto prazo é quase desonesto. A realidade, infelizmente, ainda está muito distante dessa utopia. A geração de energia solar ou eólica é, em qualquer lugar do mundo, complementar à produção de energia por fontes tradicionais (carvão, nuclear, hidrelétrica). Mesmo Dinamarca e Alemanha, países na vanguarda da pesquisa e da tecnologia para produção de energia renovável, não tem grande parte de sua matriz energética baseada em fontes alternativas. Atualmente, as opções solar e eólica ainda possuem eficiência energética muito reduzida, além de serem caríssimas. A instalação de plantas de energia solar ou de turbinas eólicas é inviável e, ainda que não o fosse, seria absurdamente mais caro que os 30 bilhões de reais que deixaram a Maitê Proença e a Cissa Guimarães tão revoltadas no vídeo. A projeção de 30 bilhões de reais parece de fato um custo elevado (ressalte-se que as estimativas oficiais estão um pouco abaixo disso), mas há que se considerar que as condicionantes sociais já estão calculadas nessa cifra. É um projeto enorme e as cifras são enormes, mas, a título de comparação, a Usina chinesa de Três Gargantas, teve custo total de 37 bilhões de DÓLARES. E confesso que não consigo entender esse argumento de que “é o meu e o seu dinheiro”, “quem vai pagar é você” etc. Ora, se eu pago imposto, espero que o dinheiro seja gasto, entre outras coisas, com a infra-estrutura do país. Acredito que o dinheiro dos impostos será melhor empenhado dessa forma do que na reforma, por 1 bilhão de reais, de um estádio para abrigar a final da Copa do Mundo (alguma artista global se levantou contra isso?).

V – Há também, me parece, um demasiado foco na questão indígena. Embora os constitucionalistas de 88 tenham feito a besteira de considerar os índios uma categoria quase pré-adolescente, meio-cidadãos meio-autóctones, para sempre dependentes da tutela do Estado, reafirmo que a política indígena do Brasil é das mais avançadas do mundo (mas, vejam bem, isso não quer dizer que seja perfeita – taí o funcionamento da Funai pra nos provar isso). As reservas indígenas ocupam, hoje, mais de 12% do território nacional (quatro Inglaterras, por exemplo) e hoje há mais de 500 mil índios vivendo nessas reservas, mais do que quatro vezes o que existia há 40 anos. Sabe quantas reservas indígenas Belo Monte vai inundar? NENHUMA. Não existe reserva indígena ali. É claro que as alterações no rio impactam os índios que moram na região, mas esse impacto é significativamente maior sobre as 5 mil famílias ribeirinhas que deverão ser realocadas. Há muito bafafá sobre os índios que serão afetados (algo em torno de 2 mil), mas e os ribeirinhos que são 10 vezes mais numerosos? Eles são menos importantes do que os indígenas? Os ribeirinhos vivem em condições insalubres, em palafitas que alagam na cheia do rio e sem acesso à água tratada ou saneamento básico. Uma das contrapartidas sociais incluídas no projeto é justamente o reassentamento dessas famílias, com construção, principalmente, de hospitais e escolas, além da previsão da constituição de um fundo social para atendê-los. Na minha humilde opinião, a mobilização da sociedade civil seria muito mais útil se estivesse voltada para a fiscalização dessas promessas de governo. É obrigação do Estado arcar com as condicionantes sociais assumidas no projeto e é fundamental que os órgãos governamentais sejam pressionados a efetivamente implementar as políticas públicas prometidas para lidar, entre outras coisas, com o enorme afluxo populacional que é esperado.

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Comments
3 Responses to “5 razões a favor de Belo Monte”
  1. Jackson Abreu disse:

    Muito bom. Olha vou postar esse post no meu blog com o endereço do seu blog

  2. Roberto Geraldo Davino disse:

    Sobre os gastos, é infinitamente mais barato do que o que foi proposto. 1(MWH) não custará mais do que 25 reais, para se gerar o mesmo com energia eólica seria gasto algo entre 95 e 110 reais. Quando se fala em energia solar o valor pula ainda mais, saltando para mais de 200 reais.
    Só lembrar que essas duas últimas não teriam tanta eficiência como a hidrelétrica.

  3. Juliana. disse:

    Textinho facista. Mas serve pra eu poder destruir em minha argumentação essa semana. Obrigada!

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