Brasil e China – Parceria Estratégica

“Este século XX, não somente vira uma nova página do livro do mundo, como também dá inicio a outro espantoso capítulo. Desdobram-se para o Homem, panoramas de estranhos futuros, de outras culturas universais a que a Europa não está muito afeita, de responsabilidades ainda não imaginadas para as nações e as raças. O problema chinês, de per si, já é tão vasto que nenhuma nação se pode permitir ignorá-lo. Nós particularmente, na América, devemos enfrentá-lo do Pacífico, e dominá-lo para não sermos por ele dominados. E a única maneira de dominá-lo será esforçando-nos com paciente simpatia por compreender os elementos melhores, mais promissores e mais humanos nele contidos”. Ernest Fenollosa,

“Or, pour les événements qui font l’histoire, qu’est-ce que le temps d’une ou deux générations? Ce n’est plus, dans le mouvement du monde, que l’espace d’un jour au lendemain. (…) A la course de cette ère accélérée, l’avenir envahit le présent. Puis, le futur est toujours plein d’inversions et de surprises. “Rui Barbosa, “La Nouvelle Court Permanent d’Arbitrage” (Discurso em Haia, na Segunda Conferência da Paz), in Escritos e Discursos Seletos.

“O verdadeiro século da Ásia-Pacífico, ou da Ásia, só existirá quando a China, a Índia e os demais países vizinhos tiverem se desenvolvido. De igual modo, não haverá nenhum século da América Latina sem o desenvolvimento do Brasil. Por isso, devemos focalizar o problema do desenvolvimento elevando-o à altura de toda a humanidade, e observá-lo e resolvê-lo partindo desta altura. Somente desta maneira, adquirir-se-á a consciência de que o problema do desenvolvimento é de responsabilidade tanto dos países em desenvolvimento como dos países desenvolvidos”. Deng Xiaoping ( Parte de uma entrevista com Rajiv Ghandi, em 1988), in Textos Escogidos

“Deve haver alguma coisa de semelhante entre a China, por assim dizer eterna, e o jovem e ainda verde Brasil. Semelhança que tem impressionado mais de um observador arguto. (…) É uma semelhança honrosa para o Brasil, pois a civilização chinesa é uma velha civilização opulenta de valores que não envelhecem nunca, e vários dos quais os portugueses souberam assimilar e transmitir aos brasileiros”. Gilberto Freyre, “Discurso de agradecimento à comunidade chinesa de Sofala e Manique”, em Moçambique, 1952, in “Um brasileiro em terras portuguesas”.

Desde sua formalização, a relação político e estratégica brasileiro-chinesa apresenta-se marcada por uma característica muito importante no sistema internacional contemporâneo: o fato desta relação aproximar e unir os dois maiores países do mundo em desenvolvimento.

A importância desse fato cresce na medida da percepção pela liderança de ambos os Estados de que “convergências no plano mais alto da política internacional” devem orientar a política externa do Brasil e da China, no sentido da preservação da paz e segurança mundial, do respeito aos princípios de autodeterminação e de não-interferência em assuntos internos de cada país, e da plena aceitação das diferenças existentes na comunidade internacional.

No discurso pronunciado pelo Chanceler brasileiro, Antonio Azeredo da Silveira, quando da assinatura do Comunicado Conjunto sobre o Estabelecimento das Relações Diplomáticas entre o Brasil e a China, no Palácio do Itamaraty, em 15 de agosto de 1974, já se definira o núcleo principal de uma agenda comum aos dois Estados, independente da forma de governo e de regimes políticos que se adotassem ou viessem a adotar.

Nas densas palavras do Ministro Azeredo da Silveira:

“Nossos Governos têm enfoques distintos para a condução dos seus respectivos destinos nacionais. Ambos consideram, no entanto, que é um direito inalienável de cada povo o de escolher o seu próprio destino. O que é fundamental, sim, é que nas suas relações internacionais os Governos estejam dispostos a, efetivamente, res- peitar esse direito. O Brasil e a República Popular da China conver- gem nesse propósito. Fundamos nosso relacionamento nos princípios de respeito mútuo à soberania e de não-intervenção nos assun- tos internos do outro país. Estes são os alicerces da nossa amizade”.

Em outra passagem de seu discurso, o Chanceler observava que a Missão chinesa chefiada pelo Vice-Ministro do Comércio Exterior da China, Chen Chieh, viera ao Brasil com o propósito de lançar as bases para o nosso intercâmbio comercial, e notava:

“Não é mera coincidência que assim seja. Constitui o comércio importante veículo para o entendimento entre as nações. Estamos certos de que esse será, também, o caso entre as nossas”

Por sua vez, em sua fala, o Vice-Ministro do Comércio Exterior chinês ressaltaria esses dois pontos:

“Vimos com satisfação que temos pontos comuns em vários aspectos. A China e o Brasil, como países em vias de desenvolvimento, defrontam-se com a mesma tarefa de salvaguardar a independência e a soberania nacionais, desenvolver a economia nacional e lutar contra o hegemonismo e a política de força das superpotências”.

E mais adiante afirmava com ênfase:

“Nós, os países em desenvolvimento, temos mil e uma razões para nos unirmos ainda mais estreitamente e nenhuma razão para nos afastarmos uns dos outros”

Para completar, afirmava que o estabelecimento das relações diplomáticas tornava mais ampla a perspectiva de colaboração e de esforços comuns das duas partes, de modo a permitir a consolidação e o desenvolvimento gradual das relações amistosas e do intercâmbio comercial entre os dois países.

Transcorridas três décadas desse acontecimento, com o devido recuo do tempo, pode-se constatar que as palavras pronunciadas pelos representantes dos dois países naquele momento representavam mais do que a simples observação de um ritual diplomático. Significava o efetivo reconhecimento da natureza comum dos interesses básicos que orientavam, a despeito da diferença de regime político e da filiação aos blocos ocidental e oriental, a real política dos dois Estados.

É notável e sintomático que a retomada das relações entre os dois países “ situados em campos opostos no grave dissenso político-ideológico da Guerra Fria, que dividia o mundo segundo a natureza de cada regime político interno “ tenha surgido, primeiramente, de uma iniciativa do empresário Horácio Coimbra, que, em 1970, visitou, a título privado, a Feira de Cantão. Dessa iniciativa decorreram contatos e negociações que levariam, em 1972, contando com a assistência do Ministério das Relações Exteriores, o Presidente da Associação Brasileira de Exportadores, empresário Giulite Coutinho, a chefiar missão empresarial à China, abrindo assim caminho às negociações que culminariam no ato de estabelecimento de relações em 1974.

É interessante refletir sobre o fato de que a iniciativa de empresários brasileiros que buscavam novos mercados para os seus produtos trouxera para o primeiro plano dos governos brasileiro e chinês a necessidade do reconhecimento político e diplomático dos dois Estados. Em que pese o distanciamento entre os regimes políticos em vigor na China da Revolução Cultural e no Brasil do Presidencialismo Militar, logo se evidenciaria a convergência de interesses que animavam os dois países no plano mais alto da política internacional.

A transformação ocorrida na China depois da era Mao, com a ascensão, em 1978, da liderança de Deng Xiaoping, o arquiteto geral da reforma e da abertura chinesa, veio aprofundar a percepção de que Brasil e China tinham interesses comuns na criação de um ambiente internacional pacífico, estável e favorável ao desenvolvimento. A primeira visita de um presidente brasileiro à China, João Figueiredo, em 1984, deu início ao diálogo sino-brasileiro, entre as suas maiores lideranças políticas. Um diálogo que gerou consenso quanto ao princípio de defesa da ordem internacional, baseada no respeito à independência, integridade territorial, soberania e não-interferência nos assuntos internos de cada país, lançando as bases do intercâmbio e cooperação política entre os dois maiores países em desenvolvimento.

A segunda visita presidencial, depois de ter sido instaurada a Nova República, foi realizada em 1988, pelo Presidente José Sarney. A visão de uma China inteiramente dedicada ao esforço de construção de uma economia nacional desenvolvida encontrava forte acolhida na concepção brasileira de que este constitui o principal desafio para o conjunto dos países em desenvolvimento. Desse modo, a cooperação entre os dois países podia dar um grande salto com a assinatura do acordo que levaria ao grande empreendimento de construção conjunta do satélite sino-brasileiro de rastreamento dos recursos da terra.

No essencial, essa percepção não se alterou nem mesmo com as profundas mudanças advindas na situação internacional pós Guerra Fria. A nova geração de líderes que ascendeu ao poder depois de 89, liderada por Jiang Zemin, sinalizava para uma rápida consolidação da reforma e abertura da China, com o aprofundamento da concepção desenvolvida por Deng Xiaoping na “Teoria do Socialismo com Peculiaridades Chinesas”. Não apenas procurava manter as linhas gerais da política do Estado, como reafirmava algumas relações nucleares de cooperação e intercâmbio com os países em desenvolvimento. Dentre essas relações Sul-Sul, uma, em especial, apresentava um caráter estratégico por seu alcance e destino.

Neste sentido, no momento em que a nova geração de líderes, nucleada em torno de Jiang Zemin, assumia a condução da nova longa marcha chinesa em direção ao novo século, uma importante ação diplomática era conduzida por Zhu Rongji, então Presidente do Banco do Povo Chinês, e como tal condutor da política econômica chinesa.

Em maio de 1993, antecipando em alguns meses a visita do presidente chinês, o futuro primeiro-ministro da China veio ao Brasil para uma série de encontros com autoridades brasileiras. Nesta ocasião, estabeleceu em conceitos precisos e claros o essencial da concepção chinesa do relacionamento sino-brasileiro. Firmou-se, a partir de então, o conceito de parceria estratégica sino-brasileira.

Esse conceito desenvolveu-se tendo como base a concepção de Deng Xiaoping que, em dezembro de 1988, numa conversa com o primeiro-ministro Rajiv Ghandi sobre a responsabilidade comum de China e Índia no estabelecimento de uma nova ordem internacional, evocava o papel do Brasil na construção de um futuro século da América Latina. Nessa construção estratégica para o futuro do mundo no século XXI, o Brasil e a China, como os dois maiores países em desenvolvimento, teriam o potencial nacional para agregarem esforços e alicerçarem o fundamento de uma nova ordem internacional. Uma ordem que venha a ser baseada no progresso das nações e na limitação da política de força na solução dos contenciosos entre os Estados.

Ainda no ano de 1993, visitava o Brasil o Presidente Jiang Zemin, reafirmando estes conceitos e avalizando o concerto político sino-brasileiro, numa visão convergente sobre as questões vitais que regem o funcionamento do sistema internacional pós Guerra Fria. Basicamente, o Brasil e a China defendem soluções pacíficas para resolver os conflitos que opõem os Estados; o respeito à soberania e independência; a não-intervenção nos assuntos internos de cada Estado; a aceitação de normas comuns a todos os Estados Membros dos organismos internacionais, sem duplo standard.

Estes e outros importantes passos foram dados no relacionamento entre os dois países e, pouco a pouco, moldaram institucionalmente a cooperação e o intercâmbio sino-brasileiro. Esse entendimento de alto nível também se verificou no plano do intercâmbio científico e técnico, sobretudo, com o desenvolvimento do projeto do satélite de rastreamento dos recursos da terra, que teve seu primeiro lançamento em outubro de 1999, ano em que comemoravam os dois países vinte e cinco anos de relações diplomáticas.

Esse relacionamento e entendimento amplo e comum das questões fundamentais que determinam a mudança da ordem internacional têm sido ressaltados a cada momento pelos dirigentes máximos dos dois países. Antes de encerrar o segundo mandato como presidente da China, o líder da terceira geração, Jiang Zemin, em abril de 2001, visitou o Brasil e vários países da América Latina, reafirmando, em seu discurso em Brasília, sua compreensão de que o Brasil e a China, os dois maiores países em desenvolvimento no atual contexto mundial, devem tratar com visão estratégica e de longo alcance a sua cooperação mútua e recíproca, voltada para a criação de uma situação internacional de paz e desenvolvimento.

Logo depois de sua viagem à América Latina, os acontecimentos que se sucederam ao ataque às torres gêmeas do World Trade Center em Nova York, a intervenção norte-americana no Afeganistão e a segunda Guerra do Golfo tornaram ainda mais decisivas as palavras proferidas pelo presidente chinês em sua visita ao Brasil.

No que diz respeito ao Brasil, pode-se dizer que também o nosso país entrou numa nova fase de sua vida política, a partir da eleição do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva. As iniciativas tomadas pelo novo presidente demonstram uma postura ativa na busca de um papel protagonista para o Brasil na cena internacional. Neste sentido, a reunião da Organização Mundial de Comércio, em Cancun, revelou ao mundo um novo exercício da liderança brasileira capaz de confrontar a política econômica do mundo desenvolvido e, bem assim, de reivindicar um lugar permanente para o Brasil no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Por sua vez, a ascensão do Presidente Hu Jintao como supremo mandatário da Nação, ao assumir os cargos de Presidente da República, Secretário-Geral do Partido Comunista Chinês e Presidente da Comissão Militar Central, núcleo, portanto, da quarta geração de lideres chineses, dá início a uma nova fase da existência da República Popular da China. É um período que se apresenta desde agora marcado pela grande capacidade de criar riqueza e gerar prosperidade por parte da China, mas que também apresenta desafios para a sua liderança maior.

Os desafios que ameaçam o desenvolvimento da China são problemas que se erguem frente ao conjunto dos países em desenvolvimento, incluso o Brasil. O primeiro desafio é o de manter um quadro internacional de estabilidade, de modo a preservar a paz mundial e assegurar a soberania, a independência e a integridade territorial desses países; o segundo é o de gerar as condições necessárias ao desenvolvimento sustentável, aumentando o bem-estar da maioria da população mundial. Assim, se encontram os países em face de um sistema internacional cuja dinâmica aponta para crescente rivalidade entre o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento. Para o Brasil, como para a China, essa realidade internacional do século que se inicia, tanto por seus recursos como pelas dificuldades que apresenta, mostra quão importante e estratégica é a cooperação e o intercâmbio voltados para a construção de uma ordem mundial multipolar e não- hegemônica.

No entanto, deve-se constatar a permanência de algumas resistências que impedem que o segundo pilar da cooperação entre os dois países – nos domínios econômicos, comerciais e financeiros – se desiniba, cresça e supere a situação atual, na qual, reconhecidamente, encontra-se ainda aquém do seu potencial. É de extremo interesse para os dois países que o comércio bilateral evolua num sentido mais positivo, gerando maior sinergia entre as duas maiores economias do mundo em desenvolvimento e abrindo caminho para uma atuação comum na medição de forças com os países industrializados.

Neste ponto, parece residir um dos pontos nodais desta parceria estratégica para o século XXI. Nas condições desafiadoras do mundo da globalização econômica e das grandes crises desestabilizadoras das economias nacionais, constitui um objetivo de ambos Estados de garantir as melhores posições no jogo internacional. Assim, de acordo com o interesse nacional do Brasil e da China, as normas e os regulamentos que regem a ordem econômica internacional padecem de sérias distorções que limitam o acesso aos mercados dos produtos de países em desenvolvimento, ao mesmo tempo em que, garantem privilégios aos países industrializados. Esta situação pode tornar-se cada vez mais grave, na medida em que, a tendência de queda no crescimento econômico mundial começa a criar um clima recessivo em quase todos os países.

Os acontecimentos desse começo de século, portanto, configuram um mundo de polaridades difusas, imersas em violenta competição. A economia global sob a hegemonia norte-americana vem sofrendo contínuos e constantes choques, que mantêm o mundo ameaçado, a qualquer momento, de ser atingido por uma onda gigantesca (a “tsunami financeira”), capaz de engolfá-lo numa crise de maiores proporções do que aquela que o mundo sofreu em 1929, o que se afigura como um fim apocalíptico do ciclo econômico, social e político desse final e início de século.

Todas essas previsões, confirmadas ou não, em nada alteram de imediato o quadro internacional caracterizado pela supremacia norte-americana. Esta primazia, ou este sobre poder da superpotência, deverá ser gradualmente desafiada pela emergência pós-crise da Europa e do Japão. Os dois grandes pólos financeiros buscam, desde agora, autonomizar-se frente aos Estados Unidos e constituir sua própria moeda conversível e paralela ao dólar americano. Se tiver êxito, a manobra da União Européia poderá também acompanhar a manobra japonesa de livrar-se da sua incômoda crise e recriar sua capacidade e competitividade no grande mercado global.

No panorama das primeiras décadas do novo século, contudo, parece estar escrito que a principal mudança se situará com a emergência de uma nova grande potência econômica, capaz de alçar- se no campo político e diplomático, como um dos 5 centros de poder mundial. Este acontecimento, pelo inusitado de ser o primeiro país a emergir como potência a partir do mundo em desenvolvimento, superando o bloqueio estabelecido em 1907, inspirou a criação de um conceito novo para defini-lo: o conceito de “megaestados”.

Muitos observadores da cena internacional julgam que a irrupção do megaestado chinês será seguida, no mundo em desenvolvimento, da ascensão de novos pólos de poder econômico e político, tais com o Brasil, a Índia e a África Austral. Consideram também que a Rússia retomará seu lugar de grande potência.

O Brasil e a China estão estruturalmente inseridos neste contexto de mudanças globais, no qual algumas tendências parecem ser ameaçadoras para seus objetivos comuns de sustentação de projetos econômicos de desenvolvimento e de busca da estabilidade e unidade interna. No entanto, ambos deverão implementar em suas políticas, fórmulas destinadas a enfrentar a realidade atual, partindo da situação de fato que os caracteriza: dois imensos países de dimensões continentais, verdadeiras pan-regiões auto-satisfeitas territorialmente, mas desafiadas a desenvolver-se para atingir padrões mais altos de riqueza e poderio nacional.

Por outro lado, é possível imaginar que o Brasil, o maior país latino-americano, recuperará seu ritmo histórico de crescimento, que o levou a liderar a corrida para o desenvolvimento no século XX. Sua grande proeza foi poder chegar a industrializar-se num brevíssimo prazo e constituir-se hoje como o maior mercado do hemisfério sul. Este feito gerou condições para que inicie um novo ciclo de crescimento sustentado e que, ao fazê-lo, retome o processo de interiorização do seu desenvolvimento.

Deverá, pois, complementar o seu desenvolvimento histórico, absorvendo as áreas anecumênicas da Região Norte, incorporando-as definitivamente à civilização brasileira. Por sua localização, servirá como força “imantadora” dos desenvolvimentos regionais, recriando a possibilidade de fazer aparecer, no horizonte da globalização, a figura de um outro megaestado, esta figura nova da estrutura política do mundo pós Guerra Fria.

Tal como a China emerge, neste começo de século, como a área central do Extremo-Oriente, o megaestado sul-americano terá o Brasil como área nuclear, capaz de sustentar as condições do desenvolvimento regional, e que ajudarão a transformar o subcontinente sul-americano no quarto pólo de poder mundial. Para criar massa crítica capaz de sustentar uma nova pauta e configurar uma nova ordem política internacional multipolar será preciso dar um outro caráter à globalização econômica, associando e articulando forças que proponham a mudança da ordem mundial.

De igual modo, o multipolarismo permitirá ao mundo equilibrar os efeitos negativos da superpotência norte-americana, que ameaça tornar-se um pesadelo para a própria sociedade americana. Tal como vem sendo observado no decurso da tragédia iraquiana, o alto custo em vidas humanas e um crescente peso político e econômico agravados podem desestabilizar não só os paises da região do Oriente Médio como todo o sistema internacional. Daí se tornar urgente diminuir o grau de intervencionismo, e a colaboração de todos se faz necessária à contenção dos desvios provocados pelo hegemonismo na condução dos rumos da política mundial, neste princípio de século e de milênio.

Neste sentido, é possível pensar que, se vier a assegurar a cooperação bilateral em função de uma nova pauta mundial, a parceria estratégica sino-brasileira liderará certamente um dos eixos principais da concertação política internacional no século XXI.

A intuição estética de Fenollosa já assinalava, no começo do século XX, a importância do fenômeno chinês para a elaboração de uma visão norte-americana do cenário de mudanças que se abria para o mundo, e para onde se voltaria o esforço de gerações de americanos. Pode-se dizer que este esforço continua sendo feito pelas elites políticas e culturais que dirigem o grande poder hegemônico do mundo global.

Mas é de se assinalar também a arguta percepção de Rio Branco, em 1907, quando, ao final da Conferência de Haia, ao avaliar o resultado da esgrima de Rui Barbosa com os representantes das Grandes Potências, depreendeu claramente que os Estados Unidos acabavam de ser reconhecidos pelo Sistema Europeu como um dos seus (incluso o Japão, que por ganhar a guerra contra a China e a Rússia, obtivera também direito ao Clube). Via de conseqüência, avaliava Rio Branco que o Brasil deveria não somente criar uma parceria estratégica com os vizinhos, Argentina e Chile, (esboçando assim a primeira fórmula do tratado do ABC), mas, sobretudo, dar prioridade máxima a cuidar de sua defesa, para evitar o drama vivido pelo Celeste Império, invadido e limitado em sua soberania e independência. A história da China, na continuidade, só faria corroborar a visão do grande estrategista brasileiro, com a seqüência de acontecimentos que culminaram na criação de um Estado Chinês forte e temperado, baseado na construção de um sólido sistema de defesa nacional.

Do mesmo modo, Gilberto Freyre depreendia de sua experiência em Columbia dos anos 10 e 20, que havia um itinerário comum brasileiro-chinês a ser seguido, caso se quisesse enfrentar os desafios do desenvolvimento na era da ciência e da técnica, ao ritmo definido por Sousândrade, em “O Inferno de Walt Street”. E mais próximo de nós, no decênio último do século XX, repercutiu e estimulou a pensar, a construção do conceito de parceria estratégica Brasil China. Elaboração que, antecipada por Deng Xiaoping, em seus contatos com os Chefes de Estado brasileiros (João Figueiredo,1984, e José Sarney,1988) veio a ser retomada pelos seus sucessores, Presidente Jiang Zemin e Primeiro-Ministro Zhu Rongji, em seus encontros com os Presidentes Itamar Franco (1993) e Fernando Henrique Cardoso (1995 e 2001).

A continuidade dessa relação estratégica Brasil China, fundamental para o fortalecimento do mundo em desenvolvimento, foi enfaticamente realçada em várias ocasiões pelo Presidente Luiz Inácio Lula da Silva e pelas altas autoridades chinesas. Em 2004, quando se comemorou o trigésimo aniversario do estabelecimento das relações sino-brasileiras, as visitas dos supremos mandatários do Brasil, em maio, e da China, em novembro, reafirmaram e ampliaram os laços de amizade e cooperação entre os dois maiores países em desenvolvimento.

A síntese do significado dessa parceria foi notavelmente apresentada em palestra do Embaixador Jiang Yuande, realizada em 06 de outubro de 2004, na inauguração da “Semana Sino-Brasileira”, da Universidade Estácio de Sá, em comemoração ao trigésimo aniversário do estabelecimento de relações diplomáticas entre a República Popular da China e a República Federativa do Brasil. Nessa ocasião, assim se expressou Sua Excelência:

“Por um imperativo geoestratégico perante o atual cenário internacional, torna-se imprescindível enriquecer e aprofundar o conteúdo da parceria estratégica sino-brasileira, aumentando os intercâmbios e as cooperações bilaterais em todas as áreas e em todos os níveis, criando benefícios objetivando o bem comum de ambos os povos”

Essas idéias refletem o debate em curso hoje, no Brasil, em torno de questões momentosas sobre a estrutura do sistema de poder mundial e os rumos da política externa do país no século XXI. Elas foram despertadas e desenvolvidas em contínua discussão com os centros brasileiros de estudo de estratégias e relações internacionais. E, muito especialmente, com os colegas acadêmicos chineses com quem tenho tido o privilégio de estabelecer contínuo e estimulante debate.

Pontos Objetivos

  • Tratado de Amizade, Comércio e Navegação (1881);
  • abertura de um consulado em Xangai (1883);
  • com a vitoria de Mao Zedong em 1949, o Brasil mantém relações diplomáticas com a República da China, então, sediada em Taiwan;
  • Em 1974, restabelece relações com Pequim e a China passa a ser o único país da Ásia com o qual o Brasil consegue esbelecer laços significativos no contexto da Cooperação Sul-Sul
    • soberania, oposição à diplomacia dos direitos humanos norte-americanos
    • Mao Zedong, no mesmo ano, desenvolve a “Teoria dos Três Mundos” e a China passa a diminuir seu apoio aos movimentos revolucionários da América Latina, buscando desenvolver uma diplomacia estratégica governo a governo, prometendo respeitar o princípio da não-interferência
  • 1988: CBERS, trabalho conjunto para o desenvolvimento de satélites de monitoramento remoto (já foram lançados dois, um em 1999 e outro em 2003)
  • Início da década de 1990: relacionamento com China, Coreia do Sul e países da Asean são ampliados de forma significativa
  • Em 1995, FHC toma posse e define a Ásia como área de prioridade para a Política Externa; visita a China ainda em seu primeiro mandato
  • 2003: criação do G20 em Cancun
  • Comércio
    • principal produto no relacionamento comercial atualmente: soja (EUA pressionam China para que compre a sua soja como forma de compensar a balança comercial excessivamente superavitária dos chineses em relação a eles)
  • 2004: Visita de Lula a China
    • projetos de construção de satélites e aviões de pequeno porte (EMBRAER)
    • 15 acordos de cooperação em aço, carvão, petróleo e produção de automóveis
    • acordos envolvendo a Vale do Rio Doce para produção de aço e alumínio em associação com a Baosteel e a Yongsheng; produção de bauxita com em associação com a Companhia de Alumínio da China
    • acordo entre Petrobras e Sinopec para exploração e produção conjunta em terceiros países na África e Oriente Médio
    • negociação para acordo nuclear em que Brasil forneceria urânio enriquecido à China em troca de financiamento para o programa nuclear brasileiro
  • 2004: Hu Jitao visita a América do Sul; Brasil e outros sulamericanos reconhecem China como “economia de mercado”
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Comments
One Response to “Brasil e China – Parceria Estratégica”
  1. Murilo Teles disse:

    Olá Manoel, gostei muito do seu post, e gostaria de saber se pode
    me passar seu e-mail para contato. Estou fazendo monografia com
    o tema da parceria estratégica entre Brasil e China, e tenho alguma
    dificuldade em achar material sobre. Se você pudesse me indicar
    alguma coisa, seria de grande ajuda.

    Abraço, e parabéns pelo blog.

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